Queridos irmãos e filhos no Senhor,
ma vez mais, no início deste novo ano eclesiástico, somos chamados a refletir, com novas forças espirituais em Cristo, e com particular sensibilidade, sobre o estado de nosso fértil planeta e elevar orações particulares pela proteção de todo o mundo.
Muitas coisas têm mudado desde que nosso predecessor, de santa memória, o Patriarca Demétrio, há mais de duas décadas, decidiu que o 1º de setembro fosse dedicado como dia de oração pela preservação da criação, bem criada por Deus. Ao assumir aquela iniciativa, nosso predecessor, de santa memória, desejava enviar uma mensagem de advertência sobre as devastadoras conseqüências do uso abusivo do meio ambiente. Assinalava que, ao contrário das muitas outras formas de comportamento humano transgressor, a poluição do ambiente natural pode provocar danos monstruosos e irreversíveis, destruindo quase toda forma de vida no planeta. Àquela época esta advertência, seguramente, parecia exagerada aos ouvidos acéticos de alguns, porém, à luz do que se constata hoje, se torna por demais evidente que suas palavras eram proféticas.
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S. Santidade BARTOLOMEU I,
no ato da assinatura desta mensagem |
Hoje, os cientistas que se ocupam com o ambiente natural enfatizam, sem rodeios, que a observada mudança climática pode perturbar e destruir todo o sistema ecológico, que sustenta, não só a espécie humana, mas também toda a maravilhosa e interdependente cadeia da fauna e da flora. As opções e as ações do homem contemporâneo civilizado, em outras ordens, conduziram a esta situação triste que constitui, essencialmente, um problema moral e espiritual, e que já havia exposto eloqüentemente, exaltando principalmente a sua dimensão ontológica, aquele que foi elevado ao céu, o Apóstolo São Paulo em sua carta aos Romanos há dezenove séculos, dizendo: «Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou)... pois sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora». (Rom 8,20-22)
Neste aspecto, devemos reconhecer certamente que a dimensão espiritual e moral do problema ecológico que se apresenta hoje constituem, quicás, muito mais do que antes, a consciência comum de todas as pessoas e, particularmente, dos jovens que tomam ciência de que toda a humanidade tem um destino comum. Um número cada vez maior de pessoas compreende que seu comportamento consumista, que representa uma contribuição pessoal na produção de certos produtos, ou no abandono de outros, força parâmetros mais amplos com dimensões, não só moral, senão também escatológica.
Um número cada vez maior de pessoas percebe que o uso irracional dos recursos naturais e o consumo desmedido da energia contribuem para a mudança climática que afeta a vida e a existência do semelhante, do próximo, da imagem de Deus e que, por isso, é pecado. Do mesmo modo, um número cada vez maior de pessoas caracteriza, respectivamente, como virtuosos ou falsos, os que tratam as coisas da natureza de maneira racional ou irracional.
Não obstante, inversamente proporcional à sensibilização de pessoas quanto ao problema ecológico, se mostra, desgraçadamente, a imagem que apresenta hoje nosso planeta. É particularmente inquietante o fato de que os membros mais pobres e vulneráveis da sociedade humana suportam as conseqüências dos problemas ambientais pelos quais não podem ser responsabilizados. Da Austrália ao canto da África, chegam notícias sobre a prolongada seca que traz como conseqüência a desertificação de áreas outrora férteis e produtivas e, por isso, ameaçam suas populações com o fantasma da fome e da sede. Da América Latina ao coração da Euro-Ásia recebemos informações sobre o derretimento de placas de gelo, das quais dependem milhões de pessoas para o abastecimento de água.
Nossa Santa e Grande Igreja de Cristo, seguindo o exemplo de nosso predecessor, de santa memória, o Patriarca Demétrio, trabalha incansavelmente para sensibilizar, não só a opinião pública, mas também os governantes da terra, organizando Simpósios Ecológicos que tratam, principalmente, sobre a mudança do clima e o manejo racional dos recursos da água. O propósito último deste esforço é o estudo da interconexão dos ecossistemas da terra, da forma pela qual o fenômeno do aquecimento global se manifesta, e sua repercussão antropológica. Através destas reuniões cientificas, nas quais participam representantes de diferentes igrejas cristãs e de outras religiões, bem como representantes dos diversos ramos do conhecimento humano, o Patriarcado Ecumênico deseja estabelecer uma aliança estável e inovadora entre religião e ciência, baseada no principio fundamental de que, para alcançar o objetivo (a preservação do ambiente natural), ambas as partes devem mostrar uma disposição de mútuo respeito e cooperação.
Por meio da colaboração entre a religião e a ciência em Simpósios organizados em diferentes regiões do mundo, deseja-se oferecer uma contribuição para o desenvolvimento de uma ética ambiental que deverá assinalar que o uso do mundo e o aproveitamento dos bens materiais devem ser eucarístico, isto é, acompanhado pela glorificação a Deus. Enquanto que, o abuso do mundo e a participação nele sem referência a Deus é pecaminosa; pecaminosa tanto ante o Criador e Deus, como ante a criação e o semelhante.
Queridos irmãos e filhos no Senhor, sabemos que a criação, caída junto ao humano - que perdeu sua beleza original - geme e sofre de dor ao mesmo tempo. Sabemos, ademais, que o abuso, o desvio, o comportamento transgressor e egoísta do ser humano contribuem para a destruição da natureza criada que sofre e se encontra submetida à corrupção do criado. Sabemos que esta destruição é, na realidade, uma autodestruição. Convidamos por isso a todos, de qualquer condição, a permanecer no uso natural [racional] de toda a criação, dando graças a Deus que criou o mundo e no-lo concedeu.
A Ele se deve a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém
† Bartolomeu de Constantinopla,
Patriarca Ecumênico |