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Christos Yannaras

A FÉ VIVA DA IGREJA

Introdução à Teologia Ortodoxa

Tradução brasileira da versão francesa:
LUÍS ARTIGAS
Curitiba 1997

EDITION DU CERF
29, bd Latour-Maubourg 75007
Paris 1989

Capítulo 1: Conhecimento “positivo” e metafísica

á conhecimentos ou ciências chamados positivos. Eles reivindicam a positividade, ou seja, a segurança e as características da certeza incontestável. Todo mundo pode verificá-las pela observação, a experimentação e o cálculo matemático. Referem-se à realidade do mundo que nos rodeia; são conhecimentos ou ciências relacionadas à realidade natural.U

Apresentam-se igualmente como positivas as ciências que se interessam pelo fenômeno da vida das sociedades humanas, à sua organização e funcionamento, ou às informações acreditáveis referentes ao passado - a História do homem. Também aqui, o conhecimento é experimentalmente imediato e verificável e, portanto, seguro e obrigatório para todos.

Este conhecimento seguro, positivo e incontestável parece ser a meta fundamental da nossa civilização, atual. Todos os aspectos do nosso modo de vida, da educação familiar ao ensino escolar, à vida profissional e à organização das estruturas e instituições da nossa vida ordinária, não somente pressupõem como também visam o que nós chamamos objetividade, o conhecimento sólido, tangível, claro para todos.

A exigência de objetividade se impõe no homem contemporâneo como a marca de um estado de espírito, de uma atmosfera, de uma necessidade evidente. Crescemos aprendendo a apreciar o lógico, o que é incontestavelmente justo. Estamos armados com a exatidão objetiva, pois somente ela se impõe e leva a um reconhecimento comum, somente ela atinge fins concretos.

Todavia, mesmo no seio da nossa vida organizada racionalmente, alguns questionamentos permanecem à espreita, sem se submeter à exigência de um conhecimento positivo. Um primeiro tipo destes questionamentos relaciona-se às experiências pertencentes ao campo da arte: o que é que diferencia um quadro de Rembrandt de um quadro de Van Gogh, e a música de Bach da música de Mozart? Como pode acontecer que a criação artística do homem não se submeta a qualquer predeterminação positiva e a toda classificação objetiva? E de que maneira o mármore, as cores ou as palavras podem “preservar a forma do homem”, como diz o poeta, salvaguardar a unicidade e a singularidade que caracterizam a obra de todo artista?

A observação da natureza também coloca questionamentos semelhantes, que o “conhecimento positivo” não pode responder, quando ultrapassamos a simples percepção da existência dos objetos, e nos questionamos sobre a sua causa primeira e o seu fim. Como foram feitas as coisas que existem em torno de nós, e para onde elas vão? Foram feitas por alguém, ou são o fruto do acaso, existem elas desde sempre, e continuarão existindo desta mesma maneira, irracional e inexplicável? Seja qual for a resposta que aceitemos, ela é tão arbitrária quanto indemonstrável, sempre, é claro, de acordo com os critérios do conhecimento positivo. Então, como interpretar a beleza do mundo, a harmonia, a ordem, a funcionalidade orgânica a que serve o menor elemento do mundo natural?

Além destas questões, chega uma “virada” na vida em que encontramos inevitavelmente a doença, a decadência, a morte. E aí que se colocam as questões mais inexoráveis: — qual é a lógica do ciclo efêmero da nossa existência biológica? Tudo acaba, então, dois metros embaixo da terra? O que é que se apaga com a morte, e deixa o corpo se dissolver na terra como um objeto neutro? O que são o olhar do homem, a sua palavra, o seu sorriso, seus gestos, a sua “expressão?” Aquilo que se extingue na morte é o que torna único cada homem, diferente e insubstituível; é a maneira como ele ama, se alegra, sofre, a maneira particular como realiza a vida. É possível considerar tudo isto, e também o que tenta estudar atualmente de maneira científica a “psicologia profunda”, isto é, a consciência, o subconsciente, o inconsciente e, finalmente o “eu”, a identidade do ser humano, como funções biológicas iguais à digestão, respiração e a circulação do sangue? Ou, pelo contrário, é preciso acreditar que o homem é, existe, de maneira que não se reduz às suas funções biológicas, de maneira que este modo de existência o torna verdadeiramente invulnerável ao tempo e à morte?

Chega um momento da sua vida, uma “virada do seu caminho” em que o homem pressente que o conhecimento positivo responde finalmente muito pouco dos seus questionamentos. Pressente um espaço além da física, o espaço metafísico (o âmbito da arte, do amor, do mistério da existência) que, para ser conhecido, deve ser aproximado com “peso e medida” bem diferentes dos que nos garantem a captação dos dados sensíveis da natureza.

Já faz séculos que o homem encara as questões metafísicas. A filosofia, a arte, as religiões, são modalidades desta luta contínua e inextinguível que diferencia o homem de todos os demais existentes, e que cria a civilização humana. Estamos vivendo hoje em dia numa civilização que tenta se construir sobre o “recalque” e o esquecimento das questões metafísicas, atitude que, por sua vez, é também metafísica, e assenta também (ou socava) os fundamentos de uma civilização.

Aliás, seja qual for o esforço do homem tentando evitar as inexoráveis questões metafísicas, e esquecê-las no turbilhão da atividade profissional, do engajamento político ou numa busca desenfreada do prazer, quaisquer que sejam o desprezo e a zombaria dirigidas a estas questões, em nome de uma “ciência” mitificada que “responde a tudo”, ou “responderá um dia”, estas questões permanecem, prestes a reemergir na estrada a qualquer momento. Quando acontecer a “pane” repentina de que fala Dürrenmatt: um acidente de carro, um câncer, um “incidente” cardíaco a armadura da autossuficiência cai, a nudez do homem aparece de maneira constrangedora. O abismo das perguntas sem resposta abre-se de repente diante de nós, evidenciando não tanto à dificuldade da nossa inteligência quanto, sobretudo, as lacunas espantosas na nossa existência.

Nestes momentos imprevistos de “despertar metafísico” podemos dizer que todos os nossos questionamentos são recapitulados espontaneamente por uma palavra marcante, conhecida de maneira evidente e desconhecida de maneira incalculável: Deus. Quem nos falou dele pela primeira vez, o que ele é, onde ele está? Criação da imaginação dos homens, necessidade ditada pelo nosso entendimento, ou existência real embora escondida, como o poeta está escondido nas palavras e o pintor na sua pintura? Afinal, ele existe, sim ou não? É ele a causa e o fim da existência do mundo? O homem carrega dentro de si algo saído dele, algo que ultrapassa o espaço, o tempo, a corrupção e a morte?

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