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Vida de Santo Antão

por Santo Atanásio 

6. Quinta Parte

6.1 - Antão vai a Alexandria sob a perseguição do Imperador Maximino (311)

epois disto, a perseguição de Maximino [42], que irrompeu nessa época, abateu-se sobre a Igreja. Quando os santos mártires foram levados a Alexandria, ele também deixou sua cela e os seguiu, dizendo: "Vamos também nós tomar parte no combate se somos chamados, ou a ver os combatentes." Tinha grande desejo de sofrer o martírio, mas não querendo entregar-se  [43], servia aos confessores da fé nas minas e nas prisões. Afanava-se no tribunal, estimulando o zelo dos mártires quando eram chamados e escoltando-os quando iam para o mártírio, ficando junto deles até que expirassem. Por isso o juiz, vendo sua intrepidez e a de seus companheiros e seu zelo nestas coisas, deu ordem para que nenhum monge aparecesse no tribunal ou ficasse na cidade. Todos os demais julgaram conveniente esconder-se esse dia; Antão, porém, preocupou-se tão pouco com isso que lavou suas roupas e no dia seguinte colocou-se à frente de todos, num lugar proeminente, à vista e paciência do prefeito  [44]. Enquanto todos se admiravam e o prefeito mesmo o via ao acercar-se com todos os seus funcionários, ele estava ali de pé, sem medo, mostrando o espírito anelante próprio a nós cristãos. Como expressei antes, orava para que também ele pudesse ser martirizado, por isso penalizava-se por não haver sido.

Mas o Senhor cuidava dele para nosso bem e para o bem de outros, a fim de que pudesse ser mestre da vida ascética que ele próprio havia aprendido nas Sagradas Escrituras. De fato, muitos, só ao ver sua atitude, converteram-se em zelosos seguidores de seu modo de vida. De novo, por isso, continuou com o costume de ir ao serviço dos confessores da fé como se estivesse encadeado junto com eles (Hb 13,3), esgotou-se em seu afã por eles.

6.2 - O martírio diário da vida monástica

Quando finalmente cessou a perseguição e o bispo Pedro, de santa memória, sofreu o martírio, voltou à solidão de sua cela e aí foi mártir cotidiano em sua consciência, lutando sempre as batalhas da fé  [45]. Praticou um vida ascética cheia de zelo e mais intensa. Jejuava continuamente, sua veste interior era de pelo, e de couro a exterior, e a conservou até o dia de sua morte. Nunca banhou seu corpo  [46], nem tampouco lavou seus pés nem permitiu metê-los na água sem necessidade. Ninguém viu seu corpo nú até que morreu e foi sepultado.

48. De volta à solidão, determinou um período de tempo durante o qual não sairia nem receberia ninguém. Então um oficial militar, um certo Martiniano, chegou a importunar Antão: tinha uma filha à qual o demônio molestava. Como persistia batendo à porta e rogando que saísse e rogasse a Deus por sua filha, Antão não quis sair, mas por uma janelinha lhe disse: "Homem, por que fazes todo esse barulho comigo? Sou um homem como tu. Se crês em Cristo a quem eu sirvo, vai e como crês, ora a Deus e Ele te ouvirá". O homem foi, crendo e invocando a Cristo, e sua filha foi liberta do demônio. Muitas outras coisas fez também o Senhor por intermédio dele, segundo a palavra: "Peçam e lhes será dado" (Lc 11,9). Muitíssima gente, que sofria, dormia simplesmente fora de sua cela  [47], pois ele não queria abrir-lhes a porta, eram curados por sua fé e sincera oração.

6.3 - Fuga para a montanha interior

Quando se viu acossado por muitos e impedido de retirar-se como era seu propósito e seu desejo, e inquieto pelo que o Senhor estava operando por intermédio dele, pois podia transformar-se em presunção, ou poderia alguém estimá-lo mais do que convinha, refletiu e foi-se para a Alta Tebaida, a um povo que o desconhecia. Recebeu pão dos irmãos e sentou-se à margem do rio, esperando ver um barco que passasse e no qual pudesse partir. Enquanto estava assim esperando, ouviu-se uma voz do alto: "Antão, aonde vais e por que?"

