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  Patriarcado Ecumênico de Constantinopla  
 
 
 
 
 
 

Mensagem de S. Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico por ocasião da Grande Quaresma de 2007

Tradução: Comunidade Monástica São João, o Teólogo

 

† Bartolomeu I
Pela graça de Deus, Arcebispo de Constantinopla, Nova Roma,
Patriarca Ecumênico.

 

A toda a Santa Igreja, a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, nossas orações, bênção e pedido de perdão.

 

«Chegou o tempo, o início dos exercícios espirituais»

 

Filhos e filhas bem-amados, irmãos e irmãs no Senhor,

Com estas palavras, o autor desta sacra hinografia nos recorda que, durante o período da Santa e Grande Quaresma que se inicia, devemos intensificar nossos exercícios espirituais para a nossa própria edificação e progresso. Desde os tempos mais antigos, os homens verificam que os bens se adquirem através de duros esforços. Do mesmo modo, os Santos Padres também constataram que para desfrutar do amor divino, dentro do qual todos os bens eternos e temporais coexistem, é necessário, como declarou expressamente o abade Isaac, o Sírio, abandonar o repouso.

Se por um lado não medimos esforços na busca e obtenção de bens materiais, os bens espirituais, por outro, nos são presenteados por Deus, desde que em primeiro lugar e com sinceridade de coração, busquemos primeiramente o SENHOR e seu amor, e não de forma egocêntrica, em vista de nossa satisfação pessoal e vanglória.

O Senhor nos disse com toda clareza: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça e tudo mais vos será acrescentado" (Mt 6, 36), assegurando-nos que aquele que oferece a sua própria vida por amor a Deus, este vai salvá-la. Isto é, aquele que, num gesto magnânimo, confia no amor do Pai e não persegue avaramente os bens temporais ou os espirituais, no final das contas, desfrutará de ambos: do amor de Deus que busca e também dos bens materiais que não busca.

Filhos queridos no Senhor, o nosso Pai que está nos céus, que nos ama e deseja a nossa felicidade, Ele que é o Doador e a Fonte de todo bem, presentear-nos-á com todos os bens que nos fazem falta, ao regressarmos a Ele, como fez ao filho pródigo: a melhor veste, o novilho cevado, o anel no dedo, a mesa farta e, acima de tudo, o seu abraço paternal. Entretanto, para que possamos retornar ao seu paternal abraço, devemos antes repudiar nossos próprios pecados, que a comida dos porcos representa e, principalmente, nosso egoísmo, demonstrando assim que buscamos com sinceridade de coração o amor de Deus por meio de voluntários e dignos exercícios espirituais.

A verdadeira natureza de nosso exercício espiritual consiste em apontar para o amor de Deus como o mais precioso objeto de nosso desejo, apontando ao mesmo tempo para a privação e respectivo abandono de outros bens e desejos legítimos, para que o nosso ser por inteiro, alma e espírito, possa mirar seu principal alvo. Conseqüentemente, o jejum que, de todas as práticas ascéticas é a mais importante da Grande Quaresma, não expressa a rejeição ao bendito alimento, mas, ao contrário, é uma voluntária privação dos mesmos, para o nosso corpo em vista de dois objetivos principais: o desprendimento de nossa alma dos vícios do ego e, em segundo lugar, para que o corpo se torne obediente e disciplinado ao espírito que o governa, a saber, que o corpo se submeta ao domínio do espírito.

O objetivo do exercício (ascese) espiritual não é a aquisição das virtudes ou de outras habilidades estranhas, como crêem os adeptos de diferentes “humanismos”. Ao contrário, é a expressão de nosso desejo de encontrar-se com a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo em quem tudo é recapitulado e de quem tudo provêm. O Logos (Palavra) de Deus proclama claramente que, sem ele, nada podemos fazer, e o santo hinográfico nos lembra que, se o Senhor não edifica a casa das virtudes da alma, em vão a construímos.

Apeguemo-nos, pois, nós os cristãos, ao amor de Cristo e renunciemos voluntariamente aos outros tipos de amor de importância secundária, de modo que sejamos dignos de sua presença na casa de nossas almas. Quando isto é alcançado, pela graça e bênção de Deus, a paz, a alegria e o amor perfeito se estabelecem permanentemente em nosso ser.

Por isso mesmo, os exercícios espirituais não devem ser feitos com pesar nem com ostentação, mas com alegria e em segredo, quando possível. Se houver ostentação, o objetivo do amor de Deus é abandonado, tomando o seu lugar o auto-contentamento; se houver pesar e angústia, a alegria e a boa disposição desaparecem deixando o penitente num clima de opressão e confinamento, ou seja, num estado espiritual que não é agradável ao olhos de Deus. O exercício espiritual deve ser praticado com alegria, tendo como principal fim introduzir nosso coração no amor e na alegria de Deus. Lança, assim, para fora de nós, toda a amargura, rancor, revolta, queixa e protestos contra nossos semelhantes, e vem ao nosso encontro irradiando em torno de nós a Paz de Deus, inabalável e excelsa.

Oxalá passemos todos o período da Grande Quaresma com exercícios espirituais, a fim de conhecer plenamente a alegria da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que sua graça e sua grande misericórdia sejam com todos vós.

Santa e Grande Quaresma de 2007.

Bartolomeu de Constantinopla, fervoroso intercessor vosso perante Deus.

 
       
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