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São GREGÓRIO DE NISSA

(Aprox. 330-395)

Sobre a Vida de Moisés

Tradução segundo a Patrologia Grega de Migne
com base na versão de D. Lucas F. Mateo

Segunda Parte:

História de Moisés

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 1

oisés nasceu precisamente quando o tirano havia ordenado matar os varões (Ex 1, 16). Como o imitaremos com nossa livre escolha as circunstâncias do nascimento deste homem? Não está em nosso poder – dirá seguramente alguém – comparar aquele ilustre nascimento com nosso nascimento. Não obstante, não é difícil começar a imitação por aquilo que parece mis inacessível. Pois quem desconhece que todo o ser que está sujeito à mudança nunca permanece idêntico a si mesmo, mas que continuamente passa de um estado a outro, pois a mudança sempre se opera para melhor ou para pior? Apliquemos isto ao nosso assunto. O feminino da vida, aquele que o tirano quer que sobreviva, é a índole material e passional a que é conduzida, ao escorregar, a natureza humana; por outro lado, o renovo varonil é o impetuoso e forte da virtude, que é hostil ao tirano e que a este resulta suspeito de rebelião contra seu poder. É necessário que aquele que é submetido a mudança seja de algum modo gerado constantemente, pois na natureza mutável não há nada que permaneça totalmente idêntico a si mesmo. Alem disso, ser gerado deste modo não provem de um impulso exterior, à semelhança dos que geram corporalmente o que não prevêem, senão que este nascimento tem lugar por nossa livre escolha. Somos, de certa forma, nossos pais: geramos a nós mesmos de acordo com o que queremos ser. Mediante a livre escolha, nos adaptamos ao modelo que escolhemos: varão ou fêmea, virtude ou vicio. Por esta razão, apesar da hostilidade e do desgosto do tirano, nos é possível chegar à luz com um nascimento mais nobre, e ser contemplados com agrado pelos pais deste parto formoso, estes pais da virtude seriam os pensamentos, e permanecer na vida mesmo que isto seja contrário à intenção do tirano. Se partindo da história colocássemos mais em evidência seu sentido íntimo, o discurso ensinaria isto: que no começo da vida virtuosa se encontra o nascer que provoca tristeza ao inimigo, referindo-me a esta forma de nascimento em que o livre arbítrio faz o papel de parteira. Pois ninguém causa tristeza ao inimigo se não mostra já, em si mesmo, sinais que dão testemunho de sua vitória sobre ele. Pertence exclusivamente ao livre arbítrio dar a luz a este rebento varonil e virtuoso e mantê-lo com alimentos convenientes, assim como também prover a que se salve incólume da água. Aqueles que entregam seus filhos ao tirano, os expõem nus e sem proteção à corrente. Chamo corrente à vida agitada com sucessivas paixões; o que cai nesta corrente, afundando, submerge nela e se afoga. Os sábios e providentes pensamentos, que são os pais deste filho varão, quando a necessidade da vida os obriga a depositar seu bem descendente nas ondas da vida, protegem aquele que põem na corrente em uma cesta para que não se afunde. Essa cesta, tecida com fibras diversas, é a educação, tecida por sua vez com diversas disciplinas; sobre as ondas da vida, ela manterá flutuando aquele que leva (Ex 2, 3). Graças a ela, este não vagueará muito na agitação das águas, levado de um lado para outro pelo movimento das ondas, mas tendo chegado à estabilidade da terra firme, isto é, tendo saído da agitação da vida, será empurrado para o estável pelo impulso mesmo das águas. A experiência também nos ensina isto: que a instabilidade e mudança constante dos negócios deixam longe de si aqueles que não estão imersos nos enganos humanos, considerando uma carga inútil os que lhes são nocivos por sua virtude. Quem conseguir permanecer fora destas coisas, que imite Moisés e não evite lágrimas, embora se encontre protegido em uma arca. As lágrimas, com efeito, são proteção segura para os que se salvam através da virtude. E se a mulher sem filhos e estéril, que é filha do rei, penso que ela representa propriamente a sabedoria pagã, fazendo passar por seu o recém-nascido, tenta ser chamada mãe deste, a palavra aceita que não se recuse o parentesco desta pretendida mãe contanto que se considere nela o imperfeito da idade. Porem quem corre para cima, para o alto – como sabemos de Moisés – experimenta a vergonha de ser chamado filho de quem é estéril por natureza. A cultura pagã é verdadeiramente estéril, sempre grávida, porem sem jamais dar a luz em um parto. Pois após seus grandes períodos de gravidez, que fruto pode mostrar a filo que seja digno de tais e tantos esforços? Acaso não são todos vazios e imaturos, abortados antes de chegar à luz do conhecimento de Deus, podendo haver chegado talvez a homens se não tivessem estado completamente fechados no sentido de uma sabedoria estéril?

Capítulo 2

Portanto, quando alguém tiver convivido com a rainha dos egípcios, embora não pareça excluído de suas magnificências, deve correr àquela que é a mãe por natureza, da qual Moisés não se separou no tempo de sua infância junto da rainha, uma vez que foi amamentado, como conta a história, com o leite materno. Isto ensina, a meu ver, que se no tempo de nossa educação convivermos estreitamente com os pensamentos pagãos, devemos não nos separar do leite da Igreja que nos alimenta. O leite são os preceitos e costumes da Igreja, com os quais a alma se alimenta e se fortifica, tomando daqui o ponto de partida para subir ao alto. É verdade que o pensamento de quem presta atenção aos ensinamentos pagãos e aos ensinamentos pátrios se encontrará entre dois inimigos (Ex 11, 12). O pensamento religioso estrangeiro resiste à palavra hebréia, disputando continuamente para aparecer mais forte que a de Israel. E assim pareceu a muitos dos mais superficiais, os quais, abandonando a fé paterna, se misturaram com os inimigos, convertidos em transgressores dos ensinamentos de seus pais. Porem quem é grande e nobre, seguindo o exemplo de Moisés, mostra com seu golpe de lança que é alma morta a doutrina que se levanta contra o discurso da verdade. Interpretando esta passagem de forma diversa, talvez alguém encontre esta luta dentro de nós. O homem se encontra, como o troféu de um certame, no meio daqueles competidores que o pretendem; faz vencedor do certame àquele a quem se inclina. Assim ocorre com a idolatria e o culto verdadeiro a Deus, a intemperança e a moderação, a justiça e a injustiça, a soberba e a humildade, e todas as coisas que se subentendem contrapostas na luta aberta de egípcio contra hebreu. Moisés nos ensina aqui com seu exemplo, a ajudar a virtude como a alguém da própria estirpe, e a repelir o adversário que a ataca. De fato, o triunfo da piedade é, ao mesmo tempo, morte e aniquilação da idolatria. Da mesma forma, a injustiça é destruída com a justiça, e mata-se a soberba com a humildade. A contenda entre os dois compatriotas tem lugar também entre nós (Ex 2, 13). Com efeito, não existiriam as invenções doutrinais das perversas heresias se não lutassem, em blocos contrapostos, as argumentações erradas contra as verdadeiras. E se somos demasiado débeis para dar por nós mesmos o triunfo ao que é justo, e o mal prevalece com seus argumentos e repele o primado da verdade, temos que fugir disto o mais rapidamente possível, partindo do exemplo da história de Moisés (Ex 2, 15) até um ensinamento melhor e mais sublime dos mistérios. E se for necessário viver de novo no estrangeiro, isto é, se houver uma necessidade que nos force a tratar com a filo pagã, façamo-lo depois de haver afastado os perversos pastores do uso injusto dos poços (Ex 2, 17), isto é, depois de haver refutado os mestres da maldade pelo mau uso da educação. Deste modo viveremos a sós com nós mesmos, sem chegar às mãos dos adversários ou nos colocar no meio deles, mas viveremos na companhia dos que estão apascentados por nós, iguais no sentir e no pensar: de todos os movimentos da alma que existe em nós, como ovelhas apascentadas pelo querer da razão que é a que dirige. E quando estivermos dedicados a esta paz e a este pacífico repouso, então brilhará a verdade, enchendo de luz com seus próprios fulgores os olhos da alma. Deus mesmo é a verdade que se manifestou então a Moisés através daquela inefável iluminação.

Capítulo 3

Nem sequer o fato de que o resplendor que ilumina a alma do profeta se ascende de um arbusto de espinhos (Ex 3, 1-6) é inútil em nossa busca. De fato, se Deus é a verdade (Jo 14, 6; 8, 12), e a verdade é luz, e a palavra do Evangelho utiliza estes nomes sublimes e divinos para o Deus que se nos manifestou através da carne, conclui-se que este caminho da virtude nos conduz ao conhecimento daquela luz, que desceu até a natureza humana, que não brilha com a luz que se encontra nos astros para que não se pense que seu resplendor provem da alguma matéria que ali está oculta, mas sim com a luz de uma sarça da terra, que com seus resplendores ilumina mais que todos os astros do céu. Esta passagem nos ensina o mistério da Virgem: a luz da divindade, que graças a seu parto, ilumina a vida humana, guardou incorrupta a sarça que ardia sem que a flor da virgindade se secasse no parto. Com esta luz aprendemos o que devemos fazer para permanecer dentro dos resplendores da luz verdadeira: que não é possível correr com os pés calçados até aquela altura da qual se contempla a luz da verdade, mas que é necessário despojar os pés da alma de seu invólucro de peles, morto e terreno, com o qual foi revestia a natureza no princípio, quando fomos despidos por causa da desobediência à vontade divina (Gn 3, 21). Se fizermos isto, seguir-se-á o conhecimento da verdade, pois ela manifestará a si mesma, já que o conhecimento do que é, se converte em purificação da opinião em relação ao que não é. A meu ver, esta é a definição da verdade: não errar no conhecimento do ser. O erro é uma ilusão que se produz no pensamento a respeito do que não é, como se o que não existe tivesse consistência, enquanto a verdade é um conhecimento firme do que verdadeiramente existe. E desta forma alguém, depois de ter passado muito tempo em solidão embebido em altas meditações, conhecerá com esforço o que é verdadeiramente existente – aquilo que tem ser por sua própria natureza -, e o que é o não existente, isto é aquilo que tem ser só em aparência, ao ter uma natureza que não subsiste por si mesma (Ex 3, 14). Julgo que o grande Moisés, instruído pela teofania, compreendeu então que fora da causa suprema de tudo, na qual tudo tem consistência, nenhuma das coisas que são captadas com os sentidos e que se conhece com o pensamento tem consistência no ser. De fato, ainda que a mente considere diversos aspectos nos seres, o pensamento não vê nenhum deles com tal suficiência que não necessite em nada de outro, isto é, com tal suficiência que lhe seja possível existir sem participar do ser. O que sempre é de igual forma, aquele que nem cresce e nem diminui, aquele que não se move a nenhuma mudança, nem para melhor ou para pior, este é, na verdade, alheio ao pior e não há nada melhor que ele; aquele que é participado por todos e que não fica diminuído com esta participação: este é o que verdadeiramente existe e cuja contemplação é o conhecimento da verdade.

