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Santo Hilário de Poitiers

(cerca de 315 - 367), bispo de Poitiers, doutor da Igreja

 
 

Antologia de Homilias de Santo Hilário de Poitiers

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De Trinitate: «Com que autoridade fazes isso?»

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De Trinitate: «O caminho para o Pai»

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«A unidade natural dos fiéis em Deus, encarnação do Verbo e o sacramento da Eucaristia»

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Comentário sobre S. Mateus: Cristo é o cumprimento das Escrituras: «Eu não vim abolir mas cumprir»

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Trindade, 12, oração final: «E não fez ali muitos milagres por causa da falta de fé deles»

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Tratado dos Mistérios, Prefácio: «A vós, é-vos dado que conheçais os mistérios do Reino de Deus»

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Sobre Mateus, 4, 27:  «Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito»

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De Trinitate, VII, 26-27 : «Com que autoridade fazes isso?»

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Tratado sobre o salmo 91,3,4-5,7: «É permitido, no dia de sábado, fazer o bem?... salvar uma vida?»

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Tratado sobre a Trindade: «Não compreendeis ainda? Tendes os vossos corações cegos?»

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Tratado sobre o salmo 64: «O Templo de que falava era o seu Corpo»

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A Trindade, 12,52-53: «Não é o filho do carpinteiro?... Ele não fez muitos milagres neste lugar, em virtude da falta e fé deles»

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A Trindade, 2, 31-35: «Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco: o Espírito de verdade»

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La Trinité, 12, 55s; PL 10, 472: «Não sabes de onde ele vem nem para onde vai»

. Comentários sobre Mateus, 16: «Tu és... o Filho do Deus vivo»

 

«Com que autoridade fazes isso?»

De Trinitate

É bem do Pai, este Filho que se lhe assemelha. Vem d’Ele, este Filho que se lhe pode comparar, porque a Ele é semelhante. É igual a Ele, este Filho que realiza as mesmas obras (Jo 5,36)… Sim, o Filho cumpre as obras do Pai; por isso, nos pede que acreditemos que Ele é o Filho de Deus. Não se arroga um título que lhe não seja devido; não é nas suas próprias obras que apoia a sua reivindicação. Não! Ele testemunha que não são as suas próprias obras mas as do Pai. Atesta assim que o fulgor das suas acções lhe vem do seu nascimento divino. Mas como é que os homens teriam podido reconhecer n’Ele o Filho de Deus, no mistério daquele corpo que Ele tinha assumido, naquele homem nascido de Maria? Foi para fazer penetrar no coração dos homens a fé n’Ele próprio que o Senhor cumpriu todas aquelas obras: “Se cumpro as obras de meu Pai, então, mesmo se não quiserem acreditar em mim, acreditem ao menos nas minhas obras!” (Jo 10,38)

Se a humilde condição do seu corpo parece um obstáculo para que creiamos na sua palavra, Ele pede-nos que ao menos acreditemos nas suas obras. Com efeito, porque é que o mistério do seu nascimento humano nos impediria de acolher o seu nascimento divino?... “Se não quiserem acreditar em mim, acreditem nas minhas obras, para saberem e reconhecerem que o Pai está em mim e Eu no Pai”…

Assim é a natureza que Ele possui pelo nascimento; assim é o mistério de uma fé que nos garantirá a salvação: não dividir quem é um só, não privar o Filho da sua natureza e proclamar o mistério do Deus Vivo, nascido do Deus Vivo… “Tal como o Pai que me enviou está vivo, também eu vivo pelo Pai” (Jo 6,57). “Como o Pai tem a vida em si mesmo, também Ele concedeu que o Filho também tivesse a vida em si” (Jo 5,26).

