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Paroles du Mont Athos

JEAN-YVES LELOUP

Conteúdo:

1. Prefácio

— 1.1 - Seguir o Cristo

— 1.2 - A oração do coração

— 1.3 - O coração e o corpo

— 1.4 - O deserto

— 1.5 - Compaixão

— 1.6 - O Athos

— 1.7 - Palavras de monges

2. Introdução

3. Padre Dionísio - Mosteiro de Simonos Petra

— 3.1 - O que é um monge?

— 3.2 - Como se tornar monge?

— 3.3 - Como orar sem cessar?

— 3.4 - O que acontece quando se ora sem cessar?

— 3.5 - Como orar por todos os homens?

— 3.6 - Como amar seu inimigos?

— 3.7 - O que é a experiência do Espírito Santo?

— 3.8 - É a Hesyquia que conduz à apatheia?

— 3.9 - Mas quem conhece este estado?

— 3.10 - Os santos ocupam um grande lugar em vossa vida?

— 3.11 - Como discernir a vontade de Deus?

— 3.12 - Sobre o monge e o fim da vida monástica

— 3.13 - O monge é um cristão

— 3.14 - Nós seremos deificados

— 3.15 - Permanecei no meu amor

— 3.16 - Na Fé

— 3.17 - Encontrar a unidade

— 3.18 - A verdadeira esperança

— 3.19 - A Igreja, lugar do amor e da fé

4. Sobre a Oração

— 4.1 - Orar com um coração puro

— 4.2 - Orar sem cessar

— 4.3 - A oração é a arte de amar

— 4.4 - Silêncio do Amor

— 4.5 - Técnicas de oração?

— 4.6 - A luta interior e o discernimento

1. Prefácio

Por: fr. Jean-René Bouchet, OP

ean-Yves Leloup foi ao Monte Athos muitas vezes. Ele não procurou visitar museus, para descobrir belos e velhos ícones, para fotografar veneráveis manuscritos. Ele levava no coração a pergunta que pôs tantos homens e mulheres a caminho dos grandes mosteiros da Antigüidade cristã. "Como serei salvo? Que preciso fazer para ser salvo?"

Entendamo-nos bem. Não se trata da busca da salvação, ilustrada por uma literatura espiritual barata posta em música no famoso cântico: "Como só tenho uma alma". Aquele que interroga como ser salvo, retoma por sua vez a pergunta dos judeus, após a pregação de Pedro, no dia de Pentecostes. Verdadeiramente Jesus é o Messias, o Senhor, o Salvador, o Ressuscitado, o Vivo. Como ir a ele, como acolhê-lo, viver dele? Como fazer de todo o nosso ser, espírito, alma e corpo, uma confissão alegre de seu domínio e do dom do Espírito?

1.1 - Seguir o Cristo

Os monges têm sido - e são homens que esta interrogação penetrou fundo, que consentiram se engajar nesta aventura, e fazer dela o eixo de sua existência. Muitas vezes se os imagina como homens mobilizados, em prioridade, pela liturgia, o trabalho manual, a erudição ou a separação do mundo. Estas visões são muito curtas.

A vida do monge, a obra de Deus (Opus Dei) é de início, esta resposta a um apelo de Cristo percebido à luz do Espírito. "Se queres ser perfeito", isto é: "Se queres ser salvo, se queres ter a vida, a saúde, a cura, a luz, vem, segue-me". Cassiano para narrar a aventura de Antão, o pai dos monges, não utilizará outros termos: "Antão seguiu o Cristo", do mesmo modo este apotegma: "Que é preciso fazer para ser salvo? "Um antigo respondeu: segue Jesus".

1.2 - A oração do coração

Seguir o Cristo, é de início, abrir-lhe as portas de nosso coração: "Que é preciso fazer para ser salvo?" Um Ancião respondeu: "Tem um coração e serás salvo". O coração, para a grande tradição monástica, como para a Bíblia, é em primeiro lugar o homem em suas raízes mais profundas, neste lugar onde ele pode dizer sem mentiras eu e sim, mas também tu. É o lugar onde o homem se revela, separado, pode enfim "habitar consigo mesmo", reconhecer o Senhor e orar em verdade. "Entra em teu coração e vê o que experimentas lá e que tu és a imagem de Deus" (Sto. Agostinho). O monge deve, em primeiro lugar reconhecer que ele tem um coração duplo, senão múltiplo, um coração petrificado; ele deve então reuni-lo na paz e com a lembrança do Senhor, amolecê-lo e quebrá-lo no arrependimento até que ele se torne um coração de carne, trabalhando pela palavra de Deus, irrigado e semeado pelo Espírito. Então deste "âmago"(Tauler) brota o louvor, então a vida comum que o monge leva, com seus irmãos, se torna concórdia, unidade dos corações, então a freqüência da palavra não é mais somente leitura e estudo, mas recordatio, meditação do coração, a liturgia que ele celebra se desenrola também no altar de seu coração.

Para falar do que se chama noutro lugar, a oração secreta, os antigos monges gostavam da expressão oração do coração. Trata-se, efetivamente, deste canto, ou deste grito, ou deste silêncio, quem se eleva do coração quando o Espírito o purifica, aquece e ilumina. O segredo da "oração de Jesus" está aí. Quando se a desenraiza da terra que a faz nascer, arrisca-se de não mais ver nela, senão uma destas múltiplas técnicas de recolhimento que os historiadores da religiões conhecem. Ora, ela é infinitamente mais do que isto. Ela é o grito do coração daquele que reconheceu em Jesus seu Senhor e que, incansavelmente o chama, confessa, celebra, escuta, espera, chora, suplica ou se rejubila diante de sua face. A obra do coração que a oração de Jesus exprime, invade, pouco a pouco, toda a existência daquele que a ela se entrega, ela lhe abre um caminho que não tem fim nesta terra: trata-se, efetivamente, de ir sempre de altura em altura, de começo em começo, de claridade em claridade.

1.3 - O coração e o corpo

O que os antigos monges sabiam também e muito bem, é que o coração e o corpo não são justapostos como se eles constituíssem dois cavalos de uma mesma parelha. Os dois juntos constituem a pessoa, eles estão em permanente interação. E, se às vezes, combatem um contra o outro, trata-se de reconciliá-los numa misteriosa preparação para a ressurreição do último dia, cujos penhores já nos foram dados.

