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São Cirilo de Jerusalém (313-350) ANTOLOGIA«Porventura és maior que o nosso pai Abraão?» Catequeses baptismais, nº 5 É o exemplo da fé de Abraão que nos torna a todos filhos de Abraão. De que maneira? Os homens consideram inacreditável uma ressurreição dos mortos, como é inacreditável que os velhos, marcados já pela morte, possam gerar descendência. Mas quando nos anunciam a boa nova de Cristo, crucificado na cruz, morto e ressuscitado, nós acreditamos. É, pois, pela semelhança da sua fé que entramos na filiação de Abraão. E, então, com a fé, recebemos como ele o vaso espiritual, circuncisos no Baptismo pelo selo do Espírito Santo. * * * * * «O seu nome é Rei dos reis e Senhor dos senhores» (Ap 19,16) Catequese baptismal 10,2-5 Se alguém quer honrar Deus, que se prostre diante do seu Filho. Sem isso, o Pai não aceita ser adorado. Do alto do céu, o Pai fez ouvir estas palavras: “Este é o meu Filho bem amado, em quem pus a minha complacência” (Mt 3,17). O Pai compraz-se no Filho… que é chamado “Senhor” (Lc 2,11), não abusivamente como os senhores humanos, mas com razão porque o senhorio lhe pertence naturalmente desde toda a eternidade… Apesar permanecer em si e conservar verdadeiramente a glória imutável da sua condição de Filho, ele adapta-se às nossas fraquezas, como um médico muito hábil e um mestre compassivo. Ele fez isso quando era verdadeiramente Senhor, quando o seu poder não era devido a uma antecipação, mas quando a glória do senhorio estava nele por natureza. Ele não era senhor à nossa maneira, mas era verdadeiramente Senhor, exercendo o senhorio com o consentimento do Pai sobre as suas próprias criaturas. Nós, com efeito, temos autoridade sobre os homens que são nossos iguais tanto em dignidade como em sofrimento, muitas vezes mesmo sobre os mais idosos. Em nosso Senhor Jesus Cristo, pelo contrário, o senhorio não é desta ordem: ele é primeiro Criador, em seguida Senhor. Ele criou tudo segundo a vontade do Pai, em seguida exerceu o seu senhorio sobre o que existe unicamente por ele. * * * * * Catequese baptismal 15 O Senhor virá dos céus sobre as nuvens, Ele que subiu para cima das nuvens. Com efeito, Ele próprio o disse: “Verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória” (Mt 24, 30). Mas qual será o verdadeiro sinal da Sua vinda, não vá o poder do inimigo ousar simulá-lo a fim de nos perder? “Aparecerá, então, no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24, 30). Ora, o sinal verídico e próprio de Cristo é a cruz. O sinal de uma cruz luminosa precede o rei, designando Aquele que tem primeiro de ser crucificado, a fim de que, à vista disso, aqueles que O tinham perfurado com os cravos e rodeado de emboscadas batam no peito (Za 12, 10), dizendo: “Eis Aquele que foi esbofeteado, Aquele a Quem cobriram o rosto de escarros, Aquele que rodearam de correntes, Aquele que outrora humilharam na cruz.” “Para onde havemos de fugir, a fim de evitar a Tua cólera?” (Ap 6, 16). E, cercados pelos exércitos dos anjos, não poderão fugir para parte alguma. Para os inimigos da cruz, o sinal será o temor; mas para os amigos dela será a alegria, pois terão acreditado nela e tê-la-ão pregado, ou terão sofrido por ela. Quem terá então a felicidade de ser considerado amigo de Cristo? Ele não desdenhará os que O serviram, esse rei glorioso que cerca a guarda dos Seus anjos e que está sentado no mesmo trono que o Pai. Pois, a fim de que os eleitos não sejam confundidos com os inimigos, “Ele enviará os Seus anjos com uma trombeta altissonante, para reunir os Seus eleitos desde os quatro ventos” (Mt 24, 31). Ele que não Se esqueceu Lot no seu isolamento (Gn 19, 15; Lc 17, 28), como poderia esquecer-Se da multidão dos justos? “Vinde benditos de Meu Pai” (Mt 25, 34), dirá àqueles que forem transportados nos carros de nuvens, depois de terem sido reunidos pelos anjos. * * * * * «Este é o meu Filho muito amado,
