Depois de ter ungido os pés do Senhor, esta mulher não os limpou com uma toalha, mas com os próprios cabelos, para melhor honrar o Senhor. […] Qual homem sedento que bebe de uma fonte que cai em cascata, também esta mulher bebeu da fonte da santidade uma graça cheia de delícias, para saciar a fome da sua fé.
No sentido alegórico ou místico, porém, esta mulher prefigurava a Igreja, que ofereceu a Cristo a devoção plena e total da sua fé. […] Uma libra é constituída por doze onças. Tal é, pois, a medida do perfume que a Igreja recebeu, qual perfume precioso, dos ensinamentos dos doze apóstolos. Com efeito, nada há tão precioso como os ensinamentos dos apóstolos, que contêm a fé em Cristo e a glória do Reino dos Céus. Além disso, diz o Evangelho que a casa se encheu com a fragrância deste perfume, porque o mundo se encheu com os ensinamentos dos apóstolos. “Por toda a terra caminha o seu eco, até aos confins do universo a sua palavra” (Sl 8, 5).
Lemos no Cântico dos Cânticos as palavras que Salomão põe na boca da Igreja: “O teu nome é como perfume derramado” (Cant 1, 3). E com razão é o nome do Senhor designado por “perfume derramado”. Como sabeis, enquanto permanece dentro do recipiente, o perfume conserva em si a força da sua fragrância; mas, a partir do momento em que é derramado, difunde essa fragrância. Da mesma maneira, enquanto reinava no céu com o Pai, o nosso Senhor e Salvador era ignorado pelo mundo, era desconhecido cá em baixo. Mas quando, pela nossa salvação, Se dignou humilhar-Se, descendo do céu para tomar um corpo humano, nessa altura, difundiu por todo o mundo a doçura e o perfume do Seu nome.
Tratado 5
Sobre São Mateus
«Vós sois a luz do mundo»
São João, na sua epístola diz: «Deus é luz» (1Jo 1,5); aquele que habita em Deus está na luz como Ele próprio está na luz. Uma vez que temos a alegria de estarmos livres das trevas e do erro, devemos caminhar sempre na luz, como verdadeiros filhos da luz... É por isso que o Apóstolo diz:« Brilhais como astros no mundo; sois portadores da Palavra de vida» ( Fl 2, 15-16). Se o não somos, seremos olhados como tendo, pela nossa infidelidade, para nossa desgraça e dos outros, obscurecido e coberto com um véu uma luz tão necessária e benfazeja...
Por isso, essa lâmpada brilhante, que foi acendida ao serviço da nossa salvação deve luzir em nós sem parar. Com efeito, possuímos a luz da lei celeste e da graça espiritual da qual David dizia: «A Tua lei é uma lâmpada para os meus passos, uma luz sobre o meu caminho» (Sl 118,105)... Não é pois para esconder dos nossos olhos essa luz da lei e da fé, mas para a elevar na Igreja como sobre um candelabro , para que gozemos mesmo da luz da Verdade e para que todos os crentes sejam por ela iluminados.