Capítulo 4

Moisés chegou então a isto, e agora chega também todo aquele que, seguindo seu exemplo, despoja a si mesmo de sua envoltura terrena e olha para a luz que sai da sarça, isto é, o raio de luz que nos ilumina através da carne cheia de espinhos, que é, como diz o Evangelho, a luz verdadeira (Jo 1, 19) e a verdade (Jo 14, 6). Então este chega a ser capaz de prestar ajuda aos demais no sentido da salvação, de destruir a tirania daquele que domina com artes más, e de encaminhar à liberdade os que estão debaixo da tirania de perversa escravidão. A transformação da mão direita e a mudança do bastão em serpente (Ex 4, 3-7) são o começo dos prodígios. Parece-me que nestes prodígios se dá a entender simbolicamente o mistério da manifestação da Divindade aos homens através da carne do Senhor, graças à qual tem lugar a destruição do tirano e a libertação dos que estão oprimidos por ele. Leva-me a esta interpretação o testemunho profético e evangélico. Pois o profeta diz: Esta é a mudança da destra do Altíssimo (Sal 76, 11), como se a Divindade, considerada imutável, se houvesse mudado conforme nosso aspecto e figura por condescendência para com a debilidade da natureza humana. A mão do Legislador tomou uma cor distinta da que lhe é natural ao ser tirada do peito; voltando novamente ao peito, tornou à beleza que lhe era própria e natural. O Deus Unigênito, o que está no seio do Pai (Jo 1, 18), é a direita do Altíssimo (Sal 76, 11). Quando se manifestou a nós saindo do seio, se transformou conforme nossa forma de ser; depois de haver curado nossa enfermidade, novamente recolheu ao próprio seio, o seio da direita do Pai, a mão que havia estado entre nós e que havia tomado nossa cor. Então não tornou passível o que era de natureza impassível, mas por sua comunicação com o que era impassível transformou em impassibilidade aquilo que era mutável e passível. A transformação do bastão em serpente não há de perturbar os amigos de Cristo como se tivéssemos que harmonizar a palavra do mistério com um animal que lhe é oposto (Ex 4, 3; 7, 10 e Nm 21, 9). A verdade mesma não afasta esta imagem quando diz com a voz do Evangelho: Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do homem (Jo 3, 14). O sentido é claro. Se o pai do pecado foi chamado serpente pela Sagrada Escritura (Gn 3, 1), e o que nasce da serpente é verdadeiramente serpente, segue-se que o pecado tem o mesmo nome daquele que o gerou. Pois bem, a palavra do Apóstolo dá testemunho de que o Senhor se fez pecado por nós (2Co 5, 21), ao revestir-se de nossa natureza pecadora. O símbolo se acomoda ao Senhor como foi dito. De fato, se a serpente é pecado e o Senhor se fez pecado, a conseqüência que se segue será evidente a todos : que quem se fez pecado, se fez serpente, a qual não é outra coisa senão pecado. Se fez serpente por nós para comer e destruir as serpentes dos egípcios produzidas pelos magos. Uma vez feito isto, a serpente se transforma novamente em bastão (Ex 7, 12) com o qual são castigados os que pecam, e são aliviados os que sobem o caminho escarpado da virtude, apoiando-se no bastão da fé por meio das boas esperanças. A fé é, na verdade, a substância das coisas que se esperam (Hb 11, 1). Quem chegou ao entendimento destas coisas é como um deus em relação àqueles que, seduzidos pela ilusão material e sem substância, opõem-se à verdade e julgam coisa vã escutar falar a respeito do ser. Pois disse o Faraó : Quem é ele para que eu escute sua voz? Não conheço o Senhor (Ex 5, 2). O Faraó só julga digno aquilo que é material e carnal, as coisas que caem sob as sensações irracionais. Ao contrário, se alguém tiver sido fortalecido pela iluminação da luz, e tiver recebido tanta força e tanto poder contra os adversários, então, como um atleta convenientemente preparado por seu treinador nos varonis exercícios do esporte, se dispõe, confiante e audaz, para o ataque dos inimigos, tendo na mão aquele bastão, isto é, o ensinamento da fé, com o que há de triunfar sobre as serpentes egípcias. A mulher de Moisés, saída de um povo estrangeiro (Ex 4, 20), o acompanhará. Há algo nada desprezível da cultura pagã para nossa união com ela com a finalidade de gerar a virtude. Com efeito, a filo moral e a filo da natureza podem chegar a ser esposa, amiga e companheira para uma vida mais elevada, com a condição de que os frutos que procedem delas não conservem nada da imundície estrangeira. Pois se esta sujeira não tiver sido circuncidada e cortada ao meio até o ponto em que todo o daninho e impuro haja sido arrancado fora, o anjo que lhes sai ao encontro lhes causará um terror de morte. A mulher o aplaca mostrando-lhe seu filho purificado pela ablação do sinal pelo qual se reconhece o estrangeiro (Ex 4, 24-26). Julgo que a quem esteja iniciado na interpretação da história será patente, por tudo que se disse, a continuidade do progresso na virtude que mostra o discurso seguindo, passo a passo, a conexão dos acontecimentos simbólicos da históriaMoisés chegou então a isto, e agora chega também todo aquele que, seguindo seu exemplo, despoja a si mesmo de sua envoltura terrena e olha para a luz que sai da sarça, isto é, o raio de luz que nos ilumina através da carne cheia de espinhos, que é, como diz o Evangelho, a luz verdadeira (Jo 1, 19) e a verdade (Jo 14, 6). Então este chega a ser capaz de prestar ajuda aos demais no sentido da salvação, de destruir a tirania daquele que domina com artes más, e de encaminhar à liberdade os que estão debaixo da tirania de perversa escravidão. A transformação da mão direita e a mudança do bastão em serpente (Ex 4, 3-7) são o começo dos prodígios. Parece-me que nestes prodígios se dá a entender simbolicamente o mistério da manifestação da Divindade aos homens através da carne do Senhor, graças à qual tem lugar a destruição do tirano e a libertação dos que estão oprimidos por ele. Leva-me a esta interpretação o testemunho profético e evangélico. Pois o profeta diz: Esta é a mudança da destra do Altíssimo (Sal 76, 11), como se a Divindade, considerada imutável, se houvesse mudado conforme nosso aspecto e figura por condescendência para com a debilidade da natureza humana. A mão do Legislador tomou uma cor distinta da que lhe é natural ao ser tirada do peito; voltando novamente ao peito, tornou à beleza que lhe era própria e natural. O Deus Unigênito, o que está no seio do Pai (Jo 1, 18), é a direita do Altíssimo (Sal 76, 11). Quando se manifestou a nós saindo do seio, se transformou conforme nossa forma de ser; depois de haver curado nossa enfermidade, novamente recolheu ao próprio seio, o seio da direita do Pai, a mão que havia estado entre nós e que havia tomado nossa cor. Então não tornou passível o que era de natureza impassível, mas por sua comunicação com o que era impassível transformou em impassibilidade aquilo que era mutável e passível. A transformação do bastão em serpente não há de perturbar os amigos de Cristo como se tivéssemos que harmonizar a palavra do mistério com um animal que lhe é oposto (Ex 4, 3; 7, 10 e Nm 21, 9). A verdade mesma não afasta esta imagem quando diz com a voz do Evangelho: Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do homem (Jo 3, 14). O sentido é claro. Se o pai do pecado foi chamado serpente pela Sagrada Escritura (Gn 3, 1), e o que nasce da serpente é verdadeiramente serpente, segue-se que o pecado tem o mesmo nome daquele que o gerou. Pois bem, a palavra do Apóstolo dá testemunho de que o Senhor se fez pecado por nós (2Co 5, 21), ao revestir-se de nossa natureza pecadora. O símbolo se acomoda ao Senhor como foi dito. De fato, se a serpente é pecado e o Senhor se fez pecado, a conseqüência que se segue será evidente a todos : que quem se fez pecado, se fez serpente, a qual não é outra coisa senão pecado. Se fez serpente por nós para comer e destruir as serpentes dos egípcios produzidas pelos magos. Uma vez feito isto, a serpente se transforma novamente em bastão (Ex 7, 12) com o qual são castigados os que pecam, e são aliviados os que sobem o caminho escarpado da virtude, apoiando-se no bastão da fé por meio das boas esperanças. A fé é, na verdade, a substância das coisas que se esperam (Hb 11, 1). Quem chegou ao entendimento destas coisas é como um deus em relação àqueles que, seduzidos pela ilusão material e sem substância, opõem-se à verdade e julgam coisa vã escutar falar a respeito do ser. Pois disse o Faraó : Quem é ele para que eu escute sua voz? Não conheço o Senhor (Ex 5, 2). O Faraó só julga digno aquilo que é material e carnal, as coisas que caem sob as sensações irracionais. Ao contrário, se alguém tiver sido fortalecido pela iluminação da luz, e tiver recebido tanta força e tanto poder contra os adversários, então, como um atleta convenientemente preparado por seu treinador nos varonis exercícios do esporte, se dispõe, confiante e audaz, para o ataque dos inimigos, tendo na mão aquele bastão, isto é, o ensinamento da fé, com o que há de triunfar sobre as serpentes egípcias. A mulher de Moisés, saída de um povo estrangeiro (Ex 4, 20), o acompanhará. Há algo nada desprezível da cultura pagã para nossa união com ela com a finalidade de gerar a virtude. Com efeito, a filo moral e a filo da natureza podem chegar a ser esposa, amiga e companheira para uma vida mais elevada, com a condição de que os frutos que procedem delas não conservem nada da imundície estrangeira. Pois se esta sujeira não tiver sido circuncidada e cortada ao meio até o ponto em que todo o daninho e impuro haja sido arrancado fora, o anjo que lhes sai ao encontro lhes causará um terror de morte. A mulher o aplaca mostrando-lhe seu filho purificado pela ablação do sinal pelo qual se reconhece o estrangeiro (Ex 4, 24-26). Julgo que a quem esteja iniciado na interpretação da história será patente, por tudo que se disse, a continuidade do progresso na virtude que mostra o discurso seguindo, passo a passo, a conexão dos acontecimentos simbólicos da história.

Capítulo 5

De fato, há algo carnal e incircunciso nos ensinamentos gerados pela filo; quando isto é cortado, o que fica é de pura razão judia. Por exemplo, a filo pagã disse que a alma era imortal. Este é um fruto conforme à piedade. Porem ela ensina também que transmigra de uns corpos a outros, e que passa da natureza racional para a irracional : isto é uma incircuncisão carnal e estrangeira. E assim muitas outras coisas. Diz que existe Deus, porem pensa que é material. Confessa que existe o demiurgo, porem que necessita de uma matéria prévia para fazer o mundo. Concede que é bom e poderoso, porem que obedece em muitas coisas à necessidade do destino. E se alguém se detivesse em cada questão, poderia ver como, na filo pagã, os formosos ensinamentos se encontram maculados com acréscimos absurdos que, se fossem cortados ao meio, o anjo de Deus lhes seria propício, alegrando-se do fruto legítimo destes ensinamentos. Mas temos que voltar à seqüência do texto, de forma que também a nós, que estamos perto da luta com os egípcios, nos saia ao encontro a ajuda fraterna. Recordamos, com efeito, que desde o princípio da vida virtuosa tem lugar para Moisés um encontro hostil e guerreiro : o do egípcio que oprimia o hebreu e o do hebreu que lutava contra seu compatriota (Ex 2, 11-15).

