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São João Crisóstomo

(345-407), Arcebispo de Antioquia depois de Constantinopla

Antologia

 
 
1.

«Regozijai-vos; permanecei na alegria porque a vossa recompensa será grande» - Homilia sobre a Segunda carta aos Coríntios

2.

«Caindo de joelhos, prostraram-se diante d'Ele»  - Homilias sobre S. Mateus

3.

«Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja» - Homilia sobre São Pedro e Santo Elias

4.

«O poder de uma oração perseverante» - Homilias sobre S. Mateus

5.

«A morte de João Baptista» - Homilias sobre S. Mateus, nº 48

6.

«Aquele que der a beber, nem que seja um simples copo de água fresca, […] não ficará sem a sua recompensa.» - Homilia 45 sobre os Actos dos Apóstolos

7.

«Estai preparados» - Homilia 77 sobre S. Mateus

8.

«Que devo fazer para alcançar a vida eterna?» - Homilia 63 sobre S. Mateus

9.

«A tristeza que gera a alegria» - Homilia 79 sobre São João

10.

«Entra na alegria do teu Mestre» (Mt 25,23)

11.

«O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne, pela vida do mundo» - Homilias sobre a 1ª Carta aos Coríntios, nº 24

12.

«Colocaram uma inscrição por sobre a sua cabeça: 'Este é o Rei'» - Homilia sobre a Cruz e o bom ladrão, 1, 3-4

13.

«Agir como Abraão» - 36ª homilia sobre o Génesis

14.

«Jesus poisou sobre ele o olhar e disse: ‘Chamar-te-ás Cefas, que quer dizer Pedro'» - Homilia n° 19 sobre São João

15.

«Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores» (Mt 6,12) - Homilias sobre S. Mateus, nº 61

16.

«Não vos esqueçais da hospitalidade» - Homilia sobre Lázaro

17.

«Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» - Comentário sobre S. João

18.

«Adorar o Corpo de Cristo» - Homilias sobre a 1ª carta aos Coríntios

19.

«Quem vos recebe, a mim recebe» - Homilias sobre os Actos dos apóstolos

20.

«Beber do cálice para se sentar à direita» - Homilias sobre Mateus, nº 65

21.

«Cairam em terra boa e deram fruto» - Homilias sobre Mateus, 44

22.

«Tem paciência para comigo» - Homilias sobre S. Mateus, nº 61

23.

«Logo que entrares no teu Reino» - Homilia 1 sobre a Cruz e o Ladrão

24.

«Sigamos os Magos» - Homilias sobre S. Mateus

25.

«Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: 'fica limpo'» - Homilia sobre São Mateus

1. «Regozijai-vos; permanecei na alegria porque a vossa recompensa será grande»

Homilia sobre a Segunda carta aos Coríntios

Só os cristãos estimam as coisas pelo seu verdadeiro valor, e não têm os mesmos motivos para se regozijarem e para se entristecerem que o resto dos homens. À vista de um atleta ferido, levando na cabeça a coroa de vencedor, quem nunca praticou nenhum desporto considera somente as feridas que fazem sofrer aquele homem; não imagina a felicidade que lhe proporciona a sua recompensa. Assim fazem as pessoas de quem falamos. Eles sabem que nós sofremos as provas, mas ignoram porque as suportamos. Eles só consideram os nossos sofrimentos. Vêem as lutas nas quais estamos envolvidos e os perigos que nos ameaçam. Mas as recompensas e as coroas permanecem-lhes ocultas, não menos que a razão dos nossos combates. Como afirmas S.Paulo: “Crêem-nos como nada tendo, e nós possuímos tudo” (2 Co 6,10) ...

Por causa dos que nos olham, quando submetidos à prova por causa de Cristo, Suportemo-la corajosamente, mais ainda, com alegria. Se jejuamos, espelhemos a alegria, como se estivéssemos nas delícias. Se nos ultrajam, dancemos alegremente como se estivéssemos cumulados de elogios. Se sofremos um mal, consideremo-lo como um ganho. Se nos dão uma prova, persuadimos-nos de que recebemos ... Antes de tudo, lembra-te que combates pelo Senhor Jesus. Então tu entrarás de boa vontade na luta e tu viverás sempre na alegria, porque nada nos torna mais felizes que uma boa consciência.

* * * * *

2. «Caindo de joelhos, prostraram-se diante d'Ele»

Homilias sobre S. Mateus

Irmãos, sigamos os Magos, deixemos os nossos costumes pagãos. Partamos! Façamos uma longa viagem para vermos Cristo. Se os Magos não tivessem partido para longe do seu país, não teriam visto Cristo. Abandonemos também os interesses da terra. Enquanto estavam no seu país os magos só viam a estrela, mas, quando deixaram a sua pátria, viram o Sol da Justiça (Ma 3,20). Melhor dizendo: se eles não tivessem empreendido generosamente a sua viagem, nem sequer teriam visto a estrela. Levantemo-nos pois, também nós, e mesmo que toda a gente se espante em Jerusalém, corramos até ao local onde está o Menino.

Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe; e, ajoelhando, prostraram-se diante dele; depois, abrindo os cofres, ofereceram-lhe os seus presentes. «Que motivo os levou a prostrarem-se diante desta criança? Nada de assinalável quer na virgem, quer na casa; nem um objecto capaz de ferir o olhar e os atrair. E, contudo, não contentes de se prostrarem, abriram os seus tesouros, presentes que não se oferecem a um homem, mas apenas a Deus – o incenso e a mirra simbolizam a divindade.  Que razão os levou a agir dessa forma? A mesma que os decidira a abondonar a sua pátria, a partir para essa longa viagem. Foi a estrela, quer dizer, a luz com que Deus enchera o seu coração e que os conduzia, pouco a pouco, a um conhecimento mais perfeito. Se não tivessem tido essa luz, como poderiam ter rendido tais homenagens, se aquilo que viam era tão pobre e tão humilde? Se não há grandeza material, mas apenas uma manjedoura, um estábulo, uma mãe despida de tudo, é  para que vejas mais nitidamente a sabedoria dos Magos, para que compreendas que vieram, não até um homem, mas até um Deus, seu benfeitor

* * * * *

3. «Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja»

Homilia sobre São Pedro e Santo Elias

Pedro devia receber as chaves da Igreja, mais ainda, as chaves dos céus, e devia ser-lhe confiada a governação de um povo numeroso. […] Se, com a tendência que tinha para a severidade, Pedro tivesse permanecido sem pecado, como poderia ser misericordioso com os seus discípulos? Ora, por uma disposição da graça divina, caiu no pecado, por forma a que, tendo tido a experiência da sua própria miséria, pudesse ser bom para com os outros.

