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«A Grande Quinta-feira Santa»

Divina Liturgia de S. Basílio, o Grande

Na Quinta-feira - Divina Liturgia da Ceia do Senhor

Nesse dia recordamos como Nosso Senhor, preparando-se para oferecer Si mesmo como Sacerdote e Vítima, revelou aos Seus santos apóstolos os Sagrados Mistérios: Seu Corpo e Sangue, partidos e derramados para a vida do mundo. A Divina Liturgia de São Basílio Magno é celebrada em conjunto com Vésperas, com especial recordação orante do dom do santo sacerdócio.

A noite, Matinas com a leitura dos Doze Evangelhos da Paixão:

1 - Jo 13, 31-18,1
2 - Jo 18, 1-28
3 - Mt 26, 57-75
4 - Jo 18, 28 - 19,16
5 - Mt 27, 3 -32
6 - Mc 15, 16-32
7 - Mt 27, 33-54
8 - Lc 23, 32-49
9 - Jo 19, 25-37
10 - Mc 15, 43-47
11 - Jo 19, 38-42
12 - Mt 27, 62-66

As cerimônias do dia são:

1. Ofício do "Orthros" - (Laudes) que se reza na Quarta-feira à noite;

2. Bênção do óleo com o qual os sacerdotes ungem a fronte dos que vão comungar após terem confessado seus pecados;

3. Bênção do santo óleo do Crisma. usado na administração do Sacramento da Santa Unção Crismal. Este ofício é reservado ao Patriarca;

4. Ofício de Vésperas e Liturgia de São Basílio;

5. Depois da Divina Liturgia, nas igrejas catedrais, cerimônia do lava-pés na qual o bispo lava os pés de 12 sacerdotes, como o Senhor lavou os pés de seus discípulos;

6. Ofício da Paixão, considerado como Orthros de Sexta-feira Santa e que é realizado, portanto, à noite.

No Ofício de Vésperas:

Ex. 19, 10-20
Jó 38, 1-21; 42, 1-5
Is 50, 4-11

Na Divina Liturgia:

Epístola: 1Cor 11,23-32

Evangelho: Chamado da« Nova Aliança». Trechos tirados de Mateus, João e Lucas: Mt 26, 1b-20; Jo 13, 3-17; Mt 26, 21-39; Lc 22, 43-45; Mt 26, 40-27,2

Prokimenon

Os príncipes conspiraram
contra o Senhor e contra seu Cristo

Por que se enfureceram os gentios
e meditaram os povos vãos projetos?

Aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia!

O Senhor reina, ele está revestido de majestade,
vestiu-se o Senhor de fortaleza e cingiu-se dela.
Aleluia, aleluia, aleluia!

Porque firmou a terra e ela não será abalada.
Aleluia, aleluia, aleluia!

Após o Evangelho, segue a Liturgia de São Basílio com as seguintes alterações:

a) Em vez do Canto dos Querubins, do Kinonikón e do hino "Vimos a Verdadeira Luz", canta-se: "Na tua Ceia Mística..."

b) Em vez de "Verdadeiramente é Digno e Justo", canta-se: "Ó Cheia de Graça";

c) A Bênção Final começa com: "Que o Cristo, nosso verdadeiro Deus, que na sua grande bondade, ao lavar os pés de seus discípulos, mostrando que a humildade é um excelente caminho e humilhou-se a si mesmo até à crucifixão e o sepultamento para a nossa salvação, tenha piedade de nós e salve-nos, pelas intercessões ...."

Hirmos

O Senhor Deus a nós se revelou;
celebrai a festa e alegrai-vos
e vinde, glorifiquemos a Cristo
levando palmas e ramos de oliveira
e cantando-lhe hinos, dizendo:
"Bendito o que vem em nome de Senhor, nosso Salvador!"

Kinonikon

O Senhor Deus a nós se revelou;
Bendito o que vem em nome de Senhor!
Aleluia, aleluia, aleluia!

«Quinta-Feira Santa» (a Última Ceia)

ois acontecimentos marcam a liturgia da grande e santa Quinta-feira: a última Ceia do Cristo com seus discípulos e a traição de Judas. Um e outro encontram seu sentido no amor. A última Ceia é a revelação última do amor redentor de Deus pelo homem, do amor enquanto a essência mesma da salvação. A traição de Judas, por sua vez, mostra que o pecado, a morte, a destruição de si mesmo, provêm também do amor, mas de um amor desfigurado, desviado daquilo que merece verdadeiramente ser amado. Tal é o mistério deste dia único cuja liturgia, impregnada ao mesmo tempo de luz e de trevas, de alegria e de dor, nos coloca diante de uma escolha decisiva da qual depende o destino eterno de cada um de nós.

