XV - A relação entre o dom de Pentecostes
e a Ascensão de Cristo
Quando eu for, vos enviarei o Consolador.
(Jo 16,7)
sta frase do Senhor indica que o envio do Espírito Santo em Pentecostes e a
transmissão da unção do Pai através do amor e da adoção, na comunhão de uma
vida eterna com ele, dependiam do retorno do Filho para junto do Pai. Isso
comportava a realização de sua missão: uma nova humanidade, redimida e
tornada perfeita, posta na posição de reconciliação com o Pai através do
lugar de honra que Cristo nos obtém à direita da glória, nos céus.
Tendo assim completado a sua missão, tendo satisfeito toda a vontade do Pai
com relação a nós e tendo removido todo obstáculo que impedia uma nossa vida
sem mancha com o Pai, como conseqüência Cristo nos obtém a promessa do Pai
em virtude de estar assentado à sua direita como intercessor em favor da
humanidade exilada na terra. Daqui nascem as palavras de Pedro em
Pentecostes: Elevado, portanto, à direita de Deus e depois de ter recebido
do Pai o Espírito Santo que ele tinha prometido, derramou-o, como vós mesmos
pudestes ver e ouvir (At 2,33).
Paulo revela-nos a ligação essencial entre a ascensão de Cristo e o seu
assentar-se à direita do Pai de um lado e, de outro, a realização de uma
humanidade cheia de Espírito Santo para entrar na autêntica comunhão levada
à realização por Cristo, no céu: Ele subiu acima de todos os céus, a fim de
que pudesse encher todas as coisas (Ef 4,10). As palavras “para que pudesse”
demonstram que a ascensão de Cristo constituía o início, a causa principal e
eterna para a realização da plenitude da humanidade em comunhão com Deus. É
o que se exprime também no versículo: Jesus entrou como precursor, para
nosso proveito (Hb 6,20).
A
acolhida da paternidade de Deus
Quando chegou sua hora, Cristo percebeu que a humanidade tinha uma
necessidade urgente do Espírito da paternidade do Pai, a ponto de não mais
poder viver como órfã sem conhecer um pai. Cristo tinha saciado esta
necessidade, sendo o Filho descido do céu, do seio do Pai e trazendo em si a
imagem e a compaixão do Pai. Agora que estava deixando os discípulos, como
estes poderiam viver sem o cuidado amoroso da paternidade de Deus? Cristo
prometera aos discípulos que na sua ascensão, rogaria ao Pai para
mandar-lhes o Consolador, o Espírito de consolação que vem do Pai, que
traria a toda a humanidade o afeto e a compaixão próprias da paternidade,
como eterna comunhão de vida com Deus Pai. Esta é a origem das palavras de
Jesus a seus discípulos: Não vos deixarei órfãos (Jo 14,18). O Espírito de
Pentecostes é o Espírito da compaixão do Pai que conforta o homem,
assegurando-lhe a possibilidade de viver como um filho na casa de Deus, para
sempre.
No dia de Pentecostes, o Pai nos fez entrar numa comunhão com ele que é –
num certo sentido – do mesmo tipo daquela existente entre ele e seu Filho
dileto, a tal ponto que o Espírito Santo chegou a transmitir-nos o diálogo
íntimo entre o Pai e o Filho, o diálogo do puro amor divino: Quando vier o
Espírito de verdade, ele vos conduzirá à verdade completa, porque não falará
de si, mas dirá tudo aquilo que terá ouvido e vos anunciará as coisas
futuras.. Tomará do que é meu e vô-lo anunciará. Tudo aquilo que o Pai
possui é meu (Jo 16,13-15). Deste modo, o Espírito Santo nos introduziu nos
segredos da comunhão do Pai com o Filho; foi isto que também Paulo conseguiu
entender e explicar: “O Espírito penetra todas as coisas, também as
profundidades de Deus”.
Aquilo que olho jamais viu,
ouvido jamais escutou,
nem jamais penetrou o coração do homem,
isso Deus preparou para aqueles que o amam.
A nós, Deus o revelou por meio do Espírito”.
“Ora, nós não recebemos o espírito do mundo,
mas o Espírito de Deus,
para conhecer tudo aquilo que Deus nos deu.
(cf. 1Cor 2,9-12).
Este é o Espírito Santo que o Pai derramou em Pentecostes segundo a sua
santa promessa, para fazer-nos conhecer aquilo que nenhuma mente pode
conceber, para iniciar-nos no mistério da relação entre o Pai e o Filho,
para conferir-nos o amor paterno como recompensa pela obediência que lhe
demonstrou o Filho na cruz e nos sofrimentos suportados até a morte e,
enfim, para doar-nos todas as bênçãos contidas no mistério da comunhão entre
o Pai e o Filho.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.
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