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São Gregório de Nissa (340-394)

A vida de São Gregório de Nissa

outor da igreja, e um dos pioneiros no esforço de conciliar cristianismo e filosofia platônica. O esforço de são Gregório de Nissa para conciliar o cristianismo com elementos da filosofia platônica faz dele um precursor do grande trabalho de síntese realizado mais tarde por santo Agostinho. Foi um dos pais da teologia mística. São Gregório de Nissa nasceu por volta do ano 340 em Cesaréia da Capadócia, na Anatólia. Inicialmente, o interesse pela filosofia predominou sobre a influência religiosa dos padres com quem convivia: são Basílio, de quem era irmão, e são Gregório Nazianzeno. Começou a vida como professor de retórica. Algumas fontes afirmam que foi casado, mas depois afastou-se de sua esposa. Na década de 360 voltou-se para os estudos religiosos e para a devoção cristã.

Em 372, seu irmão Basílio Magno, bispo metropolitano de Cesaréia, sagrou-o bispo de Nissa, pequena localidade da Capadócia. Quatro anos depois foi deposto por ordem do imperador Valente, partidário do arianismo, doutrina que negava a divindade de Cristo. Em 378, após a morte de Valente, Gregório foi acolhido entusiasticamente em Nissa por sua congregação. Nos anos seguintes desempenhou intensa atividade eclesiástica, visitou várias igrejas da Anatólia e, em 381, participou do Concílio Ecumênico de Constantinopla.

Em seus textos anti-heréticos formulou a doutrina da Santíssima Trindade, utilizando argumentos inspirados na teoria das idéias de Platão. Entre outras obras escreveu: “A Criação do Homem”, onde desenvolve uma antropologia teológica; “A Grande Catequese”, que buscou ser um compêndio das principais verdades de fé da época; “Vida de Macrina”, onde faz a biografia de sua irmã.

Parece ter morrido no ano 394.

Pensamentos:

Nosso corpo unido ao corpo de Cristo, adquire um princípio de imortalidade, porque se une ao Imortal.

O homem tem parentesco com Deus.

O cristianismo é uma imitação da natureza de Deus.

A fé une intimamente ao divino. No sacramento do Pão e Vinho eucarístico, o Verbo Encarnado une a sua Carne divinizada à nossa, para divinizá-la.

O objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus.

Se um problema é desproporcional ao nosso raciocínio, o nosso dever é permanecer bem firmes e irrevovíveis na tradição, que recebemos da sucessão dos Padres.

A solidariedade com o pobre é lei de Deus, não um mero conselho.

A fim que as disposições do Evangelho e a atividade do Espírito Santo se desenvolvam em nós, é necessário que Cristo nasça em nós.

Doente, a nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador. Essas razões eram sem importância? Não eram tais que comoveriam a Deus ao ponto de fazê-lo descer até à nossa natureza humana para visitá-la, uma vez que a humanidade se encontrava em um estado tão miserável e tão infeliz?.

Se o coração de um homem foi purificado de toda propensão carnal e de toda insubordinação, tal homem verá em sua própria beleza a natureza Divina... Isto está por certo ao nosso alcance; tendes dentro de vós mesmos o paradigma pelo qual aprendeis o Divino. Pois o que vos criou, ao mesmo tempo vos dotou com esta qualidade maravilhosa. Aí imprimiu Deus a semelhança das glórias de sua própria natureza assim como quem molda da cera a escultura. Todavia o mal que foi derramado na natureza, esta natureza que traz a imagem divina, tornou inútil para vós este feito maravilhoso que sob máscaras vis se oculta. Se, portanto, purificais vossa vida da imundície, que tal qual emplastro se vos apega ao corpo, a beleza divina em vós outra vez fulgirá.

