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  SINAXE - Suplemento Litúrgico para os Domingos e Grandes Festas  

Domingo, 17 de Janeiro:

 
 
 
 
 
 
 
Zaqueu

«15º Domingo de Lucas»

 

Apolitikion da Ressurreição (7º tom)

Pela tua Cruz, destruíste a morte,
abriste as portas do paraíso ao ladrão,
converteste em alegria o pranto das Miróforas,
e lhes disseste que, aos apóstolos, anunciassem
que ressuscitaste dos mortos, ó Cristo Deus,
revelando ao mundo a grande misericórdia.

Kondakion

Glória ao Pai , ao Filho e ao Espírito Santo.

O domínio da morte já não pode submeter o homem,
pois Cristo, descendo, aboliu e destruiu o seu poder;
o Hades está vencido e os profetas se alegram,
clamando em uníssono: «O Salvador apareceu àqueles que têm fé!
Corram, fiéis, para a Ressurreição!»

Theotokion

Agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém

Como templo da nossa ressurreição, ó Toda-gloriosa,
retira do túmulo e da desolação aqueles que esperam em ti;
tu nos salvaste da escravidão do pecado,
gerando a nossa salvação, permanecendo virgem.

Prokimenon

O Senhor dará poder a seu povo;
o Senhor abençoará seu povo com a paz.

Oferecei ao Senhor, ó filhos de Deus,
oferecei ao Senhor tenros cordeiros.

Epistola

(Hb13,17-21)

 

Leitura da Epístola de São Paulo aos Hebreus

Irmãos, obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil. Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente. E rogo-vos com instância que assim o façais, para que eu mais depressa vos seja restituído. Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém.

Aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia!

É bom exaltar o Senhor,
e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo (Sl 92, 1)
Aleluia, aleluia, aleluia!

Proclamar pela manhã o teu amor,
e a tua fidelidade pela noite (Sl 91, 2).
Aleluia, aleluia, aleluia!

Evangelho

(Lc 19,1-10)

Evangelho de Nosso Senhor JesusCristo, segundo o evangelista São Lucas

Naquele tempo, Jesus tinha entrado em Jericó e estava passando pela cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e muito rico. Ele procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era baixinho. Então ele correu à frente e subiu numa árvore para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa. Ele desceu depressa, e o recebeu com alegria. Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: Ele foi hospedar-se na casa de um pecador! Zaqueu se pôs de pé, e disse ao Senhor: Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais. Jesus lhe disse: Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.

 

A

o se aproximar de Jericó, antes mesmo de entrar pelos portões que davam acesso à cidade, Jesus operou o milagre da cura ao cego chamado Bartimeu (Lc 18,35-43). Os Evangelistas Lucas, Mateus e Marcos, não precisam quanto tempo Ele ficou naquele lugar. Contudo, a sua passagem por lá, transformou a rotina bucólica da cidade, com a realização de grandes fatos. Onde Deus se faz presente, a passividade não encontra lugar para se instalar e a vida é renovada.

A repercussão da cura do cego foi imediata e fez crescer o número dos curiosos e admiradores de Jesus. A multidão se comprimia na esperança de ver, falar ou tocar naquele forasteiro que atraía os mais diferentes olhares e atenção de todos. No meio da multidão acéfala e barulhenta, encontrava-se um homem que despertou em Jesus a atenção. Zaqueu era seu nome, cujo significado é “homem justo”. Na realidade, tratava-se de um homem rico, chefe dos coletores de impostos e, por isso mesmo, odiado pelo povo de quem os impostos eram cobrados de maneira impiedosa. Sua riqueza provinha do seu oficio exercido pela falta de escrúpulo e de justiça.

Jesus

Diante desta realidade, ele não podia se misturar à multidão, pois corria perigo iminente de represálias, mas tão pouco poderia deixar de ver, ao menos de longe, quem era aquele estrangeiro que acabara de curar um cego. Subiu num sicômoro, para ter uma visão mais panorâmica daquele espetáculo recém formado nas imediações dos muros que marcavam a saída da cidade. Sicômoro era uma espécie de figueira especial cujo tronco é forte e de onde brotavam galhos rentes ao chão. Por ser de baixa estatura, não foi difícil Zaqueu se “agasalhar”, entre os seus ramos e ver de uma altura privilegiada o que estava acontecendo. Jesus observou aquele homem em cima de uma pequena árvore e foi ao seu encontro. Conhecendo seu coração, teve certeza de que o Reino de Deus deveria ser manifestado através daquele cobrador de impostos. Jesus se adiantou e foi ao seu encontro.

«Deus que é sempre fiel vem sempre à minha frente.» (Sl 59,11)

Zaqueu, do lugar onde estava, observou que a multidão se aproximava da árvore onde se acomodou e de lá veio uma voz que soava imperativa: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje vou hospedar-me em tua casa”.(Lc 19,5). A voz era d’Ele. E, Ele o chamou pelo nome. Parecia que veio de tão longe unicamente para visitar Zaqueu. Jesus pediu que descesse do lugar onde estava e, apressadamente, pois um hóspede não poderia ficar esperando pelo anfitrião. Contente, Zaqueu recebeu o Senhor em sua morada.