Capítulo 6

Por outro lado, uma vez que por seu grande esforço e pela iluminação que recebeu no cume se elevou à maior das ações da alma, tem lugar um encontro amigável e pacífico, pois Deus moveu seu irmão para que saísse a seu encontro (Ex 4, 27). Se o que acontece na história for interpretado em sentido alegórico, talvez não se encontre nada que seja alheio a nosso propósito. A quem se dedica ao progresso na virtude, assiste uma ajuda dada por Deus a nossa natureza, que é anterior a nós quanto a sua origem, mas que se mostra e se dá a conhecer quando nos dispomos a combates mais fortes, depois de havermos nos familiarizado suficientemente, com cuidado e diligência, com a vida mais elevada. Para não explicar alguns enigmas por meio de outro enigma, exporei mais claramente o sentido desta passagem. Existe uma doutrina que merece credibilidade por pertencer à tradição dos Pais. Diz que, depois da queda de nossa natureza no pecado, Deus não contemplou nossa desgraça indiferentemente, mas que colocou perto, como ajuda para a vida de cada um, um anjo que recebeu uma natureza incorpórea (Mt 18, 10- 11); e que em oposição, o corruptor da natureza maquinou algo parecido, danificando a vida do homem mediante um demônio perverso e malvado. Como conseqüência, o homem se encontra entre esses dois que o acompanham com propósitos contrários, e pode por si mesmo fazer triunfar um ou outro. O bom mostra ao pensamento os bens da virtude como são contemplados em esperança por aqueles que agem retamente; o outro mostra os sujos prazeres nos que não existe nenhuma esperança de bem, pois inclusive o prazer imediato, o que se apreende e se pega, escraviza os sentidos dos tontos. Porem se alguém se afasta dos que induzem ao mal, dirige seus pensamentos ao melhor e volta as costas - por assim dizer - ao vício, põe sua própria alma - que é como um espelho -, frente à esperança dos bens, e assim imprime na pureza da própria alma as imagens e reflexos da virtude que lhe é mostrada por Deus. É então que a companhia do irmão lhe sai ao encontro e o assiste (Ex 4, 27). Pela racionalidade e intelectualidade da alma humana, pode-se, de certo modo, chamar irmão ao anjo. Este, como já dissemos, aparece e socorre quando nos aproximamos do Faraó. Que ninguém pense que a narração da história corresponde tão absolutamente com a ilação desta consideração espiritual, que se encontrar algo do escrito que não concorda com esta interpretação, por este algo que não concorda rechace o todo. Que tenha sempre presente a finalidade de nossas palavras, a qual temos presente ao expor estas coisas. Já adiantamos no prefácio a afirmação de que as vidas dos grandes homens são colocadas como exemplos de virtude para a posteridade.

Capítulo 7

Não é possível que aqueles que desejam imitá-los passem pela mesma materialidade dos feitos. Como, de fato, se poderia encontrar novamente o povo que se multiplicou depois de sua emigração do Egito, e como se poderia encontrar também o tirano que o escravizou comportando-se malvadamente com a descendência masculina e permitindo à descendência mais branda e fraca aumentar até se converter em multidão, e assim todas as outras coisas que aparecem na narração? Uma vez que podemos ver que, na materialidade mesma dos feitos, não é possível imitar os gestos maravilhosos destes bem aventurados, só havemos de transferir de seu acontecer material o ensinamento moral daqueles acontecimentos que assim o admitam, dos que oferecem, para quem se esforça por conseguir a virtude, algum estímulo até este gênero de vida. E se, por força, algum dos fatos que contem a história sai da ordem e da coerência com a interpretação que propusemos, passaremos por alto como algo inútil e sem proveito para nossa finalidade. Desta forma conseguiremos não interromper a exegese relativa à virtude. Digo isto pela interpretação em relação a Aarão, prevendo uma objeção ao que segue. Com efeito, alguém dirá que não repele o fato de que o anjo tenha semelhança com a alma quanto à incorporalidade e à capacidade de entender; que não nega o fato de que sua criação tenha tido lugar antes da nossa, nem que assista aos que lutam contra os adversários; porem que não parece bem entender como imagem sua a Aarão, que conduz os israelitas à idolatria. Antecipando a ordem do relato, responderemos a isto com o que já dissemos: que um episódio estranho não desvirtua a coerência dos demais fatos, e que, se o mesmo nome designa o papel do anjo e do irmão, se acomoda também a cada um segundo significados contrários. Com efeito, não só se diz anjo de Deus, mas também de Satanás (2Co 12, 7), e chamamos irmão não só ao bom, mas também ao mau. A Escritura fala dos bons quando diz : Os irmãos serão úteis na necessidade (Pr 17, 17). E dos perversos quando diz : Todo irmão prepara armadilha (Jr 9, 3). Após dizer isto a margem da ordem do discurso e deixando para seu lugar adequado uma consideração mais profunda destas questões, voltemos aos temas que nos propusemos. Moisés, fortalecido com a luz que o iluminou e tendo recebido seu irmão como companheiro de luta e como ajuda, fala ao povo valentemente sobre a liberdade, recordando-lhes a grandeza pátria, e lhes dá a conhecer como poderão se livrar da fadiga do barro dos ladrilhos (Ex 4, 29-31). Que nos ensina a história com estas coisas? Que não se deve atrever a falar ao povo aquele que não tiver cultivado sua forma de dizer com uma educação adequada para dirigir-se a muitos. Não vês, de fato, como Moisés, quando ainda era jovem, antes de crescer em capacidade, não foi aceito como digno conselheiro de paz por aqueles dois homens que estavam lutando e agora, ao contrário, fala ao mesmo tempo a milhares de pessoas? Podemos dizer que a história grita que não te atrevas a propor um ensinamento ou um conselho aos ouvintes, se antes não tiveres adquirido autoridade nisto mesmo através de muito estudo. Depois de pronunciar Moisés as mais valentes palavras e mostrar o caminho da liberdade excitando nos ouvintes o desejo dela, o inimigo se irrita e aumenta os sofrimentos dos que dão ouvido a estas palavras (Ex 5, 6-14). Tampouco isto é alheio ao que nos interessa agora.

Capítulo 8

Muitos dos que acolheram a palavra que liberta da tirania e se aproximaram da pregação são maltratados agora pelo inimigo com os assaltos das tentações. Muitos destes se fazem mais provados e firmes na fé, temperados pelo ataque dos que os combatem; ao contrário, alguns mais débeis dobram o joelhos diante destes ataques dizendo abertamente que é preferível para eles permanecer surdos à chamada da liberdade que padecer tais dificuldades por causa dela. Isto mesmo ocorreu então devido à pusilanimidade dos israelitas, que acusaram os que os aconselhava o meio de escapar da escravidão. Porem não por isso cessará a palavra de atrair para o bem, ainda que o imaturo, infantil e imperfeito de entendimento, por sua inexperiência, se assuste ante as tentações. Isto é o que o demônio tenta contra os homens: busca ferir e corromper. Que quem está sujeito a ele não olhe para o céu, mas que se incline para a terra e faça ladrilhos com lama dentro de si mesmo. De fato, é patente a todo mundo como o que pertence ao prazer material deriva da terra e da água, quer se olhe para os desejos do ventre e da gula ou quanto se refere à riqueza. A mistura destes elementos é - e se chama justamente - barro. Quantos avidamente se enchem dos prazeres do barro, não conseguem manter cheia sua ampla capacidade para receber prazeres, pois uma vez cheia, de novo se torna vazia para aquilo que flui para dentro. Quem faz ladrilhos sempre coloca de novo outro barro no molde que ficou vazio; parece-me que quem considera o apetite concupiscível da alma, compreenderá facilmente este exemplo. De fato, quem dá satisfação a sua paixão em qualquer das coisas pelas quais lutou, novamente se encontrará vazio com relação àquilo mesmo, se é lançado pela paixão a alguma outra coisa. E ao sentir-se satisfeito por esta coisa, se encontrará de novo vazio e com capacidade de desejar alguma outra coisa. E isto não cessará em absoluto de atuar em nós, até que nos subtraiamos da vida material. A cana e a palha que provem dela e que quem está submetido às ordens do tirano é obrigado a misturar ao ladrilho, interpretamos conforme o Evangelho de Deus e às palavras profundas do Apóstolo: ambos significam igualmente, a palha e a cana, matéria para o fogo (Mt 3, 12 e 1Co 3, 12-13). Quando algum dos que progridem na virtude quer atrair para uma vida livre e plena de sabedoria aqueles que estão escravizados pelo engano, aquele que, como diz o Apóstolo, seduz com ciladas variadas nossas almas (Ef 6, 12), sabe opor os sofismas do engano à lei de Deus. Tendo presente a Escritura, digo isto referindo-me às serpentes do Egito, isto é, às diversas maldades do engano, cuja aniquilação realiza a vara de Moisés (Ex 7, 10-12). Porem isto já está suficientemente considerado. Assim pois, quem possui esta invencível vara da virtude que destrói as varas enganosas, avança por um caminho contínuo até maiores prodígios. A realização dos prodígios não tem lugar com a finalidade de ser admirada pelos que os vêem, mas está dirigida ao aproveitamento dos que se salvam (2Tim 3, 16). Com estes prodígios da virtude, se afasta o que é inimigo e se reconforta o que é da mesma estirpe. Conheçamos, em primeiro lugar, o significado geral destes prodígios; depois talvez nos seja possível adaptar analogicamente este conhecimento a cada um deles em particular.