Deus [o Filho] não impediu a morte de separar a alma do corpo, segundo a ordem necessária à natureza, mas os reuniu novamente um ao outro pela Ressurreição, a fim de ser Ele mesmo na sua Pessoa o ponto de encontro da morte e da vida sustando Nele a decomposição da natureza, produzida pela morte, e tornando-se Ele mesmo princípio de reunião para as partes separadas.

Deus fez o homem de tal modo que pudesse exercer a sua função de rei da terra... O homem foi criado à imagem daquele que governa o universo. Tudo manifesta que, desde o princípio, a sua natureza está assinalada pela realeza... Ele é a imagem viva que participa, pela sua dignidade, da perfeição do modelo divino.

O que significa a entrada de Moisés e a visão que nela eleteve de Deus? Quão mais o espírito na sua marcha adiante consegue numa aplicação sempre maior e mais perfeita compreender o que é o conhecimento das realidades e se aproxima mais da contemplação, mais ele vê que a natureza divina é invisível. Tendo abandonado todos as aparências, não somente o que percebe os sentidos, mas o que ainteligência crê ver, ele vai sempre mais ao interior, pelo esforço do espírito até o Invisível eao Incognoscível e que aí ele vê Deus. O verdadeiro conhecimento daquele que ele busca esua verdadeira visão, consiste em ver que ele é invisível, apartado de tudo por sua incompreensibilidade como por trevas. (...) define por este negação que a essência divina é invisível não somente aos homens mas a toda natureza intelectual. Ele escapa a toda gnose e ao alcance do espírito.

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Antologia de homilias:

«A Dignidade Régia do Homem»

A Criação do Homem, 4

Da mesma maneira como, nas coisas humanas, os artífices dão aos instrumentos que fabricam aquela forma que parece ser a mais idônea ao uso a que se destinam, assim o Sumo Artífice fabricou nossa natureza como uma espécie de instrumento, apto para o exercício da realeza; e para que o homem fosse completamente idôneo para isso, dotou-lhe não só de excelências enquanto a alma, senão, na mesma figura do corpo. E é assim que a alma põe de manifesto sua excelsa dignidade régia, muito estranha a baixeza privada, pelo fato de não reconhecer a ninguém por senhor e fazer tudo por seu próprio arbítrio. Ela, por seu próprio querer, como dona de si, se governa a si mesma. E, de quem mais, que não seja um rei, é próprio semelhante atributo?

Segundo o costume humano, os que fazem as imagens dos imperadores, tratam primeiramente de reproduzir sua figura e, revestindo-a de púrpura, expressam justamente a dignidade imperial. É já uso e costume que a estátua do imperador se lhe chame imperador; assim, a natureza humana, criada para ser senhora de todas as outras criaturas, pela semelhança que em si leva do Rei do universo, foi elevada como uma estátua vivente  e participa da dignidade e do nome do original primeiro. Não se veste de púrpura, nem ostenta sua dignidade pelo cetro e o diadema pois, tão pouco, o original ostenta estes sinais. Em vez de púrpura, reveste-se de virtude, que é a mais régia das vestes; em lugar de cetro se apóia e se radica na bem-aventurança da imortalidade; e, no lugar do diadema,  cinge-se com a coroa da justiça; de sorte que, reproduzindo pontualmente a beleza do original, a alma ostenta em tudo a dignidade régia.

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«O nascimento da nova criação (Rm 8,22)»