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«O caminho para o Pai»

De Trinitate

O Senhor não nos deixou um ensino incerto ou duvidoso sobre o mistério, nem nos abandonou ao erro que pode nascer de uma compreensão ambígua. Escutemo-lo, pois, quando revela aos apóstolos o inteiro conhecimento dessa fé. Com efeito Ele diz: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém chega ao Pai, senão através de mim.». Aquele que é o caminho não nos deixou errar em caminhos sem saída. A verdade não nos lançou à mentira. A vida não nos entregou ao engano que mata. E, porque Ele manifestou para nossa salvação os nomes doces do Seu acompanhamento: caminho para nos conduzir à verdade; verdade para nos estabelecer na vida, saibamos qual é o sacramento que nos conduz a essa vida: « ninguém chega ao Pai, senão através de mim», o caminho para o Pai passa pelo Filho. « Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o Pai.». Vemos o homem Jesus Cristo. Como é que, conhecendo-O, conheceremos também o Pai? No mistério do corpo que tomou, o Senhor manifesta a divindade que está no Pai; marca essa ordem: «Se me conhecerdes, conhecereis também o Pai, a partir de agora, conhecê-Lo-eis e tendê-Lo visto». Ele distinguiu o tempo da visão do do conhecimento, pois diz que já vimos aquilo que deveremos conhecer, para que recebamos através dessa revelação temporal o conhecimento da natureza que está nele... Vemos um homem, Ele proclama-se Filho de Deus. Ele afirma que aquele que o conhece conhece o Pai. Ele diz que o Pai foi visto e que é por ter sido visto que será conhecido.

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«A unidade natural dos fiéis em Deus, encarnação do Verbo
e o sacramento da Eucaristia»

Realmente o Verbo de fez carne (Jo 1, 14) e de fato nós comemos o Verbo feito carne, no alimento do Senhor. Como, então, não julgar que permanece em nós com a sua natureza aquele que, nascendo homem, tornou a natureza da nossa carne inseparável de si mesmo e uniu a natureza da sua carne com a natureza divina, no sacramento que nos comunica a sua carne? Deste modo somos todos uma só coisa: o Pai que está em Cristo e Cristo que está em nós.

Está, pois, em nós por sua carne e nós estamos nele, uma vez que está em Deus, com ele, aquilo que nós somos.

Ele é quem atesta até que ponto estamos nele pelo sacramento da comunhão da carne e do sangue quando afirma: E este mundo já não me vê; mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis; porque eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós (Jo 14,19.20).

Se queria que entendêssemos apenas a união das vontades, por que distinguiu um certo grau e ordem, segundo os quais devia consumar-se a unidade? Certamente para que acreditássemos que, estando ele no Pai pela natureza divina e nós nele por seu nascimento corporal, ele está em nós pela ação misteriosa dos sacramentos.

É como se nos fosse ensinada a unidade perfeita que se realiza pelo Mediador: permanecendo nós nele, ele permanece no Pai e, permanecendo ele no Pai, permanece também em nós. Deste modo, poderemos chegar até à unidade com o Pai, pois ficaremos nele naturalmente, ele que está no Pai naturalmente, segundo o nascimento e que ficará em nós naturalmente.

Quão natural seja em nós esta unidade ele o atestou assim: Quem come minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele (Jo 6,56). Ninguém estará nele a não ser aquele em quem ele estiver, uma vez que só tem a carne que ele assumiu quem come de sua carne.

Mais acima já ensinara o sacramento desta perfeita unidade: Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim também o que come a minha carne viverá por mim (Jo 6,57). Portanto vive pelo Pai. E do mesmo modo como vive pelo Pai, nós vivemos por sua carne.

Presume-se que toda comparação se adapta à maneira de ser da inteligência, quer dizer: entende-se aquilo de que se trata de acordo com o exemplo que é proposto. Esta é, portanto, a causa de nossa vida: em nós, feitos de carne, temos a Cristo que permanece pela carne; e mediante sua humanidade vivemos daquela vida que ele recebe do Pai.

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«Eu não vim abolir mas cumprir»

Comentário sobre S. Mateus: Cristo é o cumprimento das Escrituras

A força e o poder destas palavras do Filho de Deus encerram um profundo mistério. A Lei, com efeito, prescrevia obras, mas todas essas obras, orientava-as para a fé nas realidades que seriam manifestadas em Cristo, pois o ensino e a paixão do Salvador são o grande e misterioso desígnio da vontade do Pai. A lei, sob o véu das palavras inspiradas, anunciou a natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Sua encarnação, a Sua paixão, a Sua ressurreição; os profetas tal como os Apóstolos ensinam-nos repetidamente que, desde os séculos eternos, todo o mistério de Cristo foi preparado para ser revelado no nosso tempo...