Não se desorientou, mas, ouvindo outras vezes tais palavras, contestou: "Já que as multidões não me permitem estar só, quero ir para a Alta Tebaida, porque são muitos os incômodos a que estou sujeito aqui, e sobretudo porque me pedem coisas para além de meu poder". "Se sobes à Tebaida", disse a voz "ou se, como também pensaste, desces à Bucolia  [48], terás mais, sim, o duplo de incômodos a suportar. Mas se realmente queres estar contigo mesmo, então vai-te ao deserto interior".

"Mas, disse Antão, quem me mostrará o caminho? Eu não o conheço". De repente chamaram-se a atenção uns sarracenos que estavam a tomar aquele caminho. Aproximando-se, Antão lhes pediu para ir com eles ao deserto. Como por ordem da Providência, deram-lhe as boas-vindas. E viajou com eles três dias e três noites e chegou a uma montanha muito alta, tendo ao pé uma água clara como cristal e muito fresca. Estendendo-se dali havia uma planície e algumas tamareiras.

50. Como inspirado por Deus, Antão ficou encantado com o lugar  [49] porque foi isto o que quis dizer Quem falou com ele à margem do Rio. Começou por conseguir uns pães de seus companheiros de viagem e ficou sozinho na montanha, sem companhia alguma. Daí em diante olhou esse lugar como se houvera encontrado seu próprio lar. Quanto aos sarracenos, notando o entusiasmo de Antão, fizeram do lugar um ponto em suas travessias, e estavam contentes de levar-lhe pão. Também as tamareiras lhe davam uma pequena e frugal mudança de dieta. Mas tarde os irmãos, inteirando-se do lugar, como filhos preocupados por seu pai, engenharam-se para enviar-lhe pão. No entanto, vendo Antão que o pão lhes causava incômodo, pois tinham de aumentar o trabalho que já suportavam, e querendo demonstrar consideração aos monges também nisso, refletiu sobre o assunto e pediu a alguns de seus visitantes que lhe trouxessem um enxadão e um machado e alguns grãos.

Quando o trouxeram, ele foi ao terreno junto da montanha, e encontrando um pedaço adequado, com abundante provisão de água vertente, cultivou-o e semeou. Assim o fez cada ano e conseguia seu pão. Estava feliz, pois com isto não era molesto a ninguém e em tudo tratava de não ser carga para os outros  [50]. Mais tarde, porém, vendo que de novo chegava gente para vê-lo, começou a cultivar também algumas hortaliças, a fim de que seus visitantes tivessem algo mais para restaurar suas forças depois de tão cansativa e pesada viagem.

No começo, os animais do deserto que vinham beber água danificavam as plantações de sua horta. Pegou então um deles, reteve-o suavemente e disse a todos: "Por que me prejudicam se não lhes faço nada a nenhum de vocês? Retirem, e em nome do Senhor não se aproximem outra vez destas coisas!" E desde então, como atemorizados com essas ordens, lá não voltaram mais.

6.4 - De novo, os demônios

Assim esteve sozinho na Montanha Interior, dando seu tempo à oração e à prática da vida ascética. Os irmãos que foram em sua busca rogaram-lhe que lhes permitisse ir cada mês e levar-lhe azeitonas, legumes e azeite, pois agora já era ancião.

