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Uma Interpretação Iconográfica
do Dogma Trinitário

«A Ceia de Abrão» (cf. Gn 18)

MICHEL FARES BREIDI
São Paulo, 2003.
Curso de Teologia – Unidade Santana
TCC, orientado pelo Professor Frei Osmar Cavaca

 

I - Introdução

sta obra “Interpretação Iconográfica do Dogma Trinitário”, e subtítulo “A Ceia de Abrão”, apresenta um esforço para proferir explicações tentando eliminar muitas dúvidas a respeito da teologia iconográfica. Para isso nada melhor que esclarecer essas dúvidas através da realidade eclesial e das fontes mais tradicionais e antigas da história do Cristianismo como os relatos do Antigo e Novo Testamento e da Patrística, expressando-as de uma maneira nova. Para que isso aconteça escolhi aprofundar e compreender a realidade divina através do ícone da Santíssima Trindade, a obra de Andrei Rublev.

É preciso saber quem foi esse escritor de ícones, sua vida e qual foi a causa de sua motivação, o que é um ícone e quais são os estágios até chegar ao que nos transporta e nos faz refletir no seu conteúdo nos induzindo a encontrar com o seu maior protagonista e autor, Deus.

Perguntam-me: por que o ícone de Rublev?

Escolhi esta obra de Andrei Rublev por ela ser considerada pela Igreja Ortodoxa como a melhor interpretação e forma de compreendermos a nossa fé na Trindade. No ícone de Rublev está expresso resumidamente todo o Mistério da Trindade em expressões que se revelam de forma fácil e didática para a nossa compreensão. Ele interpreta tudo aquilo que foi causa de muita discórdia, dúvidas, estudos e diálogos nos concílios ecumênicos. De uma forma simples, mas sem fazer perder sua magnificência, mostra-nos que aquele Deus Poderoso, que se dirigia por uma voz aos homens nos tempos antigos, hoje nos é apresentado como um Deus pessoal que se manifesta de uma forma sobrenatural no Filho através do Espírito Santo, repleto de Amor Absoluto, Perfeito em três formas sem se dividir nem se misturar seguindo as características da própria revelação que não transmite conhecimento teórico da essência divina, mas nos chama à salvação do mundo e do homem e nos diz: “venha, veja, e crerás”.

No decorrer dessa obra é apresentada uma pequena explicação sobre a teologia do ícone sua espiritualidade e finalidade, quem e como vive o autor do ícone, o significado da arte sacra diferenciando-a da arte contemporânea, e os primeiros ícones desde o período Bizantino.

No segundo capítulo começamos a entrar no tema da obra, que é o ícone desse grande iconógrafo Rublev, recordando e explicando o cenário que foi a causa inspiradora, as características dessa representação como ponto de partida e sua visão histórica até chegarmos ao que ela é hoje.

No terceiro capítulo, que é o núcleo da obra, deciframos toda a simbologia artística e a dogmática que foi inspirada pela teologia iconográfica desde as formas arquitetônicas e geométricas como a cruz, o círculo e o triângulo junto com as cores, os três anjos, que mesmo imóveis na pintura mostram sua ação divina na essência, e o Mistério Trinitário.

Buscando nos basear sempre nas afirmações da Bíblia e nos Santos Padres da Igreja, refletimos sobre a essência trinitária, nas hipóstases divinas, sua ação, sua individualidade e, ao mesmo tempo, sua participação na indivisibilidade, comentando rapidamente sobre a divergência que existe acerca da procedência do Espírito Santo (da questão do Filioque) tentando aproximar, quanto possível, as diferenças existentes entre as igrejas irmãs que são e continuarão a ser o apoio e a sustentação da fé cristã.

O grande desafio dessa obra é tentar proferir explicações teológicas sobre o maior Mistério da fé, a Santíssima Trindade, dentro de uma teologia iconográfica, uma arte sacra não muito conhecida ou divulgada no Brasil. Daí, a dificuldade de encontrar recursos bibliográficos na nossa língua dificultaram ainda mais o trabalho, mas, a cada obstáculo me incentivava ainda mais a prosseguir, já que crescia o interesse de aprender e divulgar mais sobre os assuntos, ícone e Dogma, duas questões que se encontram ao se desenvolver um tema de tão grande importância e significação, pois podemos usá-lo de uma forma didática para melhorar a nossa compreensão e satisfazer as muitas dúvidas que encontramos na prática na fé. 

II. A arte iconográfica

O ícone (do grego έικώυ = imagem, retrato, semelhança), quadro pintado sobre a madeira com a utilização de matérias naturais, rico em teologia e em catequese bíblica, tem sua origem milenar no mundo grego e russo. 

Trata-se da típica arte sacra e canônica da Igreja Ortodoxa.

Há regras fixas para se reproduzir um ícone, tais como jejum, orações, conhecimento da Escritura, da Tradição, do Magistério etc.

O ícone é uma imagem, mas nem toda imagem é um ícone. É muito mais que uma livre representação de um mistério, deixada por conta da imaginação do artista; não se trata daquele espiritual fruto da sensibilidade, das divagações subjetivas e dos insípidos gostos pouco claros; não é um retrato no sentido moderno, secularizado e pouco transcendente. Ao contrário, sua linguagem é simples e visa somente a glorificação do mistério. De fato, o ícone é celebração do mistério de nossa salvação – Encarnação, Morte, e Ressurreição; por isso, instrução aos fiéis.

O ícone é glorificação e cântico nas suas cores, verso que se proclama na ponta do pincel, se ligado às regras. Isso não significa que se trata de uma arte fria ou pré-determinada que não aceita evolução, pois, olhando vários ícones representando o mesmo assunto reparamos que, mesmo sendo parecidos, são diferentes; não se encontra uma pintura semelhante à outra. Cada quadro tem sua individualidade, destacando-se o estilo de cada artista nos diversos países onde se divulgou a iconografia. Apesar da distância cronológica e geográfica e da falta de comunicação entre eles, se manteve o tema de uma forma fixa (isento de modificação), embora a criação se apresente de modo diferente. No ícone há vida e movimento interno, majestade, tranqüilidade, harmonia e interior perfeito,e isso faz a diferença entre ele e as pinturas tradicionais; o ícone tem o intuito de transmitir a profundidade celeste.

Após o ícone ser pintado, ele é consagrado. Na Igreja há orações específicas para a consagração dos ícones onde o Sacerdote diz:

Ó Senhor, Deus Divino. Tu criaste o ser humano à Tua imagem e semelhança, porém a tentação o fez cair. Mas a encarnação de Cristo que tomou nossa forma humana renovou a imagem impura devolvendo a Luz a seus Santos, restituindo-lhes a dignidade. Porem, nós, ao venerarmos a suas imagens, veneramos a Tua; através deles e glorificamos a Ti que é o exemplo maior” [1].

II.1 - Finalidade do ícone

A iconografia cristã, por sua natureza, é semelhante a uma escola de oração e purificação interior que tem por objetivo favorecer um encontro sempre mais claro e sincero com Jesus e sua Igreja.

A técnica da pintura bizantina é somente o terreno onde se cultiva e se desenvolve o mistério de tal encontro. A missão do iconógrafo é a de tornar visível e tangível a “Verdadeira Beleza”, escondida no mistério silencioso das Escrituras. Nesse caminho, ele não está só, mas em companhia de uma tradição de santos que o precedem e o ajudam no longo caminho de sua existência. Segundo a Igreja oriental, o iconógrafo é chamado a tornar sagrado tanto o conteúdo quanto a forma de sua pintura; por isso a obra que sai de suas mãos deve encontrar analogia nas Escrituras e na Tradição dos Santos Padres. Como encontramos  no VII Concílio Ecumênico de Nicéia. “A ele cabe somente o aspecto técnico, porque toda a elaboração do ícone provém dos Santos Padres”. [2]

II.2 - Quem é e como vive um iconógrafo?

O dia do iconógrafo começa cedo. Logo que se levanta pela misericórdia e a sabedoria de Deus, se dedica a fazer uma meditação da Escritura, contemplando um ícone de Cristo ou da Virgem Maria. Antes de começar o sagrado trabalho de pintura, ele faz uma das orações próprias do iconógrafo, das quais a mais famosa é:

Oh! Divino Mestre, Ardoroso artífice de toda a criação. ilumina o olhar do teu servo, guarda o seu coração, rege e governa a sua mão para que dignamente e com perfeição, possa representar a tua santa imagem. Para a Glória, a Alegria e a Beleza da Tua Santa Igreja”. [3]

Ele deve ser responsável e fiel ao reproduzir um modelo ou criá-lo, conforme a Escritura, a Tradição e a Doutrina da Igreja. O que o sacerdote significa no Santo Oficio, assim também é o pintor de ícone, ao transformar a divina liturgia, por meio de cores, sobre a tábua. Em sua vida diária, deverá cultivar os valores mais altos, tais como a humildade e a caridade, procurando viver em paz e corretamente, evitando as conversas frívolas e as vaidades mundanas. Deverá jejuar e orar antes e durante o trabalho, seguindo as normas da Igreja, pois somente se sua fé for autêntica e a sua mente estiver sempre vigilante na oração é que a sua obra poderá transmitir uma mensagem àqueles que a contenmplarão.

É recomendável que ele tenha um bom diretor espiritual e um padre confessor para não cair no pecado da soberba, ao levar muito alto a mente e o coração a Deus. Que siga a técnica pictória dos grandes mestres iconógrafos (emulsão a ovo, terras, minerais etc) da qual já foi comprovada a estabilidade, beleza e resistência ao longo dos séculos.

Ele nunca deverá esquecer que, com o seu ícone, ele serve ao Senhor, comunicando e cantando sua glória; e para os fiéis, o ícone serve para a contemplação dos mistérios.

Para destacar o Belo é preciso ir além do olhar, atingir a perfeita harmonia e, em última análise, suscitar a oração.