Cristo não quis que nós pensássemos que as suas próprias obras continham outra coisa que não fossem as prescrições da Lei. Assim o afirmou Ele próprio: «Eu não vim abolir, mas cumprir»,... pois em Cristo toda a lei e toda a profecia se consumam. No momento da Sua paixão , ... Ele declarou: «Tud o está consumado» (Jo 19,30). Nesse momento, todas as palavras dos profetas receberam a sua confirmação.

Cristo afirma também que mesmo o mais pequeno dos mandamentos de Deus não pode ser abolido sem ofensa a Deus. Aqueles que rejeitarem esses pequenos mandamentos, advertiu-nos Ele, serão os mais pequenos; serão os últimos e, por assim dizer, sem valor. Não há mandamentos mais pequenos que os mais humildes. E o mais humilde de todos foi a paixão do Senhor e a Sua morte na cruz.

«E não fez ali muitos milagres
por causa da falta de fé deles»

Trindade, 12, oração final

Peço-te, Pai Santo, Deus Todo-Poderoso, conserva intacto o fervor da minha fé e, até ao último suspiro, concede-me conformar a minha voz às minhas convicções profundas. Sim, que eu conserve sempre aquilo que afirmei no credo proclamado aquando do meu novo nascimento, quando fui baptizado no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Concede-me que Te adore, a Ti, Pai nosso, e ao Teu Filho, que é um só Deus contigo; faz com que obtenha o Teu Espírito Santo, que de Ti procede, pelo Teu Filho único.

A minha fé tem a seu favor uma excelente testemunha: Aquele que declara: “Pai, tudo o que é Meu é Teu e tudo o que é Teu é Meu” (Jo 17, 10). Esta testemunha é o meu Senhor Jesus Cristo, Deus eterno em Ti, de Ti e contigo, Ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amén.

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«A vós, é-vos dado que conheçais
os mistérios do Reino de Deus»

Tratado dos Mistérios, Prefácio

Toda a obra contida nos santos livros anuncia por palavras, revela por fatos, estabelece com exemplos, a vinda de Jesus Cristo nosso Senhor que, enviado por Seu Pai, se fez homem, nascendo de uma virgem por ação do Espírito Santo. Com efeito, durante todo o processo da criação, é Ele que, através de prefigurações verdadeiras e manifestas, gera, lava, santifica, escolhe, separa ou resgata a Igreja nos patriarcas: pelo sono de Adão, pelo dilúvio de Noé, pela justificação de Abraão, pelo nascimento de Isaac, pela servidão de Jacob. Ao longo da passagem dos tempos, numa palavra, o conjunto das profecias, essa realização do plano secreto de Deus, foi-nos dada por benevolência para o conhecimento da Sua incarnação futura...

Em cada personagem, em cada época, em cada acontecimento, o conjunto das profecias projeta como que num espelho a imagem da Sua vinda, da Sua pregação, da Sua Paixão, da Sua ressurreição e da nossa reunião na Igreja... A começar por Adão, ponto de partida do nosso conhecimento do gênero humano, nós encontramos anunciado desde a origem do mundo, em grande número de prefigurações, tudo aquilo que recebeu no Senhor o seu cumprimento total.

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“Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito”

Sobre Mateus, 4, 27

“Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.” Com efeito, a Lei exigia o amor ao próximo, mas permitia odiar o inimigo. A fé prescreve o amor aos inimigos. Através do sentimento universal da caridade, destrói os movimentos de violência que há no espírito do homem, não apenas impedindo a cólera de se vingar, mas também apaziguando-a, até fazer-nos amar aquele que não tem razão. Amar os que vos amam pertence aos pagãos, e toda a gente gosta de quem gosta de si. Cristo chama-nos, pois, a viver como filhos de Deus e a imitar Aquele que, pelo advento do seu Cristo, concede, seja aos bons, seja aos culpados, o sol e a chuva nos sacramentos do baptismo e do Espírito. Assim, forma-nos para a vida perfeita através deste laço de uma bondade para com todos, chamando-nos a imitar o Pai do céu, que é perfeito.

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«Com que autoridade fazes isso?»