De seus visitantes soubemos quantos combates teve de suportar enquanto viveu ali, "não contra carne e sangue", como está escrito (Ef ,12), mas em luta com os demônios. Também ali ouviram tumultos e muitas vozes e clamor como de armas. À noite viram a montanha encher-se de vida com animais selvagens. Viram-no também lutando como com inimigos visíveis, e orando contra eles. A um que o visitou falou-lhe palavras de alento enquanto ele próprio mantinha-se firme na contenda, de joelhos e orando ao Senhor. Era realmente notável que, sozinho como estava nesse despovoado, nunca desmaiasse ante os ataques dos demônios, nem tampouco com todos os animais e répteis que havia, tivesse medo de sua ferocidade. Como está na Escritura, ele realmente "confiava no Senhor como o monte Sião (Sl 124,1), com ânimo inquebrantável e intrépido. Assim os demônios antes fugiam dele, e os animais selvagens fizeram paz com ele, como está escrito (Jó 5,23).

52. O mau pôs estreita guarda sobre Antão e rangeu os dentes contra ele, como o disse Davi no salmo (Sl 34,16), mas Antão foi animado pelo Salvador, não sendo danificado por essa vilania e sutil estratégia. Enviou-lhe animais selvagens enquanto estava em suas vigílias noturnas, e em plena noite todas as hienas do deserto sairam de suas tocas e o rodearam. Tendo-o no centro, abriam suas fauces e ameaçavam mordê-lo. Ele, porém, conhecendo bem as manhas do inimigo, disse-lhes: "Se receberam poder para fazer isto contra mim, estou disposto a ser devorado; mas se foram enviados pelos demônios, saiam imediatamente porque sou servidor de Cristo". Enquanto Antão dizia isto, fugiram como açoitados pelo látego dessa palavra.

53. Poucos dias depois, enquanto estava trabalhando - porque o trabalho sempre era parte de seu propósito - alguém chegou à porta e puxou a corda com que trabalhava (estava fazendo cestos que dava a seus visitantes em troca do que lhe traziam). Levantou-se e viu um monstro que parecia homem até as coxas, mas com pernas e pés de asno. Antão fez simplesmente o sinal da cruz e disse: "Sou servidor de Cristo. Se foste enviado contra mim, aqui estou". O monstro porém com seus demônios fugiu tão rápido que sua própria rapidez o fez cair e morreu. A morte do monstro veio a significar o fracasso dos demônios: fizeram o que puderam para que saísse do deserto e não o conseguiram [51].

6.5 - Antão visita os irmãos ao longo do Nilo

Um vez os monges pediram-lhe que voltasse para eles e passasse algum tempo visitando-os e a seus estabelecimentos. Fez a viagem com os monges que vieram a seu encontro. Um camelo ia carregado com pão e água, já que em todo esse deserto não havia água, e a única potável estava na montanha de onde haviam saído e onde estava sua cela. Indo a caminho, acabou-se a água, e estavam todos em perigo quando o calor era mais intenso. Andaram buscando [52] e voltaram sem a encontrar. Estavam por demais fracos para poderem caminhar. Lançaram-se ao chão e deixaram partir o camelo, entregando-se ao desespero.

Vendo o perigo em que todos estavam, o ancião encheu-se de aflição. Suspirando profundamente, apartou-se um pouco deles. Ajoelhou-se, estendeu as mãos e orou. E de repente o Senhor fez brotar uma fonte no lugar onde estava orando, e todos puderam beber e refrescar-se. Encheram os odres e puseram-se a buscar o camelo até que o encontraram: sucedeu que o cordel se embaraçara numa pedra e ficara preso. Levaram-no a beber e carregando-o com os odres concluíram sua viagem sem mais prejuízos ou acidentes.

Ao chegar às celas exteriores, todos lhe deram cordiais boas-vindas, olhando-o como a um pai [53]. Por seu lado, como trazendo-lhes provisões de sua montanha, ele os entretinha com suas narrações e lhes comunicava sua experiência prática. E de novo houve alegria nas montanhas e anelos de progresso, e de consolo que vem de uma fé comum (cf Rm 1,12). Também se alegrou ao contemplar o zelo dos monges, e ao ver sua irmã que havia envelhecido em sua vida de virgindade, sendo ela mesma guia espiritual de outras virgens.

