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Vida de Santo Antão

por Santo Atanásio 

7. Sexta Parte

7.1 - Visões

ão numerosas as histórias, e além disso todas concordes, que os monges transmitiram sobre muitas outras coisas semelhantes operadas por ele. E no entanto não parecem tão maravilhosas como outras ainda mais maravilhosas. Uma vez, por exemplo, à hora de noa [60], quando se pôs de pé para orar antes de comer, sentiu-se transportado em espírito e, estranho é dizê-lo, viu-se a si mesmo como se achasse fora de si mesmo e como se outros seres o levassem aos ares. Então viu também outros seres terríveis e abomináveis no ar, que lhe embargavam o passo. Como seus guias oferecessem resistência, os outros perguntaram sob que pretexto queria fugir de sua responsabilidade diante deles. E quando começaram eles próprios a pedir-lhe contas desde seu nascimento, intervieram os guias de Antão: "Tudo o que date desde o seu nascimento o Senhor apagou; podem pedir-lhe contas desde que começou a ser monge e se consagrou a Deus [61]. Então começaram a apresentar acusações falsas e como não as puderam provar, tiveram de deixar-lhe livre a passagem. Imediatamente viu-se a si mesmo aproximando-se - ao menos assim lhe pareceu - e juntando-se a si mesmo, e assim Antão voltou de novo à realidade [62].

Esquecendo-se então de comer, passou todo o resto do dia e toda a noite suspirando e orando. Estava abismado de ver contra quantos inimigos devemos lutar e que trabalhos se tem para abrir passagem pelos ares. Lembrou-se de que é isto o que diz o apóstolo: "de acordo com o príncipe das potências do ar" (Ef 2,2). Aí está precisamente o poder do inimigo que peleja e trata de deter os que intentam passar. Por isto o mesmo apóstolo dá também sua especial advertência: "Tomem a armadura de Deus que os faça capazes de resistir no dia mau" (Ef 6,13), e "nada tendo que dizer contra nós, fique envergonhado (Tito 2,8). E nós que aprendemos isto, recordemos o que o mesmo apóstolo diz: "Se fui levado em meu corpo ou fora dele, não sei; Deus o sabe" (2 Cor 12,2). Paulo, porém, foi levado ao terceiro céu e ouviu "palavras inefáveis" (2 Cor 12,2.4), e voltou, enquanto Antão viu-se a si mesmo entrando nos ares e lutando até que ficou livre.

66. Noutra ocasião teve o seguinte favor de Deus: Quando sozinho na montanha e refletindo, não podia encontrar solução alguma, a Providência lha revelava em resposta à sua oração; o santo varão era ensinado por Deus com palavras da Escritura (cf Is 54,13; Jo 6,45; 1 Ts 4,9). Assim favorecido, teve uma vez discussão com alguns visitantes sobre a vida da alma e que lugar teria depois desta vida. Na noite seguinte chegou-lhe um chamado do alto: "Antão, sai para fora e veja!" Ele saiu, pois distinguia os chamados que devia atender, e olhando para o alto viu uma enorme figura, espantosa e repugnante, de pé, que alcançava as nuvens; viu além disto certos seres que subiam como com asas. A primeira figura estendia as mãos e alguns dos seres eram detidos por ela, enquanto outros voavam sobre ela, e havendo-a ultrapassado, continuavam sem maior incômodo. Contra eles o monstro rangia os dentes, alegrando-se porém pelos outros que haviam caído. Nesse momento uma voz dirigiu-se a Antão: "Compreende a visão!" (cf Dn 9,23). Abriu-se seu entendimento (cf Lc 24,45) e apercebeu-se de que isso era a passagem das almas [63] e de que o monstro que ali estava era o inimigo, o invejoso dos crentes. Sujeitava os que lhe correspondiam e não os deixava passar; mas os que ele não tinha podido dominar, tinha que deixá-los passar fora de seu alcance [64].

Tendo visto isso, e tomando-o como advertência, lutou ainda mais para adiantar cada dia na direção do que o esperava. Não tinha nenhuma inclinação para falar acerca destas coisas. Quando, porém, havia passado muito tempo em oração e absorto em toda essa maravilha, e seus companheiros insistiam e o importunavam para que falasse, era forçado a fazê-lo. Como pai não podia guardar um segredo ante seus filhos. Sentia que sua própria consciência era limpa e que contar-lhes isto poderia servir-lhes de ajuda. Conheceriam o bom fruto da vida ascética, e que muitas vezes as visões são concedidas como compensação pelas privações.

7.2 - Devoção de Antão aos ministros da Igreja - equanimidade de seu caráter

Era paciente por disposição e humilde de coração. Sendo homem de tanta fama, mostrava, no entanto, o mais profundo respeito aos ministros da Igreja, e exigia que a todo clérigo se desse maior honra do que a ele [65]. Não se envergonhava de inclinar a cabeça diante de bispos e de sacerdotes. Se algum diácono chegava a ele pedindo-lhe ajuda, conversava com ele o que lhe fosse proveitoso, mas, chegando a oração, pedia-lhe que presidisse, não se envergonhando de aprender. De fato, muitas vezes propôs questões inquirindo os pontos de vista de seus companheiros, e se tirava proveito do que dizia o outro, mostrava-se grato.

Seu rosto tinha grande e indescritível encanto. E o Salvador lhe tinha dado por acréscimo este dom: se se achava presente numa reunião de monges e algum a quem não conhecia desejava vê-lo, esse tal, ao chegar, passava por alto os demais, como que atraído por seus olhos. Não eram nem sua estatura nem sua figura que o destacavam entre os demais, mas seu caráter sossegado e a pureza de sua alma. Ela era imperturbável e assim sua aparência externa era tranqüila [66]. O gozo de sua alma transparecia na alegria de seu rosto, e pela forma de expressão de seu corpo se sabia e conhecia a estabilidade de sua alma, como o diz a Escritura: "O coração contente alegra o semblante, o coração triste deprime o espírito" (Pr 15,13). Também Jacó observou que Labão estava tramando algo contra ele e disse a suas mulheres: "Vejo que o pai de vocês não me olha com bons olhos" (Gn 31,5). Também Samuel reconheceu Davi porque tinha olhos que irradiavam alegria e dentes brancos como o leite (cf 1 Sm 16,12; cf tb.Gn 49,12). Assim também era reconhecido Antão: nunca estava agitado, pois sua alma estava em paz; nunca estava triste porque havia alegria em sua alma.