Dentro dessa linha, recordo a carta de João Paulo II aos artistas:

Este mundo no qual vivemos precisa da beleza, para não cair no desespero. A beleza com a verdade, dá alegria ao coração dos homens e é fruto precioso que resiste ao desgaste do tempo, que une as gerações e as faz comunicar na admiração. (...) Nobre mistério aquele dos artistas, quando as suas obras são capazes de refletir, em qualquer modo, a infinita beleza de Deus e endereçar a Ele as mentes dos homens”. [4]

A mensagem transmitida pelo ícone é, e sempre será, atual, porque diz respeito ao homem e ao divino; por isso sua singela beleza é expressão do Originário e, ao mesmo tempo, antecipação do Definitivo.

II.3 – A arte sagrada dos ícones

O aparecimento dos ícones na história da Igreja registra sua importância, pois não eram considerados como uma mera obra artística. Os primeiros iconógrafos tratavam de retratar com cores e pinturas o que os Evangelhos expressam em palavras. Contudo, os ícones e, em geral, a cultura bizantina, são uma mescla de cultura, arte, história, fé etc... , que se faz viva no coração dos habitantes do Império. Desde os imperadores até as pessoas mais humildes, viviam as experiências dos ícones como expressão da fé de um povo que experimentava diariamente a intervenção de Deus, da Theotokos. [5] e dos Santos na sua vida cotidiana, tal como viviam as primeiras comunidades cristãs de Jerusalém. Toda a cultura bizantina (arquitetura, escultura, pintura, bordados, manuscritos, entre outros), está iluminada por essa fé que impregna cada uma das atividades e da vida dos habitantes do Império do Oriente e Ocidente.

Enquanto o Ocidente expressa essa fé vivida mediante a experiência pessoal do artista, o Oriente atém-se aos cânones estabelecidos pela Igreja. O primeiro expressa sua própria experiência e os próprios sentimentos de fé, pintando com total e absoluta espontaneidade qualquer motivo religioso que lhe é sugerido, solicitado ou que, simplesmente, expresse o que ele sente ou experimenta. No Oriente, os iconógrafos, seguindo os ensinamentos do Mestre Dionísio e, em geral, as determinações da Igreja, buscam reproduzir as mesmas passagens dos Evangelhos, omitindo qualquer experiência ou sentimento pessoal vivido, tratando simplesmente de uma profunda vida de oração, expressando-se no conteúdo dos Evangelhos. Os iconógrafos, antes da iconografia ter passado a ser objeto de ocupação de pessoas amantes das artes manuais, eram sempre monges, e a iconografia era uma função conferida pela Igreja. A tarefa do iconógrafo sempre foi comparada à do sacerdote, mesmo porque ambos pregavam a Palavra de Deus; o Iconógrafo, com a pintura e as cores, o sacerdote, mediante a Palavra ou a Escritura.

II.4 - Os primeiros ícones cristãos

Após a morte e a ressurreição de Cristo, a nova fé no Ressuscitado espalhou-se rapidamente por todo o mundo romano e pelo Oriente Médio. As histórias dos Apóstolos e das testemunhas que tinham conhecido Jesus Cristo davam descrições de sua aparência. Num dado momento as pessoas começaram a criar e distribuir pinturas de Cristo, e inclusive de seus discípulos e dos mártires da fé cristã.

Assim, havia umas pinturas muito antigas de São Pedro e de São Paulo. Entretanto, a Igreja ficou um tanto dividida quanto às imagens de Cristo.

II.5 - Ícones do período médio bizantino

 No princípio do VIII século irrompeu uma controvérsia terrível na Igreja Ortodoxa entre os iconoclastas (quebradores de imagens) e os favoráveis aos ícones sobre o uso dos ícones na adoração e na oração. A questão foi discutida na Igreja durante cem anos. Os iconoclastas falavam em adoração dos ícones, enquanto os que eram favoráveis falavam somente em proskynesis. [6] Essa mesma veneração era concedida ao imperador, como reverência, saudação e respeito, mas não como adoração. O Imperador Constantino através de um edito em 730, decretou a proibição dessas imagens. Esta proibição era ilegal, pois pela primeira vez, um imperador influía diretamente nas questões da Igreja, ignorando os outros patriarcas e inclusive, o papa em Roma.

O edito foi observado estritamente em Constantinopla. Mas, em 843, essa proibição foi revogada, com a vitória total dos ortodoxos.

Durante o período iconoclasta, toda a tradição da pintura dos ícones foi amplamente prejudicada. Podemos supor que os ícones criados durante esse período tinham um ar mais austero, talvez um tanto severo na aparência, considerando que nessa época quase todos os ícones eram produzidos nos mosteiros pelos monges.

Quando os pintores de ícones se tornaram livres para trabalhar abertamente, após a revogação de 843, os artistas necessitaram de muitos anos para voltar a dominar a técnica e os estilos tradicionais, além de que os materiais para a pintura e o trabalho do mosaico tornaram-se difíceis de encontrar. Os ícones eram pintados na têmpera em ovo, no mosaico, no marfim, no vidro, no mármore, no ouro e em pedras preciosas. Mas, aos poucos, a arte de Bizâncio foi alcançando um refinamento e uma beleza talvez nunca antes conseguida.

III. O ícone de André Rublev: a Santíssima Trindade

O ícone "da Trindade", às vezes também nomeado de “o ícone dos três Anjos", é do iconógrafo Russo André Rublev, e é um dos ícones mais famosos de toda as épocas. É também chamado de ícone “da hospitalidade de Abrão”. Desde os primeiros séculos do Cristianismo, a narração bíblica da visita dos três estranhos a Abrão e Sara (Gn 18, 1-22) foi interpretada como uma manifestação da Santíssima Trindade. Já pelo IV século o historiador da igreja Euzébio de Cesárea escreveu que desde os tempos antigos existiu um quadro da Santíssima Trindade, na forma de três anjos, onde três estranhos apareceram à Abrão. Os Santos Padres entenderam este evento como uma demonstração, até mesmo indireta, da Trindade, ou como uma demonstração do Filho de Deus, acompanhado por dois anjos. Muito antes de Rublev, existiram muitos iconógrafos que fizeram essa representação iconográfica desta cena, incluindo Abrão e Sara que servem os anjos e freqüentemente um criado que mata um cordeiro para a refeição. Mais ninguém teve a iluminação e a ousadia de Rublev.

III.1 - A Trindade aparece a Abraão no Antigo Testamento (cf. Gn 18)

O cenário da referida cena é um lugar que se chama Mambré, uma passagem próxima à cidade de Caná que se localizava à distância de aproximadamente 30 quilômetros ao sul de Jerusalém. Gn 18 relata a historia de um ancião sentado na entrada da tenda debaixo da sombra do carvalho, se abrigando do calor do sol do meio dia, conhecida como a pior hora do dia quando o sol emite seus raios sem misericórdia; era um dos mais quentes dias de verão; por isso desejava o homem sentar debaixo da árvore para sentir um pouco da umidade de sua sombra. Esse venerável ancião é Abraão, pai dos fieis, de uma obediência cega incomparável a Deus que o acolheu e o tornou seu predileto. Deus dialogou com ele selando uma promessa de que lhe abençoaria a descendência. Desejou então aparecer na figura das três pessoas: “Bem-aventurado és Abraão por ter visto e recebido a Divindade Una em três pessoas” [8]. Ergue Abraão sua visão para a luz resplandecente vendo três homens de pé à sua frente. Prostrou-se até o chão diante deles mesmo sem saber de suas identidades, iniciando o seu encontro com eles, dialogava com eles, tratando-os ora no singular, ora no plural. Abraão os acolheu conforme as normas e a tradição da hospitalidade local, desde o lavar dos pés, o preparo dos alimentos e a fabricação do pão até a distração digna do hóspede. Abraão sabia que estava diante da presença de Deus; Quando os visitantes anunciaram a Sara, já com avançada idade, que após um ano seria mãe de um menino e que se chamaria Isaac que significa “Deus sorri”, essa anunciação provocou risos em Abraão (cf. Gn 17,17), e em Sara (cf. Gn 18, 12). Riso de espanto, dúvida ou de alegria? O importante é que nada é impossível a Deus. A estéril, a de idade avançada e a virgem dão a luz por sua vontade. Isaac é o cordeiro, a oferenda que anuncia o sacrifício da Gólgota, o verdadeiro cordeiro. Aqueles hóspedes que as Escrituras ora chamam de homens, ora de anjos, são a visão da Trindade que se transfigurou para Abraão e lhe descobriu sua intenção de castigar Sodoma e Gomorra. Então, após ter certeza que estava diante da presença de Deus, Abraão mostra sua coragem, perseverança e convencimento em interceder em prol da humanidade pecadora, seu diálogo com Deus tem muita humildade e muita coragem. Porém os pecados de Sodoma são maiores, por isso Deus destruiu o mal causador da destruição.

III.2 - Características do ícone de Rublev

O tema era ousado, mas a genialidade de André Rublev permitiu-lhe usar o tema da hospitalidade de Abraão para fazer um ícone de uma grande beleza e de qualidade artística que evoca o mistério da Santíssima Trindade, como também a encarnação do Filho de Deus e a Redenção. O ícone evoca um sentimento de paz, de serenidade, de harmonia que se transmite ao espectador. A obra de Rublev não é uma "representação" da Trindade, pois isso é impossível e contrário aos cânones da iconografia da Igreja Ortodoxa. São reduzidos ao mínimo possível os elementos históricos da narração bíblica - Abraão e Sara não aparecem no ícone de Rublev, mas permanecem, por exemplo a casa de Abraão, o carvalho de Mambré e a pedra, que contribuem para aprofundar o ensino do ícone na Trindade, a encarnação e a Redenção.