Evidentemente, o Senhor visitou outras casas durante sua vida “pública”, como narram os Evangelistas. Mas, ou se tratava de amigos e parentes, ou Ele era chamado para operar curas e milagres (Mc 14,3-6; Lc 8,51-55; Lc 10,38-41). A visita à casa de Zaqueu tornou-se singular e emblemática: Jesus quis ir à casa de Zaqueu para visitá-lo. A casa de Zaqueu tornou-se a morada de Deus, a Tenda da Palavra Encarnada, o Tabernáculo do Altíssimo, pois o Santo dos Santos estava em sua residência. Se Zaqueu soubesse quem era seu hóspede, indubitavelmente, brotaria de seu coração a mesma pergunta que fez Davi ao receber a Arca do Senhor em sua casa: “Como poderia vir à minha casa a Arca do Altíssimo?”(2Sm 6,9). Ou diria como o Centurião ao não se achar em condições de receber Jesus em sua casa, por ser tão errante; “Senhor, eu não sou digno que entres em minha morada...” (Mt 8,5-13). Por não saber a identidade daquele estrangeiro, tais questionamentos foram abortados. “Quem, ó Senhor, em tua casa entrará? O que for justo e a verdade praticar”. Já que Zaqueu por ser injusto e pecador, não podia entrar no Templo, pois nem Judeu era, o Altíssimo entrou em sua casa, trazendo-lhe a paz.

Ao se dirigirem para a casa de Zaqueu, deixaram de lado as murmurações provenientes da multidão admirada por ver o Senhor entrando na casa de um pecador. O Evangelho não narra a reação da dupla que parecia seguir determinada o seu itinerário, parecendo que já sabiam a extraordinária mudança de vida que seria operada naquele lugar. Ao atravessarem a porta, a graça adentrou naquela casa e por isso aquelas vozes murmurantes foram ignoradas.

Jesus entrou na casa de um pecador e sentou-se a mesa com ele. Sua presença operou em Zaqueu a conversão: “Darei metade de meus bens aos pobres e a quem fraudei restituirei quatro vezes mais”. Para Zaqueu foi antecipada a alegria que os discípulos de Emaús sentiram ao ter o Senhor sentado à sua mesa. “Não se abrasava nosso coração enquanto Ele nos falava?” (Lc 28,32). Os frutos daquela visita à casa dos discípulos de Emaús serviram para ratificar a verdade mais fundamental de nossa fé: a Ressurreição do Senhor. Os frutos da visita à casa daquele coletor de impostos dava provas cabais de que o Reino de Deus já se encontrava entre nós e, que em verdade, o “Emanuel” (Deus conosco), veio para aqueles que eram seus, veio para os que necessitam de perdão, veio para os pecadores.

Não podemos parar na mera curiosidade de saber quem é Deus. Zaqueu quis saber quem era o Senhor, mas não se contentou só com isto. A curiosidade o levou a subir no sicômoro. Do sicômoro brotou o convite e dele a conversão. É preciso despertar em nós a saudável astúcia e criatividade para rompermos os obstáculos que nos empeçam de conhecer a Deus.

Antes de Jesus anunciar que visitaria Zaqueu, solicitou-lhe que descesse da árvore. Não é preciso que o homem mostre-se continuamente para que seja visto por Deus. Ele que tudo sabe, nos ama e nos vê, mesmo que estejamos “no mais alto das montanhas ou nos mais profundos dos abismos”, Ele nos perscruta e nos conhece. (Sl 138). Parece não combinar com a pedagogia de Jesus falar com quem está numa posição altiva, soberba, prepotente e despótica. Pois Deus ama a humildade, a pequenez, a simplicidade e a pureza de um coração justo e indefeso. É preciso, se quisermos falar com Deus, aprender a descer dos pedestais e a se curvar diante do simples e humilde. Ao descer do sicômoro, Zaqueu pisava no mesmo solo que Jesus, estavam face-a-face, podiam se olhar e travar um diálogo. Quando o homem olha para Deus, em espírito e verdade, consegue reconhecer o quanto “não somos” diante d’Aquele que «É».

Quando Isabel recebeu a visita de Maria em sua casa, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Quem sou eu para que me visite a Mãe de meu Senhor?” (Lc 1,42-43)

Zaqueu obteve a visita não da mãe do Senhor, mas a visita do próprio Senhor. Ele mesmo, Senhor e Deus, divino e humano visitou um pecador e fez desse pecador uma nova criatura, pois o Senhor restaura todas as coisas e faz dos homens seus filhos em seu Filho.

Se Isabel admirada e agradecida pode compor palavras tão lindas que se perpetuaram como parte de uma oração dedicada à Maria, Zaqueu – da mesma forma agradecido e convertido- ensina que a conversão se mostra em gestos concretos e generosos. Frisa que uma vez conhecido o Senhor, é preciso que se repense a vida, que se dê valor àquilo que de fato tem valor, que a justiça seja a meta a ser alcançada e que sempre é possível a mudança.

A justiça requer equidade dos bens. A justiça exige que seja reparado o mal que se tenha feito. A justiça brada pelo pedido de perdão do ofensor ao ofendido. Se assim não for, nos sentiremos justos sem ser; continuaremos em cima dos “sicômoros” da arrogância e prepotência, querendo chamar atenção de todos, inclusive a de Deus, mas incapazes de descer de nossa altivez. “Desce da árvore” é um pedido e uma condição para que Deus possa entrar em nossa casa.


Fonte:

SCHOKEL, Luiz Alonso: Bíblia do Peregrino - Novo Testamento.
Paulus Editora, 2ª Edição - Ano 2000.

 
       
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