7.3 - Por lealdade à fé Antão intervém na luta anti-ariana

Em assuntos de fé, sua devoção era sumamente admirável. Por exemplo, nunca se relacionou com os cismáticos melecianos, sabedor desde o começo de sua maldade e apostasia [67]. Tampouco teve trato amistoso com os maniqueus [68] nem com outros hereges, à exceção unicamente das admoestações que lhes fazia para que voltassem à verdadeira fé. Pensava e ensinava que amizade e associação com eles prejudicavam e arruinavam a alma. Detestava também a heresia dos arianos [69], e exortava a todos a não se acercarem deles nem compartilhar de sua perversa crença. Uma vez quando alguns desses ímpios arianos chegaram a ele, interrogou-os detalhadamente; e ao aperceber-se de sua ímpia fé, expulsou-os da montanha, dizendo que suas palavras eram piores que veneno de serpentes.

69. Quando numa ocasião os arianos espalharam a mentira de que partilhava de suas opiniões, demonstrou que estava enojado e irritado contra eles. Respondendo ao chamado dos bispos e de todos os irmãos [70], desceu a montanha e entrando em Alexandria denunciou os arianos. Dizia que sua heresia era a pior de todas e precursora do anticristo. Ensinava ao povo que o Filho de Deus não é uma criatura nem veio "da não existência" ao ser, mas "é Ele a eterna Palavra e Sabedoria da substância do Pai". Por isso é ímpio dizer: 'houve um tempo em que não existia', pois a Palavra foi sempre coexistente com o Pai. Por isso, não se metam em nada com estes arianos sumamente ímpios: simplesmente 'não há comunidade entre a luz e as trevas' (2 Cor 6,14). Vocês devem se lembrar de que são cristãos tementes a Deus, mas eles ao dizerem que o Filho e Palavra de Deus é uma criatura, não se diferenciam dos pagãos 'que adoram a criatura em lugar de Deus Criador' (Rm 1,25). E estejam seguros de que toda a criação está irritada contra eles, porque contam entre as coisas criadas o Criador e Senhor de tudo, pelo qual todas as coisas foram criadas" (cf Gl 1,16).

70. Todo o povo se alegrava ao ouvir semelhante homem anatematizar a heresia que lutava contra Cristo [71]. Toda a cidade corria para ver Antão. Também os pagãos e inclusive seus assim chamados sacerdotes iam à Igreja dizendo: "Vamos ver o homem de Deus" [72], pois assim o chamavam todos. Além disso, também ali o Senhor operou por seu intermédio expulsões de demônios e curas de doenças mentais. Muitos pagãos queriam também tocar o ancião, confiando em que seriam auxiliados, e em verdade houve tantas conversões nesses poucos dias como não tinham sido vistas em todo um ano. Alguns pensaram que a multidão o incomodava e por isso trataram de afastar todos dele, mas ele, sem se molestar, disse: "Toda essa gente não é mais numerosa do que os demônios contra os quais temos que lutar na montanha".

71. Quando se ia e estávamos nos despedindo dele, ao chegar à porta, uma mulher atrás de nós gritava: "Espera, homem de Deus, minha filha está sendo terrivelmente atormentada por um demônio! Espera, por favor, ou vou morrer, correndo!" O ancião ouviu-a, rogamos-lhe que se detivesse e ele acedeu com gosto. Quando a mulher se aproximou, sua filha estava arrojada ao chão. Antão orou e invocou sobre ela o nome de Cristo; a moça levantou-se sã e o espírito impuro a deixou. A mãe louvou a Deus e todos renderam graças. E ele também contente partiu para a Montanha, para o seu próprio lar.

7.4 - A verdadeira sabedoria

Tinha também um grau muito alto de sabedoria prática. O admirável era que, ainda que não tivesse educação formal [73], possuía no entanto engenho e compreensão despertos. Um exemplo: uma vez chegaram a ele dois filósofos gregos, pensando que podiam divertir-se com Antão. Quando ele, que nessa ocasião vivia na Montanha Exterior, catalogou os homens por sua aparência, dirigiu-se a eles e lhes disse por meio de um intérprete: "Por que, filósofos, se deram tanto trabalho vindo a um homem louco?" Quando eles lhe contestaram que não era louco, mas muito sábio, ele lhes disse: "Se vieram a um louco, seu incômodo não tem sentido; mas se pensam que sou sábio, então façam-se o que sou, porque se deve imitar o bom. Em verdade, se eu tivesse ido a vocês, tê-los-ia imitado; ao invés, agora que vieram a mim, convertam-se no que sou: eu sou cristão". Eles se foram, admirados; viram que até os demônios temiam a Antão.

73. Também outros da mesma classe foram a seu encontro na Montanha Exterior e pensaram que podiam zombar dele porque não tinha cultura. Antão lhes disse: "Bem, que dizem vocês: que é primeiro, o sentido ou a letra? E qual é a origem do outro: o sentido da letra ou a letra do sentido?" Quando eles expressaram que o sentido é primeiro e origem da letra, Antão disse: "Por isso, quem tem mente sã não necessita das letras" [74]. Isto os assombrou e a todos os circunstantes. Foram-se admirados de ver tal sabedoria num homem iletrado, que não tinha as maneiras grosseiras de quem viveu e envelheceu na montanha, mas era um homem simpático e cortês. Seu falar era sazonado com a sabedoria divina (cf Cl 4,6), de modo que ninguém lhe tinha má vontade, mas todos se alegravam de haver ido em sua procura.