Capítulo 9

O ensinamento da verdade é acolhido segundo as disposições dos que recebem a palavra. De fato, a palavra mostra a todos o que é bom e o que é mau. Pois bem, quem é dócil àquilo que lhe é mostrado tem a mente na luz, enquanto que quem tem a disposição contrária e não aceita que a alma olhe para a luz da verdade permanece na obscuridade da ignorância. Se a interpretação que demos ao conjunto da passagem não estiver errada, então a interpretação dada a cada um dos detalhes não lhe será totalmente oposta, pois a exegese de cada um deles está compreendida no conjunto. Portanto, não há nada de estranho em que o hebreu permanecesse incólume diante das pragas dos egípcios, embora estivesse vivendo no meio desses estrangeiros, posto que também agora é possível ver que sucede a mesma coisa. De fato, estando divididos os homens nas grandes cidades entre doutrinas contrárias, para uns a água do manancial da fé é potável e límpida, e a conseguem mediante o ensinamento divino, enquanto a água se torna sangue corrompido para aqueles que se converteram em egípcios por causa de suas perversas opiniões (Ex 7, 20). Muitas vezes os sofistas do erro rondam também a água dos hebreus para convertê-la em sangue com a contaminação da mentira, isto é, para mostrar-nos que nossa doutrina não é como é, porem não conseguem corromper totalmente a água, embora a superfície fique avermelhada por causa do erro. Ainda que esteja caluniada pelos inimigos, o hebreu bebe água verdadeira, sem prestar atenção à aparência de erro. O mesmo cabe dizer da espécie de rãs (Ex 8, 1-6), ruidosa e maléfica, que se introduz sub-repticiamente nas casas, habitações e dispensas dos egípcios, sem chegar a tocar a vida dos hebreus: sua vida é anfíbia, seu salto rasteiro; é repugnante não só por seu aspecto como também pelo fedor de sua pele. Os desastrosos frutos da maldade que surgem do coração sujo dos homens como gerados no pântano, são certamente como uma espécie de rãs. Estas rãs habitam as casas de quem se fez egípcio por escolha de seu estilo de vida; se deixam ver às mesas, não abandonam os leitos e se introduzem nas dispensas onde se guardam as coisas. Considera a vida suja e desavergonhada, nascida de um verdadeiro limo pantanoso, que, ao imitá-lo, se assemelha à natureza irracional. Falando com rigor, em seu estilo de vida, não pertence a nenhuma das duas naturezas, pois é homem segundo sua natureza, porem se transformou em besta por sua paixão. Por esta razão mostra em si mesma aquele modo de vida anfíbio e ambíguo. E assim encontrarás nessa vida os sinais desta praga, não só nos leitos, mas também nas mesas, nas dispensas e em toda a casa. Um homem assim deixa, por onde quer que vá, o rastro de sua vida dissoluta, de forma que todos podem distinguir facilmente a vida do homem licencioso da vida do homem puro, inclusive na decoração da casa. De fato, na casa do impuro, sobre o reboco das paredes, encontra-se pinturas feitas com habilidade, que, ao trazer à memória as formas da debilidade, excitam ao prazer sensual e introduzem as paixões na alma através da contemplação de coisas vergonhosas, enquanto que na casa do sábio, pelo contrário, há todo o cuidado e cautela para manter a vista livre de espetáculos obscenos. Do mesmo modo a mesa do sábio se encontra limpa, enquanto que a do que se espoja em uma vida lodosa está suja como as rãs, e transbordante de comidas. E assim se entrasses nas dispensas, isto é, nas coisas ocultas e reservadas de sua vida, encontrarias ali, nas intemperanças, um montão ainda maior de rãs. A história diz que o bastão da virtude fez estas coisas contra os egípcios. Não nos desconcertemos por esta forma de falar. Também diz a história que o tirano foi endurecido por Deus (Ex 9, 12 e Rm 9, 17- 18). Como seria digno de condenação aquele que tivesse sido feito duro e refratário por uma força irresistível vinda do alto? O divino Apóstolo diz a mesma coisa: Posto que não tivessem por bem guardar o verdadeiro conhecimento de Deus, Deus os entregou às paixões vergonhosas (Rm 1, 28 e 26), falando dos pederastas e de quantos se envilecem com as diversas formas vergonhosas e inconfessáveis da vida dissoluta. Porém, embora seja verdade que a divina Escritura se expressa dizendo que Deus entregou às paixões vergonhosas aqueles que se entregaram a elas, nem o Faraó se endureceu por querer divino, nem a vida sórdida, própria das rãs, é causada pela virtude. De fato, se a Divindade tivesse querido isto, tal querer teria tido absolutamente a mesma força sobre todos, de forma que jamais se poderia estabelecer diferença alguma entre virtude e vício. Ao contrário, uns e outros, os que são dirigidos pela virtude e os que caem no vício, vivem de formas diferentes, e ninguém poderá, racionalmente, atribuir a uma fatalidade estabelecida pelo querer divino estas diferenças no modo de viver, que surgem exclusivamente da livre escolha de cada um.

Capítulo 10

Vejamos claramente pelo Apóstolo quem é o entregue à "paixão vergonhosa": quem não quis guardar o verdadeiro conhecimento de Deus (Rm 1, 28). Não significa que Deus o entrega à paixão para castigá-lo por não ter querido conhecê-lo, mas que o não falar reconhecido a Deus se converte para ele em motivo de cair em uma vida sensual e vergonhosa. É como se alguém dissesse que o sol fez cair uma pessoa no buraco porque não o viu. Nós não pensaríamos que o astro, cheio de ira, tenha lançado no buraco quem não o tenha querido ver, senão que esta expressão deve ser entendida corretamente no sentido de que a privação de luz tenha sido a causa da queda no buraco daquele que não o viu. Talvez seja esta a forma correta de entender as palavras do Apóstolo: que os que não tinham o conhecimento de Deus foram entregues às paixões vergonhosas e que o tirano egípcio foi endurecido por Deus, não como se a dureza tivesse sido introduzida no coração do Faraó pelo querer divino, mas sim no sentido de que por livre escolha, por sua inclinação para o mal, não acolheu a palavra que abranda a dureza. Também é assim com o bastão da virtude ao mostrar-se ante os egípcios, faz o hebreu livre da vida das rãs e, ao contrário, mostra o egípcio cheio desta praga. Chega então um momento em que Moisés estende as mãos sobre estes, e produz o desaparecimento das rãs (Ex 8, 9). Podemos ver que isto também acontece agora. De fato, quem conheceu a extensão das mãos do Legislador, - compreendes muito bem o que te diz este símbolo, entendendo como Legislador o verdadeiro Legislador, e pela extensão das mãos Aquele que estendeu suas mãos na cruz-, estes, ainda que até pouco tempo tenham vivido em pensamentos sujos e próprios de rãs, se olham para quem estende suas mãos em seu favor, são libertados dessa companhia perversa, pois a paixão morre e se dissolve. De fato, para os que foram sanados desta enfermidade, depois da morte desses movimentos próprios de répteis, a lembrança das coisas vividas anteriormente parece desagradável e fora de lugar, pois repugna a suas almas por causa da vergonha, conforme diz o Apóstolo a quem, depois de abandonar a maldade, busca a virtude: Que frutos recebestes então das coisas que agora vos envergonham? (Rm 6, 21). Entendemos de forma parecida o fato de que, por obra do bastão, o dia se escureceu aos olhos dos egípcios, enquanto seguia brilhando com o sol para os olhos dos hebreus (Ex 10, 21-22).

Capítulo 11

Aqui se fundamenta especialmente a lógica da interpretação que demos: que não é uma irresistível força do alto que leva um a estar nas trevas e outro na luz, senão que nós homens temos dentro de nós, na nossa natureza e em nossa livre escolha, as causas da luz e da escuridão, convertendo-nos naquilo que queremos. Segundo a história, os olhos dos egípcios não se encontravam nas trevas porque estivesse interposta uma montanha ou uma muralha que obscurecesse a vista ou os raios do sol, mas porque enquanto o sol iluminava todas as coisas com seus raios, os hebreus gozavam da luz, e os egípcios eram insensíveis a este dom. Assim, embora a vida luminosa se apresente igualmente acessível a todos, os que caminham nas trevas são empurrados à obscuridade do mal por suas práticas perversas, enquanto os outros são iluminados pela luz da virtude. Depois de terem sofrido três dias nas trevas, os egípcios também recebem parte na luz. Talvez alguém, apoiando-se nisto, dirija sua interpretação à restauração que, depois destas coisas, esperam o reino dos céus os que estão condenados ao inferno. De fato, estas trevas que se pode apalpar (Ex 10, 21) como diz a história, tem grande afinidade na palavra e no sentido com as trevas exteriores (Mt 8, 12). Dissipam-se uma e outra quando Moisés, como explicamos anteriormente, estende as mãos sobre os que estão nas trevas. Da mesma forma, aquela cinza de forno que, segundo a palavra produzia dolorosas pústulas nos egípcios, poderia ser interpretada, dado o simbolismo do termo forno, como o castigo do fogo do inferno com que se ameaça e que só fere os que vivem à maneira dos egípcios (Ex 9, 8 e Mt 13, 42). Porem se alguém é verdadeiramente israelita e filho de Abraão, e se assemelha a ele em seu estilo de vida a ponto de mostrar por sua opção pertencer à família dos eleitos, este se conserva livre daquela dolorosa cinza. O estender das mãos de Moisés, segundo a interpretação que demos, se converteria, inclusive para os outros, em cura da enfermidade e em afastamento do castigo. E quanto àqueles leves mosquitos que atormentam os egípcios com invisíveis picadas, aos insetos tavões que se cravam dolorosamente nos corpos com suas mordidas, às lavouras destruídas pelos gafanhotos, às tempestades que se precipitam do céu com pedras de granizo, talvez ninguém, se seguiu as explicações das pragas precedentes, encontre dificuldade para ajustar a interpretação correspondente a cada uma destas pragas. Todas estas coisas são causadas primeiramente pela livre decisão egípcia e são executadas pela justiça imparcial de Deus que se acomoda ao que merecem as diversas opções.

 

Capítulo 12

Assim pois, não pensemos, por nos ater à letra da narração, que Deus é a causa dos sofrimentos dos que os mereceram, mas que cada um é autor de suas próprias desditas, ao preparar para si, com uma escolha adequada um cúmulo de dores, como diz o Apóstolo a um homem desta classe: Pela dureza e impenitência de teu coração vais entesourando contra ti ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, o qual dará a cada um segundo suas obras (Rm 2, 5-6). De fato, se por um excesso na comida gera-se nos intestinos um humor bilioso e daninho, e o médico o expulsa provocando o vômito com sua técnica, não se atribui a ele - senão à desordem na comida - a causa de introduzir o humor nocivo nos corpos: a ciência médica só o fez visível. Da mesma forma, quando se diz que provem de Deus a dolorosa retribuição aos que usaram perversamente sua liberdade, é bom reconhecer que estes padecimentos têm sua origem e sua causa em nós. Para quem vive sem pecado não existem as trevas, nem os vermes, nem a geena, nem o fogo (Mc 9, 43), nem nenhum dos temíveis nomes e realidades. A narração diz também que os hebreus não padeceram as pragas dos egípcios. Se pois em um mesmo lugar há mal para um e não para outro, segue-se que a diferença entre um e outro se encontra na diversidade da escolha, e é necessário concluir, portanto, que nenhum mal pode ter consistência fora de nossa livre decisão.