Primeiro discurso da Ressurreição

Eis chegado o reino da vida e derrubado o poder da morte. Um outro nascimento apareceu, tal como uma nova vida, uma outra maneira de ser, uma transformação da nossa própria natureza. Esse nascimento não é obra «nem do desejo do homem, nem do desejo da carne, mas de Deus» (Jo, 1,13). Eis o dia que fez o Senhor (Sl 117,24). Dia bem diferente dos do início, pois nesse dia Deus fez um céu novo e uma terra nova, como diz o profeta (Is 65, 17). Qual céu? O firmamento da fé em Cristo. Qual terra? O coração bom, como diz o Senhor, a terra que se impregna da chuva que desce sobre ela, a terra que faz crescer colheitas abundantes (Lc 8,15). Nesta criação, o sol é a vida pura; as estrelas são as virtudes; o ar é uma conduta límpida; o mar é a riqueza da profundidade do conhecimento e da sabedoria; a erva e a folhagem são a boa doutrina e os ensinamentos divinos de que se alimenta o rebanho, quer dizer, o povo de Deus; as árvores com fruto são a prática dos Mandamentos. Nesse dia é criado o homem verdadeiro, aquele que é feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Não é todo um mundo que inaugura para ti «este dia que fez o Senhor»? O maior privilégio deste dia de graça é que destruiu a morte e deu vida ao primogênito dos mortos... Que bela e boa notícia! Aquele que por nós se tornou como nós, para fazer de nós seus irmãos, conduz a sua própria humanidade para o Pai a fim de levar consigo todos os da sua raça.

* * * * *

«Encheu-se de compaixão para com eles,
porque eram como ovelhas sem pastor»

Homilias sobre o Cântico dos Cânticos

"Onde levas o teu rebanho a pastar", ó bom pastor que o carregas todo sobre os teus ombros? Porque toda a raça humana é uma única ovelha que tu tomaste aos ombros. Mostra-me o lugar da tua pastagem, faz-me conhecer as águas do repouso, leva-me para a erva suculenta, chama-me pelo nome, para que eu oiça a tua voz, eu que sou tua ovelha, que a tua voz seja para mim a vida eterna.

Sim, diz-mo, "tu a quem o meu coração ama". É assim que te chamo porque o teu Nome está acima de todo o nome, inexprimível e inacessível a toda a criatura dotada de razão. Mas este nome, testemunho dos meus sentimentos para contigo, exprime a tua bondade. Como não te amaria eu, a ti que me amaste quando eu era negra, a ponto de dares a tua vida pelas ovelhas de quem és o pastor? Não é possível imaginar maior amor do que teres dado a vida pela minha salvação.

Ensina-me então "onde levas o teu rebanho a pastar", que eu possa encontrar a pastagem da salvação, saciar-me com o alimento celeste que todo o homem deve comer se quiser entrar na vida, correr para ti que és a fonte e beber a longos tragos a água divina que fazes brotar para os que têm sede. Essa água corre do teu lado desde que a lança aí abriu uma chaga e todo aquele que a prova torna-se uma fonte de água brotando para a vida eterna.

(Referências bíblicas: Ct 1,7; Lc 15,5; Sl 22; Jo 10,3; Ct 1,7; Fl 2,9; Ct 1,5; Jo 10,11; 15,13; 19,34; 4,14)

* * * * *

«Verão a Deus» (Mt 5, 8)

Homilias sobre as Bem-Aventuranças, 6, 1

A impressão que se tem quando se olha a imensidão do mar é a mesma que o meu espírito sente quando, do alto das palavras escarpadas do Senhor, como do cimo de uma falésia, contemplo o seu abismo infinito. […] A minha alma sente vertigens diante destas palavras do Senhor: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Deus oferece-se aos olhares daqueles que têm o coração puro. Ora, “ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1, 18), diz São João. E São Paulo confirma esta ideia, ao falar daquele “a quem nenhum homem viu, nem pode ver” (1 Tim 6, 16). Deus é o rochedo abrupto e afilado, que não oferece o menor amparo à imaginação. Também Moisés lhe chamava inacessível […]; “O homem não pode contemplar-Me e continuar a viver” (Ex 33, 20), são as palavras que põe na boca de Deus. Quer dizer que a vida eterna é a visão de Deus, e que estes pilares da fé nos afirmam que tal é impossível? Que abismo! […] Se Deus é a vida, aquele que não O vê também não vê a vida. […]

Ora, o Senhor estimula esta esperança. Não nos deu uma prova disso na pessoa de Pedro? Sob os pés deste discípulo, prestes a afogar-se, tornou firmes as águas (Mt 14, 30). A mão do Verbo estender-se-á igualmente para nós, que estamos submersos nestes abismos, para nos reforçar? Ficaremos então mais seguros, porque seremos firmemente dirigidos pela mão do Verbo.

