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Christos Yannaras

A FÉ VIVA DA IGREJA

Introdução à Teologia Ortodoxa

Tradução brasileira da versão francesa:
LUÍS ARTIGAS
Curitiba 1997

EDITION DU CERF
29, bd Latour-Maubourg 75007
Paris 1989

 

uando nos perguntamos sobre a maneira como os homens começaram a falar de Deus e sobre a maneira como este problema entrou na sua vida, podemos distinguir três origens fundamentais; entre as mais importantes.

2.1 A origem religiosa

Primeiro ponto de partida: a necessidade do religioso. Existe no homem, no coração da sua própria “natureza”, a necessidade espontânea de se entregar a algo que o ultrapassa, a uma existência muito mais elevada do que a sua. Talvez esta necessidade venha do temor humano diante das forças naturais ameaçadoras e perigosas para a sua vida. Ele pretende dominar estas forças, se reconciliar com elas e também conter o medo que lhe inspiram. Para tanto, ele atribui uma razão a essas forças, considera-as como existências capazes de ouvi-lo, de compreendê-lo, de aceitar os dons que lhes oferece como sacrifício. Desta maneira, o homem chega a pensar numa existência lógica, superior, sumamente elevada, que lança o raio, agita os oceanos e abala a terra, torna fecundas as sementes e perpetua a vida. Esta força ele a chama Deus, e a fraciona muito amiúde, vendo no mundo tantos deuses quantas são as forças que o impressionam.

Desconhecemos se esta necessidade seria a causa mais provável o nascimento do religioso. Mas é certo que ainda hoje em dia é possível encontrar com muita frequência, nas sociedades humanas, semelhante nível de religiosidade. Trata-se de uma religião antropocêntrica, destinada a tranquilizar e fortificar o homem presa da fraqueza, acalmando os seus medos. Portanto, não se limita a uma fé somente teórica em forças superiores, trazendo também ao homem os meios concretos e práticos de garantir a sua proteção egocêntrica, a sua defesa psicológica. Ela lhe traz um culto, com regras rigorosamente definidas, que garantem uma certa relação propiciatória com o divino. E ainda, lhe fornece uma moral, isto é, um código de mandamentos e obrigações, que indica o que agrada a Deus e o que lhe desagrada.

Quando o homem segue as regras rituais de maneira consequente, e aplica rigorosamente a ética imposta pela sua religião, ele “põe Deus no seu bolso”: ele fica tranquilizado pelo sucesso da sua relação com o divino. Longe de temer um castigo, espera de Deus somente serviços e recompensas. Este tipo de homem religioso está geralmente cheio de presunção a respeito da sua piedade e da sua virtude, e se torna duro para com aqueles companheiros seus que não ostentam, como ele, seus sucessos religiosos e morais.

2.2 A busca da verdade

A segunda origem da referência humana a Deus é a busca da verdade e a sede do conhecimento.

Em todas as grandes civilizações que a história conheceu, a busca do pensamento humano para esclarecer os questionamentos filosóficos fundamentais, produziram uma teologia, isto é, um “discurso sobre Deus”. O exemplo mais característico e perfeito é o caso dos antigos gregos.

Na Grécia antiga, a referência a Deus é uma consequência lógica da observação do mundo. Observando o mundo, constatamos que todas as coisas existentes estão submetidas a uma organização e uma ordem lógicas. Nada é fortuito nem arbitrário. Assim, somos obrigados a admitir que a própria origem do mundo deve ser uma consequência lógica de alguma coisa: por outras palavras, o mundo é o resultado de uma causa concreta. Esta Causa primeira, este “Princípio” do mundo nós o chamamos Deus.

Nós não podemos saber o que seja exatamente esta Causa primeira ou este “Princípio” do mundo. Todavia, podemos, com a ajuda da nossa lógica; deduzir algumas características que esta Causa primeira deve possuir: ela não deve sua existência a nada anterior e, portanto, devemos supor que seja a “Causa-em-si”, isto é, a causa de si mesmo e de todos os seres existentes.