Repara bem: quem cedeu ao pecado foi Pedro, o chefe dos apóstolos, o fundamento sólido, a rocha indestrutível, o guia da Igreja, o porto invencível, a torre inabalável, ele que tinha dito a Cristo: “Mesmo que tenha de morrer contigo, não Te negarei” (Mt 26, 35); ele que, por uma revelação divina, tinha confessado a verdade: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.”

Ora, narra o Evangelho que, na própria noite em que Jesus foi entregue, […] uma jovem diz a Pedro: “Também tu estavas com aquele homem”, ao que Pedro responde: “Não conheço esse homem” (Mt 26, 69-72). […] Ele, a coluna, a muralha, cede perante as suspeitas de uma mulher. […] Jesus fixou nele o olhar […], Pedro compreendeu, arrependeu-se do seu pecado e desatou a chorar. É então que o Senhor misericordioso lhe concede o seu perdão. […]

Ele foi submetido ao pecado para que a consciência da sua culpa e do perdão recebido do Senhor o levasse a perdoar aos outros por amor. Realizava assim uma disposição providencial, conforme à maneira divina de agir. Foi necessário que Pedro, a quem a Igreja seria confiada, a coluna das Igrejas, a porta da fé, o médico do mundo, se mostrasse fraco e pecador. Assim foi, na verdade, para que ele descobrisse na sua fraqueza uma razão para exercer a bondade para com os outros homens.

* * * * *

4. «O poder de uma oração perseverante»

Homilias sobre S. Mateus

Quando seria de esperar que se afastasse desanimada, a Cananeia aproxima-se mais e, prostrando-se aos pés de Jesus, diz-lhe: “Senhor, socorre-me!” Mas então, mulher, não O ouviste dizer: “Fui enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel?” Ouvi, replica ela; mas Ele é o Senhor…

Foi por ter previsto esta resposta que Cristo adiou a concessão do pedido. Recusou a solicitação para lhe sublinhar a piedade. Se não quisesse conceder-lhe o que lhe pedia, não teria acabado por fazê-lo. […] As Suas respostas não visavam magoá-la, mas atraí-la e revelar este tesouro escondido.

Considera porém, peço-te, não apenas a fé, mas a profunda humildade desta mulher. Jesus deu aos judeus o nome de filhos; a Cananeia ainda lhes aumenta o título, chamando-lhes senhores, tão longe se encontra de sofrer com o elogio de outrem: “Mas os cãezinhos comem as migalhas que caem da boca dos seus senhores.” […] E é por isso que é admitida no número dos filhos. Cristo diz então: “Mulher, grande é a tua fé.” Demorou-Se a pronunciar estas palavras e a recompensar esta mulher: “Faça-se como desejas!” Estás a ver, a Cananeia desempenha um papel importante na cura de sua filha. Com efeito, Cristo não diz: Que a tua filha fique curada, mas antes: “Grande é a tua fé. Faça-se como desejas!” E observa ainda o seguinte: ela conseguiu aquilo que os apóstolos não tinham conseguido, nada tendo realizado. Tal é poder de uma oração perseverante.

* * * * *

5. «A morte de João Baptista»

Homilias sobre S. Mateus, nº 48

"Dá-me aqui,num prato, a cabeça de João Baptista". E Deus permitiu-o, não lançou o raio do alto dos céus para devorar aquele rosto insolente; não ordenou à terra que se abrisse e engolisse os convivas daquele horroroso banquete. Deus dava assim a mais bela coroa ao justo e deixava uma magnífica consolação aos que, no futuro, viessem a ser vítimas de semelhantes injustiças. Escutemo-lo, pois, todos nós que, apesar da nossa vida honesta, temos de suportar os malvados... O maior dos filhos nascidos de mulher (Lc 7,28) foi levado à morte pelo pedido de uma jovem impudica, de uma mulher perdida; e isso por ter defendido as leis divinas. Que estas considerações nos façam suportar corajosamente os nossos próprios sofrimentos...

Mas repara no tom moderado do evangelista que, na medida do possível, procura circunstâncias atenuantes para este crime. A propósito de Herodes, ele nota que agiu "por causa do seu juramento e dos convivas" e que "ficou entristecido"; a propósito da jovem, nota que tinha sido "induzida pela mãe"... Também nós, não odiemos os malvados, não critiquemos as faltas do próximo, escondamo-las tão discretamente quanto possível; acolhamos a caridade na nossa alma. Porque, acerca desta mulher impudica e sanguinária, o evangelista falou com toda a moderação possível... Tu, porém, não hesitas em tratar o teu próximo com malvadez... Toda a diferença está na maneira de agir dos santos: ele choram pelos pecadores, em vez de os amaldiçoarem. Façamos como eles; choremos por Herodíades e pelos que a imitam. Porque vemos hoje muitos banquetes do género do de Herodes; não se condena à morte o Precursor mas destroem-se os membros de Cristo...

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6. «Aquele que der a beber, nem que seja um simples copo de água fresca, […] não ficará sem a sua recompensa.»