Capítulo 13

Avancemos com a continuação do texto, tendo bem presente o que já explicamos: que o mesmo Moisés ou aquele que a sua imitação se eleva na virtude, depois de haver fortalecido sua alma com uma prolongada vida elevada e reta, e com a iluminação recebida do alto, considera como uma injustiça de sua parte não guiar seus compatriotas a uma vida livre. Moisés saindo a seu encontro infunde-lhes um desejo mais forte de liberdade pondo diante deles a gravidade dos padecimentos. A quando está perto de libertar seu povo do mal, traz a morte a todo primogênito egípcio (Ex 12, 29), indicando-nos deste modo que é necessário destruir o mal em seu primeiro broto, pois do contrário é impossível escapar da vida egípcia. Parece-me importante não deixar passar este pensamento sem refletir sobre ele. Pois se alguém considerar só o sentido literal, como poderá manter uma interpretação digna de Deus nos acontecimentos narrados? É injusto o egípcio e em seu lugar é castigado seu filho recém nascido que por sua tenra idade não pode distinguir entre o bem e o mal. Sua vida é alheia à paixão malvada, pois a infância não dá lugar à paixão, nem estabelece diferença entre a direita e a esquerda; unicamente ergue os olhos ao peito de sua nutriz, para expressar sua dor só dispões de suas lágrimas e, se consegue o que deseja sua natureza, mostra sua alegria com um sorriso. Onde está a justiça, se este cumpre o castigo pela maldade paterna? Onde a piedade? Onde Ezequiel clamando que a alma que peca, esta morrerá e não será responsável o filho, mas o pai (Ez 18, 20)?

Capítulo 14

Como pode a história estabelecer uma lei contrária à razão? Considerando a interpretação espiritual, não será mais razoável crer que isto sucede como figura e que, através do que foi dito, o Legislador quis propor um ensinamento? O ensinamento é este: que quem se empenha na luta da virtude contra o vício deve fazê-lo desaparecer em seus primeiros brotos. De fato, com a destruição dos primeiros brotos, se destrói também o que lhes segue em continuação, como nos ensina o Senhor no Evangelho, ordenando quase com as mesmas palavras destruir os primogênitos dos vícios egípcios; exorta-nos assim a cortar a concupiscência e a ira (Mt 5, 22 e 28), e a não ter medo nem da sujidade do adultério, nem da mancha do homicídio, pois nenhum destes males tem consistência por si mesmo, mas que é a cólera que leva a cabo o homicídio e o desejo é que conduz ao adultério. Precisamente porque aquele que engendra o mal, antes do adultério produziu o desejo e antes do crime produziu a cólera, quem destrói o primogênito destrói totalmente a descendência que segue o primogênito, do mesmo modo que quem golpeou a cabeça da serpente matou com o mesmo golpe o corpo que rasteja atrás. Porem isto não poderia acontecer se previamente não tivessem sido borrifadas as ombreiras das portas com aquele sangue que afugenta o Exterminador (Ex 12, 23). E se queremos captar com maior exatidão o sentido de quanto se diz, a história no-lo insinua através destas coisas: através da morte do primogênito e através da proteção da entrada com o sangue. Ali, com efeito, se destrói o primeiro movimento do mal e aqui mesmo, pelo verdadeiro cordeiro, se afasta a primeira entrada do mal em nós. Pois uma vez que o exterminador esteja dentro, não o expulsaremos com um simples pensamento; vigiemos com a Lei, para que nem se quer comece a entrar em nós. A vigilância e a segurança consistem em sinalizar com o sangue do cordeiro o montante e as ombreiras da entrada (Ex 12, 22). A Escritura nos explica estas coisas da alma com figuras; também a ciência profana as intuiu ao distinguir a alma em seu aspecto racional, concupiscível e irascível. Deles - diz - o irascível e o concupiscível estão abaixo, sustentando cada um a parte racional da alma, e assim a parte racional, tendo subjugadas as outras duas, as governa e, por sua vez, é sustentada por elas: é impulsionada ao valor pelo apetite irascível e é elevada pelo apetite concupiscível à participação no bem. Enquanto a alma se encontra estabilizada nesta disposição, estando segura por pensamentos virtuosos como se fossem cavilhas, dá-se uma cooperação para o bem de todas as faculdades entre si: a parte racional dá segurança por si mesma às partes que lhe estão submetidas e, por sua vez, recebe o mesmo benefício da parte delas. Porem se a ordem for invertida e o que está acima passar par baixo, caindo para a parte em que é pisada, a razão fará subir sobre si as disposições concupiscível e irascível, e então, o exterminador entrará no interior, sem que se oponha a ele nenhum repúdio proveniente do sangue, isto é, sem que a fé em Cristo ajude no combate àqueles que se encontram nestas disposições. Manda borrifar com sangue primeiro o montante, e besuntar depois as ombreiras de um lado e outro. Como poderia alguém untar primeiro o que está acima, se não estivesse em cima? Não estranhes se estes dois episódios - a morte dos primogênitos e a aspersão do sangue - não acontecem igualmente aos israelitas, e não repudies, por causa disto, nossa consideração a respeito da destruição do mal, como se estivesse fora da verdade. Interpretamos a diferença entre os nomes hebreu de egípcio como a diferença entre a virtude e o vício. Se, pois, o sentido espiritual sugere entender o israelita como o bom, não seria coerente que alguém tentasse matar as primícias dos frutos da virtude, mas aquelas cuja destruição é mais útil que sua conservação. Assim pois, coerentemente, aprendemos com Deus que é necessário destruir as primícias da estirpe egípcia, para que seja destroçado o mal, aniquilado com a destruição de seus primeiros brotos. Esta interpretação está de acordo com a história. A proteção dos filhos dos israelitas tem lugar por meio da aspersão do sangue para que o bem chegue à plenitude; por outro lado, aquele que ao amadurecer haveria de constituir o povo egípcio, este é destruído antes que chegue à plenitude no mal. O que segue está de acordo com a interpretação espiritual que propusemos, acomodando-se ao sentido do discurso. Prescreve-se, com efeito, que se converta em nosso alimento o corpo daquele do qual fluiu este sangue que, mostrado nos montantes das portas, afasta o exterminador dos primogênitos dos egípcios. A atitude dos que levam à boca esta comida há de ser sóbria e conforme com pessoas que têm pressa, não como a que se vê naqueles que se divertem em banquetes, cujas mãos estão soltas, as vestes sem cingir, os pés livres de calçados de viagem. Aqui tudo é o oposto. Os pés estão aprisionados nos sapatos, o cinturão cinge as pregas da túnica aos rins e, na mão, o bastão que defende dos cães (Ex 12, 11). E neste atavio, a comida é posta diante deles sem nenhuma preparação complicada, mas elaborada apressadamente sobre o fogo, de forma improvisada. Os convidados a devoram rapidamente, a toda pressa, até que todo o corpo do animal tenha sido consumido. Comem tudo o que é comestível em redor dos ossos, porem não tocam no que está dentro, pois é proibido romper os ossos deste animal. O que sobra de comida é consumido pelo fogo (Ex 12, 9-10 e Nm 9, 12). De tudo isto se depreende com clareza que a Escritura está visando um significado mais elevado, já que a Lei não nos ensina o modo de comer, para estas coisas é suficiente guia a natureza, a qual colocou em nós o apetite, mas através disto quer significar outra coisa. De fato, que tem a ver com a virtude ou o vício a comida ser apresentada de uma forma ou de outra, com a cintura cingida ou sem cingir, descalços os pés ou com os sapatos, tendo o bastão na mão ou o havendo deixado? Resulta claro, ao contrário, o que significa simbolicamente a preparação do aparato de viagem. Convida-nos diretamente a que reconheçamos que na vida presente estamos de passagem, como caminhantes, impelidos desde o nascimento até à morte pela mesma necessidade das coisas. E que é necessário que as mãos, os pés e tudo o demais estejam preparados para esta saída a fim de ter segurança no caminho. Para que não sejamos feridos nos pés desprotegidos e descalços pelos espinhos desta vida, os espinhos poderiam ser os pecados, protejamo-los com a defesa dos sapatos. Isto é a vida casta e austera, que quebra e dobra por si mesma as pontas dos espinhos, e evita que o mal penetre dentro de nós com um começo pequeno e imperceptível. Uma túnica que flutua solta sobre os pés e que se enreda entre as pernas seria um estorvo para quem anda corajosamente por este caminho, segundo Deus. Neste contexto, poderíamos entender a túnica como a relaxação prazenteira nos cuidados desta vida a qual uma mente sábia, convertendo-se em cinturão do caminhante, reduz e aperta. Que o cinturão é a temperança, se atesta pelo lugar ao qual cinge. O bastão que defende das feras é a palavra da esperança, com a qual sustentamos a alma em suas fadigas e afugentamos os que ladram. O alimento para nós preparado no fogo comparo com a fé cálida e ardente que acolhemos sem demora, de que comemos quanto de comestível está à mão do que come, enquanto deixamos de lado, sem buscar e sem espiar curiosamente, a doutrina que está velada em conceitos duros e dificilmente assimiláveis, entregando ao fogo um alimento semelhante. Para explicar os símbolos utilizados em relação a isto, dizemos o seguinte: alguns dos ensinamentos divinos têm um sentido exeqüível; não convém recebê-los preguiçosamente nem de má vontade, mas saciar- nos, como famintos impelidos pelo apetite, dos ensinamentos que estão diante de nós, de forma que o alimento se converta em robustecimento para nossa saúde. Outros ensinamentos são obscuros, como o indagar qual é a substância de Deus, ou o que existia antes da criação, ou o que há alem das aparências, ou que necessidade marca os acontecimentos, e todas as coisas deste estilo que são investigadas pelos curiosos; é necessário deixar que estas coisas só sejam conhecidas pelo Espírito Santo, que penetra as profundidades de Deus, como diz o Apóstolo (1Co 2, 10). Com efeito, ninguém que esteja familiarizado com a Escritura ignora que nela o Espírito freqüentemente é lembrado e é designado como fogo. Somos levados a esta interpretação pela advertência da Sabedoria: Não especules sobre o que te ultrapassa (Eclo 3, 22), isto é, não rompas os ossos do ensinamento, pois não te é necessário o que está escondido (Eclo 3, 23).

Capítulo 15

Assim é que Moisés tira o povo do Egito. Do mesmo modo, todo o que segue as pegadas de Moisés livra da tirania egípcia a todos aqueles a quem chega a palavra. Penso que os que seguem a quem os conduz à virtude não devem ser privados da riqueza egípcia, nem carecer dos tesouros estrangeiros, mas devem levar consigo todas as coisas que pertencem a seus adversários por empréstimo. Isto é o que Moisés manda o povo fazer (Ex 12, 35-36). Que ninguém, tomando isto ao pé da letra, entenda o propósito do Legislador como se ele mandasse despojar os ricos e se convertesse assim em condutor da injustiça. Ninguém que considere atentamente as leis que seguem em continuação proibindo a injustiça contra os que estão perto, tanto aos que estão acima como aos que estão abaixo, diria na verdade que o Legislador tivesse ordenado isto, ainda que a alguns pareça ser justo que, com este subterfúgio os israelitas paguem a si mesmos os salários pelos trabalhos prestados aos egípcios. Com efeito, uma ordem assim não estaria livre da acusação de não estar limpa de mentira e engano. De fato, quem toma uma coisa emprestada, e sendo alheia não a devolve a seu dono, comete injustiça por privá-lo dela; e se esta coisa é sua, ao menos é chamado mentiroso por enganar a quem a tinha com a esperança de tirar proveito. Por esta razão, mais apropriada que a interpretação literal, é a interpretação espiritual que exorta aqueles que buscam uma vida livre através da virtude a abastecer-se com a riqueza estrangeira na qual se glorificam os que são alheios à fé. Assim ocorre com a ética, a física, a geometria, a astronomia, a dialética e todas as demais ciências que são cultivadas por quem não pertence à Igreja. O guia da virtude exorta a tomá-las de quem, no Egito, as possui em abundância, e a usá-las quando forem necessárias a seu tempo, quando seja necessário embelezar o divino templo do mistério com as riquezas da inteligência. Na verdade, aqueles que haviam entesourado para si esta riqueza a apresentaram a Moisés quando trabalhava na construção da tenda do testemunho, prestando cada um sua contribuição para a preparação das coisas santas. Podemos ver que isto também ocorre hoje. Muitos apresentam à Igreja de Deus, como um dom, a cultura pagã. Assim fez o grande Basílio que adquiriu formosamente a riqueza egípcia no tempo de sua juventude, a dedicou a Deus, e embelezou com esta riqueza o verdadeiro tabernáculo da Igreja.