De Trinitate, VII, 26-27

Pertence claramente ao Pai, este Filho que se parece com Ele. Vem dele, este Filho que podemos comparar com Ele, porque lhe é semelhante. É seu igual, este Filho que realiza as mesmas obras que Ele (Jo 5, 36). […] Sim, o Filho realiza as mesmas obras que o Pai; é por isso que nos pede que acreditemos que é o Filho de Deus. Não se arroga um título que não Lhe seja devido; não é nas Suas próprias obras que apoia esta reivindicação. Não! Dá testemunho de que não são as Suas próprias obras, mas as obras do Pai, atestando assim que o brilho dos Seus actos Lhe vem da sua origem divina. Mas como poderiam os homens ter reconhecido nele o Filho de Deus, no mistério desse corpo que Ele tinha assumido, nesse homem nascido de Maria? Foi para lhes encher o coração de fé em Si que o Senhor realizou todas estas obras. “Se faço as obras de meu Pai e não credes em Mim, crede nas Minhas obras” (Jo 10, 38).

Se a humilde condição do Seu corpo nos parecer um obstáculo para acreditarmos na Sua palavra, pede-nos que acreditemos ao menos nas Suas obras. Com efeito, por que haveria o mistério do Seu nascimento humano de nos impedir de perceber o Seu nascimento divino? […] “Se não credes em Mim, crede nas Minhas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em Mim e Eu nele” […].

Tal é a natureza que possui por nascimento; tal o mistério de uma fé que nos garantirá a salvação: não dividir aqueles que são um, não privar o Filho da Sua natureza e proclamar a verdade do Deus Vivo, nascido do Deus Vivo. […] “Assim como o Pai, que vive, Me enviou, Eu vivo pelo Pai” (Jo 6, 57). “Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho ter a vida em Si mesmo” (Jo 5, 26).

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«É permitido, no dia de sábado, fazer o bem?...
salvar uma vida?»

Tratado sobre o salmo 91,3,4-5,7

O Senhor trabalha no dia de sábado? Com certeza, de outra forma o céu desaparecia, a luz do sol apagava-se, a terra pardia consistência, todos os frutos perderiam a seiva e a vida dos homem pereceria, se, por causa do sábado, a força construtiva do universo deixasse de agir. Mas, de facto, não há qualquer interrupção; durante o sábado, tal como nos seis outros dias, os elementos do universo continuam a cumprir a sua função. Através deles, o Pai trabalha, pois, todo o tempo, mas actua através do Filho que nasceu dEle e por quem tudo isto é a sua obra... Pelo Filho, a acção do Pai prossegue no dia de sábado. Por consequência não há repouso em Deus, pois que nenhum dia vê cessar a obra de Deus.

É assim a acção de Deus. Mas, então, em que consiste o Seu repouso? A obra de Deus é a obra de Cristo. E o repouso de Deus é Deus, é Cristo, pois tudo o que pertence a Deus está verdadeiramente em Cristo a tal ponto que o Pai pode descansar nEle.

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«Não compreendeis ainda?
Tendes os vossos corações cegos?»

Tratado sobre a Trindade

Pai, Deus todo-poderoso, é a ti que devo consagrar a principal ocupação da minha vida. Que todas as minhas palavras e pensamentos se ocupem de ti. Porque somos pobres, pedimos aquilo que nos falta; faremos um esforço desmedido para entender as palavras dos teus profetas e dos teus apóstolos, bateremos a todas as portas que nos dêem acesso a uma compreensão que nos está vedada.Mas é a ti que cabe atender o nosso pedido, conceder o que procuramos, abrir a porta fechada. Na verdade, vivemos numa espécie de torpor por causa do nosso adormecimento natural; estamos impedidos de compreender os teus mistérios por uma ignorância invencível devida à fraqueza do nosso espírito.

Mas o zelo pelos teus ensinamentos fortalece a nossa percepção da ciência divina e a obediência da fé nos ergue acima da nossa capacidade natural para conhecer. Esperamos, assim, que tu estimules os começos desta difícil empresa, que a fortaleças com um sucesso crescente, que a chames a partilhar o espírito dos profetas e dos apóstolos. Quereríamos compreender as suas palavras no sentido com que eles as pronunciaram e empregar os termos exactos para transmitir fielmente as realidades que eles exprimiram. Concede-nos o sentido exacto das palavras, a luz da inteligência, a elevação da linguagem, a ortodoxia da fé; aquilo em que acreditamos, concede-nos que também o afirmemos.