Homilia 45 sobre os Actos dos Apóstolos

“Era peregrino e recolhestes-Me”, diz o Senhor (Mt 25, 35). E também: “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 41). Dado que se trata de um crente e de um irmão, mesmo que seja o mais pequeno, é Cristo que entra com ele. Abre a porta de tua casa, recebe-o. “Quem recebe um profeta como profeta, terá recompensa de profeta” […] Eis os sentimentos com que devemos receber os peregrinos: atenção, alegria, generosidade. O peregrino mostra-se sempre tímido e envergonhado. Se o anfitrião o não recebe com alegria, retira-se e sente-se desprezado, porque é pior ser recebido dessa maneira do que não o ser de todo.

Tem, pois, uma casa onde Cristo encontre a sua morada. Diz: “Eis o quarto de Cristo. Eis a morada que Lhe está reservada.” Mesmo que seja muito simples, Ele não a desdenhará. Cristo está nu, é peregrino; basta-lhe um tecto. Dá-lhe pelo menos isso; não sejas cruel e inumano. Tu, que tanto ardor demonstras pelos bens materiais, não permaneças frio diante das riquezas do espírito. […] Tens onde guardar o carro onde te deslocas, não terás lugar para Cristo vagabundo? Abraão recebia os estrangeiros onde habitava (Gen 18). Sua mulher tratava-os como se fosse serva deles e eles os seus senhores. Nem um nem outro sabiam que estavam a receber Cristo, que acolhiam anjos. Se o soubessem, ter-se-iam despojado de tudo. Nós, que sabemos reconhecer Cristo, demos provas de uma atenção ainda maior do que eles, que estavam convencidos de que apenas recebiam três homens.

* * * * *

7. «Estai preparados»

Homilia 77 sobre S. Mateus

«O Filho do Homem virá numa hora em que não pensais». Jesus diz-lhes isto para que os discípulos fiquem de vigília, para que estejam sempre preparados. Se lhes diz que virá quando menos O esperam, é porque quer levá-los a praticar a virtude com zelo e sem descanso. È como se lhes dissesse: «Se as pessoas soubessem quando vão morrer, estariam perfeitamente preparadas para esse dia». Mas o momento final da nossa vida é um segredo que escapa a cada homem.

Eis por que o Senhor exige duas qualidades ao seu servo: que seja fiel, para que não atribua a si mesmo nada do que pertence ao seu Mestre, e que seja avisado, para convenientemente administrar tudo o que lhe foi confiado. São-nos pois necessárias duas qualidades para ficarmos preparados para a chegada do Mestre. Porque é isto o que acontece pelo facto de não sabermos qual o dia do nosso encontro com Ele: dizemos para connosco: «O meu Senhor tarda em chegar». O servo fiel e avisado não tem tal pensamento. Ó infeliz, por pensares que o teu Mestre se demora, imaginas então que ele não há-de vir? A sua vinda é certa. Porque não estás vigilante à sua espera? Não, o Senhor não está demorado: esse atraso só existe na imaginação do mau servo.

* * * * *

8. «Que devo fazer para alcançar a vida eterna?»

Homilia 63 sobre S. Mateus

Não era um interesse medíocre o deste jovem; ele manifesta-se como um apaixonado. Enquanto os outros homens de aproximavam de Cristo para o pôr à prova ou para lhe falar das suas doenças, das dos seus parentes ou ainda de outras pessoas, ele aproxima-se para conversar acerca da vida eterna. O terreno era rico e fértil, mas estava cheio de espinhos prontos a abafar as sementes (Mt 13,7). Vê como ele está realmente disposto a obedecer aos mandamentos: "Que devo fazer para ter como herança a vida eterna?"... Nunca nenhum Fariseu manifestou tais sentimentos; pelo contrário, eles estavam furiosos por serem reduzidos ao silêncio. O nosso jovem, quanto a ele, partiu com os olhos baixos de tristeza, sinal bem claro de que não tinha vindo com más intenções. Somente, ele era demasiado fraco; tinha o desejo da Vida mas retinha-o uma paixão muito difícil de ultrapassar...

"Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, distribui o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me... Ao ouvir estas palavras, o jovem afastou-se pesaroso". O evangelista explica qual é a causa daquela tristeza: é porque ele "tinha muitos bens". Os que têm pouco e os que estão mergulhados na abundância não possuem os seus bens da mesma maneira. Nestes, a avareza pode ser uma paixão violenta, tirânica. Neles, cada nova aquisição acende uma chama mais viva e os que são atingidos ficam mais pobres do que antes. Têm mais desejos e, contudo, sentem com mais força a sua pretensa indigência. Em todo o caso, vê como aqui a paixão mostrou a sua força... "Como será difícil aos que possuem riquezas entrar no reino dos Céus!" Não que Cristo condene as riquezas mas antes os que são dominados por elas.

* * * * *

9. «A tristeza que gera a alegria»

Homilia 79 sobre São João

Depois de ter derramado a alegria na alma dos seus discípulos pela promessa que lhes fez de lhes enviar o Espírito Santo, o Salvador entristece-os de novo ao dizer: "Mais um pouco e não me vereis mais". Age desta forma para os preparar, através desta linguagem triste e severa, para a ideia da sua próxima separação; porque nada é mais próprio para acalmar a alma mergulhada na tristeza e na aflição do que o pensamento frequente nos motivos que produziram nela essa tristeza.

Eles não compreendiam, quer por causa da tristeza que os impedia de pensar no que Ele lhes dizia, quer por causa da obscuridade das próprias palavras que pareciam conter duas coisas contraditórias, mas que, na realidade não o eram. Porque, se Te vemos, podiam eles dizer, como te vais embora? E, se te vais embora, como Te poderemos ver?

Nosso Senhor, querendo depois mostar-lhes que a tristeza gera alegria e, ainda, que aquela tristeza seria curta ao passo que a sua alegria não terá fim, toma a comparação da mulher que dá à luz. Com tal comparação, Ele quer também exprimir, de um modo figurado, que Ele se libertou dos constrangimentos da morte e que, assim, regenerou o homem novo. E não diz que não haverá tribulação mas que não se lembrarão dela, tão grande vai ser a alegria que lhe sucederá.