6.6 - Os irmãos visitam Antão

Depois de alguns dias voltou à sua montanha. Desde então muitos foram visitá-lo, entre eles muitos cheios de aflição, que arriscavam a viagem até ele. Para todos os monges que chegavam até ele, tinha sempre o mesmo conselho: pôr sua confiança no Senhor e amá-lo, guardar-se a si mesmo dos maus pensamentos e dos prazeres da carne, e não ser seduzidos por um estômago cheio, como está escrito nos Provérbios (Pr 24,15). Deviam fugir da vanglória e orar continuamente; cantar salmos antes e depois do sono; guardar no coração os mandamentos impostos nas Escrituras e recordar os feitos dos santos, de modo que a alma, ao recordar os mandamentos, possa inflamar-se ante o exemplo de seu zelo. Aconselhava-os sobretudo recordar sempre a palavra do Apóstolo: "Que o sol não se ponha sobre vossa ira" (Ef 4,26), e a considerar estas palavras como ditas em relação a todos os mandamentos: o sol não se deve pôr não apenas sobre nossa ira, como sobre nenhum outro pecado.

É inteiramente necessário que o sol não nos condene por nenhum pecado de dia, nem a lua por nenhuma falta noturna (inclusive o mau pensamento). Para assegurar-nos disso, é bom ouvir e guardar o que diz o apóstolo: "Julguem-se e provem-se a si mesmos" (2 Cor 13,5). Por isso, cada um deve fazer diariamente um exame do que fez de dia e de noite; se pecou, deixe de pecar; se não pecou, não se orgulhe disso. Persevere antes na prática do bem e não deixe de estar em guarda. Não julgue o próximo nem se declare justo a si mesmo, como diz o santo apóstolo Paulo , "até que venha o Senhor e traga à luz o que está escondido" (1 Cor 4,5; Rm 2,16). Muitas vezes não temos consciência do que fazemos; nós não o sabemos, mas o Senhor conhece tudo. Por isso, deixando a Ele o julgamento, compadeçamo-nos mutuamente e "levemos as cargas uns dos outros" (Gl 6,2). Julguemo-nos a nós mesmos e, se nos vemos diminuídos, esforcemo-nos com toda a seriedade por reparar nossa deficiência. Que esta observação seja nossa salvaguarda contra o pecado: anotemos nossos atos e impulsos da alma como se tivéssemos de informar a outro: podem estar seguros de que de pura vergonha de que isto seja conhecido, deixaremos de pecar e de prosseguir com pensamentos pecaminosos. Quem gosta que o vejam pecando? Quem, depois de pecar, não preferiria mentir, esperando escapar assim de que o descubram? Assim como não quiséramos abandonar-nos ao prazer à vista de outros, assim também se tivéssemos de escrever nossos pensamentos para dizê-los a outro, muito nos guardaríamos de maus pensamentos, por vergonha que alguém os soubesse. Que essa informação escrita seja, pois, como os olhos de nossos irmãos ascetas, de modo que, ao nos envergonharmos de escrever como se nos estivessem vendo, jamais nos demos ao mal. Modelando-nos desta maneira, seremos capazes de "levar nossos corpos a obedecer-nos" (1 Cor 9,27), para agradar ao Senhor e calcar aos pés as maquinações do inimigo".

6.7 - Milagres no deserto

Estes eram os conselhos a seus visitantes. Com os que sofriam unia-se em simpatia e oração, e amiúde e em muitos e variados casos, o Senhor ouviu sua oração. Nunca, porém, se jactou quando atendido, nem se queixou não o sendo. Sempre deu graças ao Senhor, e animava os que sofriam a ter paciência e a se aperceberem de que a cura não era prerrogativa dele nem de ninguém, mas de Deus só, que a opera quando quer e a favor de quem Ele quer. Os que sofriam ficavam satisfeitos, recebendo as palavras do ancião como cura, pois aprendiam a ter paciência e a suportar o sofrimento. E os que eram curados aprendiam a dar graças, não a Antão, mas a Deus só.