Catequeses baptismais, nº 11 Acreditai em Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, mas segundo o Evangelho, filho único: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo aquele que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16) … Ele é o Filho de Deus por natureza e por adopção, pois que ele nasceu do Pai… Porque o Pai, sendo Deus verdadeiro, gerou o Filho à sua semelhança, Deus verdadeiro… Cristo é filho por natureza, um verdadeiro filho, não um filho adoptivo como vós, os novos baptizados, que agora vos tornastes filhos de Deus. Porque vos tornastes também filhos, mas por adopção, segundo a graça, como está escrito: “Mas a todos os que O receberam, aos que crêem n’Ele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). Nós somos gerados pela água e pelo Espírito (Jo 3,5), mas não da mesma maneira que Cristo foi gerado pelo Pai. Porque no momento do baptismo este último levantou a voz e disse: “Este é o meu Filho”, para mostrar que antes mesmo do seu baptismo ele era Filho. O Pai gerou o Filho de maneira diferente daquela que, nos homens, o espírito gera a palavra. Porque o espírito em nós subsiste, enquanto que a palavra, uma vez pronunciada e difundida no ar, desaparece. Mas nós sabemos que Cristo foi gerado Verbo, Palavra perene e viva, não pronunciada e saída dos lábios, mas nascida do Pai eternamente, de modo substancial e inefável. Porque “no princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1), sentado à sua direita (Sl 109,1). Ele é a Palavra que compreende a vontade do Pai e produz todas as coisas por sua ordem, Palavra que desce e que sobe (Ef 4,10) …, Palavra que fala e que diz: “Eu digo o que vi junto de meu Pai” (Jo 8,38). Palavra plena de autoridade (Mc 1,27) e que rege tudo, porque “o Pai entregou tudo ao Filho” (Jo 3,35). * * * * * «Aumenta a nossa fé» (Lc 17, 5) Catequese baptismal 5 A palavra “fé”, sendo um só vocábulo, tem um duplo significado. Com efeito, há um aspecto da fé que diz respeito aos dogmas; trata-se do assentimento a determinada verdade. Este aspecto da fé é proveitoso para a alma, conforme diz o Senhor: “Quem ouve a Minha palavra e acredita Naquele que Me enviou tem a vida eterna” (Jo 5, 24) Mas há um segundo aspecto da fé: a fé que nos é dada por Cristo como carisma, graciosamente, como dom espiritual. “A um, o Espírito dá uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom de curas, nesse único Espírito” (1Co 12, 8-9). Esta fé que nos é dada como graça pelo Espírito Santo não é, pois, apenas a fé dogmática, antes tem o poder de realizar aquilo que está para além das forças humanas. Quem possui esta fé, dirá a uma montanha: “Tira-te daí” e ela tirar-se-á. Porque, quando alguém pronunciar esta palavra com fé, “sem vacilar em seu coração, mas acreditan do que o que diz se vai realizar” (Mc 11, 23), recebe a graça da sua realização. É acerca dessa fé que se diz: “Se tivésseis uma fé do tamanho de um grão de mostarda”. Com efeito, o grão de mostarda é minúsculo, mas encerra uma energia imensa; semente minúscula, desenvolve-se a ponto de estender ramos compridos e de poder mesmo abrigar as aves do céu (cf. Mt 13, 32). Assim também a fé realiza na alma as maiores façanhas num piscar de olhos. Quando se encontra iluminada pela fé, a alma representa Deus e contempla-O, na medida do possível. Abarca os limites do universo e, antes do final dos tempos, avista já o juízo e o cumprimento das promessas. * * * * * Catequese baptismal 13 Um dos ladrões crucificados com Jesus gritava: “Lembra-te de mim, Senhor! Para Ti que me volto neste momento. Não Te falo das minhas obras, porque elas me fazem tremer. Qualquer homem tem boas disposições relativamente aos seus companheiros de viagem; eis-me aqui, Teu companheiro de viagem para a morte. Lembra-Te de mim, teu companheiro de viagem, não apenas agora, mas quando chegares ao Teu Reino” (Lc 24, 42). Que poder te iluminou, ó bom ladrão? Quem te ensinou a