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Christos Yannaras

A FÉ VIVA DA IGREJA

Introdução à Teologia Ortodoxa

Tradução brasileira da versão francesa:
LUÍS ARTIGAS
Curitiba 1997

EDITION DU CERF
29, bd Latour-Maubourg 75007
Paris 1989

Capítulo III: A Fé

a maneira de pensar da maioria dos homens de hoje, a palavra fé possui um conteúdo bem preciso: ela significa a aceitação acrítica de princípios e axiomas, a adesão a uma teoria ou ensino que não pode ser demonstrado. Dizer: eu creio em tal coisa, quer dizer, praticamente, que a aceito, mesmo sem compreendê-la. Abaixo a cabeça e me submeto a uma autoridade que nem sempre é religiosa, podendo também ser ideológica ou política. Muito amiúde, no termo habitual de fé se dissimulam igualmente a entrega religiosa, a disciplina ideológica e a submissão a um partido. Consideramos também como consagrada uma palavra autoritária de proveniência desconhecida, que muitos consideram a quintessência da metafísica, quando na realidade é apenas o princípio de todos os totalitarismos: “Acredite, e não faça perguntas!”

Devemos dizer, sem meias palavras, que semelhante acepção da fé nada· tem a ver com o significado que esta palavra recebeu, pelo menos na tradição judeu-cristã. Nesta tradição, a fé tem, mais bem, o sentido que a palavra “crédito” conserva ainda nos meios comerciais, mais do que a noção a ela atribuída pelos militantes ideológicos.

Com efeito, quando falamos do crédito de um comerciante, entendemos com isso, ainda hoje, a confiança que este homem inspira aos seus colegas. Todos o conhecem, conhecem a maneira e o estilo de suas transações, a maneira coerente com que cumpre as suas obrigações. Se ficasse na situação de ter que pedir uma ajuda financeira, encontrará imediatamente alguém que lhe “abra um crédito”, até, quem sabe, sem lhe pedir nenhuma garantia, desde que a sua pessoa e a sua palavra são suficientemente “acreditáveis”.

É desta maneira típica do comércio e do mercado que a fé é vivida na tradição judeu-cristã.

Para ela, o objeto da fé não é um corpo de ideias abstratas que tiram a sua validez de alguma autoridade infalível. O objeto da fé são pessoas: concretas em que somos chamados a confiar, numa relação de experiência direta.

Mais concretamente ainda: se acreditamos em Deus, não é porque uns princípios teóricos nos obriguem a tanto, ou porque uma instituição bem estabelecida nos garanta a sua existência. Acreditamos nele porque a sua pessoa, a existência pessoal de Deus, provoca em nós a confiança: Suas obras e sua “ação” histórica, suas intervenções na história, acordam em nós o desejo de nos relacionar com Ele.

Obviamente, a relação que sustenta a fé pode ser direta, mas também indireta, como acontece já entre as pessoas. Eu acredito em alguém, eu confio nele: depois de tê-lo encontrado, entro em relação com ele. Mas eu acredito também em alguém que não conheço pessoalmente quando os testemunhos de pessoas em quem confio garantem a sua credibilidade. Assim como acredito num artista que nunca vi, quando a sua obra suscita em mim confiança e admiração por ele.

Ou seja: há graus na fé, a gente progride de uma fé menor para uma fé maior. E este progresso parece-se a uma caminhada interminável. Por completa que possa parecer, a fé sempre pode crescer e amadurecer. Ela é uma dinâmica e contínua “perfeição jamais acabada”. Esquematicamente, poderíamos dizer que ela começa pela confiança no que se diz de uma pessoa. Progride pelo conhecimento da obra e da atividade desta pessoa. Torna-se uma certeza direta quando acontece um encontro, uma frequentação, uma relação imediata. De simples confiança, transforma-se num dom absoluto de todo o nosso ser, num dom de si sem reserva, quando entre as pessoas nascem o amor e o desejo. E no verdadeiro desejo amoroso, quanto mais se ama e se conhece o outro, tanto mais se acredita nele, tanto mais a gente se abandona a este amor. A verdadeira fé amante, o apego, também nunca se esgota; ela é a admiração ininterrupta provocada pelas “descobertas” do outro, uma aproximação sempre insatisfeita da unicidade da sua pessoa.

Assim acontece com a fé em Deus. Ela pode começar pela simples confiança no testemunho dos homens que O conheceram, que viveram na sua intimidade e que atingiram a visão da Sua face. Confiança no testemunho da experiência dos antepassados, dos santos, dos profetas, dos Apóstolos. Ela pode progredir na descoberta do amor que manifesta as suas obras, suas intervenções por ocasião de suas revelações na História, a sua palavra que nos guia na verdade. Assim, a fé torna-se uma certeza imediata e num dom de todo o nosso ser ao seu amor, quando chegamos a conhecer a sua Face, a beleza incriada da luz da sua glória. Então o “eros divino” que nasce em nós é uma dinâmica que transforma a fé “de glória em glória” (2Cor 13, 18), uma contínua admiração feito de revelações que suprimem o tempo.

Em qualquer grau ou estágio do seu desenvolvimento, a fé é um acontecimento e uma experiência de relação; é um caminho radicalmente diferente da certeza intelectual e do conhecimento “objetivo”. Se quisermos conhecer o Deus da tradição bíblica, o Deus da Igreja, teremos que buscá-lo pelo caminho adequado, o caminho da fé. As “provas” lógicas da sua existência, os argumentos objetivos da apologética, a autenticidade histórica das fontes da tradição cristã podem ser auxiliares úteis para fazer nascer em nós a necessidade da fé. Mas não nos levam à fé, nem podem se substituir a ela.

Quando a Igreja nos convida a receber a sua verdade, ele não nos propõe teses teóricas que teríamos que aceitar por princípio. Ela nos convida a uma relação pessoal, a um modo de vida que constituí uma relação com Deus ou que conduz a esta relação de maneira progressiva e vivida. Este modo faz com que a vida inteira deixe de ser uma sobrevivência individual e se torne um acontecimento de comunhão. A igreja é um corpo de comunhão, cujos membros não vivem cada um para si mesmo, mas numa unidade orgânica de amor junto com os outros membros e com a cabeça do corpo, o Cristo. Acreditar na verdade da Igreja significa, para mim, aceitar ser parte integrante do “laço de amor que a constitui, me entregar ao amor de Deus e dos santos que, por sua vez, me acolhem com fé e confiança na minha pessoa.

Nós chegamos a Deus através de uma maneira de viver, não através de uma maneira de pensar. Todo processo orgânico de crescimento e de amadurecimento é uma maneira de viver - por exemplo, aquele que cria a relação com nossa mãe e nosso pai. Desde a amamentação, as carícias, a ternura e o cuidado, até a partilha e a aceitação conscientes do seu amor, a fé na mãe e no pai cresce de maneira silenciosa e imperceptível na alma da criança. Esta ligação não precisa de provas lógicas nem de garantias teóricas, exceto quando a própria relação ficou perturbada. Somente aí os argumentos do pensamento tentam se substituir à realidade da vida.

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