74. E por certo, depois destes vieram outros. Eram daqueles que entre os pagãos têm reputação de sábios. Pediram-lhe que suscitasse uma controvérsia sobre nossa fé em Cristo. Quando procuravam argüir com sofismas a partir da pregação da divina Cruz, a fim de zombar, Antão guardou silêncio por um momento e, compadecendo-se primeiro da ignorância deles, disse logo por um intérprete que fazia excelente tradução de suas palavras: "Que é melhor: confessar a Cruz ou atribuir adultérios e pederastias aos assim chamados deuses? Pois manter o que mantemos é sinal de espírito viril e denota desprezo da morte, enquanto que o que vocês pretendem só fala de paixões desenfreadas. Outra vez, que é melhor: dizer que a Palavra de Deus imutável permaneceu a mesma ao tomar corpo humano para salvação e bem da humanidade de modo que ao compartilhar o nascimento humano pôde fazer os homens participantes da natureza divina e espiritual (cf 2 Pd 1,4), ou colocar o divino num mesmo nível que os seres insensíveis e adorar por isso a bestas e répteis e imagens de homens? Precisamente esses são os objetos adorados por seus homens sábios. Com que direito vêm rebaixar-nos porque afirmamos que Cristo apareceu como homem, sendo que vocês fazem provir a alma do céu, dizendo que se extraviou e caiu da abóbada do céu ao corpo? E, oxalá fosse só o corpo humano, e não que se mudasse e emigrasse no de bestas e serpentes! [75]. Nossa fé declara que Cristo veio para salvação das almas, e vocês erroneamente teorizam acerca de uma Alma incriada [76]. Cremos no poder da Providência e em seu amor pelos homens e em que essa vinda não era portanto impossível para Deus, mas vocês, chamando à alma imagem da Inteligência [77], imputam-lhe quedas e fabricam mitos sobre sua possibilidade de mudança [78]. Como conseqüência fazem mutável a mesma Inteligência por causa da alma; pois enquanto imagem deve ser aquilo de que é imagem. Se vocês, entretanto, pensam semelhantes coisas acerca da Inteligência, recordem-se de que blasfemam do Pai da Inteligência" [79].

75. Em referência à Cruz, que dizem vocês ser o melhor: suportar a Cruz, quando homens malvados lançam mão da traição, e não vacilar ante a morte de maneira ou forma alguma, ou fabricar fábulas sobre as andanças de Isis e Osiris [80], as conspirações de Tifon, a expulsão de Cronos [81], com seus filhos devorados e seus parricídios? [82]. Sim, aqui temos sua sabedoria!

E por que enquanto se riem da Cruz, não se maravilham da Ressurreição? Pois os mesmos que nos transmitiram um acontecimento escreveram também sobre o outro. Ou por que enquanto se lembram da Cruz, nada têm que dizer sobre os mortos devolvidos à vida, os cegos que recuperaram a vista, os paralíticos que foram curados e os leprosos que foram limpos, o caminhar sobre as águas e os outros sinais e milagres que mostram Cristo não como homem mas como Deus? Em todo caso, parece-me que vocês se enganam a si mesmos e que não têm nenhuma familiaridade real com nossas Escrituras. Leiam-nas, porém, e vejam que tudo quando Cristo fez prova que era Deus que habitava conosco para a salvação dos homens.

76. Mas falem-nos também vocês sobre seus próprios ensinamentos. Que podem, porém dizer acerca de coisas insensíveis senão insensatezes e barbaridades? Se entretanto, como ouço, querem dizer que entre vocês tais coisas se falam em sentido figurado [83], e assim convertem o rapto de Coré em alegoria da terra; a cólera de Hefestos, do sol, a Hera, do ar; a Apolo do sol; a Artemísia, da lua, e a Poseidon, do mar, ainda assim vocês não adoram o próprio Deus, mas servem à criatura em lugar de Deus que tudo criou. Se vocês compuseram tais histórias porque a criação é bela, não deveriam ter ido além de admirá-la, e não fazer das criaturas deuses para não dar às coisas criadas a honra do Criador [84]. Nesse caso já seria tempo de darem à casa construída a honra devida ao arquiteto, ou a honra devida ao general, aos soldados. Agora, que têm que dizer a tudo isto? Assim saberemos se a Cruz tem algo que sirva para escarnecer-se dela.

77. Eles estavam desconcertados e davam voltas ao assunto de uma e de outra forma. Antão sorriu e disse, de novo através de um intérprete [85]: "Só ao ver as coisas já se tem a prova de tudo o que eu disse. Dado, porém, que vocês, supõe-se, confiam absolutamente nas demonstrações, e isto é uma arte em que vocês são mestres, e já que exigem de nós não adorar a Deus sem argumentos demonstrativos, digam-me isto primeiro: Como se origina o conhecimento preciso das coisas, em especial o conhecimento de Deus? É por uma demonstração verbal ou por um ato de fé? E que vem primeiro: o ato de fé ou a demonstração verbal?" Quando replicaram que o ato de fé precede e que isto constitui um conhecimento exato, disse Antão: "Bem respondido! A fé surge da disposição da alma, enquanto a dialética vem da habilidade dos que a idealizam. De acordo com isto, os que possuem uma fé ativa não necessitam de argumentos de palavras, e provavelmente os reputam supérfluos; pois o que apreendemos pela fé, vocês cuidam construí-lo com argumentações e amiúde nem sequem podem exprimir o que nós percebemos. A conclusão é que uma fé ativa é melhor e mais forte de que seus argumentos sofísticos.

78. Os cristãos, por isso, possuímos o mistério, não baseando-nos na razão da sabedoria grega (cf 1 Cor 1,17), mas fundados no poder de uma fé que Deus nos garantiu por meio de Jesus Cristo. Pelo que toca à verdade da explicação dada, notem como nós, iletrados, cremos em Deus, reconhecendo sua Providência a partir de suas obras. E quanto a ser nossa fé algo de efetivo, notem que nos apoiamos em nossa fé em Cristo, enquanto vocês a baseiam em disputas ou palavras sofísticas; seus ídolos fantasmas estão passando de moda, mas nossa fé se difunde em toda parte. Com todos seus silogismos e sofismas vocês não convertem ninguém do cristianismo ao paganismo, mas nós, ensinando a fé em Cristo, estamos despojados os deuses do medo que inspiravam [86], de modo que todos reconhecem Cristo como Deus e Filho de Deus. Como toda sua elegante retórica, vocês não impedem o ensinamento de Cristo, mas nós, à simples menção do nome de Cristo crucificado, expulsamos os demônios que vocês veneram como deuses. Onde aparece o sinal da Cruz, ali a magia e a feitiçaria são impotentes e sem efeito.