Capítulo 16

Voltemos ao ponto em que estávamos. Aqueles que já avistam a virtude e seguem o Legislador em seu estilo de vida, quando abandonam os limites do domínio dos egípcios, são perseguidos pelos ataques das tentações que provocam ansiedades, medos e perigos em relação ao êxito final. Assustada por estas coisas, a alma dos principiantes na fé cai em completa desesperança em conseguir os bens. Porem, se Moisés ou alguém como ele se encontra à liderança do povo, ao medo se oporá o conselho, reconfortando a alma em seu desfalecimento com a esperança da ajuda divina. Mas isto não ocorrerá se o coração de quem está na liderança não fala com Deus. De fato, a muitos que estão colocados nesta posição só preocupa a maneira como se encontra organizado o que se vê, enquanto que as coisas que estão ocultas, que só são vistas por Deus, lhes produzem um cuidado pequeno. Não foi assim com Moisés. Quando exortava os israelitas a terem confiança, mesmo não pronunciando exteriormente nenhuma palavra dirigida a Deus, o próprio Deus testemunha que gritou (Ex 14, 13-15), ensinando-nos a Escritura - penso - que a voz que é sonora e sobe aos ouvidos divinos não é o clamor que tem lugar com vozes, mas o pensamento interior que sobe de uma consciência pura. A quem se encontra nesta situação, parece pequeno o irmão como ajuda para as maiores batalhas, refiro-me àquele irmão que saiu ao encontro de Moisés quando, conforme o mandado de Deus, se dirigia aos egípcios, e a quem nosso discurso apresentou em seu ministério de anjo (Ex 4, 27). Agora tem lugar a manifestação do Ser transcendente, que se mostra de modo que possa ser captado por quem o recebe. Conhecemos pela história que isto aconteceu então e sabemos pela interpretação espiritual que isto ocorre sempre. De fato, cada vez que alguém foge do egípcio e, ao chegar fora de seus territórios, se assusta ante os ataques das tentações, e quando o inimigo rodeando com suas forças o perseguido só lhe deixa disponível o mar, o guia, isto é, a nuvem, lhe mostra a salvação imprevista que vem de cima. Até ali, ao mar, o conduz o guia, quer dizer, a nuvem (Ex 13, 21). Os que nos precederam interpretaram este nome dado ao guia como a graça do Espírito Santo que conduz ao bem os que são dignos. O que a segue atravessa a água, enquanto o guia lhe abre nela uma passagem estreita através da qual se realiza um caminhar seguro até a liberdade, onde desaparece debaixo da água aquele que o perseguia para escravizar. Quem ouve isto, talvez reconheça o mistério da água a que alguém desce junto com todo o exército do inimigo e da qual emerge só, depois de se afogar na água o exército inimigo (Ex 14, 26-30). Pois quem desconhece que o exército egípcio significa as diversas paixões da alma às quais se escraviza o homem? Isto são os cavalos, isto são os carros e os que estão montados neles; isto são os arqueiros, e os infantes e o resto do exército dos inimigos (Ex 14, 9). De fato, em que se diria que os movimentos de cólera ou os impulsos ao prazer, à tristeza e à avareza diferem do exército que acabamos de mencionar? A afronta é pedra lançada pela funda, e o ataque de cólera é lança que agita sua ponta, enquanto que os cavalos que puxam os carros com impulso irrefreável podem ser entendidos como o afã de prazeres. Nos três homens montados no carro - a quem a história chama tristates (Ex 14, 7) -, e que são levados por ele, reconhecerás, instruído pelo simbolismo do montante e das ombreiras das portas, a tríplice divisão da alma, pensando no racional, no concupiscível e no irascível.

Capítulo 17

Todas estas coisas e quantas lhes são afins, precipitam-se na água perseguindo os israelitas junto com o promotor do perverso ataque. Porem a água, posto que o bastão da fé e a nuvem luminosa usam como guia, se converte em fonte de vida para os que se refugiam nela e em destruição dos perseguidores. A história nos ensina através disto, como convém que sejam os que atravessam a água. Quando alguém emerge da água não deve conservar consigo nada do exército inimigo. Se o inimigo emergisse juntamente com ele, este permaneceria em escravidão ainda depois da água, ao haver feito emergir vivo consigo o tirano, ao que não afogou no abismo. Isto quer dizer, se explicarmos abertamente o simbolismo aproximando-o de um significado mais claro, que é necessário que quantos, no batismo, passam através da água sacramental, façam morrer na água todo o exército do vício: a avareza, o desejo impuro, o espírito de rapina, a tendência à soberba e à prepotência, o impulso à violência, a ira, o rancor, a inveja, os ciúmes e todas essas coisas. Posto que, de alguma forma, as paixões seguem a natureza humana, devemos afogar na água inclusive os maus movimentos da alma e suas seqüelas. No mistério da Páscoa, este é o nome da vítima cujo sangue preserva da morte quem se vale dela, sucede o mesmo. Recomenda-se que coma pão ázimo na Páscoa. Ázimo é o que não está misturado com o fermento do dia anterior (Ex 13, 6 e 1Co 5, 7-8). Através disto a Lei nos dá a entender que não se deve misturar nenhum resíduo de maldade com a vida nova, mas que comecemos a vida nova com um começo novo, rompendo a cadeia dos pecados com a conversão ao bem. Por esta razão quer que afoguemos no batismo salvador - como no batismo do mar - toda pessoa egípcia, isto é, toda forma de maldade, e que devemos emergir sós, sem arrastar conosco em nossa vida nenhum estrangeiro. Isto é o que aprendemos com a história quando diz que na mesma água se distingue o inimigo e o amigo com a morte e com a vida: o inimigo é destruído, o amigo é vivificado (Ex 14, 27-30). Muitos dos que receberam o sacramento do batismo, por desconhecimento dos preceitos da lei, misturaram a levedura do vício, já abandonada, à vida nova, e, depois de ter atravessado a água, em sua forma de viver levam consigo, vivo, o exército egípcio. Com efeito, quem antes do dom do batismo se havia enriquecido com a injustiça ou a rapina, ou adquiriu alguma terra com perjúrio, ou coabitava com uma mulher em adultério, ou qualquer das demais coisas proibidas, pensa que mesmo que depois do batismo continue a gozar das coisas que adquiriu perversamente, permanece livre da escravidão dos pecados, sem perceber que se encontra escravizado por perversos senhores. Pois a luxuria é um dano cruel e furioso, que atormenta a alma submetida a sua escravidão com os prazeres como se fossem látegos. Um tirano semelhante é a avareza, que não permite nenhum descanso a seu escravo, senão que por muito que trabalhe obedecendo as ordens de seu dono e ganhando para ele o que ambiciona, sempre o incita a mais. E todas as outras coisas que se fazem impulsionados pela maldade constituem uma serie de tiranos e donos. Se alguém lhes obedece, ainda que haja passado através da água, apesar disso - é meu parecer -, não tocou na água sacramental cuja obra é a destruição dos perversos tiranos.

Capítulo 18

Voltemos à continuação do relato. Quem atravessou o mar que já nos é conhecido, e viu em si mesmo perecer o egípcio, não só olha para Moisés como guia da virtude, como, sobre tudo, crê em Deus como diz o texto da história (Ex 14, 17). Confia também em Moisés, seu servidor. Vemos que também hoje sucede isto com quem verdadeiramente atravessou a água: estes se entregaram a Deus e, como diz o Apóstolo, confiam nos que em razão do sacerdócio cuidam das coisas divinas, e lhes obedecem (Hb 13, 17). Depois da passagem do mar, segue-se uma marcha de três jornadas (Ex 15, 22) durante a qual, acampados em um lugar, acharam água que, a principio, não parecia potável por causa de seu amargor; porem o bastão, sendo arrojado na água, converteu o líquido em potável para os que estavam sedentos (Ex 15, 23- 25). A narração está conforme com o que agora também sucede. A principio, a vida afastada dos prazeres parece desagradável e insossa a quem abandonou os prazeres egípcios que o escravizavam antes de atravessar o mar. Porém se o madeiro, isto é, o mistério da ressurreição, que teve começo por meio do madeiro, é arrojado à água, - ao ouvir madeiro entenderás evidentemente a cruz-, então a vida virtuosa, adoçada com a esperança dos bens futuros, se converte em mais doce e agradável que toda doçura que acaricia os sentidos com o prazer. A etapa seguinte da marcha, amenizada com palmeiras e fontes, repara o cansaço dos caminhantes. São doze as fontes de água, de corrente limpa e gratífica; setenta as palmeiras, grandes e frondosas, pois o tempo havia feito crescer as árvores (Ex 15, 27). Que encontramos nestas coisas, ao seguir o fio da narração? Que o mistério do madeiro, pelo qual a água da virtude se torna potável para os que têm sede, nos atrai com doze fontes e setenta palmeiras, isto é, com o ensinamento do Evangelho. Nele, as fontes são os doze Apóstolos que o Senhor escolheu para esta graça, fazendo brotar a palavra através deles como fontes, de forma que um dos profetas anunciou assim a graça que mana deles: Bendizei a Deus, o Senhor, nas assembléias, os das fontes de Israel (Sal 67, 27). As setenta palmeiras poderiam ser os apóstolos que, alem dos doze discípulos, receberam a imposição das mãos por toda terra e que numericamente são tantos como a história diz que eram as palmeiras.