* * * * *

10. «Entra na alegria do teu Mestre» (Mt 25,23)

Homilia atribuida a S. João Crisóstomo da Liturgia Ortodoxa da Páscoa

Que todo o homem piedoso e amigo de Deus goze esta bela e luminosa festa! Que todo o servo fiel entre com júbilo na alegria do seu Senhor! (Mt 25,23) O que carregou o peso do jejum venha agora receber a sua recompensa. O que trabalhou desde a primeira hora receba hoje o seu justo salário (Mt 20,1s). O que chegou depois de passada a terceira hora celebre esta festa na acção de graças. O que chegou depois da sexta hora não tenha receio, não ficará prejudicado. Se alguém tardou até à nona hora, aproxime-se sem hesitar. Se houver quem se atrasou até à décima primeira hora, não tenha medo da sua perguiça porque o Mestre é generoso e recebe o último como ao primeiro..., exerce misericórdia sobre aquele mas cumula este. Dá a um e agracia o outro...

Assim, pois, entrai todos na alegria do vosso Mestre! Primeiros e últimos..., ricos e pobres..., os que vigiaram e os que se deixaram dormir..., vós que jejuastes e vós que não jejuastes, alegrai-vos hoje! O festim está pronto, vinde todos (Mt 22,4)! O vitelo gordo está servido, que ninguém se vá embora com fome. Saciai-vos todos no banquete da fé, vinde servir-vos do tesouro da misericórdia. Que ninguém lamente a sua pobreza, porque o Reino chegou para todos; que ninguém chore as suas faltas, porque o perdão brotou do túmulo; que ninguém receie a morte, porque a morte do Salvador dela nos libertou. Aquele que a morte tinha agarrado destruiu-a, aquele que desceu aos infernos despojou-os...

Isaías tinha-o predito ao dizer: "O inferno ficou consternado quando te encontrou" (14,9). O inferno ficou cheio de amargor... porque foi arruinado; humilhado, porque foi entregue à morte; esmagado, porque foi aniquilado. Apoderou-se de um corpo e viu-se diante de Deus; agarrou-se à terra e encontrou o céu; apropriou-se do que via e foi derrotado por causa do Invisível. "Ó morte, onde está o teu aguilhão? Inferno, onde está a tua vitória?" (1 Co 15,55). Cristo ressuscitou e foste arruinado! Cristo ressuscitou e os demónios foram precipitados! Cristo ressuscitou e os anjos estão em júbilo! Cristo ressuscitou e já não há mortos nos túmulos porque Cristo, ressuscitado dos mortos, tornou-se as primícias dos que tinham adormecido. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos! Amen.

* * * * *

11. «O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne, pela vida do mundo»

Homilias sobre a 1ª Carta aos Coríntios, nº 24

“Nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Cor 10, 17). O que é o pão que comemos? O Corpo de Cristo. Em que se transformam os comungantes? No Corpo de Cristo, não numa multidão, mas num único Corpo. Assim como o pão, constituído por muitos grãos de trigo, é um único pão no qual desaparecem os grãos, assim como os grãos subsistem nele, sendo contudo impossível detectar o que os distingue em massa tão bem ligada, assim também nós, juntos e com Cristo, formamos um todo. Com efeito, não é de um corpo que se alimenta determinado membro, alimentando-se outro membro de outro corpo. É o mesmo Corpo que a todos alimenta. E é por isso que o apóstolo Paulo salienta que “todos participamos do mesmo pão”.

Pois bem, se participamos todos do mesmo pão, se nos tornamos todos esse mesmo Cristo, por que não demonstramos a mesma caridade? […] Era o que acontecia no tempo dos nossos pais: “A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma” (Act 4, 32). Mas tal não acontece no presente; pelo contrário. E, contudo, homem, Cristo veio procurar-te, a ti que estavas tão longe dele, para se unir a ti. E tu não queres unir-te a teu irmão? […]

Com efeito, Ele não se limitou a dar o seu corpo; mas, porque a primeira carne, tirada da terra, estava morta pelo pecado, introduziu nela, por assim dizer, outro fermento, a sua própria carne, da mesma natureza que a nossa mas isenta de todo o pecado, cheia de vida. O Senhor distribuiu-a por todos a fim de que, alimentados por esta carne nova, possamos, em comunhão uns com os outros, entrar na vida imortal.

* * * * *

12. «Colocaram uma inscrição por sobre a sua cabeça:
'Este é o Rei'»

Homilia sobre a Cruz e o bom ladrão, 1, 3-4

«Senhor, lembra-te de mim quando vieres inaugurar o teu reino». O ladrão não ousou fazer esta prece sem antes, pela confissão, se ter libertado do fardo dos pecados. Vê bem, cristão, a força da confissão. Ele confessou os pecados e o paraíso abriu-se-lhe; confessou os pecados e ganhou confiança bastante para pedir o reino dos céus, depois de tantos roubos cometidos…

Queres conhecer o Reino? Que vês portanto aqui que se lhe assemelhe? Tens debaixo dos olhos os pregos e uma cruz, mas essa cruz, dizia Jesus, é o próprio sinal do Reino. E eu, ao vê-Lo na cruz, proclamo-O Rei. Não é próprio de um rei morrer pelos seus súbditos? Ele próprio o disse: «O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas» (Jo 10, 11). Isto é igualmente verdade para um bom rei: também ele dá a vida pelos seus súbditos. Proclamá-Lo-ei portanto Rei por causa da dávida que fez da sua vida: «Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino».