79. Em verdade, digam-nos, onde ficaram seus oráculos? Onde os encantamentos dos egípcios? Onde estão suas ilusões e os fantasmas dos magos? Quando terminaram estas coisas e perderam seu significado? Não foi acaso quando chegou a Cruz de Cristo? Por isso, será ela que merece desprezo e não, antes, o que ela deitou abaixo, demonstrando sua impotência? Também é notável o fato de que jamais a religião de vocês foi perseguida; ao contrário, em todas as partes goza de honra entre os homens. mas os seguidores de Cristo são perseguidos, e sem embargo é a nossa causa que floresce e prevalece e não a sua. Com toda a tranqüilidade e proteção do que goza, sua religião está morrendo, enquanto a fé e o ensinamento de Cristo, desprezados pro vocês e freqüentemente perseguidos pelos governantes, encheram o mundo. Em que tempo resplandeceu tão brilhantemente o conhecimento de Deus? Ou em que tempo apareceram a continência e a virtude da virgindade? Ou quando foi tão desprezada a morte como quando chegou a Cruz de Cristo? E ninguém duvida disto ao ver os mártires que desprezam a morte por causa de Cristo, ou ao ver as virgens da Igreja que por causa de Cristo guardam seus corpos puros e sem mancha.

80. Estas provas bastam para demonstrar que a fé em Cristo é a única religião verdadeira. Aqui porém estão vocês, que buscam conclusões baseadas no raciocínio, vocês que não têm fé. Nós não buscamos provas, como diz nosso Mestre, 'com palavras persuasivas de sabedoria humana'(1 Cor, 2,4), mas persuadimos os homens pela fé que tangivelmente precede todo raciocínio baseado em argumentos. Vejam, aqui há alguns que são atormentados pelos demônios". Estes eram gente que tinham vindo para vê-lo e sofriam por causa dos demônios; fazendo-os adiantar-se, disse: "Pois bem, curem-nos com seus silogismos ou com qualquer magia que desejem, invocando a seus ídolos; ou então, se não podem , deixem de lutar contra nós e vejam o poder da Cruz de Cristo". Dito isto, invocou a Cristo e fez sobre os enfermos o sinal da Cruz, repetindo a ação por segunda e terceira vez. Imediatamente as pessoas se levantaram completamente sãs, tendo-lhes voltado o uso da razão e dando graças ao Senhor. Os assim chamados filósofos estavam assombrados e realmente atônitos pela sagacidade do homem e pelo milagre realizado. disse-lhes, porém, Antão: "Por que se maravilham com isto? Não somos nós, mas Cristo quem age através do que Nele crêem. Creiam vocês também e verão que não é palavreado e sim fé que pela caridade opera para Cristo (cf Gl 5,6); se vocês também abraçam isto, não necessitarão andar buscando argumentos da razão, mas verão que a fé em Cristo é suficiente." Assim falou a Antão. Quando partiram, admiraram-no, abraçaram-no e reconheceram que os havia ajudado.

7.5 - Os Imperadores escrevem a Antão

A fama de Antão chegou aos imperadores. Quando Constantino Augusto e seus filhos Constâncio Augusto e Constante Augusto ouviram estas coisas, escreviam-lhe como a um pai, rogando-lhe que lhe respondesse. Ele, no entanto, não deu muita importância aos documentos nem se alegrou pelas cartas; continuou o mesmo que antes de lhe escrever o imperador. Quando lhe levaram os documentos, chamou-os e disse: "Não se devem surpreender -se um imperador nos escreve, porque é homem; deveriam surpreender-se é de que Deus haja escrito a lei para a humanidade e nos tenha falado por meio de seu próprio Filho". Em verdade, nem queria receber as cartas, dizendo que não sabia que responder. Os monges, porém, persuadiram-no manifestando-lhe que os imperadores eram cristãos e que se ofenderiam de ser ignorados; então acedeu a que lhas lessem. E respondeu, recomendando-lhes que prestassem culto a Cristo e ando-lhes o saudável conselho de não apreciar demasiado as coisas deste mundo, mas antes recordando o juízo futuro, e saber que só Cristo é o Rei verdadeiro e eterno. Rogava-lhes que fossem humanos e atendessem à justiça e aos pobres. E eles ficaram felizes ao receber sua resposta. Por isso era amado por todos, e todos desejavam tê-lo como pai.

7.6 - Antão prediz os estragos da heresia ariana

Argumentando assim de si mesmo, e contestando assim aos que o buscavam, voltou à Montanha Interior. Continuou observando suas costumadas práticas ascéticas, e muitas vezes, quando estava sentado ou caminhando com visitantes, quedava-se mudo, como está escrito no livro de Daniel (cf 4,16 LXX). Depois de algum tempo, retomava o que estivera dizendo aos irmãos que o acompanhavam, e os presentes apercebiam-se de que havia tido uma visão; pois amiúde quando estava na montanha via coisas que aconteciam até no Egito, como o confessou ao bispo Serapião [87], quando este se encontrava na Montanha Interior e viu Antão em transe de visão.

Numa ocasião, por exemplo, enquanto estava sentado trabalhando tomou a aparência de alguém que estivesse em êxtase e se lamentava continuamente pelo que via. Depois de algum tempo voltou a si, lamentando-se e tremendo, e se pôs a orar prostrado, ficando longo tempo nessa posição. E quando se endireitou, o ancião estava chorando. Agitaram-se então os que estavam com ele, alarmaram-se muitíssimo, e lhe perguntaram o que se passava; urgiram-no por tanto tempo que o obrigaram a falar. Suspirando profundamente, disse: "O', filhos meus, seria melhor morrer antes que se sucedam as coisas que vi". Fazendo-lhe mais perguntas, disse entre lágrimas: "A ira está a ponto de golpear a Igreja, e ela está a ponto de ser entregue a homens que são como bestas insensíveis. Vi a mesa da casa do Senhor e havia mulas em torno, rodeando-a por todas as partes e dando coices com seus cascos em tudo e que havia nela, tal como o escoicear de uma tropa que golpeia desenfreada. Vocês ouviram seguramente como eu me lamentava; é que ouvi uma voz que dizia: "Meu altar será profanado".

Assim falou o ancião. E dois anos depois chegou o atual assalto dos arianos e o saque das igrejas [88], quando à força se apoderaram dos vasos e os fizeram levar pelos pagãos; quando também forçaram os pagãos de suas tendas para irem a suas reuniões, e em sua presença fizeram o que lhes aprouve sobre a sagrada mesa [89]. Todos então nos apercebemos que o escoucear de mulas predito por Antão, era o que os arianos estão fazendo como bestas brutas.

