XVI - Os Frutos do Espírito
Santo
A Assunção de Maria e a Transfiguração de todas
as criaturas.
A festa da Assunção é uma ocasião para venerar o corpo da Virgem:
a sua assunção é um gesto imenso do favor divino.
tradição ortodoxa de venerar os corpos dos santos não tem o nada como
fundamento: após longo colóquio com Deus, no curso do qual Moisés recebeu os
mandamentos e a lei, sua face resplandecia de uma luz que os israelitas não
conseguiam contemplar. A luz refletida daquele rosto era uma luz divina, e a
luz divina manifesta a presença divina. Deus era visível na face de Moisés
e, por isso, o povo pecador se abstinha de olhá-lo: de fato, o pecado e Deus
não podem encontrar-se face a face. Este foi o motivo da necessidade do véu
colocado na face de Moisés, que São Paulo considerará como um símbolo de
cegueira espiritual. Paulo vai além, afirmando que, se o ministério da Lei
- da qual derivam a condenação e a morte - conseguiu para a carne semelhante
glória visível e à face humana tal esplendor, quanto maior deverá ser a
glória obtida através do ministério da justiça (cf. Cor 3,7-18)! É neste
terreno que se fundamenta a nossa tradição com relação à Virgem, a seu corpo
e à sua face. Se a face de Moisés resplandecia após ter recebido as palavras
escritas pelo dedo de Deus, manifestando assim a glória que tinha envolto
seu corpo, quanto maior foi a glória que revestiu o corpo da Virgem quando
acolheu em seu ventre a autêntica Palavra de Deus, O próprio Filho de Deus,
que do corpo dela assumiu um corpo, depois que o Espírito Santo a tinha
preparado e o poder de Deus a tinha coberto e enchido de graça. Que glória
isso trouxe para o corpo da Virgem!
Todos sabemos de que modo Deus pôs fim à vida de Moisés e como o sepultou no
monte Nebo, longe dos olhares do povo, pelo temor de que fossem induzidos a
adorá-lo: parece mesmo que irradiasse luz até depois de morto. Dele assim
está escrito no livro do Deuteronômio: Até hoje ninguém sabe onde fica seu
túmulo (Dt 34,6). Na Carta de Judas temos uma outra notícia explícita
referente ao corpo de Moisés: O arcanjo Miguel, em luta com o demônio,
quando lutava pelo corpo de Moisés... disse-lhe: “Condene-te o Senhor! (Jd
9). Isso indica que o arcanjo Miguel tinha recebido o encargo de guardar
aquele corpo e de levá-lo ao céu; mas quando o diabo quis tomá-lo para si ou
revelar o túmulo para enganar o povo, estourou uma batalha entre os dois e o
arcanjo invocou o auxílio do Senhor como chefe das milícias celestes.
Se Deus se preocupou com o corpo de Moisés a ponto de preocupar-se
pessoalmente com sua sepultura e de encarregar o arcanjo Miguel de guardá-lo
e levá-lo para o céu - como quer a tradição judaica -, e tudo isso porque o
corpo de Moisés refletia a luz e a glória de Deus após ter estado em sua
presença durante quarenta dias e ter recebido as tábuas da lei, a prática
ortodoxa de honrar os corpos não fica sem fundamento. De quanto maior
atenção deve ter-se servido Deus e Cristo pelo corpo da Virgem após a morte,
corpo aquele que tinha alcançado uma duradoura descida do Espírito Santo,
uma plenitude de graça, um particular envolvimento da parte da Potência do
Altíssimo e, enfim, a morada, por nove meses, da Palavra de Deus em seu
ventre! É verdade que não temos nenhuma descrição de que o corpo da Virgem
resplandecesse de luz celeste, mas isso sabemos com certeza que era devido a
uma extensão do processo de rebaixamento vivido por Cristo para conservar
secreta a glória de sua divindade. Nem o corpo de Cristo durante a sua vida
resplandeceu de luz particular, com exceção de apenas uma ocasião e por
curto tempo - na noite da transfiguração -, e isso apesar de ele ser a
verdadeira luz do mundo, a luz que sempre resplandece para todo homem.
É evidente a existência de um plano divino para conservar escondida toda a
glória de Cristo e, como conseqüência, a da Virgem, por medo de que a fé em
Cristo fosse além dos limites fixados, pelo temor de que a cruz perdesse a
sua conotação escandalosa e que a veneração pela Virgem desembocasse num
culto e numa adoração que convém somente a Deus.
Exatamente como a morte de Moisés, assim também a morte da Virgem deveria
aparecer de modo submisso, sobretudo se pensarmos que naquele momento o
evangelho já tinha sido proclamado nos confins da terra e que Cristo já era
conhecido como autêntico Filho de Deus, nascido da Virgem Maria. Por isso,
não há menção alguma à morte de Maria nos evangelhos e nas cartas. Portanto,
durante os três primeiros séculos, a assunção de seu corpo foi testemunhada
unicamente através de uma tradição oral, discreta, de modo que Maria não
fosse colocada numa altura exagerada e para que ninguém atentasse contra o
culto devido a Deus.