"Jesus, sabendo que era chegada a hora de passar deste mundo para seu Pai, tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até o fim. . " (Jo 13, 1). Para compreender de fato a última Ceia, é preciso ver nela o desembocar deste grande movimento de amor divino que começou com a criação do mundo e que, agora, irá atingir sua plenitude na morte e na ressurreição do Cristo.

"Deus é Amor" (Jo 4,8). E o primeiro dom do Amor foi a vida. Esta era essencialmente uma comunhão. Para viver, o homem devia se nutrir, comer e beber, comungar o mundo. O mundo era, pois, amor divino tornado alimento, tornado corpo do homem. Estando vivo, isto é, comungando o mundo, o homem devia estar em comunhão com Deus, fazer de Deus a finalidade e a substância de sua vida. Comungar o mundo recebido de Deus era, na verdade, comungar Deus. O homem recebia seu alimento de Deus e, transformando-o em seu corpo e sua vida, ele oferecia o mundo inteiro a Deus, ele o transformava em vida em Deus e com Deus. O amor de Deus havia dado a vida ao homem, o amor do homem por Deus transformava esta vida em comunhão com Deus. Era o Paraíso. A vida ali era de fato eucarística. Pelo homem, por seu amor por Deus, toda a criação devia ser santificada e transformada em sacramento universal da presença divina, e o homem era o padre deste sacramento.

Mas, pelo pecado, o homem perdeu esta vida eucarística. Ele a perdeu, porque deixou de olhar o mundo como um meio de comunhão com Deus e sua vida como uma eucaristia, uma adoração e um louvor... ele amou-se a si próprio e ao mundo em si mesmo; ele se fez centro e fim de sua própria vida. Ele imaginou que a fome a sede, quer dizer, o estado de dependência no qual se encontrava sua vida com relação ao mundo, poderiam ser satisfeitas pelo próprio mundo, pelo alimento como tal. Mas o mundo e o alimento, se forem despojados de seu sentido primordial de sacramentos, ou seja, meios para comunhão com Deus, se não forem acolhidos com fome e sede de Deus; em outras palavras, se Deus não está mais ali, o mundo e o alimento não podem mais dar a vida, nem satisfazer fome alguma, pois eles não têm a vida em si mesmos. Amando-os por eles mesmos, o homem desviou seu amor do único objeto de todo amor, de toda fome, de todo desejo... e ele morreu. Porque a morte é a inevitável "decomposição" da vida amputada de sua única fonte e daquilo que lhe dá seu sentido.

O homem encontra a morte ali onde ele esperava encontrar a vida. Sua vida tornou-se uma comunhão com a morte, porque em lugar de transformar o mundo em comunhão com Deus pela fé, pelo amor e pela adoração, ele submete-se inteiramente ao mundo; ele deixou de ser o padre para tornar-se o escravo dele. E por este pecado do homem, o mundo inteiro tornou-se um cemitério onde os povos, condenados à morte, comungam a morte, "plantados nas trevas da morte" (Mt 4, 16).

 

Jesus

O homem traiu, mas Deus permaneceu fiel ao homem. Como nós dizemos na Liturgia de São Basílio: "Tu não rejeitaste para sempre a criatura que afeiçoaste, Ó Deus de bondade, nem esqueceste a obra de Tuas mãos; mas Tu a visitaste de várias maneiras na ternura de Teu coração." Uma nova obra divina ia começar: a da redenção e da salvação. Ela se cumpriria no Cristo, o Filho de Deus, que para dar outra vez ao homem sua beleza original e devolver à sua vida o caráter de comunhão com Deus, se fez homem, tomou sobre Si nossa natureza, com sua sede e sua fome, com seu desejo e amor pela vida. Nele, a vida foi revelada, dada, aceita, cumprida como uma perfeita eucaristia, uma total e perfeita comunhão com Deus. O Cristo rejeitou a tentação fundamental do homem, "viver somente do pão," e revelou que é Deus e seu Reino que são o verdadeiro alimento, a verdadeira vida do homem. E desta perfeita vida eucarística, repleta de Deus, portanto divina e imortal, ele faz dom a todos aqueles cuja vida encontra nele todo seu sentido e seu conteúdo. Tal é a rica significação da última Ceia. O Cristo se oferece como alimento verdadeiro do homem, pois a vida manifestada nele é a verdadeira vida. Assim, o movimento de amor que começa no Paraíso com o divino "tomai e comei. . " (porque se nutrir é a vida do homem) atinge sua plenitude com o "Tomai e comei" do Cristo (porque Deus é a vida do homem). A última Ceia recria o Paraíso de delícias, restaura a vida enquanto eucaristia e comunhão.