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«O Templo de que falava era o seu Corpo»

Tratado sobre o salmo 64

O Senhor disse. “Aqui será o meu repouso para sempre” e “escolheu Sião como lugar de sua morada” (Sl 131,14). Mas Sião e o seu templo foram destruídos. Onde se erguerá então o trono eterno de Deus? Onde será o seu repouso para sempre? Onde será o seu templo para que nele habite? O apóstolo Paulo responde-nos: “O templo de Deus sois vós; em vós habita o Espírito de Deus” (1 Co 3,16). Eis a casa e o templo de Deus; eles estão cheios da sua doutrina e do seu poder. São o habitáculo da santidade do coração de Deus.

Mas esta morada, é Deus quem a edifica. Construída pela mão dos homens, não duraria, nem mesmo se fosse fundada sobre doutrinas humanas. Os nossos vãos labores e as nossas inquietações não bastam para a proteger. O Senhor resolve as coisas de outra maneira; ele não pôs os seus alicerces sobre terra solta nem sobre areias movediças, mas assentou-a sobre os profetas e os apóstolos (Ef 2,20); ela é incessantemente construída com pedras vivas (1 Pe 2,5) e desenvolver-se-á até às últimas dimensões do corpo de Cristo. A sua edificação prossegue sem cessar; à sua volta erguem-se numerosas casas que se reúnem numa cidade grande e bem-aventurada (Sl 121,3).

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«Não é o filho do carpinteiro?...
Ele não fez muitos milagres neste lugar,
em virtude da falta e fé deles»

A Trindade, 12,52-53

Por tanto tempo quanto eu goze do sopro de vida que me concedeste, Pai santo, Deus todo poderoso, proclamar-te-ei Deus eterno, e também Pai eterno. Nunca eu me farei juiz do teu poder supremo e dos teus mistérios; nunca eu farei passar o meu conhecimento limitado à frente da noção verdadeira do teu infinito; nunca eu afirmarei que outrora exististe sem a tua Sabedoria, sem o teu Poder e o teu Verbo, Deus, o Unigénito, meu Senhor JESUS Cristo. É que mesmo sendo a linguagem humana fraca e imperfeita, ao falar de ti, ela não limitará o meu espírito ao ponto de reduzir a minha fé ao silêncio, por falta de palavras capazes de exprimir o mistério do teu ser...

Também nas realidades da natureza, há muitas coisas das quais não conhecemos a causa, sem contudo lhes ignorarmos os efeitos. E, quando, pela nossa natureza, não sabemos o que dizer dessas coisas, a nossa fé cora de adoração. Quando contemplo o movimento das estrelas..., o fluxo e refluxo do mar..., o poder escondido na mais pequena semente..., a minha ignorância ajuda-me a contemplar-te, pois, se não compreendo essa natureza que está ao meu serviço, distingo nela a tua bondade, mesmo pelo facto de existir para me servir. Eu próprio, apercebo-me de que não me conheço, mas admiro-te tanto mais... Deste-me a razão e a vida e os meus sentidos de homem que me causam tantas alegrias, mas não consigo compreender qual foi o meu começo de homem.

É, pois, não conhecendo aquilo que me cerca, que capto aquilo que és; e, percebendo aquilo que és, adoro-te. Por isso, quando se trata dos teus mistérios, o não os compreender, não diminui a minha fé no teu poder supremo... O nascimento o teu Filho eterno ultrapassa a própria noção de eternidade, é anterior aos tempos eternos. Nunca exististe sem ele... És o Pai eterno do teu Unigénito, antes dos tempos eternos.

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«Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito
para que esteja sempre convosco:
o Espírito de verdade»

A Trindade, 2, 31-35

«Deus é espírito» diz o Senhor à Samaritana [...] ; sendo Deus invisível, incompreensível e infinito, não será num monte nem num templo que Deus deverá ser adorado (Jo 4, 21-24). «Deus é espírito» e um espírito não pode ser circunscrito, nem contido; pela força da sua natureza, ele está em todo o lado e de local algum está ausente ; em todo o lado e em tudo superabunda. Por isso é preciso adorar a Deus, que é espírito, no Espírito Santo [...].

O apóstolo Paulo outra coisa não diz quando escreve : «o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2 Co 3, 17) [...]. Que cessem portanto os argumentos daqueles que recusam o Espírito. O Espírito Santo é um, por todo o lado foi derramado, iluminando todos os patriarcas, os profetas e o coração de todos quantos participaram na redacção da Lei. Inspirou João Baptista já no seio de sua mãe; foi por fim infundido sobre os apóstolos e sobre todos os crentes para que conhecessem a verdade que lhes é dada na graça.