Quando teve esta visão, consolou a seus companheiros: "Não percam a coragem, meus filhos, pois ainda que o Senhor esteja irritado, nos restabelecerá depois. E a Igreja recobrará rapidamente a beleza que lhe é própria e resplandecerá com seus costumados esplendor. Verão restabelecidos os que foram perseguidos, e a irreligião retirando-se de novo a suas próprias guaridas, e a verdadeira fé afirmando-se em toda parte, em liberdade completa. Tenham porém, cuidado em não se deixarem manchar com os arianos. Seu ensinamento não é do apóstolos, mas dos demônios e de seu pai, o diabo. É estéril e irracional, e falta-lhe inteligência, tal como às mulas lhes falta o entendimento [90].

7.7 - Antão, Taumaturgo de Deus e Médico das almas

Tal é a história de Antão. Não deveríamos ser céticos por se terem sucedido esses grandes milagres por intermédio de um homem, pois tal é a promessa do Salvador: "Se tiverem fé ainda que seja como um grão de mostarda, dirão a este monte: 'Passa-te daqui para lá' e ele passará; nada lhes será impossível" (Mt 17,20). E também: "Em verdade lhes digo: tudo o que pedirem ao Pai em meu Nome Ele lhes dará... Peçam e receberão (Jo 16, 23s). É Ele quem diz a seus discípulos e a todos os que Nele crêem: "Curem os enfermos.... lancem fora os demônios; de graça o receberam, grátis devem dá-lo" (Mt 10,8).

84. Antão, pois, curava, não dando ordens mas orando e invocando o nome de Cristo, de modo que para todos era claro que não era ele quem atuava, mas o Senhor que mostrava seu amor pelos homens curando aos que sofriam, por intermédio de Antão. Este ocupava-se apenas da oração e da prática da ascese, e por esta razão levava sua vida na montanha, feliz na contemplação das coisas divinas, e pesaroso de que tantos o perturbassem e o forçassem a sair à Montanha Exterior.

Os juízes, por exemplo, rogavam-lhe que descesse da montanha já que para eles era impossível ir lá, devido ao grande número de gente envolta em pleitos. Pediram-lhe que fosse a eles para que pudessem vê-lo. Ele procurou livrar-se da viagem e rogou-lhes que o dispensassem de fazê-la. Eles no entanto insistiram, e mesmo mandaram-lhe réus com escolta de soldados, para que em consideração a eles se decidisse a descer. Sob tal pressão, e vendo-os lamentar-se, foi à Montanha Exterior. De novo, o incômodo que teve não foi em vão, pois ajudou a muitos e sua presença foi um verdadeiro benefício. Ajudou os juízes aconselhando-os a que dessem à justiça precedência sobre tudo o mais, que temessem a deus e que se recordassem de que "seriam julgados com a mesma medida com que julgassem" (Mt 7,2). Amava porém sua vida montanhesa acima de tudo.

85. Uma vez importunado por pessoas que necessitavam de ajuda, e solicitado pelo comandante militar que enviou mensageiros a pedir-lhe que descesse, foi e falou algumas palavras acerca da salvação e a favor dos necessitados, e logo apressou-se a ir embora. Quando o duque [91], como o denominavam, rogou-lhe que ficasse, respondeu que não podia passar mais tempo com eles e o satisfez com esta bela comparação: "Assim como um peixe morre quando fica algum tempo em terra seca, assim também os monges se perdem quando se tornam folgazões e passam muito tempo com vocês. Por isso, temos que voltar à montanha, como o peixe à água. De outro modo, se nos entretemos, podemos perder de vista a vida interior" [92]. O comandante, ao ouvir isto e muitas coisas mais, reconheceu admirado que era verdadeiramente servo de Deus, pois como poderia um homem ordinário ter uma inteligência tão extraordinária se não fosse amado por Deus?

86. Havia uma vez um comandante - Balácio era seu nome - que como partidário dos execráveis arianos perseguia duramente os cristãos. Em sua barbárie chegava até a espancar as virgens e desnudar e açoitar os monges. Antão enviou-lhe por isso uma carta dizendo-lhe o seguinte; "Vejo que o juízo de Deus se aproxima de ti; deixa pois de perseguir os cristãos para que não te surpreenda o juízo; agora está a ponto de cair sobre ti". Balácio entretanto pôs-se a rir, jogou a carta no chão e nela cuspiu; maltratou os mensageiros e ordenou-lhes que levassem a Antão a seguinte mensagem: "Vejo que estás muito preocupado pelos monges; virei também a ti". Não haviam passado cinco dias quando o juízo de Deus caiu sobre ele. Balácio e Nestório, prefeito do Egito, haviam saído para a primeira estação fora de Alexandria, chamada Chereu; ambos iam a cavalo. Os cavalos pertenciam a Balácio e eram os mais mansos que ele tinha. Ainda não haviam chegado, quando os cavalos, como costumam fazer, começaram a retrucar um contra o outro, e de repente o mais manso dos dois, cavalgado por Nestório, mordeu Balácio, lançou-o por terra e o atacou. Rasgou-lhe de tal modo o músculo com seus dentes, que tiveram de levá-lo de volta à cidade, onde morreu depois de três dias. Todos se admiraram de que se cumprisse tão rapidamente o que Antão predissera.

87 Assim se escarmentaram os duros. Quanto aos demais que recorriam a ele, suas íntimas e cordiais conversações faziam-nos esquecer imediatamente os litígios e os levavam a considerar felizes os que abandonavam a vida do mundo. De tal modo lutava pela causa dos ofendidos que se podia pensar ser ele mesmo e não outros a parte agravada. Tinha além disso tal dom para ajudar a todos, que muitos militares e homens de grande influência abandonavam sua vida onerosa e faziam-se monges. Numa palavra, era como se Deus houvesse dado um médico ao Egito. Quem recorreu a ele na dor sem voltar com alegria? Quem chegou chorando por seus mortos e não se libertou imediatamente de seu pesar? Houve alguém que chegasse com ira e não a transformasse em amizade? Quem pobre ou arruinado foi a ele, e ao vê-lo e ouvi-lo não desprezou a riqueza, sentindo-se consolado em sua pobreza? Que monge negligente não ganhou novo fervor ao visitá-lo? Que jovem, chegando à montanha e vendo Antão, não renunciou logo ao prazer, começando a amar a castidade? Quem se lhe acercou atormentado por um demônio e não foi liberto? Quem chegou com a alma torturada e não encontrou a paz do coração?