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Semelhante promessa ultrapassa as nossas maiores alegrias; após tal felicidade, que mais podemos desejar? […] Aquele que vê a Deus possui, por via dessa visão, todos os bens imagináveis: uma vida sem fim, uma incorruptibilidade perpétua, uma alegria inesgotável, um poder invencível, delícias eternas, uma luz verdadeira, as doces palavras do espírito, uma glória incomparável, uma satisfação ininterrupta, enfim, todos os bens. Que tal beatitude nos ofereça, pois, grandes e belas esperanças!

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«Hoje começa o mistério da Paixão»

Sermão sobre a Natividade de Cristo

“Quando soube do nascimento do Salvador, Herodes ficou preocupado e toda a Jerusalém com ele” (Mt 2,2)… Era o mistério da Paixão que a mirra dos magos simbolizava já; sem piedade, manda-se massacrar recém-nascidos… Que significa esta mortandade de crianças? Porque ousar um crime tão terrível? «É que, dizem Herodes e os seus conselheiros, apareceu no céu um sinal estranho; ele assegura aos magos a vinda de um outro rei». Compreendes, Herodes, o que são estes sinais anunciadores? Se Jesus é senhor dos astros, não estará ao abrigo dos teus ataques? Julgas que tens o poder de fazer viver ou morrer, mas não tens nada a temer de alguém tão doce. Deus submete-o ao teu poder; porquê conspirar contra ele?...

Temos depois o luto, «a queixa amarga de Raquel que chora os seus filhos» - porque hoje o Sol de justiça (Ma 3,20) dissipa as trevas do mal e derrama a sua luz sobre todo a natureza, ele que assume a nossa natureza humana… Nesta festa da Natividade, «as portas da morte foram rebentadas, as barras de ferro foram quebradas» (Sl 107, 16); hoje, «abrem-se as portas da justiça» (Sl 118, 19)… Porque a morte veio por um homem; hoje, por um homem, vem a salvação (Rm 5,18)… Depois da árvore do pecado, ergue-se a árvore da bondade, a cruz… Hoje começa o mistério da Paixão.

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«Com os cintos cingidos e as lâmpadas acesas»

Homilia sobre o Cântico dos Cânticos

É para que o nosso espírito se liberte de todas as miragens que o Verbo nos convida a afastarmos dos olhos das nossas almas este sono pesado, para que não escorreguemos para fora das verdadeiras realidades nem nos agarremos ao que não tem consistência. Por isso Ele nos sugere uma atitude de vigilância, dizendo-nos: "Tendo os vossos rins cingidos e as vossas lâmpadas acesas"... O significado destes símbolos é bem claro. Quem está cingido pela temperança vive na luz de uma consciência pura, porque a confiança filial ilumina a sua vida como uma lâmpada. Iluminada pela verdade, a sua alma mantém-se livre do sono da ilusão, uma vez que nenhum sonho vão a pode enganar. Se cumprirmos isso, segundo as indicações do Verbo, entraremos numa vida semelhante à dos anjos...

São eles, na verdade, que esperam o Senhor no regresso das núpcias e que se sentam às portas do céu com os olhos bem abertos, a fim de que o Rei da Glória (Sl 23,7) possa aí passar de novo, quando voltar das núpcias e regressar à beatitude que está acima dos céus. "Saindo de lá como um Esposo sai da câmara nupcial", de acordo com o texto do saltério (19,6), Ele uniu a si, como uma virgem, pela regeneração sacramental, a nossa natureza que se tinha prostituido com os ídolos, restituindo-lhe a sua incorruptibilidade virginal. Tendo já acabado as núpcias, uma vez que a Igreja foi desposada pelo Verbo... e introduzida na câmara dos mistérios, os anjos esperavam o regresso do Rei da Glória à beatitude que é própria da sua natureza.

