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Homilia de Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I na Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, na Basílica de São Pedro em Roma

(Quinta-feira 29 de junho de 1995

Santidade,

 

graça do Santíssimo Espírito, cujo sumo triunfo foi conhecido pela Igreja na história através do Pentecostes - celebrado de modo análogo há poucas semanas, por ambas as nossas tradições litúrgicas-, reuniu-nos hoje nesta histórica Basílica de São Pedro, com a finalidade de glorificarmos, também com cânticos espirituais, Deus das potências e da misericórdia que, por extremo amor pelos homens, permitiu tudo isto que se está verificando à nossa volta e, de modo particular, este nosso encontro fraterno.

Indubitavelmente constitui um privilégio e, ao mesmo tempo, uma provação o fato de nos encontrarmos há vários anos mediante as recíprocas Delegações oficiais, na festividade padroeira de cada uma das nossas Igrejas, embora, devido à persistente divisão, ainda não nos tenhamos tornado dignos da graça do cálice comum para o qual, contudo, continuam a olhar zelosamente e com temor de Deus, todos os cristãos que procuram e professam o Senhor no Oriente e no Ocidente, ao Norte e ao Sul.

Saboreamos com mais intensidade a purificação espiritual deste privilégio, mas também a da provação neste solene momento, encontrando-nos pessoalmente este ano, por ocasião da veneradíssima memória de Pedro, corifeu dos apóstolos, e de Paulo, martirizado juntamente com Pedro, na mesma verdade evangélica e no mesmo sangue de mártir.

Capítulo primário e fundamental de Cristo, que não pode ser detido, obscurecido ou, muito menos ainda, abolido por qualquer fator mundano, são sem dúvida a profissão da imaculada fé de Deus, "dada aos santos de uma vez para sempre" (Jd 1,3), e a obediência correspondente e conforme, durante a vida histórica, a esta fé irreformável.

O ditado apostólico "acreditei e por isso falei" (2 Cor. 4, 13) não é uma auto-satisfação retórica nem uma justificação. E uma lei de vida e uma medida de verdade na Igreja. Felizmente a teologia no Oriente e no Ocidente evidenciou, desde há muito tempo, inclusive através de teólogos protestantes contemporâneos, que: "Assim como Cristo é proclamado sempre Senhor, assim também a fé é, ao mesmo tempo, sempre obediência" (E. Brunner, Dogmatik 111, pág. 59).

Por isso, todas as peripécias da Igreja - provenham elas de fora, ou de dentro, pelos nossos pecados -, que de vez em quando surgem na história, podem ser remetidas, direta ou indiretamente, à profissão e obediência da fé. Daqui, as perseguições de todos os gêneros, contra os fiéis do mundo; daqui, também as heresias e as discórdias entre os fiéis.

Portanto é razoável e justo, neste dia e momento históricos, não simplesmente evocar à memória, mas antes à nossa consciência e à de todos que estão à nossa volta, próximos e distantes, a indispensável unidade indissolúvel, entre a profissão dos lábios e o espírito mais profundo, por esta mesma substância da fé. E ainda, é a isto que nos chama, agora mais do que nunca, a leitura evangélica quando acabamos de escutar, sobre a profissão de Pedro em Cesárea de Filipe.

A incomparável importância deste versículo foi recordada suficientemente, como se sabe, pela teologia exegética ou controversa, na tentativa de identificar ou interpretar a primazia buscada pelos apóstolos.

Hoje, felizmente, com o auxílio de Deus, chegamos - através de muitas aflições e outras tantas humilhações -, à maturidade da consciência verdadeiramente apostólica, isto é, a busca da primazia não já entre as pessoas mas, ao contrário, entre os ministérios de serviço. E sabemos como e quais são os urgentes ministérios de serviço que nos apresentam, a cada momento no mundo, se verdadeiramente estamos interessados, não já em "ser admirados pelos homens", mas em "ser agradáveis a Deus".

Portanto, hoje aprendemos de novo que a principal e maior dentre as virtudes cristãs, a única que deveras pode tornar o mundo sábio e salvá-lo, é a humildade, juntamente com o arrependimento. Esta é a mais corajosa profissão de fé, portanto também a mais convincente. Não é possível acreditar e professar verdadeiramente que "Um só é o Santo, um só é o Senhor: Jesus Cristo, na glória de Deus Pai" , e ao mesmo tempo buscar outros poderes e outra glória na Igreja.