Compreendes agora que a cruz é o sinal do Reino? Eis outra prova. Cristo não deixou a sua cruz na terra, ergueu-a e levou-a com Ele para o céu. Sabemo-lo porque Ele a terá junto de Si quando voltar pleno de glória. Para perceberes o quanto esta cruz é digna de veneração, repara em como Ele a tomou como um título de glória […], Quando o Filho do homem vier, «o sol escurecerá e a lua perderá o brilho». Reinará então uma claridade tão viva que até os astros mais brilhantes se eclipsarão. «As estrelas cairão do céu.  Aparecerá então no céu o sinal do Filho do homem» (Mt 24,29ss). Vês bem a força do sinal da cruz? […] Quando um rei entra numa cidade, os soldados pegam nos estandartes, içam-nos aos ombros e marcham à sua frente para anunciar a chegada régia. De igual modo, legiões de anjos precederão a Cristo, quando Ele descer do céu. Trarão aos ombros esse sinal anunciador da vinda do nosso Rei.

* * * * *

13. «Agir como Abraão»

36ª homilia sobre o Génesis

Olhando para a promessa de Deus e deixando de lado qualquer perspectiva humana, sabendo que Deus é capaz de obras que ultrapassam a natureza, Abraão confiou nas palavras que lhe tinham sido dirigidas, não guardou nenhuma dúvida no seu espírito e não hesitou sobre o sentido que devia dar às palavras de Deus. Porque é próprio da fé confiar no poder daquele que nos fez uma promessa... Deus tinha prometido a Abraão que dele nasceria uma descendência incontável. Esta promessa ultrapassava as possibilidades da natureza e as perspectivas puramente humanas; por isso é que a fé que ele tinha em Deus "lhe foi contada como justiça" (Gn 15,6; Ga ,6).

Pois bem, se formos vigilantes, veremos que nos foram feitas promessas ainda mais maravilhosas e seremos compensados muito mais do que pode sonhar o pensamento humano. Para isso, temos apenas que confiar no poder daquele que nos fez essas prmessas, a fim de merecermos a justificação que vem da fé e de obtermos os bens prometidos. Porque todos esses bens que esperamos ultrapassam toda a concepção humana e todo o pensamento, de tal forma é magnífico o que nos foi prometido! 

Com efeito, essas promessas não dizem respeito apenas ao presente, à realização plena das nossas vidas e ao gozo dos bens visíveis, mas dizem também respeito ao tempo em que tivermos deixado esta terra, quando os nossos corpos tiverem sido sujeitos à corrupção, quando os nossos restos mortais forem reduzidos a pó. Então Deus promete-nos que nos ressuscitará e nos estabelecerá numa glória magnífica; "porque é preciso, assegura-nos S. Paulo, que o nosso ser corruptível revista a incorruptibilidade, que o nosso ser mortal revista a imortalidade" (1 Co 15,53). Além disso, depois da ressurreição dos nossos corpos, recebemos a promessa de gozarmos do Reino e de beneficiarmos durante séculos sem fim, na companhia dos santos, desses bens inefáveis que "os olhos do homem não viram, que o seu ouvido não ouviu e que o seu coração é incapaz de sondar" (1 Co 2,9). Vês a superabundância das promessas? Vês a grandeza destes dons?

* * * * *

14. «Jesus poisou sobre ele o olhar e disse:
‘Chamar-te-ás Cefas, que quer dizer Pedro'»

Homilia n° 19 sobre São João

“Tu és Simão, filho de Jonas; chamar-te-ás Cefas, que quer dizer Pedro” […] Eis o nome que Cristo dá a Simão. A Tiago e a seu irmão chamar-lhes-á “filhos do trovão” (Mc 3, 17). A que se devem estas mudanças de nome? Servem para mostrar que Ele, Jesus, é o mesmo que havia estabelecido a antiga aliança, que tinha mudado o nome de Abrão, que passou a ser Abraão, e o de Sarai, que passou a chamar-se Sara, e o de Jacob, que passou a ser Israel (Gen 17, 5 ss; 32, 29). E que também dera o nome a vários, aquando do seu nascimento: a Isaac, a Sansão, aos filhos de Isaías e de Oseias. […]

Nós temos um nome muito superior a todos os outros: o nome de “cristãos” – o nome que faz de nós filhos de Deus, amigos de Deus, um mesmo corpo com Ele. Haverá nome que possa tornar-nos mais fervorosos na virtude, encher-nos de maior zelo, levar-nos a fazer o bem? Evitemos, pois, fazer alguma coisa que seja indigna deste nome tão grande e tão belo, derivado do nome do próprio Jesus Cristo. Quantos ostentam o nome de um grande chefe militar ou de alguma personagem ilustre consideram-se honrados por esse facto e tudo fazem para ser dignos dele. Quanto mais nós, que não tiramos o nosso nome de um general nem de um príncipe desta terra, nem sequer de um anjo, mas do Rei dos anjos, quanto mais nós devemos estar dispostos a tudo perder, incluindo a própria vida, em honra deste santo nome!

* * * * *

15. «Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores» (Mt 6,12)

Homilias sobre S. Mateus, nº 61

Cristo pede-nos portanto duas coisas: que condenemos os nossos pecados, que perdoemos os dos outros; que façamos a primeira coisa por causa da segunda, a qual nos será então mais fácil, pois aquele que pensa nos seus próprios pecados será menos severo para com o seu companheiro de miséria. E devemos perdoar não por palavras apenas, mas «do fundo do coração», para que contra nós não se vire o ferro com que pensamos bater nos outros. Que mal te pode fazer o teu inimigo, que seja comparável àquele que a ti próprio fazes? […] Se te deixas chegar à indignação e à cólera, serás ferido não pela injúria que ele fez contra ti, mas por esse teu ressentimento.

Portanto não digas: «Ele ultrajou-me, caluniou-me, fez-me coisas miseráveis.» Quanto mais disseres que te fez mal, mais mostras, afinal, que te fez bem, pois deu-te ocasião para te purificares dos pecados. Assim, quanto mais ele te ofender, mais te põe em estado de obteres de Deus o perdão para as tuas faltas. Porque, se nós quisermos, ninguém nos poderá prejudicar; e até os nossos inimigos nos prestarão assim um grande serviço […] Considera portanto a vantagem que retiras das injúrias, se as sofreres com humildade e mansidão.