Essa cena que representa a hospitalidade de Abraão aos visitantes celestes inspirou muitos escritores de ícones na história da Igreja, sendo um tema de comum acesso nos diferentes paises do mundo ortodoxo. Há por exemplo uma pintura existente no museu de Pinaque em Atenas, que remota ao fim do XIV século, que apresenta três anjos ao redor de uma ceia festiva repleta de utensílios e alimentos, e ao seu redor Abraão e Sara os servindo. Outra obra semelhante, búlgara, no museu clerical de Sofia, remota do XVII século; outra também em Moscou Roak Tartiakov remota o XVII século, da escola dos pintores do Kzar, estando também pintado nela uma série representativa das passagens do livro de Gênesis, como a vinda dos anjos, a prostração de Abraão, o sacrifício de Isaac, a historia de Ló e sua esposa transformada em estátua de sal, etc... Essa representação então existe na tradição ortodoxa.

Porém qual foi a renovação que venho pela obra de André Rublev e que transformou seu quadro numa obra prima mundial de magnífico esplendor? Qual é o atributo que a fez tão famosa mundialmente até para os não-ortodoxos, e talvez para os não-cristãos também?

Rublev tomou essa representação da hospitalidade de Abraão aos anjos como ponto de partida, abstraindo as pessoas, os utensílios, os alimentos e todos os apetrechos, isto é, abstraiu do acontecimento histórico e a devolveu para sua origem que é a eternidade; despiu o quadro de todos os detalhes criados, enriquecendo a visão geral com o rico e refinado clima celeste, sobrando somente o cálice na mesa e um galho de uma árvore e uma vista lateral do Templo. Distinguido assim a Trindade na sua verdadeira forma como é e sempre foi desde antes da criação do mundo, tentando com toda humildade criar a vida compassada dentro da Trindade, como se estivesse inspirando o vento eterno compondo as melodias do amor representativas na essência da Divindade. É obvio que a genialidade artística de Rublev contribuiu na criação desse versículo artístico que muito foi comentado pelas opiniões artísticas mundiais. Sua beleza é como sua perfeição nas duas visões: a artística e a dogmática, o mestre acrescentou no seu quadro acréscimos sobre sua grande capacidade no uso do pincel, usou tudo aquilo que absorveu na sua vida monástica de informações teológicas retiradas das Sagradas Escrituras e da vida litúrgica, meditando no clima de abstinência, oração e silencio. Adicionou a isso, o gosto refinado na escolha das cores e a beleza dos rostos, a perfeição no que diz respeito às medidas e à versatilidade dos corpos, à simplicidade da formação e à elegância dos significados, à graciosidade dos olhares e à combinação dos traços, à leveza dos movimentos e ao esplendor das luzes que refletem deles.

Quem vê o ícone de longe crê que é uma bola de fogo vermelha e azul numa base dourada induzindo o sentimento de que tudo estivesse ardendo em brasa no espírito da fervorosa aparição, como se os três anjos fossem a assembléia eterna na visão de um arbusto em chama ardente que clama a quem olha inclinado: “Eis um lugar Santo”. Em 1515, na inauguração da Catedral da Dormição em Moscou, que estava enfeitada com ícones e quadros, obras dos alunos do mestre Rublev, tendo entre elas o ícone dos ícones o qual foi pintado pelo próprio Rublev, houve um espanto dos presentes. Ao se depararem com aquele ícone clamaram o metropolita, os bispos e todos os fiéis juntos, dizendo: “em verdade o céu se abriu e desvendou-se a magnificência de Deus [9].

No fim de 1904, ao término da restauração das antigas obras de arte, que retirou os ornamentos de metal, limpando os ícones das várias camadas acumuladas sobre eles no decorrer dos anos, apareceu a obra na sua verdadeira e completa face, manifestando-se num magnífico resplendor, conquistando a admiração de todos os membros da comissão que se abalaram com a beleza do ícone que foi descoberto, e disseram: “podemos afirmar que não há nada que se compara a essa obra de arte nem no seu resumo teológico, nem ao seu significado simbólico e nem a sua beleza artística” [10].

III.3 - Visão histórica

Na segunda metade do século XIV houve um grande desenvolvimento simultâneo de dois extremos, a cultura e a religião.

O Santo Sérgio Rodannez, padroeiro da Rússia é o santo de maior popularidade nos séculos da Idade Média. Nascido numa família de posses e de alta posição social, Sérgio preferiu abandonar toda a fortuna de sua família para viver uma vida de renúncias. Recolheu-se desde sua juventude numa grande floresta no centro da Rússia, onde foi rodeado por vários seguidores e discípulos. Iniciou a construção de mosteiros, sendo o primeiro deles o mosteiro da Trindade no norte de Moscou, atualmente chamado de Zagorsk, que se tornou ponto de iluminação na Rússia. Ensinou aos agricultores a melhor forma de plantar, contribuiu nas reconciliações entre eles, a ponto de até podermos dizer que uniu toda a Rússia do século XIV ao redor da Igreja dedicada à Trindade, ou seja: ao redor de Deus. Após sua morte não deixou nenhuma pesquisa ou escrito teológico, porém toda sua vida fora dedicada à Santíssima Trindade, base de suas incessantes meditações. Dedicou sua vida anunciando a união e o amor entre os que o rodeavam, ensinando-os a meditar na Trindade para superar o ódio que divide o mundo. Na memória do povo Russo, permaneceu Sérgio como pessoa que fora enviada do céu para proteger seu país e que também indicou de forma concreta o mistério da Trindade e sua Unidade. Essa luz que foi entornada nele o transformou numa imagem transparente, radiante e resplandecente na pureza e na Luz.

Enquanto Sérgio era abade, Rublev se tornou um monge no mosteiro da Trindade. Aí se dedicou e se aperfeiçoou na pintura, nos ateliês do mosteiro, os quais eram os mais importantes ateliês de arte sacra daquela época. Porém Rublev deixou o mosteiro por um determinado período para ir a Moscou trabalhar como artista e ao retornar ao mosteiro, o seu superior já tinha falecido no ano de 1392.

Após ter passado alguns anos da morte de seu superior, um dos alunos pediu ao monge Rublev, que tinha se tornado um dos mais famosos pintores, que pintasse um ícone da Trindade em memória de seu falecido mestre. Rublev que era um eremita fiel e de fama digna, de caráter incomparável e pureza de coração, e de profunda vida espiritual, atendeu ao pedido que lhe foi feito, dando início à pintura. Dizem que Rublev, nos seus momentos de descanso, sentava-se junto ao seu amigo e aluno de frente ao ícone celeste admirando-o e elevando sempre seus pensamentos à Luz Divina, tentando efetivar o objetivo do Santo Sérgio nas cores e na iluminação. Sempre meditava o versículo do Santo Evangelho que diz: “para que sejam um como nós o somos...” (Jó 17,11b); a unidade e o amor eram a sua única fixação.

Não há dúvidas que a humildade era uma das características básicas para esse monge; era como se nele tivesse sido aberto um vazio total que permitiu a Deus fazer escorrer a Luz da Trindade para o seu interior, iluminando o seu coração, seu ser e sua mente, até tornar todo toque de seu pincel num clamor de glorificação e incenso de louvor ao céu, propagando o aroma da Trindade e expandindo como um perfume no mundo dos fiéis na comunhão dos Santos. Era como se o próprio Espírito Santo o conduzisse e orientasse seu pincel para ajudar aquele artista a apresentar essa contemplação celeste nesse patamar de beleza. Essa obra magnífica lhe custou muitos esforços, cansaço e oração; porém, vendo o resultado, teve a recompensa. Sua obra, entre os ícones, é uma benção que paira sobre a humanidade e um ponto de meditação e fonte de profunda iluminação espiritual.

IV. A teologia trinitaria fluindo do ícone de Rublev

Os três anjos reunidos ao redor da mesa, ao redor do alimento celeste, regozijam-se no apaziguamento, na serenidade e no sentimento de tranqüilidade e de paz que brotam do seu ser. Esse descanso não é paralisação, mas é delírio ou embriaguez; expressa o espanto e admiração. O cálice que carrega a imagem do cordeiro é o principal motivo de sua atenção, e está presente no coração da Trindade desde a eternidade, por isso há um sentimento de tristeza que se forma nas suas faces combinado com o da alegria. Suas asas douradas encobrem a maior parte da superfície do quadro. Na sua acomodação há leveza e agilidade; o equilibro do tamanho do corpo normalmente na arte iconográfica é sete vezes maior que o tamanho da cabeça, mas nesse ícone Rublev aumentou o tamanho do corpo, tendo feito isso propositadamente para destacar os anjos numa imagem esbelta e marcante.

Eis que Eles estão num diálogo permanente; a semelhança entre Eles é clara e proposital para expressar a consubstancialidade. Não podemos distinguir entre Eles, a não ser por um único gesto que diferencia um do outro, a inclinação dos corpos e as cores de suas roupas. Houve uma dúvida sobre a identidade do anjo que está sentado no centro: perguntavam alguns especialistas se representava o Pai ou o Filho. Não entraremos no mérito da discussão, mas seguiremos a opinião do teólogo Paul Evdokimov que se baseia em provas que diz: “o anjo da direita não apresenta problema algum; é o Espírito Santo”. A dúvida afeta o anjo do centro é ele o Pai ou o Filho? “O anjo da esquerda tem o nome de Py, que significa o Filho, o anjo da direita, o de Puiltos: o Espírito Santo; e o anjo do meio o de Ai: representa Deus Pai” [11].