Desde que, graças à sua “auto-causalidade”, ela não depende de mais nada, esta Causa primeira deve ser considerada como uma magnitude absoluta (livre de qualquer constrangimento). Como magnitude absoluta, Deus deve ser intemporal, todo-poderoso, ilimitado. Deve ser o princípio do movimento que constitui o “devir” do mundo e que pode ser medido como tempo. Portanto, sendo ele mesmo o princípio do movimento, Ele é imóvel, pois nada n’Ele é preexistente de maneira a fazer com que se movimente. Sendo imóvel, Ele é também invariável. Portanto, ele é também impassível, e permanece numa felicidade perfeita.

Todas estas conclusões (e muitas outras) que podemos elaborar com o pensamento, não nos fazem conhecer Deus; apenas persuadem a nossa lógica e lhe impõem aceitar como uma realidade a hipótese intelectual da existência de Deus. É como se, caminhando no meio do deserto, encontrássemos de repente diante de nós uma casa: aí, seríamos obrigados a admitir que alguém a construiu, pois as casas não nascem e não crescem por si mesmas em pleno deserto. Todavia, não saberíamos quem é o construtor. A partir das características do edifício, poderíamos calcular algumas propriedades ou traços distintivos do construtor, como, por exemplo, que tenha gosto ou gênio na aplicação da estética; poderíamos também ver que necessidades deveriam atender as suas construções. A sua pessoa, contudo, ficaria desconhecida para nós. Não o tendo encontrado nunca, não o conheceríamos. Ele existiria, certamente, mas seria inacessível ao conhecimento direto.

2.3 A relação pessoal

A terceira origem da relação humana com Deus integra-se numa única tradição histórica: a tradição do povo hebraico.

Os hebreus começam a falar de Deus por ocasião de um acontecimento histórico concreto: mil e novecentos anos, aproximadamente, antes da era cristã, no país dos caldeus (região do Sul da Mesopotâmia, perto do Golfo Pérsico), Deus se revela a um homem bem preciso: Abraão. Abraão encontra Deus como se encontra uma pessoa humana, um ser com quem se pode falar, diante de quem é possível ficar face a face. Deus convida Abraão a deixar o seu país e se estabelecer na terra de Canaã, porque esta terra é destinada ao povo que suscitarão os seus descendentes, os filhos gerados por Sara, estéril até esse dia.

O conhecimento de Deus que deriva do encontro pessoal de Abraão com ele, nada tem em comum com as hipóteses especulativas, os raciocínios dedutivos e as demonstrações lógicas. Trata-se somente de uma experiência de relação que, como toda relação verdadeira, estabelece-se somente sobre uma fé-confiança que nasce entre pessoas mutuamente ligadas. Deus manifesta sua divindade a Abraão somente por fidelidade às suas promessas. E Abraão se entrega a Deus, até o ponto de estar disposto a sacrificar o filho que Sara lhe deu na sua velhice, esse filho por quem devem se realizar as promessas de Deus.

Isaac e Jacó, filho e neto de Abraão, adquirem o mesmo conhecimento de Deus, a partir de uma experiência imediata de relação pessoal com Ele. Assim, para os descendentes desta família, donde provém o povo de Israel, Deus não é nem um conceito abstrato, nem um poder impessoal. Quando os hebreus falam de Deus, eles dizem: o “Deus dos nossos pais”. É “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, uma pessoa concreta que já conhecem e com quem os seus pais falaram. Portanto, o conhecimento de Deus repousa numa fé-confiança nos antepassados, na credibilidade do seu testemunho.

2.4 Escolha de uma meta e de um caminho

Estas três origens da referência humana a Deus não são apenas coisas do passado. Elas existem como possibilidades reais para todas as épocas e lugares. Sempre há homens que aceitam a existência de Deus sem se sentirem muito concernidos pela sua verdade nem pelos problemas especulativos que coloca. Aceitam esta existência apenas por necessidade psicológica de se relacionar com algo “transcendente”, uma necessidade de segurança individual diante do desconhecido, e uma necessidade de impor e manter uma ordem moral no mundo.