* * * * *

16. «Não vos esqueçais da hospitalidade»

Homilia sobre Lázaro

A propósito desta parábola, convém perguntarmos a nós próprios por que motivo o rico vê Lázaro no seio de Abraão e não em companhia de outro justo. É que Abraão foi hospitaleiro. Aparece, pois, ao lado de Lázaro, para acusar o rico de não ter sido hospitaleiro. Com efeito, o patriarca procurava reter os mais simples transeuntes, dando-lhes acesso à sua tenda (Gn 18, 1ss.). O rico, pelo contrário, apenas mostrara desdém por aquele que vivia diante de sua casa. Ora, tratava-se de um homem que, dispondo de tanto dinheiro, podia dar segurança ao pobre. Mas continuou a ignorá-lo, dia após dia, não lhe proporcionando a ajuda de que ele tinha necessidade.

O patriarca não agiu desta forma, bem pelo contrário! Sentado à entrada da tenda, estendia a mão a quantos passavam, qual pescador que lança a rede ao mar para apanhar o peixe, apanhando muitas vezes também ouro e pedras preciosas. Assim, apanhando os homens na sua rede, aconteceu a Abraão apanhar também anjos, e – coisa espantosa! – sem disso se precaver.

O próprio Paulo se mostra espantado, tendo-nos deixado a seguinte exortação: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Heb 13, 2). E Paulo tem razão em dizer “sem o saberem”. Se Abraão tivesse sabido que aqueles que acolhia com tanta benevolência eram anjos, nada teria feito de extraordinário ou de admirável em assim os acolher. Se recebe este elogio é, pois, porque ignorava a identidade daquelas personagens. Com efeito, tomou por homens vulgares estes viajantes que tão generosamente convidou para sua casa. Também tu sabes mostrar-te apressado em receber uma personagem célebre, mas tal não é motivo de espanto. […] Em contrapartida, é realmente admirável reservar um acolhimento cheio de bondade à gente normal que não conhecemos.

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17. «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»

Comentário sobre S. João

"Eis o Cordeiro de Deus!", diz João Baptista. Jesus Cristo não fala; é João quem diz tudo. O Esposo costuma agir assim; começa por não dizer nada à Esposa mas apresenta-se e fica em silêncio. Outros o anunciam e lhe apresentam a Esposa; quando ela aparece, o Esposo não a toma ele mesmo mas recebe-a das mãos de outro. Depois de assim a ter recebido de outro, prende-se a ela com tanta força que ela já nem se lembra daqueles que deixou para o seguir.

É o que se passa com Jesus Cristo. Veio para desposar a Igreja; ele mesmo nada disse, apenas se apresentou. Foi João, o amigo do Esposo, que pôs na sua mão a mão da Esposa - por outras palavras, o coração dos homens que ele tinha convencido com a sua pregação. Então, Jesus recebeu-os e cumulou-os com tantos bens que eles já não voltaram a quem os tinha trazido... Só João, o amigo do Esposo, esteve presente naquelas núpcias. Nessa altura, foi ele quem tudo fez; lançando os olhos sobre Jesus que se aproximava, disse: "Eis o Cordeir o de Deus!" Mostrava assim que não era só pela voz mas com os olhos que dava testemunho de Esposo. Admirava Cristo e, ao contemplá-lo, o coração estremecia-lhe de alegria. Já não prega, apenas o admira ali presente e dá a conhecer o dom que Jesus veio trazer. E ensina a prepararmo-nos para o receber. "Eis o Cordeiro de Deus!" É ele, diz, quem tira o pecado do mundo. Fá-lo sem cessar; oferece uma só vez o seu sacrifício pelos pecados do mundo e este sacrifício tem um efeito perpétuo.

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18. «Adorar o Corpo de Cristo»

Homilias sobre a 1ª carta aos Coríntios

Cristo, para nos levar a amá-lo mais, deu-nos a sua carne como alimento. Vamos, pois, até ele com muito amor e devoção... Este corpo é o que os magos adoraram quando estava deitado numa mangedoura. Esses pagãos, esses estrangeiros deixaram a sua pátria e a sua casa, empreenderam uma longa viagem para o adorarem com temor e tremor. Imitemos ao menos esses estrangeiros, nós que somos cidadãos dos céus...

Vós mesmos já não o vedes numa mangedoura mas sobre o altar. Já não vedes uma mulher que o segura nos braços, mas o sacerdote que o oferece e o Espírito Santo que, com toda a sua generosidade, paira por cima das oferendas. Não só vedes o mesmo corpo que viram os magos mas, além disso, conheceis o seu poder e a sua sabedoria, e não ingorais nada do que ele realizou, após toda a iniciação aos mistérios que vos foi minuciosamente facultada. Acordemos, pois, e despertemos em nós o temor de Deus. Mostremos muito mais piedade para com o Corpo de Cristo do que aqueles estrangeiros manifestaram...

Esta mesa fortalece a nossa alma, congrega o nosso pensamento, suporta a nossa confiança; ela é a nossa esperança, a nossa salvação, a nossa luz, a nossa vida. Se deixarmos a terra munidos com este sacramento, entraremos mais confiantes nos átrios sagrados... Mas para quê falar do futuro? Já neste mundo, o sacramento transforma a terra em céu. Abri, pois, as portas do céu..., vereis então o que vos acabo de dizer. O que há de mais precioso no céu, vo-lo mostrarei sobre a terra. O que vos mostro não são anjos, nem arcanjos, nem os céus dos céus, mais aquele que é o Senhor deles todos.

