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Santo EFRÉN, o Sírio
Obras (fragmentos)
«A Esperança da Vida Nova em Cristo» Dos Sermãos de Santo Efrém Afugenta, Senhor, com a luz diurna de tua sabedoria, * * * * * «A pia baptismal dá-nos a cura» Quinto hino para a Epifania Descei, irmãos, e revesti-vos do Espírito Santo nas águas baptismais; Bendito Aquele que instituiu o Baptismo Esta água é o fogo secreto que ferra a marca em seu rebanho, João atestou do nosso Salvador: Eis, irmãos, o fogo e o Espírito, no verdadeiro Baptismo. Mais poder tem na verdade o Baptismo, Eliseu, mergulhando nele sete vezes, Moisés baptizara o povo no mar (1Cor 10, 2), Agora, eis que um padre, semelhante a Moisés, Pela água nascente do rochedo foi a sede do povo saciada (Ex 17,1s); Do lado de Cristo, eis que corre uma fonte que dá a vida (Jo 19, 34); Verte, Senhor, sobre a minha fraqueza, o teu orvalho; * * * * * «Quero, fica limpo» Hinos sobre o Paraíso, IV, 3-5 No povo hebraico, Deus deu-nos a imagem: Adão era totalmente puro no Jardim esplêndido, Nu, Adão era belo; mas sua diligente esposa «O sinal de Jonas» Diatessarum, XI, 1-3 Depois de todos os sinais que Nosso Senhor tinha dado, estes cegos diziam-lhe: “Queremos ver um sinal teu.” Nosso Senhor deixou de lado os reis e os profetas, Suas testemunhas, e apelou aos ninivitas. […] Jonas tinha anunciado a destruição aos ninivitas, inspirando-lhes temor e semeando neles o estupor; e eles apresentaram-lhe a colheita da contrição da alma e os frutos da penitência. As nações foram, pois, eleitas e os incircuncisos aproximaram-se de Deus. Os pagãos receberam a vida, e os pecadores converteram-se. […] “Eles reclamam um sinal do céu”, por exemplo um trovão, como no caso de Samuel (cf 1Sam 7, 10). […] Tinham ouvido uma pregação proveniente do alto, e não tinham acreditado nela; então a pregação subiria das profundezas. […] “O Filho do Homem estará no coração da terra como Jonas esteve dentro da baleia.” […] Jonas emergiu do mar e pregou aos ninivitas, que fizeram penitência e foram salvos; assim também Nosso Senhor, depois de ter ressuscitado o Seu corpo do Sheol, enviou os Seus apóstolos para o meio das nações, que se converteram e receberam a plenitude da vida. * * * * * «A cruz, ponte lançada sobre o abismo da morte» Homilia sobre Nosso Senhor Nosso Senhor foi tocado pela morte, mas, em contrapartida, abriu um caminho que esmaga a morte. Submeteu-se à morte e sofreu-a voluntariamente para a destruir, a ela, que é a morte. Porque, seguindo a ordem da morte, nosso Senhor «saiu carregando a cruz» (Jo 19,17). Mas gritou na cruz e tirou os mortos do inferno… Ele é o glorioso «filho do carpinteiro» (Mt 13,55) que, fazendo da cruz qual carro, desceu à voraz garganta da morada dos mortos e transferiu o género humano para a morada da vida (Col 1, 13). E, se pela árvore do paraíso caíra o género humano na morada dos mortos, foi pela árvore da cruz que passou para a morada da vida. Naquele madeiro fora enxertado o azedume; neste, foi enxertada a doçura, para que nele reconheçamos o chefe a quem nada do que foi criado consegue opor-se. Glória a Vós! Lançastes a cruz como uma ponte sobre a morte, para que os homens por ela passem do país da morte para o país da vida... Glória a Vós! Vós vestistes o corpo do mortal Adão e dele fizestes a fonte da vida para todos os mortais. Sim, Vós estais vivo! Porque os vossos carrascos foram afinal semeadores: semearam a Vossa vida nas profundezas da terra como se faz com o trigo, para que cresça e com ele faça crescer muitos grãos (Jo 12, 24). Vinde, façamos deste amor um imenso incensório universal; prodigalizemos em cânticos e orações Àquele que da cruz construiu um turíbulo à Divindade e que, a nós, com o próprio sangue cumulou de riquezas. * * * * * «Os pastores... glorificavam e louvavam a Deus Vem, Moisés, mostra-nos essa sarça no cimo da montanha cujas chamas dançavam no teu rosto (Ex 3,2): é o filho do Altíssimo que apareceu no seio da Virgem Maria e iluminou o mundo com a sua vinda. Glória a Ele da parte de toda a criatura e feliz aquela que O gerou! Vem, Gedeão, mostra-nos esse velo e esse suave orvalho (Jz 6,37), explica-nos o mistério das tuas palavras: é Maria o velo que recebeu o orvalho, o Verbo de Deus; nela Se manifestou na criação e resgatou o mundo do pecado. Vem, David, mostra-nos a cidade que viste e a planta que dela brotou: a cidade é Maria, a planta que dela saíu é o nosso Salvador, cujo nome é Aurora (Jr 23,5; Za 3,8 LXX). A árvore da vida que era guardada por um querubim com espada de fogo (Gn 3,24), eis que habita em Maria, a Virgem pura; José a guarda. O querubim depos a espada porque o fruto que guardava foi enviado do alto dos céus até aos que estavam exilados no abismo. Comei dele todos, homens mortais, e