57. Havia, por exemplo, um homem chamado Frontão, oriúndo de Palatium [54]. Tinha uma enfermidade horrível: mordia continuamente a língua e sua vista ia se encurtando. Chegou à montanha e pediu a Antão que rogasse por ele. Orou e disse logo a Frontão: "Vai-te, vais ser curado". Ele porém, insistiu e ficou durante dias, enquanto Antão prosseguia dizendo-lhe: "Não ficarás curado enquanto ficares aqui. Vai-te, e quando chegares ao Egito, verás em ti o milagre". O homem consentiu afinal e foi-se; e ao chegar à vista do Egito, sua enfermidade desapareceu. Sarou segundo as instruções que Antão havia recebido do Senhor enquanto orava.

58. Uma menina de Busiris em Trípoli padecia de uma enfermidade terrível e repugnante: uma supuração nos olhos, nariz e ouvidos transformava-se em vermes quando caía no chão. Além disso tinha o corpo paralisado e seus olhos eram defeituosos. Seus pais ouviram falar de Antão por alguns monges que iam vê-lo, e tendo fé no Senhor que curou a hemorroísa (Mt 9,20), pediram-lhes licença para irem também com sua filha, e eles consentiram. Os pais e a menina ficaram ao pé da montanha com Pafnúcio [55], o confessor e monge. Os demais subiram, e quando se dispunham a falar-lhe da menina, ele adiantou-se e lhes falou tudo sobre os sofrimentos dela, e de como havia feito com eles a viagem. Então, quando lhe perguntaram se essa gente podia subir, não lhes permitiu e disse: "Podem ir e, se não morreu, vão encontrá-la sã. Não é certamente nenhum mérito meu que ela tenha querido vir a um infeliz como eu; não, em verdade, sua cura é obra do Salvador que mostra sua misericórdia em todo lugar aos que o invocam. Neste caso o Senhou ouviu sua oração, e Seu amor pelos homens me revelou que curará a enfermidade da menina onde ela está". Em todo caso o milagre se realizou: quando desceram, encontraram os pais felizes e a memina em perfeita saúde.

59. Sucedeu também que quando dois dos irmãos estavam em viagem para vê-lo, acabou-se-lhes a água; um morreu e o outro estava a ponto de morrer. Já não tinha forças para andar, mas jazia no chão esperando também a morte. Sentado na montanha, Antão chamou dois monges que casualmente estavam ali e os compeliu a se apresarem: "Tomem um jarro d'água e corram descendo pelo caminho do Egito; vinham dois, um acaba de morrer e o outro também morrerá se vocês não se apressarem. Foi-me revelado isto agora na oração". Foram-se os monges, acharam um morto e o enterraram. Ao outro fizeram-no reviver com água e o levaram ao ancião. A distância era de um dia de viagem. Agora, se alguém pergunta porque não falou antes de morrer o outro, sua pergunta é injustificada. O decreto de morte não passou por Antão, mas por Deus que a determinou para um, enquanto revelava a condição do outro. Quanto a Antão, o admirável é que, enquanto estava na montanha com seu coração tranquilo, mostrou-lhe o Senhor coisas distantes.

60. Noutra ocasião em que estava sentado na montanha, olhando para cima viu no ar alguém levado para o alto entre grande regozijo de outros que lhe saíam ao encontro. Admirando-se de tão grande multidão e pensando quão felizes eram, orou para saber quem podia ser este. De repente uma voz se dirigiu a ele dizendo-lhe que era a alma do monge Amón de Nítria [56], que levou vida ascética até idade avançada. Pois bem, a distância de Nítria à montanha onde Antão estava era de treze dias de viagem. Os que estavam com Antão, vendo o ancião tão extasiado, perguntaram-lhe o motivo e ele lhes contou que Amón acabava de morrer.