Cada um dos anjos carrega um báculo que representa o poder Uno, cada um apontando ao símbolo que o representa. O báculo do Pai aponta para a árvore da vida que carrega o fruto da vida eterna: nas matinas de Natal recita-se “o anjo que carrega a espada ardente se afastou da árvore da vida por que seus frutos nos serão dados através da comunhão”[12]. A árvore da vida não será violada como fez Adão, por isso, Deus o afastou dela, e viu por bem não nos dar seus frutos a não ser através da Cruz. O báculo do Filho, que está representado pelo anjo sentado à esquerda no quadro, aponta para o altar, para a Igreja, o seu corpo; porém o báculo do Espírito Santo, que está inclinado um pouco para a direita e está apontando para as rochas pintadas numa forma de escadas, é a inspiração que se declina na montanha, montanha de Sião, montanha de Tabor, e outros. É a elevação, o espanto, a supremacia profética, o andar superior, a sala de pentecostes.

O espantoso nesse quadro é que ele contém uma expressão de estabilidade predominante e, mesmo assim, carrega com ele o seu conteúdo de movimento que se mescla num movimento circular coordenado que se inicia no pé direito do anjo que está à direita e que toca a escada com uma excepcional delicadeza como se estivesse isento do peso da matéria, passando para o inclinar de sua cabeça que atrai com ela a rocha e a árvore, querendo com isso dizer que o mundo inteiro é atraído em direção do Pai pelo Espírito, o mundo é chamado para se voltar ao Deus Pai. Conduz com ela a inclinação da cabeça do anjo central pairando finalmente na posição vertical do anjo esquerdo como se estivesse num recipiente, e o que acrescenta um certo esplendor na visão é justamente a visão contrária que é o desaparecimento da qualidade que vai além da aparência (característica de todo ícone).

O movimento confirma ainda na expressão do olhar, pois nos ícones, normalmente o olhar se depara com o expectador, e as faces são pintadas como se estivessem se defrontando com quem as admira, mas aqui onde os olhares estão numa corrente circular, os rostos são pintados meio que de perfil; as roupas largas cooperam no movimento participando na demonstração da beleza dos corpos e dos traços dos rostos e suas minuciosidades.

IV.1 - As Formas Arquitetônicas: templo em forma imaginária

As formas arquitetônicas que foram adotadas pelo iconógrafo como base para o seu quadro são: o retângulo, o triângulo, o círculo e a cruz. Estas formas foram introduzidas na montagem do quadro e devemos descobrí-las. No século XV acreditava-se que a terra era plana, por isso o modo retangular debaixo da mesa que a representa; a mesa também é retangular representando o símbolo dos quatro pontos cardeais da terra. Na era dos Santos Padres a original simbologia era os quatro evangelistas que divulgavam a universalidade do Verbo, por ser esta a única divulgação através dos quatro Evangelhos; portanto a terra atrai as mãos dos anjos (ponto do amor Divino). Entendemos da forma retangular que o mundo está fora do circulo imaginário que envolve a Trindade, mas está incluso no triangulo da comunhão do Pai.

Ao unirmos as pontas da mesa com a cabeça do anjo que está no centro com uma reta imaginária veremos que os anjos foram desenhados em um triângulo de simetria e pontos perfeitos, querendo significar a consubstancialidade, unidade na mesma essência das pessoas da Trindade, em sua união e individualidade, particularidade ou originalidade que é encontrada na visão do profeta Isaías que chama o Senhor que está sentado no trono de Senhor dos Exércitos (Is 6,5), enquanto João o Evangelista diz que Isaías viu a Glória do Filho (Cf. Jo 12,41); mas São Paulo diz que quem dialoga com Isaías era o Espírito Santo (Cf. At 28,25). Isso tudo se explica ao entender que quem Isaías viu era a glória de Deus Uno e Trino de hipóstases, como a expressão “Ide portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19);  não disse ide e batizai nos nomes do Pai , do Filho e do Espírito Santo, como três deuses diferentes, mas usou o termo “em nome”, com objetivo de mostrar um único nome e única força de Deus Único, em três Pessoas (Hipóstases) de natureza divina única. Se desenharmos uma linha acompanhando o extremo dos anjos, os encontraremos num círculo perfeito sendo o seu ponto central a mão do anjo central que representa a missão do Pai o Criador ou o “Παυτοκρατωρ”  Pantokrator” [13].

IV.2 - A Cruz

A cruz abraça o ícone, pois ela é o centro invisível no qual a pintura fora baseada: o arco iluminado em cima da cabeça do Pai, o cálice e o símbolo da terra, tudo isso está na linha vertical que divide a pintura em duas partes iguais. A linha horizontal une os dois arcos dos anjos que se encontram com a linha vertical, criando uma cruz perfeita, que se situa  no meio do coração do amor Trinitário, no peito do lado do coração do anjo do centro.

Porém nem tudo está centralizado no meio desse esquadro equilibrado e arquitetado. Há alguns motivos que foram deixados propositadamente fora do esquadro, como o cálice e a mão do Pai, que estão um pouco fora do centro inclinando-se para baixo, tendo sido estudado para que possa realizar a sua missão que é direcionada ao expectador representando a  Epíclese na Santa Liturgia que é o ponto de magnificência.

Há uma atitude de veneração e magnanimidade na forma do Pai se assentar, o manto que vem caindo pelo seu ombro esquerdo como cataratas que vão despencando e chamando a atenção à estabilidade da mão direita que ao mesmo tempo se movimenta abençoando o cálice, num movimento suntuoso e ininterrupto. O mistério de Deus pode ter essa contradição, pois Ele é a fonte de toda graça e por isso é silêncio não descoberto a não ser pela comunhão, incompreensível, a não ser através de Jesus Cristo, como está em São João: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida; Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jó 14,6;6,44). Entretanto, o Filho é a representação, o anúncio do Reino, a revelação de Deus e a Palavra, pois é o Verbo, que está numa posição de alerta, que não se apegou e se destituiu de sua identidade divina para se encarnar como no mundo por causa do homem. A mão do Espírito Santo está direcionada para baixo abençoando o mundo, acolhendo-o e protegendo-o como se fosse asas da pomba que carrega o carinho maternal. O movimento que flui do Espírito Santo indica que no seu sopro o Pai se locomove em direção ao Filho e o Filho recebe o Pai, diz São João Damasceno: “No Espírito Santo reconhecemos o Filho e no Filho admiramos o Pai” [14].

O Pai inclina a cabeça em direção ao Filho, num inclinar repleto de tristeza indescritível, porque vê n’Ele o cordeiro sacrificado. O Filho reflete, medita e expressa sua opinião, consentimento e adesão.

IV.3 - As cores

As cores no Ícone de Rublev também têm expressão, ondulações e riquezas incomparáveis. Cada parte do quadro reproduz com esplendor a Luz radiante que explode de suas raízes misteriosas; a imagem central tem excesso nas cores: o vermelho escuro representando o amor Divino; o azul em excesso, chamado de o azul do Rublev, representa a realidade celestial, por isso está debaixo do manto do anjo da esquerda. A natureza humana de Cristo se manifesta na natureza divina.

A seqüência das cores se transpõe combinando com a cor dourada brilhante fazendo do ícone uma magnífica obra artística que reproduz resumidamente a magia de Rublev, que induz a um sentimento profundo, porém não emocional, contendo delicadeza sem se degenerar, tendo suavidade mesclada com solidez, em linhas invisíveis que carregam consistência e densidade.

Vemos as cores das roupas no ícone e aprendemos um pouco sobre o significado das cores iconográficas, que são praticamente uma tradição escolástica iconográfica. Mesmo para criar um ícone, um iconógrafo tem que respeitar a tradição para poder pintar um tópico; se ele não souber a significação de um detalhe, não deve tomar a iniciativa para removê-lo ou mudá-lo. Assim ele não omitira um elemento que poderia ser importante na interpretação da iconografia. 

A cor azul une o caráter em geral à divindade. É normalmente reservado ao Cristo e à Mãe de Deus. A contusão pálida nas roupas de santos indica a grande devoção à Mãe de Deus, e também a deificação, a união com Deus, a meta da vida Cristã. Cada um dos três anjos do ícone da Trindade tem uma peça do seu vestuário azul que expressa a sua divindade. A peça de vestuário azul no anjo do centro, demonstra que o mistério da encarnação é a grande teofania, a Manifestação de Deus; a divindade de Cristo é o mistério central da fé Cristã. A divindade dos dois outros anjos está escondida debaixo das outras vestimentas e bastante misteriosa; sendo que iremos descobrir isto na fé. A fé identifica o Cristo como o Filho de Deus, e está com Cristo aquele que conhece o Pai pela fé.  

O vermelho é o que representa o sangue de Cristo que deu todo o seu sangue para a vida do mundo; é também o dos mártires, ou a efusão da mente santificada no fogo de Pentecostes. Por exemplo: A Mãe de Deus é representada freqüentemente nos ícones vestida com um manto de cor vermelho escuro, quase dourado. Esse mesmo manto vermelho foi colocado sobre o ombro da hipóstase do lado esquerdo do quadro; “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra” (Lc 1,35). O manto da vestimenta de Maria é representação do Espírito Santo que a envolve.

O amarelo é a cor de luz. Normalmente, são representadas as características dos ícones em um fundo neutro, amarelo. Alguns iconógrafos recuperam o fundo completamente de ouro, mas freqüentemente as pessoas põem ouro para a áurea, porque a cabeça é a parte mais luminosa da pessoa. Quando a pessoa falar de iluminação, compreensão, inteligência, recebe a fé e ao mesmo tempo a compreensão em seu coração. A cabeça é o elemento principal da pessoa; assim a cabeça da pessoa é cercada com ouro, que tem três reflexos em forma de cruz muito luminosos. O fundo de um ícone é de ouro ou de cor amarela, simboliza que a pessoa do ícone está iluminada. Da luz que é a resposta à morte. O tema da luz é muito presente em nossas liturgias e na cerimônia fúnebre. Diz-se: "Faça deslumbrar neles a luz divina sem fim"; quando rezamos no funeral essa oração, pedimos permissão para que nós também entremos na luz divina.