É por esta razão que os monges se empenham a jamais deixarem o corpo fora da aventura da oração. Quer se trate da castidade, do jejum, da vigília, da participação física na liturgia, em tudo isto se manifesta a participação do corpo na busca de Deus. Que este elementos tenham sido vividos como uma performance, uma ginástica e, às vezes, mesmo uma repressão, infelizmente é bem verdade! Entretanto, a intuição original dos monges é infinitamente mais profunda. Enquanto deixamos o corpo fora da aventura espiritual, nós nos arriscamos de mentir a nós mesmos e a Deus. A vida no Espírito que é seguimento do Cristo, consiste então, na unificação profunda do homem, cujo espírito, "descendo ao coração", escuta Deus com humildade e deslumbramento, e do qual o coração irradia no corpo que ele transfigura pouco a pouco, através de uma "multidão de retornos"(Suso) e a experiência da misericórdia. Corpo e coração juntos velam diante do Vivo, assegurando que Ele é palavra que alimenta e o celebram como sua fonte, seu criador e sua felicidade. Um corpo perdido. Um coração perdido.

À esta luz, compreende-se melhor o aspecto paroxístico da aventura de certos monges. Estes vigias não são insones nem estes jejuadores são anoréxicos, mas eles não podem fazer gestos loucos que exprimam o desejo de seus corações e perderam seu sentido. É a origem de um farisaísmo polimorfo que tem sido sempre a tentação da vida monástica. Tem-se sempre encontrado monges tranqüilos e humildes para restabelecer o equilíbrio e mostrar o verdadeiro caminho. E este é o caminho de todo batizado.

Paradoxalmente, com efeito, e para o encontro de tanta igualdade e dos lugares comuns, dos quais alguns vêm do meio monástico, nada mais precioso na vida de um monge do que o que ele tem em comum com todos os batizados, a saber, o amor de Deus e do próximo. São Bernardo dizia com convicção: a humildade é maior que a virgindade e se a virgindade não é mais ordenada à humildade, ela arrisca a se tornar orgulho e secura do coração. Pode-se dizer outro tanto da pobreza, da obediência, do jejum e de tudo o que constitui a estrutura da vida monástica.

Tudo isto é ordenado à edificação do homem novo no amor. Quando estes elementos perdem sua orientação profunda, são pervertidos, desviados. É esta a cólera dos grandes monges contra aqueles que se justificam por suas práticas e por suas observâncias, contra aqueles que crêem, no fundo, que suas práticas lhes dão um lugar privilegiado à mesa do Senhor. Não se põe a mão em Deus, mesmo quando se é monge.

1.4 - O deserto

Esta aventura tem, muitas vezes, conduzido os monges longe das cidades, no deserto, onde, na solidão e no silêncio eles encontram um clima de paz para a oração e a guarda do coração. Lembremo-nos de Antão que, em cada etapa de sua existência, "esquecendo o caminho percorrido", se mergulha sempre mais no deserto. Pensemos também no deserto da Cartuxa, no do Monte Athos, no deserto de Optino na Rússia, nos lugares afastados onde os filhos de São Bento foram habitar. Outros monges têm vivido a aventura no coração das cidades ou perto delas, no Oriente, na Rússia, no Ocidente: Simeão, o Novo Teólogo viveu em Constantinopla, São Sérgio perto de Moscou, Santo Ephrém, o sírio em Nísibe, Santa Teresa de Ávila instalou seus Carmelos nas cidades da Espanha. Num como no outro, há uma procura de paz, de silêncio e de solidão tão verdadeira, tão intensa, tão diferentes quantas sejam as modalidades.

Ser amor pelo retiro, entretanto, jamais impediu os monges de receber aqueles que vinham procurar os seus conselhos ou participar de sua oração. Atenção! Eles afastam facilmente os curiosos, fossem eles bispos: lembremo-nos do Abba Arsênio aconselhando a Teófilo, arcebispo muito venerado de Alexandria, que viera visitá-lo, ir ver outros lugares porque ele aí não estava. Mas, quando se trata de uma verdadeira dor, de uma busca autêntica, então as portas se abrem, o acolhimento é caloroso e cordial.

O monge que abre sua porta não trai o apelo que o conduziu ao deserto. Melhor, ele exprime assim um dos aspectos fundamentais da aventura que ele vive. São Macário, um dos grandes espirituais do IV século, o explica nestes termos: "Aqueles que foram julgados dignos de se tornarem Filhos de Deus e de nascer do alto, do Espírito Santo, aconteceu-lhes chorar e se afligir por todo o gênero humano, implorando a Deus por toda descendência de Adão. Se eles sofrem e choram, é porque estão abrasados de amor espiritual por toda a humanidade. Depois, de novo, o Espírito suscita neles uma tal alegria e um tal élan de caridade, que eles queriam se fosse possível, encerrar em seus corações todos os homens, sem distinguir os maus dos bons". Eis porque o esquivo solitário sabe acolher e consolar com calor: o Cristo que ele encontrou no segredo do deserto semeou em seu coração este desejo de que todos os homens sejam salvos, desejo que os levou a se fazer homem para a nossa salvação. Assim o coração purificado pelo Espírito transborda de misericórdia para com toda a criação (Santo Isaac).

É assim que os mosteiros se tornaram rapidamente, lugares de peregrinação. Alguns monges famosos, tiveram de se proteger contra a invasão dos questionadores, mas eles não os despediram. Que se pense, por exemplo, nestes grandes conselheiros espirituais que foram, no VI século, Barsanúfio e João de Gaza comunicando-se com seus visitantes por bilhetes que foram conservados e que testemunham um admirável discernimento.

1.5 - Compaixão

O monge dá um conselho, simples, adequado; ele não dá uma bíblia àquele que lhe pede pão, como este monge russo do último século, que soube se interessar pelos peruzinhos cujo futuro preocupava uma pobre camponesa. Sucedeu também que ele fez participar um pouco de sua vida, um convidado seu. Quando no fim do último século, um leigo atormentado, Motovilov, foi interrogar Seraphim de Sarov sobre a vida cristã, o santo monge não lhe deu um curso de espiritualidade; ele rezou e a compaixão que manava de seu coração refletiu como luz e envolveu logo o seu ouvinte com seus raios.