Este era bem conhecido pois vinha aí amiúde e muitos milagres foram operados por seu intermédio. Segue um exemplo. Uma vez tinha que atravessar o chamado rio Lycus na estação das cheias; pediu a Teodoro que se adiantasse para que não se vissem nus um ao outro enquanto atravessavam o rio a nado. Então, quando Teodoro se foi, ele sentiu-se entretanto envergonhado por ter que se ver ele mesmo nu. Enquanto estava assim desconcertado e refletindo, foi de repente transportado à outra margem. Teodoro, também, homem piedoso, saiu da água, e ao ver que o outro chegara antes dele sem se haver molhado, perguntou-lhe como atravessara. Quando viu que não o queria contar, agarrou-se a seus pés, insistindo em que não o soltaria até que lhe dissesse. Notando a determinação de Teodoro, especialmente depois do que lhe disse, insistiu por sua vez para que não o dissesse a ninguém antes de sua morte, e assim lhe revelou ter sido levado e depositado na margem; que não havia caminhado sobre as águas, uma vez que isto só é possível ao Senhor e àqueles aos quais Ele o permite, como o fez no caso do grande apóstolo Pedro (Mt 14,19). Teodoro relatou isto depois da morte de Amón.

Os monges aos quais Antão falou sobre a morte de Amón anotaram o dia e quando, um mês depois, os irmãos voltaram de Nítria, perguntaram e souberam que Amón havia dormido no mesmo dia e hora em que Antão viu sua alma levada para o alto. E tanto eles como os outros ficaram estupefatos ante a pureza de alma de Antão, que podia saber imediatamente o que se passara treze dias antes, e que era capaz de ver a alma levada para o alto.

61. Noutra ocasião, o conde Arqueláo [57] o encontrou na Montanha Exterior e pediu-lhe somente que rezasse por Policrácia [58], a admirável virgem de Laodicéia, portadora de Cristo [59]. Sofria muito do estômago e das costas devido à sua excessiva austeridade, o seu corpo estava reduzido a grande debilidade. Antão orou e o conde anotou o dia dessa oração. Ao voltar a Laodicéia encontrou curada a virgem. Pergutando quando se havia visto livre de sua debilidade, tirou o papel onde anotara a hora da oração. Quando lhe responderam, imediatamente mostrou a sua anotação no papel, e todos se maravilharam ao reconhecer que o Senhor a havia curado de sua doença no próprio momento em que Antão estava orando e invocando a bondade do Salvador em seu auxílio.

62. Quanto a seus visitantes, predizia frequentemente sua vinda ,dias e às vezes um mês antes, indicando o motivo da visita. Alguns vinham só para vê-lo, outros devido a enfermidades, e outros, atormentados pelos demônios. E ninguém considerava viagem demasiado molesta ou que fosse tempo perdido; cada um voltava sentindo que fora ajudado. Ainda que Antão tivesse esses poderes de palavra e visão, no entanto suplicava que ninguém o admirasse por essa razão, mas admirasse antes ao Senhor porque Ele nos ouve a nós, que somos apenas homens, a fim de que possamos conhecê-lo melhor.

63. Noutra ocasião havia descido de novo para visitar as celas exteriores. Quando convidado a subir a um barco e orar com os monges, só ele percebeu um mau cheiro horrível e sumamente penetrante. A tripulação disse que havia a bordo pescado e alimento salgado e que o cheiro vinha disso, mas ele insistiu que o odor era diferente. Enquanto estava falando, um jovem que tinha um demônio e subira a bordo pouco antes como clandestino, soltou de repente um guincho. Repreendido em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, foi-se o demônio, e o homem voltou à normalidade; todos então se aperceberam de que o mau cheiro vinha do demônio.