O verde representa vida. O Espírito Santo no ícone da Trindade é representado numa hipóstase com o vestuário verde porque é o que vivifica. No ícone da ressurreição ou a descida ao inferno, Jesus vai à procura de Adão e Eva; Adão é revestido freqüentemente com verde; Adão o primeiro homem e a origem da raça humana. Jesus desce ao inferno para devolver a vida a quem era a origem da raça humana."O Adão deu a morte a esses que o buscam e o Cristo deu vida a esses que morreram antes dele "(1Cor 15,20-22). 

IV.4 - Os três Anjos

Voltemos às três pessoas do ícone. Elas têm a mesma face precisamente, uma façanha para o nível artístico.  As faces são idênticas porque as três Pessoas da Trindade são idênticas na sua natureza; mas são diferentes em sua relação. Cada uma das Pessoas assume uma ação particular, mas em sua individualidade, as duas outras Pessoas estão presentes, porque a ação trinitária é realizada sempre a três. É ação triádica.

Podemos dizer que no ato eterno da paternidade do Pai, as duas outras pessoas da Trindade já estão presentes. Segundo a teologia oriental, não há diferença existencial no tempo entre o Pai e o Filho que foi gerado dele e o Espírito que procede dele. Não há hierarquia entre as três pessoas, mas existe uma missão apropriada para cada um. Em nossa compreensão e em relação à criação, não podemos dizer que "o Pai é menos ou mais criador que as outras duas pessoas", ou que "o Filho é mais Salvador que os outros dois", ou que "o Espírito Santo é mais Santificador que os outros dois".  Nós damos a cada um, papéis distintos, onde porém, todos são e estão ativos e presentes na mesma ação econômica trinitaria.

O Deus de três hipóstases, único substancialmente e indivisível, que se apresentou no Novo Testamento é o mesmo Deus consubstancial e indivisível na essência que se apresentou no Antigo Testamento, mesmo que o Antigo Testamento não comente sobre o Mistério da Trindade, por motivos óbvios. Mas isso não impediu os patriarcas e os pais do Antigo Testamento de viverem mesmo sendo que sem consciência, o mistério da Santíssima Trindade. Esse conhecimento não é mental, físico ou material, mas é um conhecimento incorpore, que supera o da mente e a compreensão humana, por ter se realizado por intermédio do conhecimento do mistério e da glória da Trindade divina perante aqueles que foram preparados por intermédio da graça divina, para confirmar a personificadora Trindade é a divina graça e a ação na unidade como é relatado em São Paulo; “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de mistérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1 Cor 12,4-6).

Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai, o seu Verbo encarnado, é a fonte do Novo Testamento como foi à base do Antigo Testamento antes de sua encarnação, pois toda manifestação da Santíssima Trindade e todo anúncio da Sua vontade se realizou através d’Ele; “Deus ninguém jamais o viu, o Filho é o único que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer” (Jo 1,18).

O Espírito Santo, o Espírito do Pai, é encontrado no Novo Testamento, onde há todas as qualificações que distinguem as pessoas (Hipóstases), por outro lado, têm todas as características que determinam as obras ou ações de Deus, Consolador, Anunciador, Mentor, Paráclito. Qualificações estas que só podem ser dadas à terceira Pessoa da Trindade; como nos mostra o trecho de João que diz: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”. (Jo 14,26). Esta divindade também orienta, anuncia, profetiza, “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará coisas futuras” (Jo 16,14). Testemunhará em prol de tudo aquilo que foi dito e feito pelo Filho; “Quando vier o Paráclito que vos enviarei de junto do Pai, ele dará testemunho de mim” (Jo 15,26); Constitui Bispos todos aqueles que receberem o dom do Espírito Santo através da imposição das mãos por sucessão apostólica e colegiado, “Estais atentos a vós mesmos e a todo o rebanho: nele o Espírito Santo vos constituiu guardiães, para apascentardes a Igreja de Deus...” (At 20,28).

IV.5 – Essência Trinitária

Deus é amor na sua essência, e na essência Trinitária, então Ele é dedicação e sacrifício. O amor da humanidade é somente o reflexo do amor trinitário. Diz Evdokimov: “entre a existência e a inexistência não há fundamento existencial, a não ser o fundamento Trinitário, por ser o fundamento inabalável, que une entre a individualidade e a comunidade dando um significado final a tudo” [15]. A imagem do Pai “Uno e Trino solares” de resplendor, verdadeiro e absoluto, está diante de nós como principio único de toda a existência. A partir desse círculo de amor da essência trinitaria é dever  da cristandade imitar esse amor. A Igreja é responsável em repetir na sua vivência a verdade divina; era exatamente isso que os Santos Padres da Igreja desejavam e repetidamente insistiam ao dizer que o ser humano é chamado a se tornar divino pela graça que lhe é dada por Deus. O Dogma diz: “três pessoas em uma só natureza ou uma só substância, três hipóstases semelhantes na substancialidade, numa união perfeita e separação perfeita; são unidas, não para se mesclarem, mas para se auto suportarem e se interligarem uma à outra. Cada Pessoa é identificada com as outras por ter sua relação destacável da outra e conter a substância Una e acolher as outras Pessoas num relacionamento e numa contemplação entre si” [16].

Na última Ceia, vemos Jesus citando várias vezes o Pai, o Filho e o Espírito Santo, lembrando sempre as três hipóstases juntas, mas de formas diferentes. “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26), “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ...” (Mt 28,19). O Cristo Salvador enviou seus discípulos para a evangelização dos povos, ensinando a adoração das três pessoas da Trindade sem nenhum acréscimo; assim vemos que os apóstolos não só ensinaram mas também viveram o Mistério Trinitário conforme os ensinamentos do próprio Cristo Deus, sendo isso o auge e a essência da evangelização.

Há um movimento de amor eterno que está personalizado na essência da Trindade. O homem retoma o paraíso perdido; isso quer dizer que entra nesse movimento e vive no coração de Deus. O Pai é fonte em abundância que transborda numa riqueza ilimitável, por isso não se esgota ao se dar de si mesmo; Deus é incontável, pois a divindade trinitária não é quantitativa. Por isso, a mente do ser humano, por ser limitada na compreensão, não consegue compreender a Trindade, mas só a vida espiritual nos permite entrar na magnanimidade do mistério. O três é um número exemplar, pois o numero um é isolado, o dois é divisível, porém o três é indivisível, é comunidade. O um e a quantidade se encontram e se concentram na Trindade, é disposição de cada hipóstase se encontrar nas outras, na Única Luz que intervém no oculto da profunda Trindade. Diz São Gregório Palamás: “o Espírito Santo é alegria da eternidade do Pai e do Filho, onde os três se contentam mutuamente” [17], isso é, a imagem da nossa Igreja terrena  e a comunhão no amor recíproco, una na sua diversidade, e única para toda a humanidade na única natureza que está resumida em Jesus Cristo.

A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2 Cor 13,14).

No mistério Trinitário no qual Rublev escreve o seu ícone a Igreja crê não é o resultado de um pensamento humano nem uma crença que resultou de uma seita ou de um entendimento retrógrado e filosófico, mas é a essência da anunciação dos próprios apóstolos os quais viveram e ensinaram na experiência vivenciada da divinização; “O que vimos e ouvimos vô-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o Filho Jesus Cristo. E isto nós escrevemos para que a vossa alegria seja completa” (1Jo 1,3-4).
A comprovação desses ensinamentos no Ícone de Rublev não se deu somente pelos versículos da Bíblia, que foram citados, mas também por tudo o que nos foi passado e que recebemos de ensinamentos eclesiológicos desde os primeiros séculos, que é a Profissão da fé numa forma resumida que conhecemos hoje, e que proferida pelos que se aproximavam para receber o mistério do batismo ou por quem quís esse de uma forma ou de outra proclamar a sua fé cristã. Por motivo das diversas profissões da fé, nas diversas Igrejas, foi anunciada em comum uma única forma que unifica todos na mesma fé trinitária e na crença da salvação em Jesus Cristo.

Nos mistérios da Igreja primitiva o batismo era realizado desde os primeiros séculos “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” [18]; a forma de batizar com três imersões representava essa fé, e a cada imersão era lembrado o nome de uma das pessoas da divina Trindade. Outra forma de adoração a Deus era a forma mais conhecida que até hoje é cantada: “Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo”; a confissão antes do seu martírio também era uma forma muito usada. Entre muitas formas que chegaram até nós, que confessam a convicta fé na Santíssima Trindade citamos a de São Policarpo, Bispo de Esmirna, dedicada a Deus Pai, antes de ser queimado vivo: “Te Exalto por essa graça e por tudo que me fizeste, Te Glorifico e Te Adoro por intermédio do seu Celestial e Eterno Sacerdote Jesus Cristo, o Teu Único Filho que está junto de Ti e com o Espírito Santo, toda honra e adoração agora, sempre e pelos séculos dos séculos. Amém” [19].

Rublev preservou na sua obra iconográfica a manifestação dos Santos Padres da Igreja do primeiro século, sobre a fé da Santíssima Trindade, que foi preservada através dos escritos e ensinamentos. Entre muitas obras deixadas por eles temos a carta do São Clemente, o romano, para os Coríntios onde diz: “Não temos um Único Deus um Único Cristo e Um Único Espírito Santo que foi derramado sobre nós?” [20]; entre muitas citações sobre a Santíssima Trindade nas cartas de Santo Inácio de Antioquia lembramos “Tentem seguir os dogmas e os ensinamentos do Senhor e dos Apóstolos, para serem vitoriosos nas suas ações tanto no corpo e como no Espírito, na fé e no amor do Pai, no Filho e no Espírito Santo” [20].