A vida cristã, diz em substância Seraphim, é a aquisição do Espírito Santo, isto é, porque estamos animados a viver juntos. Motovilov goza de uma paz e uma alegria que invade seu coração e alista-o nos caminhos do Evangelho. Tantos monges que não souberam falar da oração, iletrados e taciturnos que eram, souberam assim comunicar efetivamente, a luz e o ardor do Espírito que habitava neles.

Parece que no Ocidente, para resguardar a clausura e a separação do mundo, também, tem-se desenvolvido a prática da direção espiritual pelos cleros regulares e seculares, e o costume de ir consultar os santos monges experimentados, perdeu sua importância. Então se as paredes dos mosteiros pudessem falar, elas nos revelariam maravilhosos segredos. Entretanto no último século, as multidões vão a Ars, elas encontram este reflexo que levava outrora as multidões aos mosteiros fervorosos; um clarividente, um homem de Deus. As respostas do Cura d'Ars são, aliás, da mesma linha dos padres do deserto.

No Oriente, principalmente na Ortodoxia, o costume de ir procurar os monges para pedir uma palavra, tem-se mantido largamente. Na Rússia e nos demais países soviéticos, fica-se admirado com as multidões que continuam freqüentando os mosteiros abertos, assim como com a disponibilidade e compaixão dos monges, apesar de ciosamente apegados ao silêncio e à solidão. O mosteiro da Trindade São Sérgio, em Zagorsk, permanece ainda um lugar de oração, mas também de consolação, de compaixão por todos os sofrimentos.

1.6 - O Athos

O Monte Athos, com seus milhares de monges, há mais de mil anos tem desempenhado este papel. Multidões de peregrinos, vindos de todo mundo ortodoxo, aí acorrem, rezam e se confessam, recebem conselhos, a menos que aí permaneçam, tal como aquele que devia tornar-se o staretz Silouane, cujos textos admiráveis foram traduzidos para o francês.

Atualmente, alguns mosteiros, cujos monges vieram dos países do Leste, estão quase vazios, no começo do século eles contavam com milhares de monges. Os mosteiros gregos, após uma diminuição de seus efetivos, vêem hoje as vocações afluírem. Qualquer que seja o número dos monges, os peregrinos continuam a afluir. Para eles, a hospedaria está aberta, a mesa arrumada. Certamente, quando se trata de um peregrino Católico Romano, o acolhimento é um pouco frio: o que ele vem procurar? Se está em busca da verdade porque não se torna Ortodoxo? Mas, estas reações desaparecem logo em proveito da hospitalidade monástica.

Algumas pessoas foram ao Monte Athos como peregrinos e voltaram decepcionados: verdade ou fábulas, eles narram fatos que se encontram ao longo da vida monástica. Não há fumaça sem fogo e sabemos que, já na Idade Média e na Antigüidade, os monges não eram poupados pelos satiristas ou os moralistas cristãos. Outros visitantes, ao contrário, voltaram da santa montanha com a impressão de haverem coabitados durante alguns dias com anjos.

E é de se exclamar diante de tal visão, do esplendor de tal Liturgia, da beleza extraordinária das paisagens. Críticos e apreciadores arriscam-se muito de se enganarem. Num e noutro caso, uma procura verdadeira de mudança do coração não estava na raiz da peregrinação.

1.7 - Palavras de monges

Jean-Yves Leloup parece bem ter ido lá para receber uma "palavra". O feixe que ele recolheu lá é tanto sinal da autenticidade de sua procura, como a dos monges que lhe responderam. Estas palavras soam claro e refrescam o coração. Ao lê-las e relê-las, vemos que elas não são uma conversação ecumênica no sentido clássico do termo, nem um encontro no cume, entre técnicos da busca de Deus.

Trata-se, hoje como no IV século no Egito, da conversa de um homem jovem que foi atraído pelo Cristo, com os anciãos que o precederam neste caminho. Estes anciãos não lhe deram conselhos magistrais do alto de sua sabedoria, nem lhe estenderam a mão de uma margem a qual eles já chegaram. Humildemente, com doçura e ternura, eles falam do caminho, de sua beleza, de sua aspereza, de seus perigos. Não há mais Oriente ou Ocidente, mas um caminho sobre o qual os homens estão engajados. Estes homens falam deste Jesus que queimou seus corações e o Senhor mesmo anda ao lado deles. É questão de oração, do pai espiritual, do discernimento, dos jejuns e das vigílias e de tantos outros elementos do caminho para Deus que são atuais há dois mil anos.

Estas palavras, foram publicadas na Vie Spirituelle, e tem sido a alegria e o alimento de muitos leitores em busca de Deus. Eis porque tivemos a idéia de reuni-las num volume. Tais quais, elas são simples e modestas, mas seu gosto da água da fonte não engana. Possam elas continuar a ajudar àqueles, leigos ou monges, que querem voltar ao seu coração, aí escutar o Evangelho de sorte que nele brote a verdadeira oração e que ele fique cheio de "vida espiritual" (Santo Isaac).

Esta páginas são o testemunho de uma tradição secular que não se acomoda com fáceis ajustes ao gosto do dia. Aquele que as recolheu é um homem bem de seu tempo, bom conhecedor das tradições extremo-orientais e ao mesmo tempo cuidadoso em honrar, em seu justo valor, o ensinamento e a prática dos cristãos espirituais.

Não se trata de uma reportagem, nem de um estudo técnico, mas destas conversas das quais os antigos monges tinham o gosto e das quais São João Cassiano, no IVº século, deu um bom eco em suas Conferências.

2. Introdução

É difícil falar do Monte Athos. É preciso resistir a duas tentações: a de fazer um ícone, de ver em toda parte, rolar a luz divina e de canonizar, sob pretexto da tradição, as atitudes mais supersticiosas e as mais aberrantes; a de fazer dele uma caricatura e de falar do Monte Athos como falam os jornais que só vê em sua simonia, sua homossexualidade e "a miséria das quais se cercam os bem-aventuras". Talvez fosse preciso encontrar entre a arte do ícone e a da caricatura, a arte do retrato.