Qual é acção do Espírito em nós? Escutemos as palavras do próprio Senhor : «Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. É melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei. Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa» (Jo 16, 7-13) [...]. São-nos reveladas, nestas palavras, a vontade do doador, assim como a natureza e o papel d'Aquele que Ele nos dá. Porque a nossa fragilidade não nos permite conhecer nem o Pai nem o Filho ; o mistério da encarnação de Deus é difícil de compreender. O dom do Espírito Santo, que se faz nosso aliado por sua intercessão, ilumina-nos [...].

Ora este dom único que está em Cristo é oferecido a todos em plenitude. Está sempre presente em todo o lado e a cada um de nós é dado, tanto quanto O queiramos receber. O Espírito Santo permanecerá connosco até ao fim dos tempos, é a nossa consolação na espera, é o penhor dos bens da esperança que há-de vir, é a luz dos nossos espíritos, o esplendor das nossas almas.

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«Não sabes de onde ele vem nem para onde vai»

La Trinité, 12, 55s; PL 10, 472

Deus todo poderoso, o apóstolo Paulo diz que o teu Espírito Santo «perscruta e conhece as profundezas do teu ser» (1Cor 2, 10-11), e que intercede por mim, fala-te por mim através de «gemidos inefáveis» (Rom 8, 26)... Nada exterior a ti sonda o teu mistério, nada estranho a ti é tão poderoso para medir a profundidade da tua majestade infinita. Tudo o que penetra em ti provém de ti; nada do que é exterior a ti tem o poder de te sondar...

Creio firmemente que o teu Espírito Santo vem de ti pelo teu Filho único; ainda que não compreenda este mistério, tenho dele uma profunda convicção. É que, nas realidades espirituais que são o teu domínio, o meu espírito é limitado, tal como assegura o teu Filho único: «Não te admires se te disse: 'Deves nascer do alto, pois o Espírito Santo sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes nem de onde vem nem para onde vai'. Assim acontece a quem quer que nasça da água e do Espírito».

Creio no meu novo nascimento sem o compreender, e apoio na fé aquilo que me escapa. Sei que tenho o poder de renascer, mas não sei como isso acontece. Nada limita o Espírito. Ele fala quando quer, diz o que quer e onde quer. A razão da sua partida e da sua chegada permanece incógnita para mim, mas tenho a convicção profunda da sua presença.

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«Tu és... o Filho do Deus vivo»

Comentários sobre Mateus, 16

O Senhor tinha perguntado: "Quem dizem os homens que é o Filho do homem?" Naturalmente que o aspecto do seu corpo manifestava o Filho do homem mas, ao fazer esta pergunta, ele dava a entender que, para além do que se pudesse ver nele, havia outra coisa a discernir... O objecto da pergunta era um mistério para o qual se devia orientar a fé dos crentes.

A confissão de Pedro obteve plenamente a recompensa que merecia por ter visto naquele homem o Filho de Deus. "Feliz" é ele, louvado por ter alongado a sua vista para além dos olhos humanos, não olhando para o que vinha da carne e do sangue mas contemplando o Filho de Deus revelado pelo Pai dos céus. Foi considerado digno de ser o primeiro a reconhecer o que em Cristo era de Deus. Que belo alicerce pôde ele dar à Igreja, confirmado pelo seu novo nome! Ele torna-se a pedra digna de edificar a Igreja de forma a que ela rompa as leis do inferno... e todas as cadeias da morte. Feliz porteiro do céu a quem são confiadas as chaves do acesso à eternidade; a sua sentença na terra antecipa a autoridade do céu, de tal forma que o que tiver ligado ou desligado na terra sê-lo-á também no céu

Jesus ordena ainda aos discípulos que não digam a ninguém que ele é o Cristo porque vai ser preciso que outros, quer dizer, a Lei e os profetas, sejam testemunhas do seu Espírito, uma vez que o testemunho da ressurreição caberá aos apóstolos. E, assim como foi manifestada a felicidade daqueles que conhecem Cristo no Espírito, foi igualmente manifestado o perigo de se desconhecer a sua humildade e a sua Paixão.


Fonte:

Evangelho Cotidiano

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