Paralelamente, sempre há homens que aceitam a existência de Deus somente porque a sua lógica os obriga a aceitá-la. Como eles dizem, acreditam num “poder superior”, num “Ser supremo”, que deve ter feito tudo o que existe, e por quem tudo subsiste. Não podem saber, e certamente pouco lhes interessa, o que seja exatamente este “poder superior” ou este “Ser supremo”. Inclusive quando associam sua simples certeza intelectual com alguns costumes “religiosos” -pela sua adaptação às regras rituais e às obrigações morais da religião do seu entorno social-, há neles um profundo agnosticismo, que se acomoda somente com a ideia geral e abstrata do “Ser supremo”.

Da mesma maneira, há uma terceira forma de referência a Deus, a fé-confiança na experiência histórica da sua revelação. Os “filhos de Abraão”, o povo de Israel, continuam ao longo dos séculos aceitando a verdade de Deus, não por critérios sentimentais ou lógicos, mas pela simples certeza que possuem da credibilidade dos seus pais. Deus prova a sua existência pelas suas intervenções na história, confirma sua presença nos limites da sua relação sempre pessoa. Revela-se a Moisés e fala com ele “face a face, como um homem conversa com seu amigo” (Ex 33, 11). Chama os profetas e os mobiliza para que renovem a memória das promessas a que Ele permanece sempre fiel.

Os que confiam na experiência histórica das revelações de Deus, não encontram dificuldade em aceitar uma nova intervenção dele na vida dos homens, desta vez “na carne”, na pessoa de Jesus Cristo. É verdade que para o pensamento racional as noções de divindade e de encarnação são contraditórias, se excluem mutuamente: não é possível pensar que Deus, que por natureza deve ser infinito, ilimitado, todo-poderoso etc., possa existir como uma mônade humana, finita, fragmentária, submetida às limitações do espaço e do tempo. Por isso, já para os gregos da época do Cristo, proclamar a encarnação de Deus era realmente uma “loucura” (1 Cor 1 ,23).

Todavia, para aceitar ou rejeitar esta “loucura”, é preciso ter respondido previamente alguns questionamentos fundamentais que determinam de maneira bem mais geral o sentido e o conteúdo da própria vida: tudo o que existe é predeterminado e deve existir de uma maneira imposta pela razão humana? Ou a existência é um acontecimento que ultrapassa as predeterminações e representações da inteligência, de maneira que somente podemos recebê-lo e compreendê-lo numa experiência imediata? O que existe realmente: apenas aquilo que percebemos graças aos nossos sentidos, e que nossa razão confirma, ou há realidades que conhecemos dentro dos limites de uma relação mais imediata e global? Relação esta que nos permite, por exemplo, distinguir diferenças qualitativas, captar o “significado” de um poema além das palavras, tomar consciência do funcionamento dos símbolos, termos garantia da nossa “identidade” objetiva, descobrir a indizível unicidade de um rosto, compreender os aforismos da física contemporânea sobre o “contínuum quadri-dimensional” ou sobre a dupla significação da natureza da luz?

Estas questões merecem um longo estudo e uma análise detalhada, mas isto nos levaria longe do tema fundamental que aqui nos ocupa. Em primeiro lugar, devemos precisar os meios e os caminhos que utilizaremos para tratar do conhecimento de Deus. Se queremos conhecer a noção abstrata de Deus imposta pela necessidade lógica, teremos, consequentemente, que seguir as próprias regras da razão. Se queremos conhecer o Deus da psicologia e do sentimento religioso, teremos que cultivar em nós as motivações psicológicas e religiosas que abrem o acesso a este conhecimento. E se queremos conhecer o Deus da tradição judeu-cristã, teremos que seguir o caminho da relação e da experiência pessoais, o caminho da fé. Pretender seguir todos os caminhos, e combinar os modos do conhecimento, seria a estrada mais certa para a confusão e o impasse.

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