Também chamados de defensores da fé, os Santos Padres viram que era necessário falar mais sobre o Mistério da Trindade para defenderem o Cristianismo e atacarem os heréticos. Referiram-se especialmente à Palavra divina e sua relação com a criação do mundo. Mas suas terminologias às vezes não eram muito especificas, por isso causaram a desunião e a má compreensão das classificações que poderiam através delas se expressar a respeito do Mistério Divino, por ser impossível aos nossos limites humanos e por sermos criaturas limitadas, a compreensão sobre a Trindade que está acima de toda compreensão e expressão. Mesmo assim, os Santos Padres, defensores da fé, por causa das heresias que a maioria das vezes surgiam dos meios filosóficos, usaram então terminologia de origem filosófica, batizando os termos filosóficos com uma compreensão ou sentido novo, sentido cristão onde todos estivessem de acordo. Assim, por exemplo, o termo Trindade (Trίaδ), não existe na Bíblia, tendo sido inserido por Teófilo de Antioquia (185), e a palavra correspondente em latim, Trinitas, de Tertuliano (21).

Na Literatura patrística é possível dividir as expressões que se referem ao Mistério da Trindade em duas partes: as que têm relação com a essência e as que têm relação com a pessoa. Elas tiveram dificuldades de serem aceitas a princípio, porque o que um pensava que tinha ligação com a essência, para o outro a ligação era com a pessoa, e vice-versa. Por isso o assunto precisou de muito tempo para conseguir um comum acordo entre os Santos Padres sobre as determinações de cada expressão.

Quando os Santos Padres usaram essas expressões que se referem à substância da essência divina, (оύσίa) em grego e (substantia) em latim, foi para designar o ser divino na sua unidade.

Para designar o Pai, o Filho e o Espírito Santo na sua distinção real entre si,  São João Damasceno diz: “Prόtwpon é o termo que se dá a conhecer nas suas obras e se destaca na suas variadas formas, mas da mesma natureza; por isso podemos dizer que a pessoa tem uma completa consciência, força para decidir e vontade para existir em comunhão com outras pessoas” [22], ou, num termo resumido, tem mente, vontade e amor.

A Igreja confirmou as afirmações dos Santos Padres no seu II concílio Ecumênico de Constantinopla, proclamando a fé no seu Credo Constantinopolitano que é professado desde 381 que diz: “Cremos no Espírito Santo, que é o Senhor e que dá a vida, ele procede do Pai” [23]. Com isso a Igreja reconhece o Pai como “a Fonte e a origem de toda a divindade” [24]. A origem eterna do Espírito Santo que está vinculada à do Filho, pois Ele é “a Terceira Pessoa da Trindade, sendo Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho da mesma substância e natureza, é o Espírito do Pai e do Filho simultaneamente” [25]. Nesse mesmo concilio confessa-se: “Com o Pai e o Filho ele recebe a mesma adoração e a mesma glória” [26]. Portanto, podemos dizer que o Pai é a fonte de toda divindade e toda criação, o Filho é o Logos, é o Amor receptivo aquele que tudo transmite e revela a comunicação do Pai, o Espírito Santo é o amor recíproco e transformador entre as pessoas e o amor entre nós e Deus, é a auto-comunicação que nos transforma, agindo em nós, fazendo-nos viver no mesmo Mistério com a Trindade. Aqui vemos que Rublev soube encarnar literalmente no seu ícone tudo que se refere à Santíssima Trindade que os Santos Padres no de correr dos séculos nos deixaram como ensinamentos na literatura patrística.

Há alguns Padres da Igreja que usaram o termo “o Espírito Santo procede do Pai no Filho” como são Gregório que disse: “O Espírito Santo tem sua existência do Pai e surgiu para o mundo por intermédio do Filho” [27], ou São Cirilo de Alexandria que diz “o Vivificador vem do Pai no Filho” [28], vem d’ele (Deus) conforme sua substância e concedido à humanidade através do Filho. Com isso, os Padres queriam dizer que o Filho é o motivo causador para o Pai enviar o Espírito Santo, e se o Filho não tivesse surgido no mundo, o Espírito Santo não teria sido enviado ao mundo. Ao dizer “no Filho”, “e do Filho”, “pelo Filho” ou “com o Filho”, estamos simplesmente usando termos humanos para expressar uma compreensão superior à nossa; por isso pensamos que o Pai está, porém com o Filho e por seu intermédio o Filho apresenta o Espírito Unificado, sem dizer que o Espírito Santo tenha surgido depois do Filho, mas existe ao mesmo tempo que ele e o Pai. O Espírito Santo procede da mesma eternidade do Pai e do Filho, ou da mesma eternidade do Pai com o Filho.

São Máximo (+662), explica a forma do “Filioque” como uma interpretação para explicação do incompreendido. Na sua carta direcionada ao sacerdote Marin em Chipre diz: “ao dizerem os latinos que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho não tornam o Filho um problema ou fonte do Espírito, porque sabem que a fonte única para o Filho e para o Espírito  é o Pai, a primeira na filiação e a segunda na procedência, porém dizem isso para mostrarem que o Espírito Santo procede pelo Filho para certificarem com isso a Unidade e comparação da essência” [29].

São João Damasceno usou várias vezes a expressão, “o Espírito Santo procede do Pai no Filho”, com o intuito de nos mostrar os dois significados; o primeiro que diz: “não dizemos o Espírito do Filho, mas confessamos que é no Filho que surgiu e nos foi proclamado o Espírito do Deus Pai e d’ele procede. Ao dizermos Espírito do Filho implica que é por seu intermédio que surgiu e foi proclamado à humanidade, sem ter recebido a sua existência dele. Por outro lado o Espírito Santo não é Filho do Pai, mas sim é Espírito do Pai, pois procede do Pai, e o Espírito do Filho, sem significar que é dele, mas significando que procede do Pai pelo Filho, porque o Pai é a única causa” [30]. Assim confirmamos que o Pai é a Única Fonte e procedência do Espírito Santo, e que pelo Filho surgiu aos seres humanos, enviado pela vontade dos dois e da sua reciprocidade no amor. 

Nessa reciprocidade o Pai contempla o Filho que contempla o Espírito Santo que por sua vez zela pela humanidade, pois seu olhar está voltado ao mundo que é representado pelo retângulo. No Ícone ao mesmo tempo vemos estes movimentos como convites para nós,  o olhar do Pai esta voltada ao Filho nos lembra a palavra que ele pronunciou “Este é o meu Filho muito amado escutai-o”(Mt 3,17) . O Pai nos mostra o Filho, sem atrair a atenção sobre si, mas o Filho por sua vez, faz o mesmo nos indicando o Espírito Santo para dizer-nos “É Ele que vos lembrará tudo aquilo que eu vos disse e vos ajudará a entender aquilo que agora não entendeis” (Jo 16,-13)., Jesus também não atrai a nossa atenção sobre si, mas a faz voltar para o Espírito Santo e nos torna obedientes ao Pai. O Espírito Santo não é inferior aos outros dois, com a sua posição inclinada nos leva ao Filho e ao Pai, para que louvemos e o adoremos e nos coloquemos diante dele como filhos e se somos filhos, por conseqüência, herdeiros. Com isso nota-se que a vida deles é verdadeiramente uma unidade onde cada um perde a própria vida para os outros dois e nenhum pode estar sem o outro.

No século IX, a Igreja se reuniu num concilio Ecumênico no ano 876 em Constantinopla, que foi presidido pelo Patriarca Fotios, e rejeitou a forma “e do Filho” que surgiu pela primeira vez no III concilio de Toledo em 588 [31], pois na tradição oriental se confessa o Espírito Santo como “procedente do Pai” (Jo 15,26).
O catecismo da Igreja Católica Romana explica a questão da procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho (Filioque), que não figurava na profissão de fé constantinopolitana, tendo sido introduzida essa forma pouco a pouco nas liturgias latinas entre o século VIII e XI e que se sustenta até os dias de hoje e que foi a causadora de discórdia na relação entre as duas Igrejas irmãs, tornando-se o principal motivo de afastamento entre elas e causando assim a separação definitiva em 1054.

Essa igreja cristã que se diferencia na sua fé no Mistério Trinitário das outras religiões não cristãs, que é a base da teologia na qual se fundamentaram os Santos Padres para o sustento dos dogmas, que não é o único, mas o principal intuito da teologia. Conforme disse São Maximo o confessor, “se conhecermos por inteiro o significado do Mistério da Trindade, nos tornamos unificados plenamente com Deus, conquistamos a divinização do ser humano na vida divina com a Santíssima Trindade, assim nos tornamos como disse São Pedro: ‘participantes na natureza Divina’” (2Pd 1,4).

A nossa fé é conforme os ensinamentos do São João Damasceno que disse: “numa única substância, numa única divindade em três hipóstases indivisíveis, incorruptíveis, ilimitáveis, eternos” [32]. Na realidade as três hipóstases são iguais na substância, na glória e na eternidade, como também são consubstanciais e indivisíveis, conforme os ensinamentos dos Santos Padres que aprofundam os ensinamentos da bíblia que nos permitem entender a trindade da divindade ou suas várias formas de manifestação e varias ações, na sua mesma essência, sem que um haja ou viva de uma forma egocêntrica sem a união completa com o outro. Por isso Eles não são três deuses (Triteísmo), mas Um Único Deus. Daí, o dito de São Gregório o Teólogo diz: “Nos Prostramos diante da Unidade Trinitaria e para a Trindade Uma que une indescritivelmente a unidade na diversidade” [33].