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19. «Quem vos recebe, a mim recebe»

Homilias sobre os Actos dos apóstolos

"Quem recebe um destes pequeninos, é a mim que recebe" diz o Senhor (Lc 10,48). Quanto mais esse irmão é pequeno, tanto mais Cristo está presente. Porque, quando recebemos uma grande personalidade, fazemo-lo muitas vezes por vanglória; mas aquele que recebe um pequenino, fá-lo com uma intenção pura e por Cristo. "Eu era um estragneiro, diz ele, e vós acolhestes-me". E ainda: "Cada vez que o tiverdes feito a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25, 35-40). Uma vez que se trata de um crente e de um irmão, ainda que seja o mais pequeno, é Cristo que entra com ele. Abre a tua casa, recebe-o.

"Quem receber um profeta na sua qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta". Por isso, quem receber Cristo receberá a recompensa da hospitalidade de Cristo. Não duvides das suas palavras, confia nelas. Ele mesmo o disse: "Neles, sou eu que estou presente". E, para que não duvides, ele decreta o castigo para os que o não receberem e as honras para os que o receberem (Mt 25, 31s). Não o faria se não fosse particularmente tocado pela honra e pelo desprezo. "Recebeste-me na tua morada, diz ele; receber-te-ei no Reino de meu Pai. Livraste-me da fome; livrar-te-ei dos teus pecados. Viste-me prisioneiro; far-te-ei ver a tua libertação. Viste-me estrangeiro; farei de ti um cidadão dos céus. Deste-me pão; dar-te-ei o Reino como tua herança e propriedade plena. Ajudaste-me em segredo; proclamá-lo-ei publicamente e direi que tu és meu benfeitor e eu teu devedor".

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20. «Beber do cálice para se sentar à direita»

Homilias sobre Mateus, nº 65

Por intermédio de sua mãe, os filhos de Zebedeu pedem ao mestre, na presença dos seus colegas: "Ordena que nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda" (cf. Mc 10,35)... Cristo apressa-se a tirá-los das suas ilusões, dizendo-lhes que devem estar prontos a sofrer injúrias, perseguições e até a morte: "Não sabeis o que pedis. Podeis beber do cálice que eu vou beber?" Que ninguém se espante ao ver os apóstolos com disposições tão imperfeitas. Espera que o mistério da cruz esteja realizado, que a força do Espírito Santo lhes seja comunicada. Se queres ver a força da sua alma, olha-os mais tarde e vê-los-ás superiores a todas as fraquezas humanas. Cristo não lhes esconde as fraquezas, para que tu vejas tudo o que se tornarão depois, pelo poder da graça que os transformará...

"Não sabeis o que pedis." Não sabeis como é grande essa honra, como isso é prodigioso! Estar sentados à minha direita? Isso ultrapassa mesmo os poderes angélicos! "Podeis beber do cálice que eu vou beber?" Falais-me de tronos e de diademas insignificantes; eu falo-vos de combates e de sofrimentos. Não é agora que receberei a minha realeza; não chegou ainda a hora da glória. Para mim e para os meus, trata-se para já do tempo da violência, dos combates e dos perigos.

Nota bem que ele não lhes pergunta directamente: "Tereis coragem para derramar o vosso sangue?" Para os encorajar, propõe-lhes que partilhem o seu próprio cálice, que vivam em comunhão com ele... Mais tarde, verás esse mesmo S. João, que neste momento procura o primeiro lugar, ceder sempre a presidência a S. Pedro... Quanto a Tiago, o seu apostolado não durou muito. Ardente de fervor, desprezando inteiramente os interesses puramente humanos, mereceu pelo seu zelo ser o primeiro mártir entre os apóstolos (Act 12,2).

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21. «Cairam em terra boa e deram fruto»

Homilias sobre Mateus, 44

"Saíu o semeador para semear". Donde é que ele saíu, aquele que está presente em toda a parte, que enche todo o universo? Como saíu ele? Não materialmente, mas por uma disposição da sua providência a nosso respeito: aproximou-se de nós revestindo-se da nossa carne. Uma vez que não podíamos ir até ele, porque os nossos pecados impediam o acesso, foi ele que veio até nós. E porque é que saíu? Para destruir a terra onde abundavam os espinhos? Para castigar os cultivadores? De modo nenhum. Veio cultivar essa terra, ocupar-se dela e nela semear a palavra da santidade. Porque a semente de que fala é, na verdade, a sua doutrina; o campo é a alma do homem; o semeador é ele próprio...

Teríamos razão em censurar um cultivador que semeasse com tanta abundância... Mas, quando se trata de coisas da alma, a pedra pode ser transformada em terra fértil, o caminho pode não ser pisado por todos os transeuntes e tornar-se um campo fecundo, os espinhos podem ser arrancados e permitir aos grãos que cresçam com toda a tranquilidade. Se isso não fosse possível, ele não teria lançado a semente. E, se a transformação não se realizou, não é por culpa do semeador, mas daqueles que não quiseram deixar-se transformar. O semeador fez o seu trabalho. Se a semente se perdeu, o autor de tão grande benefício disso não é responsável.

Nota bem que há várias maneiras de perder a semente... Uma coisa é deixar a semente da palavra de Deus secar sem tribulações e sem cuidado, outra é vê-la sucumbir sob o choque das tentações... Para que não nos aconteça nada de semelhante, gravemos a palavra na nossa memória, com ardor e seriedade. Por muito que o diabo arranque à nossa volta, teremos força suficiente para que ele não arranque nada dentro de nós.

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22. «Tem paciência para comigo»

Homilias sobre S. Mateus, nº 61

Cristo pede-nos portanto duas coisas: condenar os nossos pecados e perdoar os dos outros, fazer a primeira coisa por causa da segunda, que será então mais fácil, pois aquele que pensa nos seus pecados será menos severo para com o seu companheiro de miséria. E perdoar não só de boca, mas do fundo do coração, para não virar contra nós próprios o ferro com que julgamos atingir os outros. Que mal pode fazer-te o teu inimigo, que seja comparável ao que tu fazes a ti próprio com a tua aspereza?

