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Livros > Pais da Igreja
Conversando sobre os Pais e as Mães da Igreja | Pe. Marcelo Rezende Guimarães | ISBN: 85.326.1262-8 - Vozes

ISBN: 85.326.1262-8
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INFORMAÇÕES DO PRODUTO

Da Apresentação:

«O que vocês estão conversando pelo caminho?»" (Lc 24,17).

Esta pergunta de Jesus Ressuscitado aos dois discípulos, que caminhavam para Emaús, vem à mente de qualquer pessoa que entra numa conversa já iniciada. Vocês estão entrando na leitura deste livro, como num encontro de uma comunidade eclesial de base ou de um grupo cristão popular. Entrando na roda de companheiros, vocês querem saber: Quem está conversando? Com quem e sobre o que conversam?

Contando-lhes isto, espero introduzi-los(as) no diálogo.

— Quem está conversando?

Durante todo o ano de 1992, o folheto litúrgico «O Domingo» publicou a cada semana uma coluna "Conversando com os Pais e Mães da Igreja". Ali um irmão ou irmã, ligados às comunidades eclesiais e amantes dos escritos dos primeiros autores cristãos, provo­cavam este diálogo. Agora, o Pe. Marcelo Guimarães, monge beneditino e secretário do CEPAMI (Centro Ecumênico de Estudos dos Pais e Mães da Igreja), reuniu aqueles artigos do "Domingo" e, com a aprovação dos autores, os retrabalhou, completando-os e unificando seu estilo. Fez com eles e com outros textos de sua autoria um livro novo e original.

Através da condução do Pe. Marcelo, quem nestas páginas toma a palavra são os cristãos e cristãs pobres que hoje vivem a caminhada das Igrejas na América Latina.

— Com quem conversamos?

Chamam-se «Pais da Igreja» os escritores cristãos dos primeiros séculos que traduziram a Revelação de Deus, contida na Bíblia, para a linguagem e cultura de outros povos. Foram os primeiros líderes de comunidades cristãs na Síria (Antioquia), no Egito (Alexandria), na Capadócia (Ásia Menor), Constantinopla, Roma e em muitos outros lugares do mundo da antiga cristandade.

Apesar de que as Igrejas antigas não guardaram os escritos femininos, descobrimos no tempo dos pais a ação e o testemunho de mulheres que foram verdadeiras mães para as comunidades cristãs e para os discípulos que as seguiram. De algumas, temos referência nos escritos dos Pais. De outras, apenas sabemos que existiram. Aqui lhes fazemos justiça, chamando-as de Mães da Igreja, e convidamos vocês a conhecê-las.

— O que conversamos?

O assunto que os pais e mães da Igreja mais aprofundaram foi o mesmo assunto que despertou nosso interesse por eles: a leitura da Palavra de Deus.

Entre o método de leitura bíblica a partir dos pobres, que muitas comunidades latino-americanas praticam, e o modo de ler a Bíblia dos Santos Pais, há muito em comum: o estilo narrativo, litúrgico e ligado à vida.

Este é um assunto bem presente neste diálogo.

Hoje, no Brasil, muitas Igrejas fazem um sério esforço para inculturar a fé à realidade de nosso povo e das culturas autóctones. De seu modo, os pais e mães da Igreja valorizaram este trabalho de inculturação à realidade de seu tempo e local. Conversando hoje com eles, escutamos suas experiências e recebemos deles o apoio para prosseguirmos nesta busca.

Como o diálogo é dinâmico, não lembramos os Pais para repeti-los ou para absorver seus escritos de modo ingênuo. Conversar é uma relação responsável entre pessoas e culturas, cada qual com sua inteligência e seu coração.

Vocês estão entrando numa conversa com os Pais e Mães da Igreja, mas também com o modo de pensar, sentir e viver das comunidades cristãs no Brasil de hoje, com o qual de novo o Espírito diz às nossas Igrejas: «Escutemos!»

Marcelo Barros

As Razões de uma Conversa

Era uma vez um imenso quarto, sem janelas, sem portas, sem nenhuma abertura. E, no entanto, ali vivia um povo.

Ah, a vida era insuportável. Tudo se passava na escuridão, na penumbra, sem jamais ver a luz do sol. Aquele ar viciado, carregado, pesado. Tudo se passava na ilusão de que aquela era a única realidade. Ninguém imaginava que havia vida além das paredes. Nem que havia luz, céu, peixes, pássaros, flores. Até que um jovem apareceu e fez um buraco na parede. E os raios de sol tocaram aquele povo. Tudo se viu banhado por uma imensa claridade. Uma brisa suave soprou. Moços e velhos respiraram fundo e ergueram o rosto. Uma multidão se concentrou em torno do buraco. E descobriram que havia céu, sol, lua, campos, florestas, pássaros, animais e povos para além do buraco. Naquele dia souberam o que significava a palavra horizonte.

O jovem morreu. Mas o buraco na parede ficou.

O povo se reunia em torno do buraco da parede. E dizia: «Este buraco mudou nossa vida. Com ele veio o ar, a luz e nós enxergamos o horizonte!»