Por isso são deveras necessários uma grandiosa humildade e um contínuo arrependimento de pastores e de rebanhos. O espírito do mundo não se desarraiga e não se esvazia facilmente, nem mesmo entre os fiéis. Para que nos tornemos dignos de ter o "pensamento de Cristo", devemos em primeiro lugar chegar "à medida da estatura completa de Cristo" (Ef. 4, 13). Se, segundo a não desmentida palavra do Senhor, "o mundo está sob o jugo do Maligno" (1 Jo 5, 19), deveríamos recordar também o veredicto do Senhor sobre ele, isto é, que "esta casta de demônios só pode ser expulsa com a oração e o jejum" (Mc 9,29).

Somente em tais "coordenadas espirituais" pode ser salva, na história, a integridade da fé, e só então é que a nossa fé pode verdadeiramente ser professada e honrada como a potência que "vence o mundo" (lJo 5,4).

É evidente que tais coordenadas espirituais, enquanto são pressupostos da integridade da fé, indicam claramente a ortodoxia sem "ortopraxia", como farisaísmo insuportável, mas também a reflexão teológica sobre as obras e a fé, como estéril loquacidade acadêmica.

Todavia, ao afirmarmos isto, Santidade e todos vós, irmãos e irmãs, não desejamos absolutamente perturbar o recolhimento desta solene celebração. A nossa intenção é, antes, declarar de modo solene a todo o mundo cristão de hoje, com sinceridade e temor de Deus, a nossa convicção acerca da necessidade de autocrítica e de incessante arrependimento.

Porém, aquilo que se preocupa em primeiro lugar, segundo a autocrítica e o arrependimento do cristão, não pode consistir em reconhecer quem errou primeiro e quem foi o último a errar, nem em reconhecer quem errou mais ou quem errou menos. Isto seria uma pusilânime investigação mundana que também as escolas filosóficas pré-cristãs dos Gregos consideravam uma ocupação inferior para o homem espiritual.

Portanto, para nós a questão fundamental é: como, servindo o nosso próximo, havemos de o salvar, e como somente com ele e através dele também nós nos tomaremos dignos da salvação.

A este propósito, infelizmente, nós cristãos compreendemos de maneira errônea a regra áurea de Paulo: "Levai os fardos uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de cristo" (GI6, 2), como simples solidariedade recíproca de caráter mundano. Por isso tornou-se muito cedo necessário que os padres "Népticos" do Oriente tenham querido completar ou, ao contrário, interpretar de modo correto estas palavras de Paulo, com a conhecida "auto-censura", exercida sobre si mesmos, na praxe, durante a vida inteira, a qual verdadeiramente constitui também a única possibilidade de "cumprir a lei de Cristo”.

Por conseguinte, segundo a "auto-censura" patrística todos os pecados e erros do irmão, exceto as crenças errôneas e as heresias, gravam não tanto sobre o irmão quanto sobre a minha própria pessoa. Devo aceitá-los espontaneamente e sem lamentações, se deveras quero que se salvem o meu irmão, eu miserável, e o próprio mundo.

Assim como Deus feito homem se tornou "em tudo semelhante a nós, exceto no pecado", assim também nós nos devemos tornar em tudo semelhantes ao nosso irmão, "exceto na heresia".

Se o próprio Senhor que, sem pecado, por extremo amor pelos homens, chegou a dizer ao Pai e a nós, a propósito dos Seus discípulos: "Eu consagro-Me por eles" (Jo 17,19), tanto mais nós, miseráveis, devemos purificar-nos e consagrar-nos a nós mesmos incessantemente pelo mundo, por meio da nossa" kenosi".

Enfim, congratulando-nos com um abraço pela grande data hoje festejada, seja-nos concedido afirmar que deveras só quando a primado "ethos kenótico" prevalecer de modo convincente na Igreja histórica, poderemos restabelecer facilmente a almejadíssima unidade na fé, e também nos tornaremos logo dignos de experimentar o que a revelação de Deus prometeu àqueles que o amam, o Senhor, isto é, “uma terra nova e um novo céu”. Amém!


Fonte:

Revista 30 Dias - Ano IX - nº 7 - Julho-Agosto/1995

 
       
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