88. Era algo único, na prática ascética de Antão, ter ele, como já foi dito, o dom do discernimento dos espíritos. Reconhecia seus movimentos e sabia muito bem em que direção seu esforço e ataque levava cada um deles. Não só ele próprio não foi enganado, mas alentando a outros que eram fustigados em seus pensamentos, ensinou-lhes como resguardar-se de seus desígnios, descrevendo a debilidade e os ardis dos espíritos que praticavam a possessão. Assim cada um se ia como que ungido por ele [93] e cheio de confiança para a luta contra os desígnios do diabo e de seus demônios.

E quantas jovens que tinham pretendentes mas que viram Antão só de longe, e permaneceram virgens por Cristo! Muita gente chegava a ele de terras estranhas, e também eles recebiam ajuda como os demais, voltando como enviados em seu caminho por um pai. E em verdade, agora que já se foi, todos, com órfãos de pai, se consolam e se confortam só com sua recordação, guardando ao mesmo tempo com carinho suas palavras de admoestação e de conselho. 

7.8 - Notas Bibliográficas

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".

E = versão latina de Evágrio.

[60] O dia era dividido em 12 horas de igual duração, mas dependia da estação do ano. A nona hora correspondia, segundo a época do ano, a nosso tempo entre as 13 e as 15 horas. Esta era a hora normal entre os anacoretas coptas para tomar seu alimento. Só durante o tempo pascal comiam à hora sexta, isto é, ao meio dia. No tempo da Quaresma o jejum se prolongava, para os que comiam, até depois de Vésperas. Aconselhava-se os monges a comer todos os dias o mesmo alimento e à mesma hora. COLOMBAS 81.

[61] Dentro do paralelo entre o martírio e a vida monástica (ver nota 45), destaca o seguinte: a morte do mártir, isto é, o ato pelo qual consumava a oferenda de sua vida a Deus, foi concebida como segundo batismo (em alguns casos, como o dos catecúmenos mártires, como o único batismo). Do mesmo modo, o ato do oferecimento irrevogável de um monge a Deus, isto é, sua profissão monástica, foi considerado também como segundo batismo. O ritual da profissão adota também alguns elementos do rito batismal. Isto chega a ponto de alguns Padres sustentarem para a profissão monástica os mesmos efeitos que os do batismo, como se vê na "Vida". Cf S. JERÔNIMO, Ep 25,2; Ep 8; S. BERNARDO, "Lib. de Praec. et Disp. 17,54 (BAC 130,817). Cf também S. TOMÁS, 2-2, q.189, a. 3 ad 3. Cf também o apoftegma anônimo que identifica o poder de Deus no batismo e na tomada de hábito: PL 73, 994B Guy 402; Dion 268. E.E. MALONE. o.c. 211; H. ROSWEYDE PL 73, 182A-D.

[62] Nestes dois cc. 65-66 aparecem as duas mais famosas visões de Santo Antão (cf também 60,1). Em ambas trata-se de uma contemplação da alma. Na primeira, que se produz num êxtase durante sua oração, contempla-se o estado da alma em oração. Na segunda, o estado da alma depois da morte. No fundo ambas supõem a mesma concepção sobre o ambiente e função dos demônios e identificam o estado de oração mística a posse definitiva da visão beatífica. Aquele é a antecipação terrena desta, por certo provisória, mas sujeita às mesmas dificuldades em sua consecução. Também a alma, em sua ascensão às alturas da contemplação divina, deve passar pela esfera de domínio dos demônios. Só se é pura pode conseguir a união com Deus na oração perfeita. E. T. BETTENCOURT oc. 57.

[63] O esforço da antiguidade por conceber a alma como algo espiritual, ou ao menos como algo imaterial ou quase imaterial, tem uma boa ilustração em suas representações na arte, especialmente em jazigos, monumentos ou ícones. Os intentos de representá-la como um pequeno ser, idêntico em todo caso, ao homem defunto, ao qual, freqüentemente se pinta com asas, documentam este esforço e a concepção de seu vôo do corpo no momento da morte. Era igualmente concepção geral, tanto pagã como cristã, que, ao chegar a morte, é perseguida por graves perigos, representados por dragões e outras bestas demoníacas. Cristo muitas vezes aparece como "pxycopompós", isto é, guia e protetor das almas. MEYER 125-126.

[64] Sobre o ar como ambiente dos demônios, ver nota (32). Que os demônios do ar procuram impedir a ascensão das almas ao céu, é conceito que aparece no s. II. É de notar neste sentido a "Passio Perpetuae" (IV,3-4), onde o tema de monstro aparece em sua primeira forma. O rasgo da função "aduaneira" dos demônios encontra-se já em Orígenes, Hm in Lc 23, PG 13, 1861 D; o demônio é comparado a um arrecadador de impostos que examina dívidas pendentes. Essa idéia vai ser retomada e explicitada pelos Padres posteriores, e é também a concepção da "Vida". O ponto em que esta insiste particularmente é que o ar é o domínio demoníaco em que semelhante exame se realiza. Como algumas almas são retidas, o ar vem a ser também o lugar de seu castigo ou purificação. Pois bem, uma parte das almas conseguem escapar desse controle. Ainda que o tema de Cristo como aquele que abriu caminho do céu não apareça na "Vida", faz parte do mesmo contexto conceptual. J. DANIELOU, Les démons de l'air... 140-147.