64. Outra vez um homem de posição foi a ele, possuído por um demônio. Neste caso o demônio era tão terrível que o possesso não estava consicente de que ia a Antão. Chegava mesmo a devorar seus próprios excrementos. O homem que o levou a Antão rogou-lhe que rezasse por ele. Compadecido pelo jovem, Antão orou e passou com ele toda a noite. Ao amanhecer, o jovem lançou-se de repente sobre Antão, empurrando-o. Seus companheiros indignaram-se diante disso, mas Antão acalmou-os, dizendo: "Não se aborreçam com o jovem, pois não é ele o responsável, e sim o demônio que nele está. Ao ser increpado e mandado a lugares desertos (Lc 11,24), ficou furioso e fez isto. Dêem graças ao Senhor, pois o atacar-me deste modo é um sinal da partida do demônio". E enquanto Antão dizia isto, o jovem voltou a seu estado normal; deu-se conta de onde estava, abraçou o ancião e deu graças a Deus. 

6.8 - Notas Bibliográficas

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".

E = versão latina de Evágrio.

[42] Em 305 abdicaram os imperadores Diocleciano e Maximiano. Sucederam-nos Constâncio e Galério como Augustos; Severo e Maximino Daia foram feitos Césares. Este último tomou a seu cargo a administração da Síria, Palestina e Egito e sobressaiu por seu fanatismo na continuação da perseguição de Diocleciano. A violenta repressão cessou temporalmente com o edito de tolerância de Nicomedia (30 de abril de 311), aplicado de muito má vontade por Maximino, que, antes de seis meses recomeçou a perseguição. Só em fins de 312 maximino volta à tolerância e finalmente sob a pressão de seus rivais ocidentais Constantino e Licínio, concede a paz religiosa. J. DANIELOU, Nova História da Igreja, t.1.

[43] A excessiva exaltação do martírio, relacionada em parte com a crença na iminência da Parusia, em fins do século II, mas sobretudo impulsionada por toda uma literatura em torno do martírio e dos mártires, havia criado uma mística do martírio. Às vezes apresentavam-se cristãos em grupo ante os prefeitos. Isto levou a Igreja a intervir, proibindo a apresentação voluntária ante as autoridades. J. DANIELOU, Nova História da Igreja.

[44] E (PL 73,147C) acrescenta: vestido de branco. MEYER 119 supõe que se trata da mudança de sua aparência monástica pela de um civil egípcio. L.V. HERTLING, o.c. 29, supõe em todo caso que esse disfarce de Santo Antão não foi muito eficaz, já que o prefeito o reconhece, ainda que não o prendesse. Santo Antão queria oferecer-se ao martírio, mas sem violar a legislação eclesiástica.

[45] A palavra "mártir", que significa originalmente "testemunha", e que foi aplicada a Deus, às Escrituras, às diversas figuras bíblicas, usou-se posteriormente para os ou as que selavam com seu sangue sua fidelidade a Cristo. Posteriormente chamavam-se também "mártires" os que, embora sem morrer, haviam sofrido por Cristo. Deu-se também tal nome a todo verdadeiro cristão, e falou-se do martírio de diversas virtudes. Isto levou a aplicar esse título também aos ascetas. A vida monástica é descrita na literatura com os mesmos termos que se usavam para descrever a luta do mártir da fé. LAMPE 830-833; E.E. MALONE, "The Monk and the Martyr" Stud.Ans. 38 (1956) 201-228.

[46] O mesmo se refere acerca de Plotino. PALADIO em sua "História Lausíaca" relata exemplos semelhantes nas vidas de vários de seus personagens. Não se pode negar o motivo penitencial, mas talvez o fundamento mais profundo desta forma de ascese (no deserto!) era o profundo horror aos costumes licenciosos que prevaleciam nos banhos públicos pagãos. MEYER 119-120.