É por isso que o texto diz que a nossa vida deve ser semelhante à dos anjos, para que, tal como eles, vivamos longe do vício e da ilusão, para estarmos prontos para acolher a parusia do Senhor e, vigiando também nós às portas das nossas moradas, estejamos prontos a abedecer quando Ele voltar e bater à porta.

* * * * *

«Verão a Deus»

Homilias sobre as Bem-aventuranças

A impressão que se tem quando lançamos os olhos sobre a imensidão do mar é a mesmo que o meu espírito experimenta quando, do alto das palavras escarpadas do Senhor, tal como do cimo de uma falésia, eu contemplo o seu abismo infinito. A minha alma experimenta a vertigem diante desta palavra do Senhor: "Felizes os que têm o coração puro, porque verão a Deus" (Mt 5,8). Deus oferece-se ao olhar dos que têm o coração puro. Ora "nunca ninguém viu Deus" (Jo 1,18), diz S. João. E S. Paulo confirma esta ideia ao falar daquele que "nenhum de entre os homens viu nem pode ver" (1 Tm 6,16). Deus é aquele rochedo abrupto e aguçado, que não oferece a menor hipótese à nossa imaginação. Também Moisés lhe chamava o Inacessível: "Ninguém, diz ele, pode ver o Senhor e viver" (Ex 33,20). Mas como então? A vida eterna é a visão de Deus e estes pilares da nossa fé certificam-nos que ela é impossível?! Que abismo!... Se Deus é a vida, aquele que o não vê também não vê a vida... Ora o Senhor estimula a nossa esperança. Não deu ele uma prova disso em relação a Pedro? Debaixo dos pés desse discípulo que quase se afogava, ele firmou e endureceu as ondas do mar (Mt 4,30). Será que a mão do Verbo se estenderá também sobre nós, que somos submergidos nestes abismos, será que ela nos tornará firmes? Podemos então confiar, porque seremos firmemente dirigidos pela mão do Verbo.

"Felizes os que têm o coração puro, porque verão a Deus". Uma tal promessa ultrapassa as nossas maiores alegrias; depois dessa felicidade que outra poderíamos desejar?... Aquele que vê a Deus possui, com esta visão, todos os bens imagináveis: uma vida sem fim, uma incorruptibilidade perpétua, uma alegria inesgotável, um poder invencível, delícias eternas, uma luz verdadeira, as suaves palavras do espírito, uma glória incomparável, um júbilo jamais interrompido, todos os bens, enfim. Que grandes e belas esperanças nos oferece pois esta bem-aventurança!

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«Comiam, bebiam, compravam, vendiam»

Homilia 11 sobre o Cântico dos Cânticos

O Senhor fez grandes recomendações aos seus discípulos para que o seu espírito sacudisse como se fosse pó tudo o que é terrestre na natureza e se elevasse assim ao anseio pelas realidades sobrenaturais; de acordo com uma destas recomendações, aqueles que se viram para a vida do alto devem ser mais fortes do que o sono e manter sempre o seu espírito vigilante… Falo daquele adormecimento suscitado nos quês estão mergulhados na mentira da vida por esses sonhos ilusórios que são as honras, as riquezas, o poder, a fascinação dos prazeres, a ambição, a sede do gozo, a vaidade e tudo o que a imaginação leva os homens superficiais a procurar insensatamente. Todas essas coisas se esgotam com a natureza efêmera do tempo; são do domínio do parecer…; mal pareceu que existiam, logo desaparecem à maneira das ondas do mar…

É para que o nosso espírito seja liberto dessas ilusões que o Verbo nos convida a sacudir dos olhos das nossas almas esse sono profundo, a fim de que não deslizemos para longe das realidades verdadeiras, ligando-nos ao que não tem consistência. É por isso que nos propõe a vigilância, dizendo-nos: “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12.35). Porque a luz, ao brilhar diante dos olhos, expulsa o sono e os rins apertados com o cinto impedem o corpo de a ele sucumbir… Aquele que está cingido com a temperança vive na luz de uma consciência pura; a confiança filial ilumina a sua vida como uma lâmpada… Se vivermos assim, entraremos numa vida semelhante à dos anjos.