assim adorar Aquele que foi desprezado e crucificado contigo? Ó Luz eterna, que iluminas aqueles que se encontram nas trevas (Lc 1, 79)! “Tem coragem! Em verdade te digo, que hoje estarás comigo no paraíso, porque hoje ouviste a Minha voz e não endureceste o coração” (Sl 94, 8). Por ter desobedecido, Adão foi rapidamente expulso do jardim do paraíso. Tu, que hoje obedeceste à fé, serás salvo. Para Adão, a árvore foi ocasião de queda; a ti, a árvore far-te-á entrar no paraíso. Ó graça imensa e inexprim ível: ainda Abraão, o fiel por excelência, não tinha entrado, quando o ladrão entrou. Espantado com o facto, Paulo comenta: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rom 5, 20). Aqueles que haviam penado todo o dia ainda não tinham entrado no reino e ele, o homem da décima primeira hora, é admitido sem tardar. Que ninguém murmure contra o Mestre: “A ninguém faço injustiça; não terei o poder de fazer o que quero em Minha casa?” O ladrão quer ser justo, Eu contento-me com a sua fé. Eu, o Pastor, encontrei a ovelha perdida e pu-la aos ombros (Lc 15, 5), porque ela Me disse: “Errei, mas recorda-Te de mim, Senhor, quando entrares no Teu reino. * * * * * Catequeses baptismais, 22 Quando o próprio Cristo diz a propósito do pão: “Isto é o meu corpo”, quem poderia hesitar? E quando afirma: “Isto é o meu sangue”, quem poderia duvidar? De outra vez, em Caná da Galileia, Jesus tinha transformado a água em vinho – o vinho, irmão do sangue. Quem é que agora se recusaria a acreditar quando ele transforma o vinho em sangue? Convidado para um casamento humano, Ele operou aquele milagre espantoso; com mais razão, como recusar reconhecer que Ele conceda “aos companheiros do esposo” (Mt 9,15) a alegria do seu Corpo e do seu Sangue? Porque o Seu corpo é-te dado sob a aparência de pão e o Seu sangue sob a aparência de vinho a fim de que, tendo participado do corpo e do sangue de Cristo, sejas com Ele um mesmo corpo e um mesmo sangue. Desta forma, tornamo-nos “portadores de Cristo” (“cristóforos”). O Seu corpo e o Seu sangue penetram nos nossos membros; eis como nos tornamos participantes da natureza divina. Outrora, conversando com os Judeus, Cristo dizia: “Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis a Vida em vós” (Jo 6,54). Se o pão e o vinho te parecem puramente naturais, não te atardes nisso… Se os teus sentidos te afastam do verdadeiro caminho, que a tua fé te conforte. Por isso, quando te aproximares para o receber, não avances sem respeito, estendendo as palmas das mãos, com os dedos afastados. Mas, uma vez que na tua mão direita vai repousar o teu Rei, faz-lhe um trono com a mão esquerda e no côncavo da tua direita recebe o Corpo de Cristo e responde: Amem! * * * * * «Os dois adventos de Cristo» Catequese batismal, 15, Anunciamos o advento de Cristo. Não, porém, um só, mas também o segundo, muito mais glorioso que o primeiro. Aquele revestiu um aspecto de sofrimento; este trará consigo o diadema do reino divino. No seu primeiro advento, foi envolvido em faixas e deitado num presépio; no segundo, será revestido com um manto de luz. No primeiro, suportou a cruz, sem recusar a sua ignomínia; no segundo aparecerá glorioso, escoltado pela multidão dos Anjos. Não nos detemos, portanto, a meditar só no primeiro advento, mas vivemos na esperança do segundo. Assim como aclamamos no primeiro: «Bendito O que vem em nome do Senhor» (Mt 21,9), exclamaremos também no segundo, saindo ao encontro do Senhor juntamente com os Anjos, em atitude de adoração: «Bendito O que vem em nome do Senhor». Virá o Salvador, não para ser novamente julgado, mas para chamar a juízo aqueles que O julgaram. Naquele tempo, veio para cumprir o desígnio de amor misericordioso, ensinando e persuadindo os homens com suavidade; no fim dos tempos, queiram ou não, todos se hão de submeter ao seu reinado. Mais sobre São Cirilo de Jerusalém em SOPHIA...
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