Capítulo 19

Penso que seja conveniente apressar a marcha do discurso, pois com as poucas coisas que já consideramos facilitamos aos amantes do esforço a reflexão sobre as etapas restantes. Estas etapas podem significar as virtudes; quem avança ordenadamente seguindo a coluna de nuvem, acampa e descansa nelas. Passando por alto as etapas intermediárias, recordarei em meu discurso o prodígio da rocha, cuja natureza dura e sólida se converteu em bebida para os que tinham sede, dissolvendo-se sua dureza na brandura da água (Ex 17, 6 e Sal 77, 15 e 1Co 10, 4). Não há nenhuma dificuldade em adaptar a continuação do relato à consideração espiritual. Aquele que abandonou na água o egípcio morto, e foi adoçado com o lenho, e gozou das fontes apostólicas repousando à sombra das palmeiras, esse também já se fez capaz de receber a Deus. Pois a pedra, como diz o Apóstolo, é Cristo, seca e resistente para os que não crêem; porem se alguém aproxima o bastão da fé, se converte em bebida para os sedentos e flui dentro de quem a recebe. Pois diz: Eu e meu Pai viremos e faremos nele morada (Jo 14, 23). Tampouco devemos deixar de considerar isto: depois de atravessar o mar e ter sido adoçada a água para os caminhantes da virtude; depois daquele delicioso acampamento junto às fontes e às palmeiras, e depois de beber da pedra se ter esgotado totalmente as provisões trazidas do Egito, caiu do alto sobre eles um alimento simples e ao mesmo tempo variado. De fato, seu aspecto era simples, porem sua qualidade era variada, acomodando-se convenientemente a cada um segundo a natureza de seu desejo (Ex 16, 2-16). Que aprendemos com isto? Aprendemos com que purificação convém que cada um se limpe da vida egípcia e estrangeira até o ponto de esvaziar totalmente o odre da própria alma de todo o alimento impuro preparado pelos egípcios, e receber assim, com alma limpa, em um só, o alimento que vem do alto: um alimento que não se fez brotar para nós de uma semente mediante seu cultivo, senão que é um pão preparado, sem semente e sem cultivo, que, descendo do céu, aparece sobre a terra. Pelo simbolismo da narração sabes perfeitamente qual é este alimento verdadeiro. O pão que desce do céu (Jo 6, 51 e 6, 31) não é uma coisa sem corpo. Pois como poderia uma coisa incorpórea converter-se em alimento para o corpo? O que não é incorpóreo, evidentemente, é corpóreo. Pois bem, o corpo deste pão não foi produzido pela terra, nem pela semente, mas a terra, permanecendo tal qual é, se encontra cheia deste divino alimento que recebem os que têm fome, havendo conhecido previamente o mistério da Virgem através deste prodígio. Este pão, não produzido pelo cultivo da terra, é também a palavra que, graças à diversidade de suas qualidades, adapta sua força às capacidades dos que comem (Sb 15, 21).

Capítulo 20

Na verdade, não só tem sabor de pão, como se converte também em leite e em carne e em legumes e em tudo aquilo que se adapte e seja apetecível para quem o recebe, como ensina o divino apóstolo Paulo, que preparou aos seus uma mesa assim, convertendo a palavra em comida sólida e de carne para os mais perfeitos, em legumes para os mais frágeis, e em leite para as crianças (Rm 14, 2 e 1Co 3, 2 e Hb 5, 12). As maravilhas que nos mostra a história em torno daquele alimento são ensinamentos para a vida virtuosa. Pois diz que a todos se oferecia uma participação igual no alimento, e que a diferença de forças em quem o recolhia não implicava em excesso ou em falta do necessário. Isto, a meu ver, é um conselho oferecido a todos: que quem procura as coisas materiais necessárias para viver não ultrapasse os limites da necessidade, mas que saiba bem que, para todos, a medida natural do alimento é a satisfação da necessidade diária. Ainda que se preparem muito mais coisas que o necessário, o estômago não tem uma natureza capaz de ultrapassar suas próprias medidas, nem de se dilatar conforme a abundância do preparado, mas que, como diz a história, nem o que colhia mais tinha de sobra, não tinha, de fato, onde guardar a sobra, nem o que colhia pouco estava desprovido, pois a necessidade se reduzia acomodando-se ao encontrado. Enquanto para os que guardavam o supérfluo, o excesso se convertia em viveiro de vermes. Com isto a Escritura indica de algum modo aos avarentos que todo o supérfluo amontoado pela paixão da avareza, no dia seguinte, isto é, na vida futura, se converterá em vermes para quem o reuniu. Ao ouvir isto, sabes perfeitamente que com este verme se designa o verme que não tem fim, gerado pela avareza. O fato de que o guardado só se conserve livre da corrupção no sábado introduz um conselho: que existe um tempo em que convém utilizar o trabalho de possuir aquelas coisas que, entesouradas, não se corrompem; elas nos serão proveitosas quando, havendo concluído esta vida de preparação, depois da morte, nos encontremos no descanso. Não é por acaso que o dia anterior ao sábado é chamado - e é realmente - parasceve, dia de preparação para o sábado.

Capítulo 21

Este dia é esta vida na qual nos preparamos as coisas da vida futura. Nela, nenhum dos trabalhos que realizamos agora é factível: nem a agricultura, nem o comércio, nem a milícia, nem nenhum outro trabalho no qual agora nos afanamos, senão que vivendo em um total repouso destes trabalhos, recolheremos os frutos das sementes que tivermos semeado durante esta vida. Frutos incorruptíveis, se eram boas as sementes desta vida; corruptíveis e funestos, se assim no-las houver produzido a lavoura da vida. O que semeia para o espírito - diz - do espírito recolherá vida eterna; o que semeia para a carne, da carne recolherá corrupção (Ga 6, 8). Por esta razão, a Lei chama parasceve com propriedade e só considera como tal a preparação para melhor, desde que o que ela entesoura é incorrupção; seu oposto não é parasceve e nem recebe este nome. Com efeito, ninguém chamaria com propriedade preparação à privação do bem, senão falta de preparação. Por esta razão, a história prescreve aos homens só a preparação endereçada ao melhor, dando a entender com seu silêncio aos discretos, em que consiste o contrário. Da mesma forma que nos alistamentos militares, o chefe da expedição entrega primeiro as provisões e depois dá o sinal de guerra, assim também os soldados da virtude, depois de haverem recebido a provisão mística, marcham para a guerra contra os estrangeiros, dirigindo a batalha Josué, sucessor de Moisés. Vês com que coerência prossegue a narração? Enquanto o homem está muito debilitado, maltratado pela perversa tirania, não afasta por si mesmo o inimigo. Tampouco pode. Outro é que se faz companheiro de combate dos fracos, o que fere o inimigo com sucessivos golpes. Porem, uma vez que tenha sido libertado da escravidão dos opressores, e tenha sido adoçado com o lenho, e tenha descansado da fadiga no acampamento das palmeiras, e tenha reconhecido o mistério da pedra, e tenha participado do alimento do céu, então não afasta o inimigo pelas mãos de outro, mas como quem abandonou o tempo da infância e alcançou a altura da juventude, ele mesmo luta corpo a corpo contra os adversários, sem ter já como general Moisés, o servo de Deus, mas o próprio Deus do qual é servo Moisés (Dt 34, 5 e Ex 14, 31). Com efeito, a Lei, dada como sombra e figura dos bens que estavam por vir (Hb 8, 5), é inadequada para as verdadeiras batalhas. Aquele que é a plenitude da Lei e sucessor de Moisés, que foi prenunciado na igualdade de nome de quem então mandava, esse dirige agora a batalha. O povo, quando vê levantadas as mãos do Legislador, avantaja-se sobre o inimigo no combate; se as vê caídas, cede (Ex 8, 5). Ter Moisés as mãos elevadas significa a contemplação da Lei através do sentido espiritual; o deixá-las cair para a terra, a pobre exegese presa ao solo, e a observação da Lei segundo a letra. O sacerdote sustenta as mãos de Moisés que se tornaram pesadas, ajudado neste trabalho por um membro da família. Nem mesmo isto é alheio à coerência das coisas que estamos contemplando. De fato, o sacerdote verdadeiro, graças à palavra de Deus que está unida a ele, conduz novamente para o alto as energias da Lei, caídas à terra pelo peso da interpretação judia, e apóia na pedra - como em um fundamento -, a Lei que cai, de forma que esta, como sugere a figura formada pelas mãos estendidas, mostra a quem as vê qual é seu sentido. Efetivamente, para aqueles que sabem ver, o mistério da cruz aparece constantemente na Lei. Por esta razão diz o Evangelho em algum lugar que não passará um jota ou um til da lei (Mt 5, 18), significando com isto o traço horizontal e o acento perpendicular com que se desenha a figura da cruz. Essa mesma cruz, mostrada então em Moisés - que é figura da Lei -, se erguia como bandeira e causa de vitória para os que a olhavam.

Capítulo 22

A narração conduz nossa consideração, uma vez mais, ao mais alto da virtude em uma contínua subida. Aquele que foi fortalecido pelo alimento, e mostrou sua força na luta corpo a corpo com os inimigos, e venceu seus oponentes, é levado agora àquele inefável conhecimento de Deus, àquela teognosia. A narração nos ensina com isto, quais e quantas coisas é necessário ter chegado a bom termo na vida para nos atrevermos a nos aproximar, com o pensamento, da montanha da teognosia, suportar o fragor das trombetas, penetrar nas trevas onde está Deus, gravar nas tábuas os divinos mandamentos e se, por causa do pecado, se quebrarem aquelas tábuas, apresentar de novo a Deus as tábuas polidas a mão, para que os caracteres que foram destruídos nas primeiras sejam desenhados novamente pelo dedo divino. Talvez seja melhor adaptar nosso conhecimento à interpretação espiritual, seguindo passo a passo a ordem da narração. Quem segue Moisés e a nuvem, pois ambos servem de guia aos que avançam na virtude, Moisés representaria aqui os preceitos da Lei, e a nuvem a interpretação espiritual da Lei que nos serve de guia, quem com mente purificada na passagem da água depois de haver matado e apartado de si o que era estrangeiro experimentou a água de Mara, isto é, a água da vida afastada dos prazeres, a qual primeiro parece amarga e sem sabor aos que a experimentam, porem regala com uma sensação doce a quem aceitou o lenho; quem depois disto se deleitou com a beleza das palmeiras e das fontes evangélicas e da água viva (Jo 4, 11) que é a pedra; quem foi saciado recebendo em si mesmo o pão do céu (Jo 6, 32) e lutou valentemente contra os estrangeiros, cuja vitória foi causada pelas mãos levantadas do Legislador que prefiguram o mistério da cruz, este é levado à contemplação da natureza que tudo transcende. O caminho que o conduz a este conhecimento é a limpeza, não só do corpo, purificado com algumas aspersões, mas também a das vestes, lavadas de toda mancha com água. Isto significa que é necessário que quem está a ponto de ascender à contemplação dos seres esteja completamente limpo, de forma que seja puro e sem mancha na alma e no corpo, havendo lavado as manchas igualmente de uma e de outro. Assim apareceremos puros a quem vê o secreto (Mt 6, 4) e o decoro exterior estará de acordo com a disposição interna da alma. Por ordem de Deus, as vestes são lavadas antes de subir a montanha (Ex 19, 10), indicando-nos com o simbolismo das vestimentas o decoro exterior da vida. Com efeito, ninguém diria que uma mancha exterior do vestido se converte em obstáculo para a subida de quem se aproxima de Deus, a menos que com vestido se aluda convenientemente - penso - ao exterior das ocupações desta vida. Feito isto, e havendo afastado da montanha o mais possível o rebanho dos irracionais, Moisés empreende a ascensão aos mais altos conhecimentos (Ex 19, 13). O não ter permitido a nenhum ser irracional aparecer na montanha significa, a meu ver, que na contemplação das realidades espirituais se transcende o conhecimento que provem da sensibilidade. De fato, é próprio dos seres irracionais deixar-se guiar pelos sentidos sem refletir. O sentido da visão é o guia dos sentidos; muitas vezes o ouvido desperta o impulso para alguma coisa. Todas as coisas através das quais se ativa a sensibilidade, têm um amplo espaço nos irracionais. Ao contrário, a contemplação de Deus não tem lugar nem no âmbito do que se vê, nem no âmbito do que se ouve. Não se prende e nenhum dos conceitos habituais. Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu. Não consiste em nenhuma das coisas que ordinariamente sobem até o coração do homem (1Co 2, 9). Quem tenta ascender ao conhecimento das coisas do alto, deve limpar previamente seus costumes de todo impulso sensível e irracional, purificar qualquer opinião proveniente de um preconceito anterior ao pensamento, e afastar-se da relação ordinária com a própria companheira, isto é, com a sensibilidade que, de certa forma, está unida a nossa natureza como esposa e companheira. E purificado dela, enfrentar assim a montanha.