Estas "palavras" dos monges são um ensaio de síntese de numerosas conversas que pude ter com eles na Santa Montanha, mais particularmente com os hiegoumenos de Stavronikita, Simonos Petra e Panteleímon, o monge Crisóstomo da skete de Xenofontes e um "Ancião" cujo nome não sei mais - ele vivia nas redondezas de Sant'Ana.

A palavra não está somente na boca daquele que fala, ela está somente no ouvido daquele que escuta, e minha memória não é a dos gravadores. Não se encontrará então aqui, a re-transcrição literal de nossas conversas, mas antes o fruto amadurecido que estas palavras puderam despertar em mim.

Minhas perguntas foram sempre as mesmas:

  • O que é um monge?
  • Qual é a finalidade da vida monástica?
  • Quais são os meios para realizar esta finalidade?
  • O jejum?
  • As vigílias?
  • A obediência?
  • O silêncio?
  • A pobreza?
  • O que é a Hesyquia, a apatheia?
  • O que é a experiência da graça?
  • Como adquirir o Espírito Santo?
  • O que é a oração?
  • A oração do coração?
  • Como orar sem cessar?
  • Como conhecer a vontade de Deus?
  • Como discernir os pensamentos?
  • Qual é o papel do pai espiritual?
  • Como orar por todos os homens?
  • O que é o amor dos inimigos?

Após haver narrado uma conversa com o Padre Dioniso, responsável pêlos hóspedes, a Simonos Petra, eu reuni em pequenos capítulos as diferentes respostas que me foram dadas sobre cada um destes temas.

As referências implícitas à Escritura, aos Apoftegmas e aos Padres da Igreja, fazem destas "palavras" um eco vivo na Tradição. Os monges que eu encontrei pareciam, de fato, mais preocupados em "transmitir o que eles mesmos haviam recebido" de seus Pais, que de dividir uma experiência pessoal.

Há um risco nisto: é de receber respostas formais, descrevendo uma vida monástica ideal, sem grande relação com que é atualmente vivido. Estas palavras sucumbiriam então ao que eu chamei a tentação do ícone. Mas o ícone orienta o retrato, como o Bem e o Belo orientam nossa liberdade. Ela é a verdadeira face do homem, mas esta verdadeira face está ainda por nascer.

Nestas palavras, há um eco do homem recém-nascido, do homem transformado pelo Espírito de Deus e há um eco das dores do parto, um eco do dilacerado entre suas vontades. É preciso ouvir rir é preciso ouvir gritar. É o canto e é o barulho de nosso próprio coração.

3. Padre Dionísio - Mosteiro de Simonos Petra

3.1 - O que é um monge?

É alguém que quer seguir o Cristo até o fim. Cada dia ele se deixa conduzir pelo Espírito Santo e sua obediência se torna semelhante ao Cristo obediente. Ele é um recém-nascido, uma criança voltada para o Pai, um homem na Trindade.

3.2 - Como se tornar monge?

Renunciando a si mesmo. É preciso que o grão seja escondido na terra para que dê fruto. É preciso jejuar, vigiar, guardar-se puro, adquirir humildade, orar sem cessar.

3.3 - Como orar sem cessar?

É um dom de Deus, é preciso pedir-lhe. "Se vós que sois maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celeste dará o Espírito àqueles que lhe pedem". 'É preciso pedir à Mãe de Deus e aos santos para interceder por nós.

3.4 - O que acontece quando se ora sem cessar?

"Não sou eu que vivo, é o Cristo que vive em mim". A respiração de Jesus em nós, é o Espírito Santo que diz: "Abba" e que reza por todos os homens.

3.5 - Como orar por todos os homens?

Orar por todos os homens, mesmo pelos inimigos, é o amor mesmo de Deus em nosso coração, é o fruto da oração. É preciso cantar os ofícios, ler os salmos, meditar os Evangelhos, dizer se cessar: "Senhor Jesus, tende piedade". O coração purificado, ele se torna humilde e pode então orar por todos os homens, pelos pecadores. Ele pode derramar lágrimas e dar seu sangue.

3.6 - Como amar seu inimigos?

Primeiramente, quem são nossos inimigos?

O monge não tem outros inimigos a não ser os demônios. Orar pelos demônios, isto nos é impossível; nós devemos combatê-los pelo amor. É preciso ser crucificado com Jesus. Nós descemos com ele aos infernos. Um coração puro, um coração de criança só pode triunfar das potências tenebrosas. É preciso que não haja mais ódio, mais mentira no coração, ele deve ser o trono da luz e do amor. Eis o que somos: o trono de Deus, os templos do Espírito Santo. Se somos isto, então nós amamos nossos inimigos. Mas, muitas vezes, há outra coisa além de Deus em nós. Nós não somos humildes e o amor não pode mais viver em nós. E, em lugar de orar, nós julgamos os outros, nos tornamos presas de nossos pensamentos.

3.7 - O que é a experiência do Espírito Santo?

É o silêncio em nosso coração, nosso espírito, nosso corpo. Aquele que jamais faz a sua vontade própria permanece em silêncio diante de Deus. Ele se afasta em seu corpo, seu espírito e seu coração, diante de Deus. Este homem pode então caminhar na cidade e viver no meio do barulho: ele está sempre diante de Deus. Mas isto é muito raro. É preciso começar pelo silêncio, longe do mundo, longe de todos os cuidados e gozar, de início, o quanto o Senhor é Bom.

Aquele que não sabe calar-se diante de deus em sua cela, como poderá ouvi-lo nas praças da cidade? Muitos monges não conhecem nem mesmo a Hesyquia em sua cela, eles são muito faladores, afastam-se em suas lembranças e em sua imaginações; preocupam-se de todos os modos com o dia de amanhã, o que é contrário ao mandamento do Senhor: "Parai e conhecei que Eu Sou Deus".

3.8 - É a Hesyquia que conduz à apatheia?

Sim. A apatheia, é o fim. Então o homem é como Deus. Não há mais nele maus pensamentos, ele não é mais escravo das paixão, ele se tornou amor, sem emoções, sem desejo: Ele é. Sua oração então é verdadeiramente eficaz porque ele reza com o próprio coração de Deus que criou e salvou o mundo.