A Unidade significa a unidade da natureza e a semelhança nas características, ações e vontades, pois há para a personificação trinitária uma essência divina unificada, onde há convivência e intercomunicação por estar interligado um com o outro sem interrupção, sem interferência sem se misturarem, conforme o próprio Senhor Jesus Cristo nos explica no Evangelho de João “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jó 14,11); mesmo sendo consubstanciais Eles se diferenciam, tendo cada hipóstase diferenciada uma da outra. O Pai não é o Filho, como o Filho não é o Espírito Santo, entretanto cada um d’Eles possui a divindade por completo, pois Senhor Deus é o Pai, Senhor Deus é o Filho, Senhor Deus é o Espírito Santo, não sendo assim três deuses, mas um único Deus (única substância divina indivisível). A diferença não está na substância nem na natureza, mas na personificação. A primeira Pessoa possui a sua eterna natureza divina em si mesmo sem a ter recebido de ninguém, enquanto a segunda pessoa recebe a sua eterna natureza divina da primeira Pessoa pela filiação e a terceira Pessoa pela expiração. Por esse motivo a primeira Pessoa é chamada de Pai, a segunda de Filho e a terceira Pessoa de Espírito Santo.

O Pai não tem procedência e nem início, por isso é chamado pelos Santos Padres de άκτιστο [34], Ele por natureza, gera o Filho e dá procedência ao Espírito Santo no incorpóreo em sua eternidade.

O Filho é gerado da mesma e interrupta eternidade do Pai; recebe a mesma substância do Pai com toda a natureza divina, porque o Pai concede ao Filho toda a essência sem perder nada da sua própria. O Filho é gerado do Pai sem se diferenciar dele em nada desde a eternidade, como o fogo e a luz, pois quando nasce o fogo, nasce simultaneamente a luz sem se separarem e sem poder existir um sem o outro.

O Espírito Santo procede desde a mesma e interrupta eternidade do Pai. Então qual a diferença entre a geração e a expiração? Não foi dado a nós, seres humanos, conhecermos essa diferença, mas a diferença e a semelhança das Pessoas, da Trindade não está na natureza e na substância. É na sua ligação entre eles mesmos que se definem; é a forma de sua existência e relação entre si que define as características da personificação (hipostatização). Para o Pai é a sua auto existência, sua paternidade e fonte de procedência, por parte do Filho é a filiação, e do Espírito Santo, a expiração; Se cremos no Pai cremos também imediatamente no Filho gerado e no Espírito Santo procedente do Pai intemporal, ininterrupto, infinito, incompreensível na nossa capacidade e sem hierarquias.

A respeito da força e ações divinas, que surgem naturalmente das pessoas da Trindade são compartilhadas pelos três como na substância. Através desse argumento quero dizer que Deus na suas três Hipóstases emite ações únicas indivisíveis, mas como cada hipóstase tem sua própria essência divina de forma que se diferencia existencialmente da outra, assim toda hipóstase tem a força e ação simultânea, porém de formas diferentes. Porque a hipóstase Trinitária, na verdade, tem somente um único movimento da vontade divina que se inicia no Pai, passando pelo Filho e transparecendo no Espírito Santo. Por exemplo: a ação da criação é uma ação simultânea das Três Hipóstases, sem haver nenhuma ação particular que possa ser de uma única hipóstase da Trindade. Como não há distância entre a substância divina e a ação, não há diferença entre a hipóstase (pessoa) e  a missão porque cada hipóstase divina está presente em todo lugar com sua substância, ação e força. Nós podemos reconhecer essa presença através da ação, e não através da substância, da trindade econômica. Por isso, na simples distinção, através do Espírito, reconhecemos a ação divina na presença de Deus em todas as três Pessoas divinas, e a graça que transborda até nós do céu é chamada de dom do Espírito Santo ou até de somente Espírito Santo porque o Espírito Santo é o próprio dom.

V - Conclusão

O conceito de Trindade sempre foi um mistério através dos séculos e é então enunciado com uma pergunta: Como é possível que haja um só Deus, e ao mesmo tempo ser Três Pessoas Divinas e diferentes?

Vejamos: Um só Deus; está composto de uma substância divina e única. Este Deus único manifesta-se em três Pessoas divinas. Ou seja: Uma substância em Três Pessoas: Três Manifestações numa ação unica. O que isso afeta minha vida como ser humano? Na verdade, Deus nos criou à sua semelhança e quer que vivamos assim para chegarmos à salvação que é a convivência com Ele, ou melhor dizendo, junto à Trindade. Para que isso aconteça devemos aprender, aqui nessa vida, como pôr em pratica a sua vontade.

Elevemos os nossos olhos espirituais para o ícone da Trindade de Rublev e veremos como vive em perfeita harmonia entre si numa conjunção de extrema delicadeza e respeito para com o outro, preservando a sua pessoa sem interferir na pessoa do outro, tendo cada uma das hipóstases a sua individualidade mesmo sendo indivisíveis, tendo suas características mesmo sendo imutáveis, tendo sua dignidade e sua força e poderio mesmo sendo uma só substância, convivendo assim entre si e sem divergências. O Importante não é o ícone, mas a Santíssima Trindade que nos é apresentada e que através desse ícone, o que aprendemos e como podemos modelar nossa vida comum de família com uma ou mais pessoas ou com toda a comunidade cristã sobre este modelo de vida onde cada um perde a própria identidade para o outro, colocando o outro a frente de si e não coloca a si mesmo na frente dos outros.

Questiono-me como um homem, criatura humana, criado e formado pelo seu criador pode exprimir de uma forma tão expressiva o ser que o criou sendo ele invisível, incriado, indissolúvel? Isso só aconteceu através de Jesus Cristo que é gerado, encarnado e assim se tornou visível e ressuscitado no Novo Testamento. Sem isso não poderia Rublev ou qualquer outro iconógrafo representar a figura de Deus Pai, muito menos a da Santíssima Trindade como é apresentada a nós nesse ícone que é repleto de expressão artística e teológica. Não bastando isso também é necessário conhecer e conviver com o divino; o artista moderno precisa ter intimidade com a pessoa que irá pintar, conhecer, ver suas feições; assim Rublev fez conheceu a Trindade intimamente; conviveu com ela durante toda sua vida, para depois se arriscar a essa ousadia. Assim nós poderíamos tentar escrever em nossas vidas um ícone semelhante ao que foi escrito pelo nosso santo.

Como é difícil para nós convivermos com o nosso semelhante principalmente nos tempos atuais onde há discórdia, guerra, inveja, enfim, onde cada um só pensa em si mesmo sem nem sequer olhar para o próximo, mesmo aquele que está ao seu lado, no seu dia a dia não lhe dirigindo uma só palavra de respeito, admiração e de amor. Que tipo de seres humanos somos ou seremos? Para aonde vamos? Onde chegamos? De que ponto partimos ou não partimos? Ainda estamos no principio? Ainda não veio o Salvador para nos ensinar o amor a misericórdia a bondade a benevolência para com o semelhante? Será que Rublev estava muito adiante de seu tempo e reconheceu a Trindade através de um texto bíblico e conseguiu retratar o Encarnado, antes de sua encarnação, nas três Pessoas trinitárias? Será que esse monge russo enlouqueceu e no seu delírio visualizou três homens semelhantes entre si e semelhantes aos seres humanos vivendo em harmonia perfeita sem se debater o concorrer entre si? Se um dia um homem viu essa possibilidade e a retratou então provavelmente ainda há chance de salvação para a humanidade. Por que, então, não vivemos essa consubstancialidade trinitária, e realizamos o que o Criador universal quís que realizássemos ao nos criar à sua semelhança? Se olharmos a Santíssima Trindade e como Eles vivem juntos, compreenderemos qual pode e deve ser a nossa maneira de vivermos juntos. 

As palavras proféticas que fecundam a história salvífica e que são conseqüência do dogma trinitário tornaram-se mais resplandecentes quando o diretor cinematográfico soviético Terkofiski se referiu em seu filme sobre Rublev dizendo: “finalmente apareceu à magnificência do ícone trinitário, na sua pureza, introduzindo nele a felicidade revigorante que faz fluir a irmandade entre o ser humano, a divisão sensível de um em três e a união dos três em um, nos revelando um horizonte maravilhoso sobre o futuro que se dispersa no decorrer dos séculos”.

VI. Anexos:

VI.1 - Profissão de Fé ou Credo Niceno-Constantinopolitano.

Creio em Um Só Deus, Pai Onipotente,
Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em Um Só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus,
nascido do Pai antes de todos os séculos:
Luz de Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro;
gerado e não criado, consubstancial ao Pai, por quem tudo foi feito.

O qual, por nós homens e para nossa salvação,  desceu dos céus:
e se encarnou pelo Espírito Santo na Virgem Maria e se fez homem.

Por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.

E ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras,
e subiu ao Céus e sentou-se a direita do Pai.

E novamente virá com gloria,
para julgar os vivos e os mortos;
e o seu reino não terá fim.

E no Espírito Santo, Senhor Vivificante,
que do Pai procede e que, com o Pai e o Filho,
juntamente é adorado e glorificado, e que falou pelos profetas.

E na Igreja, Uma, Santa, Católica e Apostólica.

Professo um só Batismo,
para remissão dos pecados.

Espero a ressurreição dos mortos
e a vinda do século futuro. Amém.

VI.2 - Orações à Santíssima Trindade

As três orações da Santíssima Trindade que mais se destacam na liturgia Ortodoxa são:  o Trisagion, a oração à Santíssima Trindade, o Doxashikon e o Tropario. O Trisagion, uma velha oração judaica recitada em todas as liturgias e escritos ortodoxos que expressam bem a essência da fé Cristã, é uma oração que Jesus certamente recitou na sua visita à sinagoga. Sendo uma das principais orações trinitárias da Igreja do Oriente e da Ocidente, presente na divina liturgia, é cantada depois do Prefácio: Santo, Santo, Santo, ó Deus, Deus do universo (Is 6, 3). Esta santidade é repetida por três vezes para mostrar o Seu absolutismo, Sua eternidade e Sua abundância. Jesus nos convida a entrar nesta abundância divina da santidade de Deus,  “você será aperfeiçoado como seu Pai celestial é perfeito” (Mt 5, 48); A oração de prece da Santíssima Trindade que faz parte das orações iniciais dos escritos bizantinos. A Doxashikon é rezada no oficio de Pentecostes e o tropário de Santo André Rublev alude à sua interpretação iconográfica de Gn 18.   