Esta hora de amor extremo é também a da mais extrema traição. Judas deixa a luz da câmara alta para afundar-se dentro da noite. "Era de noite" (Jo 13, 30). Por que ele parte? "Ele ama," responde o Evangelho, e os hinos da Quinta-feira santa sublinham diversas vezes este amor fatal. Importa pouco, com efeito, que este amor consista no "dinheiro." O dinheiro aqui, simboliza todo amor pervertido e desviado que leva o homem a trair a Deus. É um amor roubado a Deus e Judas é, pois, o "ladrão." O homem, mesmo se não é mais Deus ou em Deus que ele ama, não cessa de amar e de desejar, pois ele foi criado para o amor, e o amor é a sua própria natureza; mas é então uma paixão cega e auto-destrutiva e a morte é dela o fim. A cada ano, quando nos afogamos nesta luz e nesta profundeza insondáveis da grande Quinta-feira, a mesma questão crucial nos é colocada: respondo ao amor do Cristo e aceito que ele se torne minha vida, ou serei eu o Judas na Sua noite?

Os ofícios da grande Quinta-feira compreendem: as matinas, as vésperas seguidas da Liturgia de São Basílio, o Grande. Nas igrejas catedrais, o lava-pés tem lugar após à Liturgia; enquanto o Diácono lê o Evangelho, o bispo lava os pés de doze padres, nos relembrando que é o amor do Cristo que é o fundamento da vida na Igreja e que, no seio desta, está o modelo de toda relação. É também nesta grande Quinta-feira que os santos óleos são consagrados pelos chefes das Igrejas autocéfalas; esta cerimônia significa que o amor novo do Cristo é o dom que recebemos do Espírito no dia de nossa entrada na Igreja.

Nas matinas, o tropário dá o tema do dia: a oposição entre o amor do Cristo e o desejo insaciável de Judas:

«Enquanto que os gloriosos discípulos
estavam iluminados pela lavagem dos pés,
o ímpio Judas, enegrecido pelo amor ao dinheiro,
vendeu aos juizes indignos o justo Juiz.
"Ó Tu, amante do dinheiro,
olha aquele que se enforcou por causa dele!
Afasta-te pois deste desejo insaciável,
quem ousou realizar uma tal ação contra o Mestre.
"Mas Tu, Senhor, bom para todos, glória a Ti!»

Depois da leitura do Evangelho (Lc 12, 1-40), o belo cânon de São Cosme nos introduz na contemplação do mistério da última Ceia, de seu lado místico e eterno. O hirmos da nona ode nos convida a tomar parte no banquete ao qual o Senhor nos convida:

«Vinde, vós os crentes!
Alegremo-nos da hospitalidade do Senhor
no banquete da imortalidade,
na câmara alta, elevando nossos corações...»

Nas vésperas, os stykeroi sublinham o outro pólo, trágico, desta grande Quinta-feira, a traição de Judas:

«Judas, como servidor, mostrou-se pérfido em suas obras;
como discípulo mostrou-se urdidor de conspiração;
como amigo, revelou-se demônio.
Ele acompanhava seu Mestre,
mas no seu íntimo, meditava a traição...»

Após a Entrada, faz-se três leituras do Velho Testamento:

1. Êxodo 19:10-19 - A descida de Deus do monte Sinai em direção a seu povo, imagem da vinda de Deus na Eucaristia.

2. Jó 38, 1-24 e 42:1-5 - Fala de Deus a Jó, e resposta deste: "Eu falei sem compreensão de maravilhas que me ultrapassam e que eu ignoro..." — e estas maravilhas divinas são cumpridas no dom do Corpo de Cristo e de seu Sangue.

3. Is 50, 4-11 - Começo das profecias do Servo sofredor.

A Epístola é tirada de São Paulo, 1Cor 11, 23-32; é o relato da última Ceia, dando o sentido da comunhão.

A leitura do Evangelho (a mais longa do ano) é formada de trechos de quatro evangelistas e nos faz ouvir o relato completo da última Ceia, da traição de Judas e da prisão de Cristo no jardim.

O hino dos Querubins e a antífona da comunhão são substituídos pelas palavras da oração antes da comunhão:

«Recebe-me Senhor neste dia
Na tua mística Ceia
Eu não desvendarei os mistérios aos teus inimigos
Eu não te darei um beijo como Judas
Mas como o ladrão arrependido eu te confesso.
Lembra-te de mim Senhor no Teu Reino. Aleluia! Aleluia! Aleluia!»


Fonte:

O Mistério Pascal - Comentários Litúrgicos, Alexandre Schmémann, Olivier Clément

 

 
       
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