Capítulo 23

A montanha verdadeiramente escarpada e de difícil acesso designa o conhecimento de Deus: a teologia. A turba apenas alcança chegar trabalhosamente até sua base. Porem, se se trata de algum Moisés, talvez suba um grande trecho, suportando no ouvido o fragor das trombetas que, como diz o texto da narração, se faz mais forte quanto mais se avança (Ex 19, 19). Efetivamente, a pregação em torno da natureza divina é trombeta que golpeia o ouvido; parece já forte no começo, se faz maior e mais forte para o ouvido nas etapas finais. A Lei e os profetas proclamaram o mistério divino da Encarnação, porem as primeiras vozes eram muito débeis para alcançar os ouvidos dos indóceis. Por esta razão, a dureza de ouvidos dos judeus não percebeu o som das trombetas. Ao avançar, as trombetas, como diz o relato, se fazem mais fortes. Os últimos sons, emitidos através das pregações evangélicas, golpeiam os ouvidos pois, através destes instrumentos, o Espírito ressoou com maior clareza para aqueles que vieram depois, e produziram um ruído mais vigoroso. Os instrumentos que clamam no Espírito são os profetas e os apóstolos. Como diz a salmodia, seu clamor chegou a toda a terra e suas palavras aos confins do mundo (Sal 18, 5). Que a multidão não tenha podido suportar a voz que vinha do alto e tenha encarregado Moisés de conhecer por si mesmo os mistérios ocultos e comunicar ao povo a doutrina que houvesse aprendido através do ensinamento divino (Ex 19, 23-24), também isto está entre as coisas praticadas na Igreja: nem todos se lançam à compreensão dos mistérios mas elegem entre eles quem possa perceber as coisas divinas, prestam-lhe ouvidos confiantemente e tomam como digno de fé tudo quanto ouçam aqueles que tiverem sido iniciados nos mistérios divinos. Não todos - diz - são apóstolos, nem todos profetas (1Co 12, 29). Isto não está sendo observado muito hoje nas igrejas. Muitos que têm necessidade de se purificar de ações passadas, sem lavar-se e ainda com manchas em torno de suas vidas, colocando ante si mesmos a irracionalidade do sensível, cometem a ousadia de tentar a divina ascensão. Daí serem apedrejados por seus próprios raciocínios. Com efeito, as opiniões heréticas são realmente pedras que matam o próprio inventor de doutrinas perversas. Que significa o fato de Moisés penetrar as trevas e nelas ver Deus? O que se narra aqui parece contrário à primeira teofania (Ex 20, 21). Pois então a divindade foi vista na luz; agora, nas trevas. Não pensemos que isto destoa quanto à coerência com o que consideramos em nossa interpretação espiritual. Através disto, o texto nos ensina que o conhecimento da piedade, no começo, se faz luz em quem o recebe. De fato, concebemos como trevas o contrário da piedade, e o afastamento das trevas é produzido pela participação na luz. Mas a seguir a mente, avançando na compreensão do conhecimento dos seres mediante uma atenção sempre maior e mais perfeita, quanto mais avança na contemplação, tanto mais percebe que a natureza divina é invisível. Em conseqüência, abandonando tudo o que é visível, não só tudo o que está no campo da sensibilidade, mas também tudo quanto a inteligência parece ver, marcha sempre para o que está mais oculto, até penetrar, com o trabalho intenso da inteligência, no invisível e incompreensível, e ali vê Deus. Nisto consiste o verdadeiro conhecimento do que buscamos, em ver no não ver, pois o que buscamos transcende todo o conhecimento, totalmente circundado pela incompreensibilidade como por trevas. Por esta razão disse o elevado João que esteve nas trevas luminosas: A Deus nunca ninguém viu (Jo 1, 18), definindo com esta negação que o conhecimento da essência divina é inacessível não só aos homens, senão também a toda natureza intelectual.

Capítulo 24

Assim pois, quando Moisés cresce em conhecimento, confessa que vê Deus nas trevas, isto é, que agora sabe que a Divindade, por sua própria natureza, é algo que supera todo conhecimento e toda compreensão. Moisés - disse - entrou nas trevas, onde estava Deus (Ex 20, 21). Que Deus? Aquele que fez das trevas seu esconderijo (Sal 17, 12), como disse Davi, o qual foi iniciado nos mistérios secretos no mesmo santuário. Chegando ali, Moisés recebe de novo por meio da palavra os mandamentos que recebeu por meio das trevas, para que - assim creio -, nos confirmasse os ensinamentos sobre estas coisas com o testemunho da palavra divina. Pois em primeiro lugar, a palavra divina proíbe que os homens comparem a Divindade com alguma das coisas conhecidas, porque todo conceito, elaborado pelo entendimento com uma imagem sensível para conhecer e alcançar a natureza divina, dá uma imagem falsa de Deus, e não dá a conhecer o próprio Deus. A virtude da piedade tem dois aspectos: o que concerne a Deus e o que concerne à retidão dos costumes, pois a pureza de vida é uma parte da piedade. Moisés, ao aprender em primeiro lugar o que é necessário saber a respeito de Deus, que conhecê-lo consiste em não formar nenhuma idéia dEle a partir das coisas conhecidas segundo a forma humana de conhecer, entende também a outra face da virtude, ao aprender com que modo de viver se conduz retamente a vida virtuosa. Depois disto Moisés chega à tenda não feita por mão de homem. Quem o seguirá em seu caminhar através destas realidades e em seu elevar-se a tal altura com a mente, a ele, que subindo mais e mais, se eleva constantemente acima de si mesmo em ascensão às coisas mais altas? Primeiro abandonou a base da montanha, separando-se daqueles que careciam de forças para a ascensão. Depois, tendo chegado ao alto da subida, agüenta nos ouvidos o fragor das trombetas. Depois destas coisas, penetra no santuário secreto da teognose. Porem tampouco aqui permanece quieto, mas ascende até a tenda não feita por mão de homem (Hb 9, 11). Pois quem se elevou com tais ascensões encontra aqui o término. Parece-me que a trombeta celeste, interpretada de outra forma, se converte, para quem a ouve, em guia do caminhar até o que não está feito por mão de homem. Pois a harmonia das maravilhas existentes no céu grita a sabedoria divina que resplandece no universo e proclama por meio das coisas visíveis a grande glória de Deus, conforme o que foi dito: os céus proclamam a glória de Deus (Sal 18, 2). Esta, com a claridade e sonoridade de seu ensinamento, se converte em trombeta de grande voz, como disse um dos profetas: o céu fez soar a trombeta no alto (Eclo 45, 20). Quem purificou o ouvido do coração e o tornou sensível, depois de acolher este som - refiro-me ao que se origina da contemplação dos seres e que leva ao conhecimento do poder divino -, é guiado por ele até penetrar com o pensamento ali onde está Deus. Isto é chamado trevas pela Escritura, para indicar, como dissemos, o incognoscível e o invisível; tendo chegado ali vê aquela tenda não feita por mão de homem e mediante uma imitação material a dá a conhecer aos que estão abaixo.

Capítulo 25

Como era, pois, aquela tenda não feita por mão de homem, que foi mostrada a Moisés no alto da montanha, recebendo ordem de tomá-la como modelo para dar a conhecer, através de uma obra feita a mão, a maravilha não feita por mão de homem? Olha - disse - farás todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado na montanha (Ex 25, 40). Colunas de ouro apoiadas em bases de prata e adornadas também com capitéis de prata. Depois outras colunas cujos capitéis e cujas bases eram de bronze e o corpo do meio de prata. Todas tinham um suporte de madeira incorruptível e em toda sua volta se espalhava o resplendor próprio destes materiais de construção. Havia também uma arca de ouro puríssimo, que resplandecia do mesmo modo; o apoio do revestimento de ouro era também de madeira incorruptível. Alem disso um candelabro: único em sua base, mas dividido no alto em sete braços e sustentando em seus braços igual número de lâmpadas. Ouro era a matéria do candelabro, e seu interior não era oco, nem estava chapeado na madeira. Alem destas coisas, o altar, o expiatório e os querubins cujas asas davam sombra à arca (Hb 9, 5). Todas estas coisas eram de ouro; o ouro não só dava o brilho de ouro à superfície, mas era ouro maciço que estava inclusive no interior dos objetos. Havia ainda tapetes de diversas cores, tecidos com arte, com flores diversas abrindo-se entrelaçadas entre si como adorno do tecido. Com estes tapetes se separava o que, na tenda, era visível e acessível para alguns ministros sagrados, e o que estava vedado e era inacessível. O nome da parte anterior era o Santo, e o da parte secreta Santo dos Santos (Ex 26, 33). Enfim havia pias, incensários, a cobertura exterior das tendas, e tecidos de crinas e peles tingidas de vermelho; e todas as outras coisas que Moisés expôs com palavras (Ex 30, 18). Quem poderia compreendê-las com exatidão? Que realidades não feitas por mão de homem estas coisas imitam? Que proveito recebem os que vêem a imitação material daquelas coisas que foram contempladas ali por Moisés? Parece-me oportuno deixar a interpretação exata destas coisas a quem tem o poder de investigar as profundezas de Deus por meio do Espírito (1Co 2, 10), se há alguém que possa manifestar os mistérios no Espírito, como diz o Apóstolo (1Co 14, 2). De nossa parte, propomos hipoteticamente nossa interpretação destes assuntos, e a submetemos ao bom sentido de quem a ouça, deixando sua aceitação ou seu repúdio ao parecer de quem a examine.

 

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