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Mensagem de S. S. Bartolomeu I, Arcebispo de Constantinopla, Nova Roma, e Patriarca Ecumênico, por ocasião do NATAL de 2008

Prot. Nº 1586

† Bartolomeu,
pela Graça de Deus, Arcebispo de Constantinopla, Nova Roma,
e Patriarca Ecumênico

Que a Graça, a Paz e a Misericórdia de Cristo, o Salvador,
nascido em Belém, estejam com todo o Pleroma da Igreja!

Irmãos e filhos amados no Senhor,

hegou o grande e santo dia de Natal, mãe e raiz de todas as festas, e nos convida a todos a nos elevar espiritualmente e ao reencontro com o Filho do Homem, o «Antigo dos dias», que se faz criança por nós.

«Pela benevolência de Deus e Pai», como sublinha São João Damasceno, «o Filho Unigênito, Verbo de Deus e Deus, Ele que está no seio do Pai, o Consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo, o que é antes do tempo, o sem princípio», descendo até nós, seus servos, «e, sendo Deus perfeito se faz homem perfeito, e realiza a mais nova de todas as novidades, a única novidade sob o sol» [1]. Esta encarnação do Filho de Deus não é um mero simbolismo, como são as encarnações das diversas «deidades» da Mitologia, mas uma realidade, verdadeiramente a nova realidade, o único novo sob o sol que se realiza num momento histórico concreto, no tempo do imperador Otavio Augusto, cerca de 746 (conforme os novos dados astronômicos) desde a fundação de Roma. Ela se deu no contexto de um determinado povo, o povo judeu, «da família e da descendência de David» [2], em um lugar determinado, em Belém da Judéia, e com um objetivo muito preciso: «O Verbo se fez homem para que nós nos tornássemos Deus» [3], de acordo com a expressão lapidar de Santo Atanásio, o Grande.

Este fato da encarnação do Verbo de Deus nos dá a oportunidade de alcançar os extremos de nossos limites, os quais não se identificam mais com «o bom e o belo» dos antigos gregos, nem tampouco com a «virtude» e a «justiça» dos filósofos, nem com «a paz» do nirvana budista, nem com a transcendência do «destino», ou com o chamado «karma» através da contínua mudança de formas de existência, nem com a «harmonia» dos componentes contrários de alguma fantástica «força vital», nem com qualquer outra coisa, senão que é a transcendência ontológica da corrupção e da morte através de Cristo, nossa integração na sua vida e glória divina, nossa união com Deus Pai, no Espírito Santo. Estes são os nossos últimos limites: a união pessoal com o Deus Trino! Assim, a encarnação de Cristo não nos promete uma bem-aventurança quimérica, ou uma eternidade irreal, mas nos oferece «aqui e agora » a possibilidade da participação pessoal na vida divina e no amor de Deus, numa progressão infinita. Dá-nos a possibilidade de, não somente sermos filhos adotivos [4], mas de nos fazermos participantes da divina natureza [5].

Certamente, no seio da confusão mundial e da crise de nossos dias, estas verdades soam paradoxais. A esperança da maioria dos homens posta em «deidades deste mundo» é tragicamente desmentida a cada dia. A pessoa humana é humilhada e sofre em meio aos números, computadores, especulações, bolsas e multicores bandeiras de possibilidades ideológicas vazias. A natureza é, pois, ultrajada. O meio-ambiente partilha desse sofrimento. Os jovens, decepcionados, rebelam-se e protestam contra a injustiça do presente e a incerteza e insegurança do futuro. «As trevas, as nuvens e a escuridão» [6] dominam o nosso mundo, dando a impressão de que pode ocultar a luz da esperança que emerge desde Belém e calar a canção dos anjos que anunciam a universal alegria: «Glória a Deus no mais alto dos céus, paz na terra e benevolência aos homens» [7]. A Igreja, no entanto, convida-nos a uma reflexão cuidadosa, a reavaliar as prioridades da vida e a identificar no «outro» a imagem de Deus, digna de respeito. Baseada em sua experiência adquirida ao longo de dois milênios, ela não cessará de afirmar que aquele menino na manjedoura de Belém é a «esperança de todos os confins da terra». Esta é a razão e a alma da vida. Esta é salvação que Deus enviou ao Seu povo, ou seja, a toda a humanidade.

Da Sede de nossa Santa Mártir e Grande Igreja de Cristo, em Constantinopla, dirigimo-nos, com muito amor, aos filhos do Patriarcado Ecumênico em todo o mundo, e a cada homem sedento de Deus, invocando sobre todos a benevolência, a paz, a graça e o dom salvador do Filho Unigênito de Deus, que por nós homens e para nossa salvação desceu do céu, encarnou-se, pelo Espírito Santo, na Virgem Maria, e se fez homem. A Ele a glória, o poder, a honra e a adoração, com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém

 

Fanar, Natividade de 2008.

† Bartolomeu de Constantinopla,
Fervoroso intercessor ante Deus por todos vós.


Notas:

[1] São João Damasceno, Exposição exata da Fé Ortodoxa, ... 1, pag. 282
[2] Lc 2,4
[3] Santo Atanásio, o Grande, Sobre a Encarnação do Verbo, ... 1, pag. 366
[4] Gl 4,5
[5] II Pe 1,4
[6] Dt 4,11
[7] Lc 2, 14

 
       
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