O tempo passou. Passaram também os que conviveram com o jovem. Seus filhos disseram: «Nossos pais nos contaram que a vida antes deste buraco era insuportável. Este buraco nos trouxe luz, ar e nos fez enxergar para além de nós mesmos. Mas olha só como está feio este buraco. Ele é muito Importante. Não pode ficar assim. Vamos ajeitá-lo!» E colocaram molduras de madeira nas bordas do buraco.

O tempo passou. Esta geração morreu. Seus filhos disseram: «Nossos pais nos contaram que a vida antes deste buraco era insuportável. Este buraco nos trouxe luz, ar e nos fez enxergar para além de nós mesmos. Mas olha só como está feio este buraco. Ele é muito importante. Não pode ficar assim. Vamos ajeitá-lo!» E colocaram uma janela.

Passou esta geração. Veio outra que disse: «Nossos pais nos contaram que a vida antes deste buraco era insuportável. Este buraco nos trouxe luz, ar e nos fez enxergar para além de nós mesmos. Mas olha só como está feio este buraco. Ele é muito importante. Não pode ficar assim. Vamos ajeitá-lo!» E colocaram cortinas de ambos os lados.

E assim foi se sucedendo. Cada geração que passava fazia sua profissão de fé no buraco e tentava ajeitá-lo. E o que aconteceu? A luz já não entrava mais, nem o ar vinha renovar o ambiente e ninguém enxergava mais o outro lado. Tudo como antes no Reino de Abrantes.

Então alguém disse: «Vamos deixar o ar e a luz entrar. Como no tempo de nossos pais e mães

Os Pais e Mães da Igreja

Você já tinha escutado alguém falar em pais e mães da Igreja? Você já tinha pensado que a Igreja, a fé, as comunida­des, têm pai e têm mãe?

Os cristãos chamam de Pais e Mães da Igreja aqueles homens e mulheres que viveram nos primeiros séculos do cristianismo e marcaram de modo muito profundo a caminhada das comunidades. Ou fundaram ou ajudaram a firmar as comunidades. As comunidades guardaram deles e delas a força da fé, o testemunho, o ensino. São reconhecidos e pelas comunidades como patriarcas e matriarcas da fé.

Deles nos chegaram escritos diversos. Sermões inteiros ou em parte, catequeses, hinos e orações, comentários a este ou àquele livro da Bíblia, ditos e outros escritos. Através deles, influenciaram não só sua época, mas também as gerações que se seguiram.

São também chamados de padres da Igreja ou apenas Santos Padres. Daí vêm as palavras «Patrística», para chamar a coleção de seus escritos, e «Patrologia», para o estudo de seus escritos.

Antes de serem Pis e Mães da Igreja, são irmãos e irmãs na fé. Cristãos e cristãs, de outros tempos e de outros lugares, companheiros e companheiras de luta na construção do Reino. Gente que assumiu seu batismo, que levou a sério o fato de ser testemunho e testemunha de Jesus Cristo.

Seus nomes? Agostinho, Ambrósio, Atanásio, Basílio, Cipriano, Cirilo, Clemente, Efrém, Gregório, Hilário, Inácio, Ireneu, Jerônimo, João, Justino, Leão, Macrina, Melânia, Orígenes, Tertuliano. Destes, a gente sabe o nome porque seus escritos nos chegaram. De outros, a história se perdeu no tempo.

Gente de comunidade, preocupada com as comunidades. São catequistas, como Orígenes; animadores de liturgia, como Efrém; ou cristãos preocupados em ligar fé e vida, como Justino. Há viúvas e virgens consagradas, como Macrina. Há também diáconos, como Efrém; padres, como Jerônimo; bispos como João Crisóstomo, Agostinho e Ambrósio; e papas como Leão. Muitos foram mártires, isto é, morreram por causa do Evangelho, ou foram confessores da fé, isto é, sofreram por causa de Jesus Cristo.

Alguns viveram na roça, outros na cidade. Uns, nos grandes centros; outros na periferia. No norte da África, como Atanásio, Agostinho e Cipriano. No sul da França, como Ireneu e Hilário. Em Roma, como Justino, Clemente, Leão, Gregório. No atual Irã, como Efrém. Na atual Turquia, como Inácio de Antioquia, Basílio de Cesaréia, João Crisóstomo, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo.

Eles são Pais e Mães da Igreja como um todo. Mas a lista poderia ser ampliada com os nomes dos pais e mães de nossa comunidade, da Igreja no Brasil e na América Latina.  Certamente ali estaria presente o nome daquela rezadeira que conseguiu reunir a comunidade, ou aquele catequista que, pela primeira vez, aprofundou a fé na região. Também incluiria, por exemplo, o bispo dominicano Bartolomeu de Las Casas, defensor do direito dos índios, lá pelos anos de 1500. Continuaria com Rosa de Lima, religiosa solidária com os índios e negros; Antônio de Valdivieso, primeiro bispo mártir da Igreja libertadora; Toríbio de Mogrovejo, exemplo e patrono dos bispos da América; Pedro Claver, servidor dos escravos negros; e tantos outros. [...]

ISBN: 85.326.1262-8
Editora: Vozes
Ano: 1994
Coleção: Pais e Mães da Igreja
Nº de páginas: 86
Formato: 16x23 cm


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