* * * * *

«Primeiro a erva, depois a espiga,
por fim o trigo enchendo a espiga»

Sermão sobre os defuntos

A vida presente é um caminho que leva ao limite da nossa esperança, tal como se vê sobre os rebentos o fruto que começa a sair da flor, e que, graças a ela, chega à existência de fruto, mesmo se a flor não é o fruto. De igual modo, a seara que nasce das sementes não aparece imediatamente com a espiga, mas é a erva que desponta primeiro; em seguida, uma vez morta a erva, surge a haste de trigo e assim o fruto maduro no alto da espiga…

O nosso Criador não nos destinou à vida embrionária; o objectivo da natureza não é a vida dos recém-nascidos. Ela também não visa as épocas sucessivas que ela renova com o tempo pelo processo de crescimento que muda a sua forma, nem a desagregação do corpo que sobrevêm à morte. Todos esses estados são etapas no caminho por onde avançamos. O propósito e o fim da caminhada, através de todas estas etapas, é a semelhança com o Divino…; o fim esperado da vida é a beatitude. Mas hoje, tudo o que diz respeito ao corpo – a morte, a velhice, a juventude, a infância e a formação do embrião – todos esses estados, como tantas ervas, hastes e espigas, formam um caminho, uma sucessão e um potencial permitindo a maturidade esperada.

Fonte:

Evangelho Cotidiano

* * * * *

«O nascimento virginal do Senhor»

Do Sermão Sobre o Natal de Cristo
(P.G. 46, 1128 ss.)

Ouve a exclamação de Isaías: "um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado!" 1. Aprende do mesmo profeta como isso aconteceu. Foi acaso segundo a lei da natureza? De modo algum, responde o profeta. Pois não está sujeito às leis da natureza aquele que é o Senhor da natureza. De que maneira então nasceu esse filho? "Eis - diz o profeta - uma virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual receberá o nome de Emanuel", que significa" Deus conosco" 2. Ó acontecimento admirável! Uma virgem se torna mãe permanecendo virgem! Considera a nova ordem da natureza. Qualquer outra mulher, se permanece virgem, não pode tornar-se mãe; tornando-se mãe, já não conserva a virgindade. Neste caso porém as duas qualidades se mantêm. A mesma pessoa é mãe e virgem. A virgindade não a impediu de gerar, o parto não lhe tirou a virgindade. Era conveniente que, vindo para fazer os homens íntegros e incorruptos, o Salvador fizesse seu ingresso na vida humana a partir da integridade total, consagrada a ele sem reserva...

E isto parece-me que o grande Moisés tenha conhecido antecipadamente, através da luz na qual se lhe manifestou o Senhor Deus e quando a sarça ardia incandescente mas não se consumia 3. "Irei e verei este grande espetáculo", disse ele, referindo-se, penso eu, não a uma aproximação local mas a uma aproximação no tempo. O que então estava prefigurado no fogo e no arbusto tornou-se, no momento oportuno, claramente revelado no mistério da Virgem. Da mesma forma que a sarça ardente não se consumia, também a Virgem não se corrompeu gerando a Luz.

 

Mais de São Gregório de Nissa, em SOPHIA.

Notas:

[1] Is 9, 5;

[2] Ex 3,2;

[3] Sb 16, 25.

Fonte:

GOMES, Cirilo Folch, OSB. Antologia dos Santos Padres. Coleção "Patrologia". Ed. Paulinas, São Paulo, 1985.

 

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