Considera pois quantas vantagens retiras duma injúria humildemente sofrida e com doçura. Tu mereces assim, em primeiro lugar - e é o mais importante – o perdão dos teus pecados. Exercitas-te, depois, na paciência e na coragem. Em terceiro lugar, adquires a doçura e a caridade, pois aquele que é incapaz de se zangar com os que lhe causaram desgosto, será ainda muito mais caridoso para com aqueles que o amam. Em quarto lugar, desenraízas inteiramente a cólera do teu coração, o que é um bem sem igual. Aquele que liberta a sua alma da cólera, desembaraça-a também, evidentemente, da triteza: não gastará a sua vida em desgostos e vãs inquietudes. Assim, punimo-nos a nós mesmos ao odiarmos os outros; fazemos bem a nós mesmos ao amá-los. Desse modo todos te venerarão, mesmo os teus inimigos, ainda que sejam demónios. Melhor ainda, não terás mais inimigos, comportando-te assim.

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23. «Logo que entrares no teu Reino»

Homilia 1 sobre a Cruz e o Ladrão

O paraíso fechado desde há milhares de anos, foi-nos «hoje» aberto pela Cruz. Pois foi hoje que o Senhor lá introduziu o ladrão. Realiza assim duas maravilhas: abre o paraíso e deixa lá entrar um ladrão. Hoje Deus devolveu-nos a nossa velha pátria, hoje reconduziu-nos à cidade paterna, hoje abriu a Sua casa à humanidade no seu todo. «Hoje, diz Ele, estarás comigo no paraíso». Que dizes Tu, Senhor? Estás crucificado, pregado com pregos, e prometes o paraíso? – Sim, para que aprendas qual é o meu poder sobre a cruz.

É que não foi ressuscitando um morto, dominando o mar e o vento, expulsando demônios, mas sim crucificado, pregado com pregos, coberto de insultos, de escarros, de troça e de ultrajes que conseguiu modificar o mau estado de espírito do ladrão, para que possas ver os dois aspectos do poder. Ele abalou toda a criação, fendeu os rochedos e atraiu a alma do ladrão, mais dura do que a pedra...

Certamente que nenhum rei consentiria a um ladrão ou a qualquer outro de seus súbditos que se sentasse com ele, ao entrar numa cidade. Mas Cristo fê-lo: quando entra na Sua santa pátria, leva consigo um ladrão. Agindo deste modo, não menospreza o paraíso, não o desonra pela presença de um ladrão; bem pelo contrário, honra o paraíso, pois é uma glória para o para o paraíso ter um dono que consegue tornar um ladrão digno das delícias que aí se saboreiam. De igual modo, quando introduz os publicanos e as prostitutas no Reino dos Céus, não é para desrespeito deste, mas sim para sua honra, pois mostra que o dono do Reino dos Céus é suficientemente forte para tornar prostitutas e publicanos estimáveis ao ponto de serem dignos de uma tal honra e de um tal dom.

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24. «Sigamos os Magos»

Homilias sobre S. Mateus

Ergamo-nos, a exemplo dos Magos. Deixemos todos se perturbarem, mas corramos nós até onde mora o Menino. Que os reis ou os povos, que tiranos cruéis se esforcem por nos barrar o caminho, pouco importa, não abrandemos o nosso ardor. Afastemos todos os males que nos ameaçam. Se não tivessem visto o Menino, , os Magos não teriam escapado ao perigo que corriam da parte do rei Herodes. Antes de terem a felicidade de O contemplar, eles estavam sitiados pelo medo, rodeados de perigos, mergulhados na perturbação; depois que O adoraram, a calma e a segurança voltaram às suas almas...

Deixai então, também vós, uma cidade em desordem, um déspota sedento de sangue, todas as riquezas do mundo, e vinda a Belém, à casa do pão espiritual. Sois pastores: vinde apenas e vereis o Menino na manjedoura.

Sois reis: se não vindes, a vossa púrpura não vos servirá de nada. Sois magos: isso não é impedimento, desde que venhais mostrar o vosso respeito e não esmagar a vossos pés o Filho de Deus, desde que vos aproximeis com temor e alegria, duas coisas que não são incompatíveis...

Quando nos prosternarmos, deixemos escapar tudo das nossas mãos. Se tivermos ouro, demo-lo sem reservas e não o escondamos... Houve estrangeiros que empreenderam uma viagem tão longa só para contemplar este recém-nascido: que razão tendes vós para desculpar a vossa conduta, vós que vos recusais a dar alguns passos para visitar o doente ou o prisioneiro? Eles oferecem ouro:
mas vós, é com tanta dificuldades que dais pão! Eles viram uma estrela e o seu coração ficou cheio de alegria; vós vedes Cristo numa terra estranha, sem roupa, e não vos emocionais?

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25. «Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: 'fica limpo'»

Homilia sobre São Mateus

Jesus não diz simplesmente: «Quero, sê curado». Mas ainda mais: «Estendeu a mão e tocou-o». É isto o que chama a atenção. Já que o curava por um ato da sua vontade e com uma palavra, porque lhe tocou com a mão? Não por outro motivo, parece-me, senão para mostrar que Ele não é inferior mas superior à Lei, e que doravante nada é impuro para quem é puro... A mão de Jesus não ficou impura pelo contacto com o leproso; pelo contrário, o corpo do leproso foi purificado pela santidade dessa mãos. É que Cristo veio não só curar os corpos, mas elevar as almas à santidade; ensina-nos aqui a ter cuidado com a nossa alma, a purificá-la, sem nos preocuparmos das abluções exteriores. A única lepra a temer é a da alma, isto é, o pecado...

Quanto a nós, demos continuamente graças a Deus. Agradeçamos-Lhe não só pelos bens que nos deu, mas ainda pelos que concede aos outros: poderemos, deste modo, destruir a inveja, manter e aumentar o nosso amor ao próximo.


Fonte:

Evangelho Cotidiano

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