3.9 - Mas quem conhece este estado?

Se não houvesse o testemunho dos santos, nós desesperaríamos de conhecer este estado bem-aventurado prometido por Cristo.

3.10 - Os santos ocupam um grande lugar em vossa vida?

Sim; a Mãe de Deus, todos os santos. Eles nos são mais próximos que nossos vizinhos, do nossos companheiros de trabalho; eles são verdadeiros vivos. Gregório Palamas, está no coração de meu coração, ele é o dom que Monte Athos fez a Deus. 3.11 - Como discernir a vontade de Deus?

3.11 - Como discernir a vontade de Deus?

Se um pensamento vem de Deus, ele é uma luz no coração, ele nos torna mais humildes e nos faz progredir no amor. Se, este pensamento, ao contrário, nos torna satisfeitos conosco mesmo e nos leva as julgar os outros, isto nos vem do inimigo.

Se há uma grande paz em ti e um amor por todos os homens, o Espírito Santo habita em ti. O inimigo detesta a hesyquia; também não te admires se esta paz te chega no meio das tribulações e das dificuldades. Mas então é que compreenderás a palavra de São Paulo: "Quem nos separará do amor de Cristo?"

O Cristo disse que Ele não tinha uma pedra onde repousar sua cabeça. Será que o Monte Athos não pode ser um lugar onde o monge repouse sua cabeça? Para mim, o Monte Athos é como uma girândola, um elevador. Eu não me detenho no elevador; eu estou aqui apenas para ir ao céu. Eu não durmo no elevador, eu me lembro Daquele que me espera à porta.

3.12 - Sobre o monge e o fim da vida monástica

"Do momento em que ressuscitastes com o Cristo, procurai as coisas do alto, lá onde se encontra o Cristo, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, não nas da terra. Pois estais mortos, e vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando o Cristo aparecer, ele que é vossa vida, então vós aparecereis com Ele cheios de glória"(Col 3, l-4)

São Paulo descreve bem aí o paradoxo de nossa condição. Nós estamos mortos, nós não existimos mais para o mundo, nosso homem velho foi crucificado, renunciamos aos desejos, ao orgulho, ao ódio e nos tornamos pouco a pouco participantes da vida daquele que ressuscitou. Vivamos com Ele voltados para o Pai no Espírito Santo. Tal é a vida do cristão e do monge.

3.13 - O monge é um cristão

O monge é um cristão que quer viver ao máximo as exigências de seu batismo. Como todos os cristãos, ele deve tornar-se um outro Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiro homem. É o Espírito Santo, o Reino de Deus, que é objeto de nosso desejo. Todos nós temos que nos deixar transformar por ele para sermos recriados à imagem e semelhança de Deus.

Somos todos pecadores chamados a se tornarem santos. Todos fomos tirados do nada para participar da vida d'Aquele que É. O monge mais que os outros, é consciente do caminho que o conduzirá das trevas à luz, e este caminho é Jesus Cristo.

O monge só tem um desejo, renunciar a si mesmo e seguir Jesus Cristo onde quer que Ele vá... e Ele vai para o Pai. Ele vai para a ressurreição através do sofrimento, da morte, do abandono da cruz. Mas nós não temos medo porque o Espírito Santo, desde Pentecostes, está conosco. Ele nos dá a força e a humildade de Jesus, e o amor que Ele derrama em nossos corações nos cumula de alegria, mesmo se, às vezes, é preciso sofrer muito e atravessar todas as espécies de tribulação.

Se aprende marcenaria, é para se tornar marceneiro. Se tu estudas o Evangelho e não o colocas em prática, para quê? Se aprende marcenaria não é para se tornar ferreiro. Se estudas o Evangelho, a Bíblia, a vida dos santos, não é para viver como o mundo, mas para viver como o Cristo.

Nosso pai São Basílio tem ainda uma outra imagem: "Quando um ferreiro deve fazer um machado, ele pensa primeiro naquele que lhe confiou a execução e conserva presente sua execução no espírito. reflete me seguida no tamanho e na forma do objeto e executa seu trabalho segundo a vontade daquele que lho encomendou, pois, se ele perde de vista tudo isto, fará outra coisa do que se lhe ordenou ou fará diferente.

Acontece o mesmo com o cristão, quando ele orienta toda a sua atividade, qualquer que ela seja, para o cumprimento da vontade de Deus, para o nosso fim, igual para todos, que é a divinização. Fazendo todos os seus atos com perfeição, ele permanece fiel ao pensamento daquele que ordena; ele realiza estas palavras: "Tenho sempre o Senhor diante de mim, pois ele está à minha direita a fim de que eu não seja abalado"(Sl 16,8) e ele observa o preceito: "Quer comais, quer bebais, fazei tudo para a glória de Deus"(I Cor 10, 31).

3.14 - Nós seremos deificados

Somos hóspedes de passagem, "nossa vida está nos céus"(Fl 3, 20), então como podes tu cuidar das coisa da terra e ter preocupações mundanas? Onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração - "Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, sua irmãs e seus irmãos, sua própria vida, ele não pode ser meu discípulo"(Lc 14, 26). O Cristo não quer que paremos no caminho de passagem, ele não quer que nos tornemos escravos do que quer que seja e ele quer que estejamos livres das afeições mais profundas e as mais legítimas, para um amor maior.

Que pode haver de maior: somos chamados a nos tornarmos Deus? A nos tornarmos pela graça o que Ele é por natureza? A divinização do homem, é o fim. "Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus".

O fim da vida monástica é tornar coração puro, dócil à vontade de Deus: aí está a vontade dos filhos de Deus. Enquanto estivermos no pecado, não somos livres. é preciso renunciar em nós a tudo o que é divino e seremos homens. Rejeitar a mentira, a hipocrisia, o orgulho, o ódio. Deixa viver em ti o Espírito de Jesus e encontrarás a verdadeira identidade.

É na observância dos mandamentos do Senhor que se encontra o fim de nossa vida. "Amar a Deus, amar nosso próximo". Se vivemos isto de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso espírito, seremos deificados, seremos semelhantes ao Cristo. Deus é amor, Deus é Luz. O homem criado à sua imagem deve tornar-se todo inteiro amor, todo inteiro luz.