[65] O movimento monástico é fundamentalmente um movimento leigo. Na época de Santo Atanásio eram pouquíssimos os monges que estavam em algum grau de hierarquia eclesiástica. No entanto, em muitas das colônias de anacoretas o sacerdote da igreja central parece haver gozado de certa autoridade. A existência de monges clérigos explica-se por uma dupla razão: de um lado, havia clérigos que se tornavam monges; de outro, a necessidade de contar com sacerdotes para as celebrações litúrgicas obrigou os monges a providenciar a ordenação de alguns dentre eles para o serviço pastoral. De qualquer modo ainda era isto excepcional no monaquismo primitivo; de fato, São Pacômio preferia ir à igreja paroquial ou convidar um sacerdote secular a celebrar no mosteiro, em lugar de deixar seus monges ordenarem-se. Não se deve ver nisto um desprezo pelo ministério sacerdotal, mas o temor de perder o valor próprio de sua vida ascética pelas responsabilidades pastorais de uma vida sacerdotal conseqüente. Santo Atanásio mesmo preocupou-se em dissipar alguns escrúpulos em monges aos quais desejava confiar o episcopado; indiretamente reprova o querer desprezar o estado clerical como inferior em perfeição ao monástico; cf Ep. ad Drac. 9. COLOMBAS 52; 58; 111. Um Sínodo de Saragoça em 380, contra os priscilianistas, prescreve que um clérigo que se faça monge por orgulho, supondo ser esta uma observância melhor da Lei, deve ser excomungado. MEYER 126. A insistência de Santo Atanásio ao apresentar esse rasgo edificante de Santo Antão é alusão indubitável à existência real de um certo menosprezo pelos clérigos nos ambientes monásticos que conheceu ou freqüentou. Isto vai ser um ponto de atrito constante ao longo da história da Igreja, com as disputas medievais entre seculares e regulares, até as modernas discussões sobre o sacerdócio dos monges e sobre o valor da vida retirada. É interessante notar que nas controvérsias que nos séculos XI-XII se opuseram beneditinos e cônegos regulares, Santo Antão foi invocado por ambos os lados. J. LECLERCQ, S. Antoine dans la tradition monastique médévale, Stud. Ans. 38 (1956) 239.

[66] Ainda que a "Vida" não utilize a palavra "apátheia", o estado aqui descrito de perfeito controle de si mesmo, de estabilidade, de libertação de toda paixão, corresponde a ela. A alma purificada chegou, pois, ao que sempre constituiu o ideal de todo asceta: junto à estabilidade moral mantêm-se a pureza e a vida da alma conforme a sua natureza. O homem que conseguiu este alto grau de perfeição, está livre de distrações deste mundo e dos ataques do demônio, e pode então dedicar-se por completo à contemplação das coisas divinas. Nada o perturba mais, nem é arrojado de um para outro lado por seus desejos ou inquietudes. Daí, tudo o que perturba sua alma ou a despoje do equilíbrio alcançado, é mau; é bom tudo o que favoreça a estabilidade alcançada. CASSIANO, Coll. 9.2.1 denominará este estado: imóvel tranqüilidade da alma. Esta expressão é a versão latina da "apátheia", conceito essencial da filo estóica, e que passou à linguagem espiritual cristã através dos alexandrinos Clemente e Evágrio Pôntico, se bem que eliminando em parte a negação do humano que ela comporta. Para o cristão, Cristo aparece como o verdadeiro "apathés". Santo Antão aparece, pois, imperturbável em sua alma, levado entretanto por um imenso amor a Deus e a seus irmãos, cuja vida e sofrimento não lhe são indiferentes. LORIE 108-126.

[67] Assim chamados segundo Melécio, bispo de Licópolis no Egito (c. 325). Não se devem confundir com o bispo homônimo de Antioquia e seu cisma, meio século mais tarde. No princípio da perseguição de Décio, a partir de 306 enfrentam-se Melécio e Pedro de Alexandria, o futuro mártir, então encarcerado. Melécio propugna uma atitude severa com os "lapsi" ou cristãos apóstatas da perseguição. Deportado, em seu regresso organizam no Egito uma hierarquia cismática. Posteriormente o Concílio de Nicéia tomou medidas contra ele. Esses melecianos uniram-se aos arianos, destacando em sua luta contra Santo Atanásio. J. DANIELOU, Nova Hist. da Igrej. t.1.

[68] Uma velha heresia gnóstica, assim chamada por seu fundador Mani (aproximadamente entre 216 e 275). Está vinculado ao sincretismo religioso que caracterizou o período do parto. Mani, primeiro batista mandou, entra posteriormente em contato com diversas formas religiosas; cristianismo, budismo, religiões helenistas, zoroastrismo, e de todas elas toma elementos para sua nova religião. Ela vai ter extensão universal, da China até a África do Norte (que teve entre seus membros também a Santo Agostinho na primeiro época de sua vida), e se vai prolongar até a Idade Média, J. DANIELOU, Nova Hist. da Igr..t.1.

[69] É a grande heresia do séc. IV. Toma seu nome de Ario, líbio, nascido na segunda metade do séc. III, e era presbítero de Alexandria. Talvez tenha pertencido ao cisma meleciano (ver nota 67). Até 318 opõe-se violentamente a seu bispo, Alexandre de Alexandria num ponto da teologia trinitária: defende o subordinacianismo ontológico do Verbo. A controvérsia ariana, que comoveu toda a cristandade e que alcançou por vezes contornos violentíssimos, ocupou toda a vida de Santo Atanásio, desde quando diácono de Alexandria. J. DANIELOU, Nova Hist. d Igr., t.1.

[70] Aqui a palavra "irmãos" parece antes significar "cristãos". Assim a fórmula "os bispos e todos os irmãos" abarca toda a comunidade cristã. LORIE, 36. Cf nota (1).

[71]  E (PL 73, 157C) acrescenta: Não se pode exprimir quanto serviu a pregação deste grande homem para fortalecer a fé do povo.

[72]  "Varão de Deus", "Homem de Deus". Título dado já pela Escritura a certos homens escolhidos por Deus, que se distinguiram por sua palavra de seus altos feitos (especialmente Moisés e os profetas; cf At 7,22). Santo Atanásio apresenta Santo Antão segundo o esquema típico já existente do "Homem de Deus" bíblico além de algumas conotações do "Homem divino" helenista. Este esquema já é reconhecível no ideal de perfeição de Clemente e Orígenes. De todo modo, Santo Antão é apresentado, como o "Homem de Deus" exemplar. Dos diversos matizes, destacam o asceta e lutador contra os demônios, amigo de Deus; outros ficam menos sublinhados como o taumaturgo ou o profeta. Finalmente, toda a vida e ação deste "Homem de Deus" é guiada e mantida pela fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem. B. STEIDLE, o.c. 148-200.

[73]  Literalmente: "não tendo aprendido as letras". Será esta uma afirmação realmente histórica? Alguns autores (L.v. HERTLING, MEYER) pensam que isto só significa que não recebeu a formação retórica e humanística que teria sido usual numa família abastada como a de Antão. COLOMBAS pensa que este traço (cf também 1,1; 73,1) é reflexo de um propósito de Santo Atanásio: provar que não são as letras mas a virtude o que aproxima de Deus, e que a profunda sabedoria de Santo Antão não era devida a sua formação humana mas à ilustração divina. COLOMBAS, 63.