VI.2.1 - Triaghion [35]

Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal
tem piedade de nós. (três vezes)

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
Agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.   


VI.2.2 - Oração à Santíssima Trindade [36]

Santíssima Trindade, tenha poedade de nós.
Senhor, concede-nos remissão de nossos pecados.  
Mestre, perdoe nossas iniqüidades.
Santo, olha e cura as nossas enfermidades por teu nome.

Rei celestial, consolador, Espírito de verdade,
Que estás presente em toda parte, enches o universo,
Tesouro de graça e doador da vida,
vem e estabelece em nós tua morada,
Purifica-nos de toda mancha de pecado
e salva nossas almas, ó Deus todo bondade.

VI.2.3 - Doxastikon (37) do Ofício de Pentecostes

Vinde, todos os povos,
e adoremos o único Deus em três pessoas:
Pai, Filho e Espírito Santo.

O Pai gera o Filho fora do tempo,
compartilhando o mesmo trono e a mesma eternidade;
e o Espírito Santo está no Pai, glorificado com o Filho:
um só poder e uma só  divindade, um só ser,
perante quem todos nós, fiéis servidores,
prostramo-nos dizendo:

Glória a Ti, Deus Santo,
que pelo Filho tudo criaste com o concurso do Espírito!
Glória a Ti, Deus forte,
por quem nos foi revelado o Pai
e por quem veio a nosso mundo o Espírito!
Glória a Ti, Deus imortal, Espírito Consolador,
que procedes do Pai e repousas no Filho!
Trindade Santíssima, glória a Ti.

VI.2.4 - Tropário [38] de Santo Andrey Rublev

Sendo resplandecente nos raios da Luz Divina, oh Santo André,
conheceste o Cristo que é a sabedoria e o poder Divino.   
E pelo ícone da Santíssima Trindade,
proclamaste para o mundo inteiro o Deus Trino.   
Assim, pasmos e felizes, nós clamamos a vos:
Que desfruta da confiança da Santíssima Trindade,   
pedindo que interceda por nós
para que sejamos também iluminados. 


VII - Bibliografia

  1. A BIBLIA de Jerusalém, Edição em Português, São Paulo SP, Paulinas – 1985.
  2. BRETON, Valentin - Maria. O.F.M. A Santíssima Trindade, Historia Doutrina Piedade; Petrópolis, RJ, Vozes, 1954. Tradução de Pe. Dinarte Duarte Passos, C.M.
  3. TEPE, Dom Valfredo. O.F.M. Nós Somos Um, Retiro Trinitário - Petrópolis, RJ: Vozes, 1987.
  4. PASSARELLI, Gaetano. O ícone da Trindade, São Paulo, SP: Ave Maria, 1996. Tradução do Prof. Mario Gonçalves.
  5. MIGNE, J.P. Patrologia Graeca, Montreal, Canadá: 1864.
  6. DENZINGER, Enrique. El Magistério de La Iglesia, Barcelona, Spain: Biblioteca Herder, 1997.
  7. GOMES, C. Folch Antologia dos Santos Padres, São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1985.
  8. HAMMAN, Adalbert-g. Para Ler os Padres da Igreja, São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1995.
  9. CLEMENT, D’oliver Clement., preface, MELETIOS, Mgr. Lettres de Dieu est Vivant, catechisme pour les familles, par un groupe de cherétiens Orthodoxes. Lês Editions Du Cerf, Paris 1980.
  10. BOBRINSKOY, Boris. Lê Mystère de La Trinitè, Cours de Theologie Orthodoxe. Les Editions Du Cerf: Paris, 1986.
  11. KHOURY, Emma Garib. Al Aikuna, Xareh wa Taamul (O Ícone, Explicação e Meditação)
    Segunda Edição, Luz - Beirute 2000. Obra publicada em Árabe em fase de tradução para o Português, tradutor Michel Fares Breidi.
  12. SCHEFFCZYK, Leo. A Fé no Deus Uno e Trino, coleção “Nossa Fé”, Tradução de Pedro Geremia, S. J. - São Paulo SP, Loyola, 1972.
  13. SILVESTRE, Prof. Guiseppe. Il Símbolo Niceno constantinopolitano: Única Rewegola di Retta Fede Cristana nella Trinità Symposium Teológico - Catanzaro Itália, Manguzo, 1982.
  14. ANGE, Daniel. L'étreinte de Dieu : L'icône de la Trinité de Roublev. Desclée de Brouwer - Paris, 1980.
  15. DROBOT, Georges. L'icône de la Trinité,, pp. 336-337. no. 88, dans Contacts, Paris, 1974
  16. EVDOKIMOV, Paul. L’art de l’icône: Théologie de la beauté, Desclée de Brouwer - Paris, 1972.
  17. GRESCHNY, Nicolaï. L'icône de la Trinité d'André Roublev, Beatitudes - Lion de Juda, 1986.
  18. KRUG, G.I. (Moine Grégoire), Carnets d’un peintre d’icônes. L’Âge d’Homme - Lausanne, 1983.
  19. LAZAREV, Victor N. Icônes russes : XIe-XVIe siècles. pp. 96-100, Desclée de Brouwer – Paris, 1996.
  20. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, O.F.M.; e VER, Frei Frederico O.F.M. Compêndio do Vaticano II; Constituições decretos declarações, 29º Edição, Vozes – Petrópolis RJ, 2000.
  21. GILLET, Lev (Pére). Un Moine de l’Église d’Orient, « La signification spirituelle de l’icône de la Sainte Trinité peinte par André Roublev », Irenikon, XXVI, 1953.
  22. CYRILLE, Hieromine (Bradette). L’ícone de la Trinité de Roublev dans la tradition orthodoxe
  23. CYRILLE, Hieromine, Propos recueillis lors d’une conférence prononcée, à l’Université du Québec à Montréal le 28 novembre 1996, revus et augmentés par le reproduit avec l’autorisation du Hiéromoine Cyrille.
  24. Textos extraídos de paginas da internet.
  25. STANDAERT, Benoit. O ícone da Trindade de André Rublev – Maio, 2003. http://www.activitaly.it/immaginicinema/rublev.html.
  26. Carta Apostólica “DUODECIM SAECULUM” sobre a veneração das imagens por ocasião do XII Centenário do II Concilio de Nicéia. http://www.geocities.com/carmarna/vener4.html
  27. Jornal L'Osservatore Romano, e no site do Vaticano http://www.vaticano.va/holy_father/index_po.htm , edição em português na Revista Mundo e Missão – Abril de 2000.

VIII - Notas:

[1] “Eucologion”  pg 532.

[2] Documentos do VII Concilio Ecumênico de Nicéia (DS 303).

[3] “Eucologion” pg533

[4] Carta Apostólica “DUODECIM SAECULUM”  sobre a veneração das imagens por ocasião do XII Centenário do II Concilio de Nicéia.

[5] Palavra grega que intitula a Virgem Maria de “A Mãe de Deus”, Titulo dado no III Concilio Ecumênico Éfeso (DS 111a).

[6] proskynesis: Palavra grega que significa  veneração

[8] Un Moine de l’Église d’Orient (Père Lev Gillet), «La signification spirituelle de l’icône de la Sainte Trinité peinte par André Roublev », Irenikon, XXVI, 1953, pp. 133-139 ; aussi dans Contacts, XXXIII, 1981, pp. 351-358.

[9] http://www.activitaly.it/immaginicinema/rublev.html.

[10] http://www.activitaly.it/immaginicinema/rublev.html.

[11] Evdokimov, op. Cit., pp.285-286.

[12] Liturgia de Natal no ritual Bizantino: Liturgia das horas (Orologion)  pg: 306.

[13] Todo-Poderoso.

[14] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa [P.G. 94,1320-1321].

[15] Evdokimov;Paul – L’art de ícone – Theologie de la beaute – Desclée de Brouwer/1972.

[16] DS. 213.

[17] S. Gregorio.,Oration.Theologia Quinta de Spiritu Sancto 30,12  [P.G..36,133-172].

[18] Orientações dos Doze Apóstolos e dos Santos Padres dos Primeiros Séculos.S. Irenaei: Baptizandi Symbolum Fidei [PG. 07 66-67].

[19] Martyrium Polycarpi; 14,3 ano 110.

[20] Carta de São Clemente aos Coríntios 46:6.

[21] Inácio de Antioquia, ano 107, Carta aos Magnésios 13,1-2).

[22] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa Lib I  [P.G. 95, 832-834].

[23] DS 150.

[24] VI Conc. De Toledo em 693 DS 296.

[25] XI Conc. De Toledo em 675: DS527.

[26] DS150.

[27] S. Gregório: Otatio XXXI de Spiritu Sancto [P.G.. 36,133-172].

[28] La foi Catholique, Orante, 1961, pp. 193-195.

[29] S. Maximi: Otationis Dominice I [P.G .91. 901].

[30] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa Lib I [P.G. 94. 794].

[31] DS 294.

[32] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa Lib I [P.G. 94, 812].

[33] S. Gregório Nazianzeno, Oraitiones, (Caps 13,14,15,29 e 30 pg44,45).

[34] o que não tem inicio.

[35] Hino doTrisagion (três vezes Santo).

[36] Oração a Trindade do Livro Pentikostarion do Ritual da Liturgia Bizantina, vésperas de Pentecostes p..237.

[37] Doxashikon: Hino de glorificação, Liturgia bizantina, Oficio matinal de Pentecostes; Livro Pentikostarion p. 244.

[38] Tropario: Hino do Santo ou da Festa. Livro Orologion das horas, p. 202.

 

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