Os sacramentos nos comunicam a vida de Deus e as obras da vida monástica não têm outro fim do que nos tornar sempre mais acolhedores do dom de Deus. O monge deve deixar tudo o que não é amor, tudo o que não é luz. Isto é renunciar ao mundo. Que não haja mais em nós lugar para a vaidade, a ambição, o ciúme e Satanás não terá mais trono, não terá mais lugar em nós para estender seu reino.

A regra do monge é o Sermão da Montanha. O espírito Santo nos dispõe a vivermos as bem-aventuranças. Procurar viver estas bem-aventuranças, é tornar, pouco a pouco a forma de Deus e a forma do Servidor, é tornar-se uma outra face do Filho no qual o Pai põe toda sua complacência.

3.15 - Permanecei no meu amor

"Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". Adquirir a doçura e a humildade do Cristo, tal é nosso fim. A doçura e a humildade nos conduzem ao coração do Cristo na Trindade. Aí está a ciência divina que Ele nos veio ensinar. O monge esquece todas as outras ciências para adquirir esta. É assim que ele espera adquirir a sabedoria de seu Mestre.

O que quer que tu faças, não, esqueças que estás na presença de Deus. Examina teus pensamentos, vigia tuas ações. É preciso pensar com Ele, caminhar com Ele, amar com Ele. O monge é aquele que jamais está sem Deus. Seu coração é habitado pelo Nome de Jesus e ele procura realizar o mandamento: "Permanecei no meu amor".

Tudo o que se faz sem amor não serve para nada. Podes jejuar, fazer vigílias, usar cilício; se não tens em ti o amor de Deus, isto não serve para nada. Não é assim que receberás a herança e te tornarás filho de Deus. Se não deixastes o mundo e sua potências por amor de Deus, deixastes tudo mas nada encontraste. Para que? É preciso primeiro dar teu coração, deixar a ti mesmo e terás recebido O Espírito Santo.

3.16 - Na Fé

Todos os trabalhos da vida monástica não têm outro escopo do que nos divinizar.

Como adquirir a humildade e o amor de Cristo? Este é o problema que o jovem que entra em nosso mosteiro terá para resolver durante toda a sua vida. O que nos diviniza antes de tudo é a fé, a esperança e a caridade.

A fé cura a nossa inteligência; ela lhe revela o Ser que ela procura nas coisas fragmentárias. A fé é a visão do Criador; e, eis-nos livres da fascinação das criaturas. A fé nos ensina a pensar a pensar como Deus, a ver todas as coisas em sua luz. Ela diviniza, verdadeiramente nossa inteligência.

"Aquele que crê tem a vida eterna", diz o Senhor. Aquele que crê no amor de Deus, como sua visão do mundo e de si-mesmo não mudaria? Na fé, tudo lhe aparece transfigurado, tudo é sinal de sua presença, os acontecimentos dolorosos como os acontecimentos agradáveis. E é somente na fé que se pode perceber o sentido profundo, perceber o desígnio de Deus que, através da prova nos diviniza.

A fé nos prepara para a feliz visão de Deus, mas já, desde aqui em baixo, ela nos abre o céu e nele podemos louvar o Pai, o Filho e o Espírito Santo e confessar Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

"Lembra-te de Jesus Cristo ressuscitado". O monge não se lembra nem de sua família, nem do mundo, nem de seu passado. Ele não lembra senão do Senhor. Ele estava morto. Ele ressuscitou. O monge não procura realizar um equilíbrio psicossomático segundo uma sabedoria humana. Ele não aprendeu também a encarar a morte como Sócrates e os filósofos. Não, ele quer participar da vida daquele que venceu a morte. Ele quer participar da vida do Ressuscitado. O monge quer ser um ressuscitado com o Cristo e só pelo Espírito Santo ele pode participar da vida do Ressuscitado. Eis porque ele suplica sem cessar ao Pai conceder-lhe e conceder a todos os homens o que ele prometeu.

3.17 - Encontrar a unidade

O monge não procura se especializar no que quer que seja. No mosteiro ele terá que mudar muitas vezes, de ofício. Sua obra é a oração contínua. O que quer que ele faça, ele deve tudo "salgar" pela oração e tudo se lhe tornará caminho para o Pai, tanto o serviço no refeitório como a leitura em sua cela.

O monge procura em tudo a unidade, com os outros e em si mesmo. Seu coração, sua alma, seu espírito, suas pulsações, tudo deve ser unificado no amor de Deus. Aquele que cumpre o mandamento: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças" está curado de suas divisões internas; ele encontra a unidade à imagem de Deus Uno. Ele pode então torna-se um artesão de paz e pregar aos outros o desejo do Senhor: "Que todos sejam um".

Somos uma multidão de pessoas, trazemos sobre a nossa face uma multidão de máscaras. A vida monástica simplifica. Se ela não nos torna mais simples, é preciso fugir, porque não estaríamos mais consagrados a procura do único necessário. Todo nosso ser não estaria mais unificado, simplificado por ele.

Desde que haja em ti outros desejos a não ser o de Deus e o de seguí-los, segundo sua vontade, tu perdes a paz. A vida monástica nos liberta dos desejos. "Sem desejos sobre a terra", atingiremos a bem-aventurada hesyquia.

Conhece-se o Evangelho e os Padres da Igreja muito mais intelectualmente; não se pode compreender senão pela vida, pela experiência este Evangelho. Precisamos viver o que viveram os Apóstolos e os Padres. É preciso estar cheio do Espírito Santo com eles para compreender alguma coisa do cristianismo. A experiência cristã, é o seguimento do Cristo, viver sua morte e a sua ressurreição em nossa própria carne.

A humildade e a glória de Cristo, é o mesmo mistério e é toda a vida do monge. Pela humildade, adquirir o Espírito Santo; pela cruz, entrar na Ressurreição. É isto seguir o Cristo.

3.18 - A verdadeira esperança

O monge deve tomar cuidado para não retornar ao Egito e não ser como a porca da qual fala São Pedro: após haver se lavado, ela voltou ao seu vômito.