[74]  CASSIANO, Inst. 5,33ss. traz algo semelhante de apa Teodoro: "Uma vez, procurando esclarecer uma questão muito obscura, persistiu infatigável na oração sete dias e sete noites consecutivas, sem cessar em seu empenho, até que mereceu conhecer, por uma revelação divina, a solução desejada". O monge que suspira por conhecer a fundo as divinas Escrituras não deve preocupar-se demasiado em folhear comentários, mas dirigir sobretudo o cuidado de seu espírito e o ardor de seu coração em purificar-se de seus vícios e pecados". (Trad. de L. M. SANSEGUNDO, Ed. Rialp, Madri, 1957, 216-217)

[75]  Aqui se notam dois elementos bem conhecidos da psicologia antiga: a preexistência e a metempsicose da alma. No âmbito grego esta crença é própria sobretudo do orfismo, de Pitágoras, Platão, os gnósticos e o neoplatonismo. MEYER, 130.

[76]  É a "Psykhé", "alma do mundo", "alma do todo", "alma cósmica", "terceiro da Tríade de Princípios Divinos de Plotino, da qual emanam as almas individuais.

[77]  É o "Nous", segundo da Tríade plotiniana.

[78]  Em verdade, na doutrina plotiniana, o princípio emanantista permite a identificação da Alma e as almas só até certo limite.

[79]  É o primeiro princípio da Tríade de Plotino, chamado também "Uno", "Absoluto".

[80]  São as divindades tutelares do Egito, cujo culto se estendera também entre gregos e romanos. Alude-se à demorada busca que Isis deve empreender do corpo de seu esposo Osiris, assassinado e posteriormente esquartejado por seu irmão Tifón. MEYER, 132.

[81] Kronos (o Saturno dos romanos). O mais jovem dos titãs, filho de Gea e de Urano, a quem despojou do governo do universo. Casado com sua irmã Rea, com ela reinou sobre o mundo. Segundo um oráculo, seria destronado por um de seus filhos; para evitá-lo, devorava-os logo ao nascer. Por uma astúcia de sua mãe Rea, pôde salvar-se Zeus que, chegando à idade adulta, declarou guerra aos titãs e a seu pai, vencendo-os a todos.

[82] E (PL 73, 159C) acrescenta: Envergonhem-se do parricidio e do incesto de Júpiter; envergonhem-se de seus coitos com mulheres e rapazes. Ele, como cantam seus poetas, no cume e no furor de sua espantosa luxúria soltava prazenteiros gemidos. Arrojou-se no seio de Dánae, como amante e como preço. Com asas harmoniosas buscou os abraços de Leda. Encarniçando-se com seu próprio sexo, em má hora manchou a honra do filho do rei.

[83] A utilização da alegoria aparecia aos cristãos como o último e desesperado esforço por defender o panteão pagão contra burlões e incrédulos. Daí a freqüente crítica dos primitivos escritores cristãos contra a alegoria como racionalização de antigos mitos. MEYER, 132.

[84] "Demiurgós", isto é, artesão. Na linguagem filosófico-pagã costuma-se usar a palavra para o Criador do universo. No N.T. acha-se em Hb 11,10. A literatura cristã usou o termo também para o demônio, como autor do mal. Mas seu uso era preferentemente aplicado a Deus Criador. LAMPE, 342.

[85] E (PL 73, 160C) acrescenta: muito duro parece isto para todo trabalho, já que depois que alguém tudo fez convenientemente, dá-se o mérito do trabalho mais ao feito do que ao que o fez.

[86] "Deisidaimonia"; para os pagãos significava normalmente "respeito devido aos deuses", "religião"; para os cristãos significava "superstição, falsa religião". Cf também At 17,22. LAMPE, 335; MEYER, 133.

[87] São Serapião (cf também 91,11) foi superior de uma colônia de anacoretas antes de chegar a ser bispo de Thmuis no Baixo Egito. Segundo os testemunhos dos historiadores cristãos, foi homem de grande santidade e saber. S. JERÔNIMO, em seu De vir. ill., 99, atribui-lhe o sobrenome de "Scholasticus", e diz ue escreveu um tratado contra os maniques, um sobre os títulos dos samos e várias cartas. Em PG 40 conservam-se uma carta a Eudóxio e outra aos monges, além dos fragmentos de seu trabalho contra os maniques. A obra mais conhecida que se lhe atribui é o "Eucológio" ou Sacramentário: é uma coleção de trinta orações litúrgicas de grande importância para a história da liturgia cristã antiga. Sendo amigo de Santo Atanásio, viu-se envolvido na controvérsia ariana, foi também expulso de sua sede episcopal. Morreu em 362. H. ROSWEYDE, PL 73, 186D) MEYER, 134. LAMPE, XXXIX.

[88] Ao dizer a "Vida": "o atual assalto", parece indicar que estes sucessos ocorriam quando Santo Atanásio escrevia o livro. Ademais, na "Apologia de sua fuga", descreve, talvez com algo de hipérbole, as crueldade e excessos dos arianos.

[89] E (PL 73, 163B) acrescenta: Então, conseguindo operário pagãos como escolta e levando palmas (sinal idolátrico em Alexandria), obrigaram os cristãos a irem à igreja, para que fossem tomados como arianos. Que horror! O ânimo não se atreve a contar o que se passou. Virgens e damas foram violadas. Verteu-se o sangue das ovelhas de Cristo, e com ele borrifaram os veneráveis altares. O batistério foi profanado à vontade pelos pagãos.

[90] Esta comparação dos arianos com as mulas é característica da linguagem da época, e reflete o conceito que Santo Atanásio tinha dos hereges.

[91]  "Doux", do latim "dux". Era o título do comandante militar de uma ou várias províncias. Esse ofício foi criado pelo imperador Diocleciano, ao separar os poderes civis e militares, debilitando assim a autoridade dos prefeitos que até então exerciam ambos os poderes. LAMPE, 385; MEYER, 135.

[92] Apoftegmas dos Padres, Antão, 10: Guy, 21. Dion, 31; PL 73, 858A.

[93] Metáfora tomada da unção dos atletas nos jogos desportivos de gregos e romanos. MEYER, 135.

Fonte:

Padres do Deserto | Mosteiro da Virgem (Petrópolis-RJ)

 

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