Se o corpo de Moisés, por ter resplandecido da luz de Deus, fez com que Deus
se preocupasse com sua sepultura e encarregasse o arcanjo Miguel de
guardá-la, não temos motivos de espantar-nos quando ouvimos dizer que o
próprio Cristo esteve presente na morte da Virgem, recolheu-lhe o espírito e
levou-o ao céu. Quanto ao corpo de Maria, foi sem dúvida entregue aos
cuidados do arcanjo Miguel até o tempo fixado para seu transporte ao céu.
Assim, o corpo da Virgem, que tinha sido objeto de atenção por parte do Pai
celeste desde o momento da anunciação e receptáculo da divina concepção,
continuou a ser honrado até quando Deus o assumiu, reservando-lhe a
veneração dos anjos.
Nossa veneração pelo corpo da Virgem é parte integrante de nossa fé nas
realidades escatológicas, naquelas realidades que se referem à vida futura:
bem sabemos que a ressurreição dos corpos é um aspecto essencial da obra de
Cristo na eternidade. Mesmo se a assunção do corpo da Virgem não tenha sido
propriamente um ato de ressurreição, é uma condição de transfiguração na
qual o corpo foi conduzido pela mão das potências angélicas com vista a uma
ressurreição completa ou a ser completada sucessivamente.
O Novo Testamento é rico de exemplos de transfiguração. Cristo deu início a
este gesto escatológico em si mesmo, naquela carne que tinha assumido de
nós: no monte da transfiguração, diante de Pedro, Tiago e João, seu corpo
tornou-se resplandecente como o sol, vindo assim a constituir as primícias
daquilo que seriam os nossos corpos uma vez completada sua redenção. A
partir deste momento, a humanidade, e com ela toda a criação, geme nas dores
de parto e até hoje espera a adoção de filhos, a redenção dos corpos. Toda a
criação, e não comente nossos corpos, é chamada a esta transfiguração. O
fato de que também as vestes de Cristo se tornaram resplandecentes, mais
brancas do que a neve, indica claramente que Cristo é a luz do mundo e da
criação, e que à vinda de Cristo todas as criaturas assumirão sua nova
forma.
A veneração dos corpos santos e luminosos é um gesto escatológico, uma
extensão da transfiguração no tempo presente, uma vida de fé que prepara
para a vida futura. A partir do dia da transfiguração, Cristo não cessou de
derramar sua luz nos corpos e nas faces dos seus santos. O deserto de Scete
(Egito) é testemunha desta realidade e obteve como prêmio uma grande
participação nesta luz celeste. Sete Pais famosos testemunharam ter visto
Macário o Grande resplandecer na escuridão de sua cela.
Os Pais que estavam sentados perto de Sisoés, na hora de sua morte, contam
que seu rosto começou a resplandecer de uma luz sempre mais intensa até o
momento em que entregou o espírito; logo após, a luz tornou-se brilhante
como um relâmpago e a cela foi invadida por um perfume de incenso. Conta-se
também que Deus demonstrou uma tal benevolência para com Pai Pambo, que era
difícil para qualquer um suportar a visão de sua face, tanta era a glória
que nela resplandecia: parecia um rei assentado num trono. Num dia em que os
discípulos de Arsênio entraram de improviso em sua cela enquanto estava
orando, encontraram todo o seu corpo ardendo como uma chama. José o Grande
foi observado enquanto se encontrava em oração: tinha os braços erguidos e
seus dedos pareciam dez velas acesas.
Neste e em outros exemplos de faces e de corpos luminosos podemos recolher
uma verdadeira difusão da transfiguração de Cristo através de Pentecostes e
da descida do Espírito Santo: as línguas de fogo colocadas sobre os corpos
dos discípulos preparavam-nos para a transfiguração e ressurreição finais.
A veneração dos corpos dos santos, na tradição ortodoxa, na realidade é uma
continuação da alegria de Pedro ao ver a luz radiosa de Cristo e de suas
palavras espontâneas, cheias de fé: Mestre, como é bom estarmos aqui! (Mc
9,5).
O Senhor transfigurado está presente nos seus santos, e sua luz e seu
Espírito Santo resplandecem nos seus corpos e nos seus espíritos. Às vezes,
a santificação vai além do espírito da alma e invade também o corpo. Mesmo
que o corpo esteja no mundo, não é considerado como pertencente ao mundo, e
sim como sustentado pelo pão terreno e celeste juntamente, e como iluminado
tanto pela luz deste mundo como pela luz celeste. Por acaso não encontramos
aqui uma reposta ao convite do Apóstolo: Glorificai a Deus no vosso corpo?
(1Cor 6,20)
Assim, celebrar a assunção do corpo da Virgem significa, verdadeiramente,
render glória ao Senhor que continua a ser glorificado a cada dia nos seus
santos: Para que seja glorificado o nome do Senhor nosso Jesus Cristo em
vós, e vós nele (2Ts 1,12).
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen. |