É uma grande graça quando o Senhor purifica nossa memória e que não nos lembramos mais de nossa vida passada, nem de nossos parentes nem de nossos amigos. Desde à mulher de Ló até esta palavra do Evangelho: "Infeliz daquele que olha para traz", Deus nos mostra que Ele caminha à nossa frente. É preciso somente nos lembrarmos de nosso pecado e de sua misericórdia, isto é, de sua cruz e de sua Ressurreição. Quantos monges, após numerosos anos de vida monástica, se deleitam ainda com as lembranças de sua juventude.

Que Deus purifique a nossa memória a fim de que estejamos totalmente voltados para Ele, e conheceremos a verdadeira esperança. Ela não procura apoio nem nos conhecimentos dos homens nem em suas amizades; a verdadeira esperança só conta com a misericórdia de Deus e, tu o sabes, não é senão pela misericórdia de Deus que seremos salvos.

3.19 - A Igreja, lugar do amor e da fé

Não há vida monástica fora da Igreja. A Igreja é o lugar da divinização do homem. Se queres fazer um só com Deus, não vás a outro lugar. O zen, a ioga, todas estas coisas só podem fortificar o velho homem em ti, mas não podem fazer nascer o homem novo. Hoje, toma-se muito o equilíbrio psíquico como norma de santidade. A graça não contradiz a natureza, é verdade, mas eu conheço homens cujo equilíbrio psíquico era duvidoso, e que tinham em si, um real desejo de Deus, um autêntico amor ao próximo.

A Igreja não é uma Igreja de Perfeitos, mas de homens que esperam a sua salvação, não de seus próprios esforços ou de suas técnicas miraculosas, mas da misericórdia de um Outro.

É o amor de Deus que nos salva e nos deifica. A Igreja é o lugar onde este amor nos é comunicado. Por que procurar em outra partes?

Mas os orgulhosos não amam a Igreja. É preciso ser humilde, é preciso ser criança para aceitar que Deus passa pelos sacramentos, por estes pobres sinais sensíveis, e pelos homens, estes pobres homens que, muitas vezes não estão à altura dos mistérios que eles celebram e da palavra que anunciam.

A Igreja, é a carne de Jesus Cristo, e os orgulhosos recusam sempre a Encarnação. Apenas o ladrão reconheceu neste homem crucificado ao seu lado, o Senhor da glória.

É preciso olhar a Igreja com os olhos da fé para discernir nela a comunicação do Espírito e o Reino que vem. Se o monge não tivesse o olhar da fé, ele seria como uma ateu que não vê nela senão pompas inúteis, hipocrisia e escândalos.

A Igreja, é também a Igreja dos santos. Os afrescos, a iconostase, estão ali para lembrar a sua presença. A Igreja do céu e a Igreja da terra não estão separadas. Há uma só Igreja. Quando o monge vê sua mediocridade e sua impotência, então ele olha para os santos e, com seu auxílio, ele não se desespera.

4. Sobre a Oração

«Para orar a Deus, tu não tens necessidade de nada: onde quer que tu estejas, onde quer que o invoques, ele te ouve. Ele não tem, efetivamente, ocupação alguma, nenhum intermediário, nenhum servo que venha se interpor entre nós. 'Dize: Tende piedade de mim!' E logo Deus estará aí.Ele não espera o fim de tua oração: tu recebes o dom antes mesmo de haver terminado de orar».  

São João Crisóstomo.

O primeiro mandamento é "Escuta, Israel", "O Senhor Teu Deus é o Único Senhor", "Escuta". Deus nos pede para escutar.

A oração, antes de ser uma palavra que vem de nós, deve ser uma escuta. Um médico psiquiatra me disse um dia: "Quando um doente começa a me escutar ou a escutar, verdadeiramente os outros, para recebê-los, para acolhê-los, então ele está curado". Se tu escutas Deus, se tu o acolhes verdadeiramente sua Palavra, se te prendes verdadeiramente à sua Palavra, então tu estás curado, estás salvo. Tu te tornastes uma Mão de Deus. Como Maria que "meditava todas estas coisas no coração".

«Ó Deus, dai-me um coração que escuta". A raiz do pecado, dizem também os Padres, é esquecimento de Deus, é a falta de atenção. "Escuta, sê atento", Deus está aí. E tu? "Adão, onde estás?"

4.1 - Orar com um coração puro

Perguntaram um dia ao Abade Agatão: "De todas as práticas, qual é a que pede mais trabalho?" Ele respondeu: "Perdoai-me, eu penso que não há maior trabalho do que orar a Deus. Desde que o homem quer orar, os demônios tenta impedi-lo; eles sabem, que não há maior obstáculo para eles do que a oração". Realmente, num coração que reza, como a mentira, a vaidade poderiam penetrar? O ódio não tem mais caminho para entrar no mundo e semear a guerra e a discórdia.

Se vendemos todos os nossos bens, foi para adquirir uma pérola preciosa. Se não nos casamos, se renunciamos às nossas riquezas e à nossa vontade própria, foi para adquirir a oração contínua. Se nos libertamos de todos os cuidados do mundo, foi para podermos orar a Deus com um coração puro. Assim, a oração deve ser a única ocupação do monge.

4.2 - Orar sem cessar

Para reduzir a nada toda tentação, não há nada melhor que o mandamento do Senhor: "Rezai sem cessar". Para reencontrar nossa liberdade de filho de Deus e nossa primitiva beleza à sua imagem e semelhança, nada melhor do que invocar sem cessar o seu Nome.

O que quer que façais, na Igreja, em vossa cela ou em vosso trabalho, fazei tudo para a glória de Deus, isto é, com um coração que ama e que reza. "Fecha a tua porta e reza ao Pai no segredo". Fecha a boca. Lembra-te de Jesus Cristo presente em teu coração, lembra-te de seu Espírito e que o amor te ensine a orar em verdade "Abba", Pai.

Se conheces o dom de Deus, quem é aquele que quer orar em ti... É preciso primeiro habituar teu corpo e teus lábios à oração. Tu podes permanecer de pé diante do ícone de Cristo e da Mãe de Deus, fazer as reverências e repetir em voz alta o Nome de Jesus, a invocação do cego e do publicano. A oração do coração é um dom de Deus, ela te será dada quando Deus quiser. Enquanto esperas, podes te dispor a receber o dom de Deus, oferecer-lhe teu corpo, teus lábios, teu pensamento, e Ele fará de ti o templo de seu Espírito.