[47] Isto lembra a antiga prática do "incubare": os que desejavam receber uma visão (cf 1 Sm 3,3) ou ser curados de suas enfermidades, deitavam-se no recinto de um templo. MEYER 120.

[48] Trata-se de um distrito pantanoso no delta do Nilo, habitado por pastores. MEYER 120; H. ROSWEIDE, Onomaticon, PL 74, 417C. Parece que Santo Antão havia pensando não só em ir para o sul, como também na possibilidade de ir habitar para o norte.

[49] Trata-se do monte Colzim, em pleno deserto na planície de Qalala do sul, aproximadamente 180 km a sueste de Alexandria, entre o Nilo e o Mar Vermelho. A montanha com o antigo mosteiro de Santo Antão é chamada inda Der Mar Antonios.

[50] E (PL 73,149A) acrescenta: "vivendo no deserto do trabalho de suas mãos" (cf At 20,34).

[51] E (PL 73,150B) acrescenta: Maravilha sobre maravilha sucediam-se. Não havia passado muito tempo, e o homem de tão grandes vitórias foi vencido pelos rogos dos irmãos.

[52] E (PL 73, 150B) acrescenta: ainda que fosse uma laguna com água de chuva.

[53] E (PL 73, 250C) acrescenta: todos foram sobre ele saudando-o com beijos e abraços.

[54] Ambos os nomes são romanos. Havia duas cidades com esse nome na antiga Itália, mas como a palavra significa também "corte, palácio", sugere-se que este homem, quanto aos demais desconhecidos, era um oficial, ou empregado romano a serviço do prefeito romano de Alexandria. MEYER 122. E traduz: ex Palaestinis. DRAGUET (Arnauld d'Andilly): da casa do Imperador.

[55] E (PL 73, 152C) acrescenta: Sob a perseguição de Maximino arrancaram-lhe os olhos por Cristo, mas gloriava-se imensamente de tal desonra de seu corpo. Pafnúcio era nome sumamente comum no Egito do século IV. Vários bispos e monges são conhecidos sob esse nome, o que dificulta sua identificação. Neste caso, o epíteto de "confessor" e o acréscimo feito por Evágrio, assinalado antes, parecem indicar que se trata do bispo Pafnúcio da Alta Tebaiba, martirizado sob Maximino. participou no Concílio de Nicéia, com grandes honras. O Martirológio Romano menciona-os no dia 4 de setembro. H. ROSWEIDE, PL 73, 181 B).

[56] PALADIO, em sua "História Lausíaca" 8, conta a história de Ammón (ou Amoun). Casado sob a influência de um tio viveu com sua mulher 18 anos em virgindade. Então, por sugestão dela mesma, Ammón abandonou-a para fazer-se monge no deserto de Nítria. Ali morou vinte anos, até sua norte. Consta que em fins do século IV, haveria no deserto de Nítria uns cinco mil discípulos dele. MEYER 123.

[57] Trata-se talvez do alto oficial que ajudou Santo Atanásio no Sínodo de Tiro do ano 335, a por a descoberto algumas das maquinações de eusebianos e melecianos. MEYER 124.

[58] Nome feminino que ocorre não raramente em antigas inscrições gregas. Alguns manuscritos latinos acrescentam: Filha de Públio. Não é claro que Laodicéia se refere ao texto, já que havia várias cidades com esse nome. É provável que seja Laodicéia da Síria. H. ROSWEIDE, PL 73,181 D; MEYER 124.

[59] "Christóforos" = portador de Cristo, isto é, cheio ou inspirado por Cristo. Já Santo Inácio de Antioquia ( + c.110), Ef 9,2, usou esse título para os cristãos. Cf também em Nt G 1,3,27. Posteriormente, o título aplicou-se a pessoas especialmente inspiradas: apóstolos, mártires. Logo foi dado também aos ascetas. LAMPE 1533.

Fonte:

Padres do Deserto | Mosteiro da Virgem (Petrópolis-RJ)

 

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