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«AS LITURGIAS ORIENTAIS»
Os testemunhos patrísticos mais antigos para a região de Antioquia e Jerusalém encontram-se nas catequeses batismais, nas obras de São João Crisóstomo, nas catequeses batismais e nos mistérios da salvação de São Cirilo de Jerusalém e outros. As línguas litúrgicas predominantes são o grego e o aramaico. Dos raros documentos que temos sobre a liturgia egípcia arcaica deduz-se que os Padres alexandrinos não davam demasiada atenção aos ritos litúrgicos, ocupando-se, ao contrário, de modo especial com a doutrina; no Egito, gozava de grande popularidade a "Traditio apostolica" de Hipólito. Do século V em diante, temos a fase da definitiva estruturação das Igrejas orientais, que se diversificam sob o estímulo de fatores doutrinais, culturais e sociais: os sírios orientais rejeitam o concílio de Éfeso e isolam-se por oito séculos na Mesopotâmia e na Pérsia, para além das fronteiras do Império Romano, e com intensa atividade missionária difundem-se em muitos países da Ásia. Os sírios ocidentais, os coptas e os armênios rejeitam o concílio de Calcedônia, apenas suportam o predomínio político e intelectual do helenismo bizantino e criam uma tradição própria com o uso progressivo das línguas nacionais. Têm extraordinário desenvolvimento monástico. Ressalta-se fortemente o papel do Espírito Santo, tanto que Severo de Antioquia considera os sacramentos, a imposição das mãos e a consagração monástica como comunicações do Espírito. Caracterizam-se por importantes diferenças, tanto no ano litúrgico com três épocas litúrgicas, como na semana, nos jejuns, nos livros litúrgicos e numa longa e sóbria celebração eucarística. Além disso, as Horas monásticas praticam-se nos mosteiros e possuem uma rica salmodia. A obra enciclopédica "Lâmpada da escuridão" do início do século XIV contém descrições precisas e detalhadas das correntes litúrgicas e dos usos locais. Os coptas são atualmente a mais numerosa comunidade cristã dentro de um país islâmico: pelo menos 6 milhões. O ambiente monástico é o eixo vital de sua coesão. A liturgia etíope, nascida de uma extirpe mista alexandrino-sírio-jerosolimitana, é finamente popular e africana, com o uso ritmado dos tambores, do sistro e da dança sacra. O imperador Hailé-Selassié iniciou sua reforma, retomada hoje, mas em condições sóciopolíticas muito difíceis. O cristianismo chegou ao povo armênio já no século I, graças aos esforços missionários de Gregório, o iluminador, e tornou-se religião de estado antes mesmo que no Império Romano. Esse povo, dividido entre o Império Romano e o persa, encontra na força litúrgica sua identidade, resistindo às mais diversas invasões de outros povos. Sofreu influências latinas durante o período das Cruzadas, quando esteve em contato com os francos, o que persiste na tradução armênia da "Summa Theologiae" de São Tomás. As repetidas tentativas de união com Bizâncio e Roma durante a Idade Média deixaram no mundo litúrgico armênio a marca de uma ecumenicidade antiga e sólida, hoje bastante restrita ao âmbito nacional. A liturgia é coral e a participação popular chega a se transformar em magnificência de aparato e fineza de execução. A música está entre as mais fascinantes do Oriente, cheia de doces melodias nas quais transparece a melancolia de um povo que sofreu de modo incrível. As comunidades da diáspora abandonaram o címbalo, substituindo-o pelo harmônio ou órgão. Seus cantos repetem a interpretação mística da liturgia como participação do louvor angélico e sublinham, como também todas as Igrejas orientais, o sentido do mistério na liturgia. Capítulo especial merece a liturgia bizantina própria das Igrejas ortodoxas nascidas dos 7 concílios ecumênicos, reunidas numa família de Igrejas autônomas difundidas em todos os continentes. O termo "bizantino" exprime a força de Bizâncio e de Constantinopla no contexto imperial de que foi capital. Antigamente esse termo aplicava-se a todo o conjunto de tradições litúrgicas da área bizantina: Ásia Menor, Ponto, Trácia, Capadócia, Síria e Palestina com o Sinai. Do século IV ao século V foram patriarcas e arcebispos de Constantinopla seja personalidades sírias, como Eudóxio, São João Crisóstomo, Nestório, seja alexandrinas, como