A qualidade da oração não depende de nós. É obra de Deus. Mas a quantidade depende de nós. Podemos repetir o Nome de Jesus se nos cansar. Como a viúva importuna, é preciso orar sem cessar: "Tende piedade", e Deus nos fará misericórdia.

Para que os grandes discursos sobre a oração se tu não começas desde agora? Só se compreende a oração rezando. Não te preocupes de saber o que é a oração, mas "reza sem cessar". Quaisquer que sejas as palavras da oração, a liturgia, os salmos, a invocação do Santo Nome, que teu pensamento não se afaste.

Fica colado às palavras; "É vivo Aquele diante de quem tu te manténs". Vai a um lugar tranqüilo, assenta-te, dirige tua inteligência para o coração, para o que tu sentes ser o mais profundo de ti mesmo e coloca aí o Nome de Jesus. É difícil, mas se perseverares, Jesus virá verdadeiramente habitar em ti e então poderás voltar para o teu Pai e nosso Pai, sem pensamentos inúteis, e poderás ir para teus irmãos sem palavras vãs.

4.3 - A oração é a arte de amar

"Orar é dar o sangue de seu coração", dizia o Staretz Silouane. Somente aqueles que amam muito compreendem estas palavras. É bem assim que é preciso orar, porque é assim que Jesus rezou ao Pai antes de entrar em sua Paixão.

Moisés amou seu irmão até suplicar ser afastado do livro dos vivos no qual ele estava inscrito, se o povo não recebesse o perdão de sua falta (Ex 32, 32). Paulo desejou ser anátema pelo Cristo, por seus irmãos de raça. Olha os santos e vê que é no amor que estão as raízes da oração.

A arte de orar, esta arte de amar no qual nos fala o Evangelho, requer toda a nossa atenção, toda a nossa respiração. Assim, aquele que não tiver renunciado totalmente a si mesmo e a seus pequenos desejos não poderá ai chegar. Não é aprendendo a cobrir o instrumento que te tornarás um bom flautista. Se tu queres orar, não faças outra coisa: que teu coração esteja livre de toda ocupação.

A oração do coração "Senhor Jesus, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim", quer dizer: concedei-me, concedei a todos os homens vossa misericórdia. Senhor Jesus, enviei sobre mim o vosso Espírito Santo. Isto quer dizer também: "Vós estais aí. Eis-me aqui; que a vossa vontade seja feita, eu me abandonarei a vós".

4.4 - Silêncio do amor

A oração do coração nos conduz ao silêncio. O que se passa neste silêncio, é desnecessário falar, mas se tu não sais com mais amor pêlos irmãos e mais reconhecimento para com Deus, é um silêncio do diabo.

Se quiseres construir um templo, é preciso começar por cavar os fundamentos. O templo, é Deus quem constrói; cabe a ti cavar os fundamentos. Oferece-lhe muito de teu tempo, de teus lábios e de teu fôlego. É com isto que Ele cava em ti o lugar de seu repouso.

A repetição do Nome de Jesus, não é como a recitação contínua de um mantra hindu. Para ti, o fim é somente deter todo pensamento, é o encontro com Alguém.

O silêncio do hesycasta não encontra o vazio o que é a matriz do universo. O silêncio do hesycasta é o silêncio da Bem-Amada que contempla o Bem-Amado. Estas são ainda imagens, me dizes tu, e a realidade está além de todas as imagens. É verdade, mas está é a linguagem da Bíblia; aqueles que recusam, em geral recusam a revelação.

O Ser infinito, Eterno, Desconhecível, para Além de tudo, se revelou como Pessoal, e a experiência mística não é mais fusão, misto de onda e de oceano, mais amor incompreensível, união de libertos. Deus não destruiu o homem e o homem não se desagrega em Deus.

Os Padres tomam muitas vezes, a imagem de uma lâmina de ferro mergulhada no fogo. Pode-se dizer então que o ferro queima e que o fogo é cortante. Eles fazem um só, e, entretanto eles não se confundem quanto à sua natureza. Assim é a união do homem de Deus.

4.5 - Técnicas de oração?

Hoje, fala-se muito de técnicas de oração e se coloca o hesycasmo ou a oração do coração entre elas. Para abraçar qualquer uma, existe muitas técnicas, mas é melhor é, sem dúvida, esquecer toda técnica e amar verdadeiramente. É porque nos faltam a fé e amor, que temos necessidade de técnicas em nossas relações com Deus.

No hesycasmo, a parte técnica, à medida que progride, tende-se a esquecê-la. Para que repetir o nome de alguém se nós não o conhecemos e se não o amamos? O poder do Nome de Jesus não se fará sensível ao nosso coração, a não ser segundo nossa fé e nosso amor.

Do mesmo modo que não se deve esperar tudo de uma técnica de oração, não se deve também negar o seu valor. Nós não somos puros espíritos e já é obra da misericórdia de Deus, dar-nos os meios de nos unirmos a Ele. Para levar os alimentos à boca, tu podes servir de um garfo ou de teus dedos, mas tu não comes os teus dedos. como o garfo, eles são apenas instrumentos.

Assim, segundo o discernimento de teu pai espiritual, tu podes utilizar uma técnica de oração para levar o Nome de Jesus ao coração de teu ser, mas guarda-te de idolatrar esta técnica e de crer que ela seja eficaz em si mesma. A eficácia de um pincel, consiste em ser perfeitamente dócil e maleável nas mãos do artista, mas, por si mesmo, ele não é gênio algum para desenhar tua face.

4.6 - A luta interior e o discernimento

"Senhor e mestre de minha vida,
não me abandones ao espírito de preguiça,
de desencorajamento, de dominação ou de palavras vãs.
Dai-me a graça, a mim que sou teu servo,
do espírito de integridade e de humildade,
de paciência e de amor.
Sim Senhor, concede-me ver minhas faltas
e não julgar os meus irmãos.
Ó Tu que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém".

Sanctus Ephraim, Syrius.


Fonte:

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