Anatólio. Teólogos e hinógrafos famosos, como Romano, o Melodista, Santo André de Creta, São João Damasceno e São Cosme, são sírios lidos e apreciados em Bizâncio; em prosa e em poesia, eles expressaram uma teologia da salvação inspirada em Jerusalém e nos lugares santos. Os monges, como São Simeão, o Estilita, e os Santos Sérgio e Baco, na Síria, foram um fator importante de difusão litúrgica, pelo caráter cosmopolita do monaquismo oriental antigo, "lauras da Palestina", "mosteiros da Síria", que favorecem as trocas e as peregrinações à Terra Santa ou aos santuários do Oriente. A história da liturgia bizantina apresentou momentos de reformas fundamentais, conseqüentes às vicissitudes histórico-políticas dos territórios em que havia interesse por essa reformas, as quais foram sintetizadas no TYPIKON, o livro que resumiu as tradições e as regras de todas as celebrações. Depois das trágicas experiências de invasões e destruições entre o século VIII e o século IX, sob a influência dos mosteiros do Monte Athos, recuperaram-se e reescreveram-se os numerosos manuscritos litúrgicos, definitivamente codificados no Typicon de São Saba, que foi oficialmente consagrado como livro normativo para todos os ortodoxos e impresso em Veneza em 1546. Traços característicos da liturgia bizantina transparecem de suas origens orientais e se exprimem como "festa no átrio do Senhor, e a igreja, como edifício, assemelha-se a um novo paraíso". O aspecto formal exprime com "o sentido da hierarquia, da ordem, da cerimônia" a marca de origem imperial. Os conteúdos bíblico-litúrgicos expressam-se com a linguagem própria da teologia patrística grega. A liturgia é um caminho de iniciação cognoscitiva "do Deus transcendente da Escritura: Luz, Sabedoria, Logos, Pneuma". Ao mesmo tempo, os hinários juntamente com o conjunto das orações litúrgicas "são textos de aprendizagem dos dogmas da Igreja, da doutrina dos concílios" por meio de uma abundância de formulações teológicas dos sínodos e do pensamento dos Padres da Igreja. O simbolismo tem objetivo teocêntrico e cristocêntrico. A liturgia tem a tarefa de transmitir "a suprema transcendência de Deus que", para além de todas as teofanias litúrgicas, "é e permanece sendo mistério impenetrável, tremendo e fascinante, e Cristo, como Kyrios, permite a transformação de todas as realidades. Ele não é jamais coberto 'pelo homem da dores', porque n'Ele vivem a força, o poder e a glória". O tema da "doxa", ou seja, da glória final de Deus, cuja obra-prima insuperável é a anáfora de São Basílio, transmite "o caráter escatológico" da liturgia bizantina, particularmente na celebração eucarística: aqui tudo tem função de sinal profético da união apocalíptica entre o céu e a terra. Os cantos repetem que a liturgia é serviço pneumático-extático, aparição icônica do Reino. Também a prática sacramental é sinal da epifania que vence o determinismo do mundo natural, mais que instrumento comunicador de graça. Sob essa luz, compreende-se também o alto valor teológico dos "ícones" pintados segundo critérios rigorosamente eclesiásticos, capazes de suscitar uma espiritualidade autenticamente contemplativa. O ícone é um documento teândrico que anula a proibição vetero-testamentária de fazer imagens de Deus: ele supõe a encarnação; por isso, o fato cristológico é essencial para que Deus possa ser representado por meio da humanidade de Cristo. Ao ícone presta-se culto de veneração, ou seja, "proskynesis", que de modo algum é adoração, como afirmou São João Damasceno no II concílio de Nicéia, "787", evitando a tentação monofisista. A figura de Cristo e as da Mãe de Deus e dos santos são representadas não de um modo naturalista, mas nas semelhanças de uma eternidade criada, imersa na luz do Tabor simbolizada pelo fundo dourado ou branco. O limite espacial que Deus assumiu em Cristo é, à luz da ressurreição, uma janela aberta para a eternidade. Também as cores, juntamente com a forma estilizada das figuras, acompanham a liturgia, significando a transfiguração da criação subtraída à corrupção. Além disso, essa liturgia, já ecumênica em suas origens, o é também em sua dimensão de Igreja local, em cuja assembléia representa-se toda a Igreja de Deus.
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