vivereis. Bendito seja o fruto que a Virgem gerou. Bendito seja Aquele que desceu e habitou em Maria e dela saíu para nos salvar. Bem-aventurada Maria, tu que foste julgada digna de ser a mãe do Filho do Altíssimo, tu que geraste o Ancião que tinha criado Adão e Eva. Ele saíu de ti, suave fruto cheio de vida, e por Ele os exilados têm de novo acesso ao paraíso. * * * * * «Guardaste o vinho bom até agora» Diatessarum XII No deserto, Nosso Senhor multiplicou o pão, e em Caná, transformou a água em vinho. Habituou assim a boca dos homens ao Seu pão e ao Seu vinho, até ao momento em que lhes deu o Seu corpo e o Seu sangue. Fê-los saborear um pão e um vinho transitórios, para fazer crescer neles o desejo do Seu corpo e do Seu sangue vivificantes... Atraiu-nos com coisas agradágeis ao paladar, para nos conduzir àquilo que vivifica plenamente as nossas almas. Escondeu a doçura no vinho que fez, para mostrar aos convidados que tesouro incomparável se esconde no Seu sangue vivificante. Como primeiro sinal, deu um vinho agradável aos convidados, para manifestar que o Seu sangue alegraria a todas as nações. Se o vinho intervém, com efeito, em todas as alegrias da terra, da mesma forma todas as libertações se prendem com o mistério do Seu sangue. Ele deu aos convidados de Caná um vinho excelente que transformou os seus espíritos, para lhes mostrar que a doutrina de que os iria abeberar transformaria os seus corações. Este vinho, que no princípio não era senão água, foi transformado nos cântaros, símbolo dos primeiros mandamentos enviados por Ele com vista à perfeição. A água transformada é a Lei levada ao seu cumprimento. Os convidados da boda beberam o que tinha sido água, mas sem saborearem essa água. Do mesmo modo, quando ouvimos os antigos mandamentos, saboreamo-los, não no seu antigo sabor, mas no novo. * * * * * «Houve um homem enviado por Deus; Liturgia síria (Hino atribuído a Santo Efrém) É a ti, João, que reconhecemos como un novo Moisés, pois viste Deus, já não como símbolo, mas com toda a clareza. É a ti que olhamos como um novo Josué: não atravessaste o Jordão de uma margem à outra, mas, com a água do Jordão, fizeste passaar os homens de um mundo para outro... És tu o novo Samuel que não deu a unção a David, mas que baptizou o Filho de David. És tu o novo David, que não foi perseguido pelo mau rei Saul, mas que foi morto por Herodes. És o novo Elias, alimentado no deserto, não de pão por um corvo, mas de lagartixas e de mel por Deus. És tu o novo Isaías que não disse: « Eis que uma virgem vai conceber e dar à luz» (7,14), mas que proclamou diante de todos: « Eis que ela deu à luz o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»(Jo 1, 29)... Bem-aventurado és tu, João. Eleito de Deus, tu que impuseste as mãos sobre o teu Mestre, tu que tiveste nas mãos a chama cujo brilho faz tremer os anjos!Estrela de Alva, mostraste ao mundo a verdadeira Manhã; aurora radiosa, manifestaste o dia da glória; lâmpada cintilante, designaste a Luz sem igual! Mensageiro da grande reconciliação do Pai, o arcanjo Gabriel foi enviado adiante de ti para te anunciar a Zacarias, como um fruto muito para lá da sua expectativa... O maior entre os filhos dos homens (Mt 11, 11), tu vens adiante do Emanuel, daquele que transcende toda a criatura; primeiro filho de Isabel, precedes o Primogénito de toda a criação. * * * * * O Senhor do antigo e do novo Opera Omnia No momento da Transfiguração, o testemunho prestado ao Filho foi selado pela primeira vez pela voz do Pai e por Moisés e Elias, que aparecem junto de Jesus como seus servos. Os profetas olham para os apóstolos Pedro, Tiago e João; os apóstolos contemplam os profetas. Num só lugar, encontram-se os príncipes da antiga aliança e os da nova. O santo Moisés viu Pedro, o santificado, o pastor escolhido pelo Pai viu o pastor escolhido pelo Filho. O primeiro tinha outrora aberto o mar para que o povo de Deus pudesse passar no meio das vagas, o segundo propôs erguer uma tenda para abrigar a Igreja. O homem virgem do Antigo Testamento viu o homem virgem do Novo: Elias pôde ver João. Aquele que foi arrebatado num carro de fogo viu aquele que repousou sobre o peito do Fogo (Jo 13,23). E a montanha tornou-se então o símbolo da Igreja: no seu cume, Jesus unifica os dois Testamentos que esta Igreja acolhe. Deu a conhecer que é o Senhor de um como do outro, do Antigo que recebeu os seus mist érios, do Novo que revelou a glória das suas acções. * * * * * «Eu estarei no meio deles» Hino inédito Aquele que celebra sozinho no coração do deserto (Lc 12, 37; Jo 13, 4 * * * * * Hino Contra Bar Daisan Fonte:
VE Multimedios / Veritatis Esplendor Há um Ser, que se conhece a Si mesmo Ele habita em Si mesmo Glória ao seu Nome. Este é um Ser que, Ele está em cima e embaixo. O veloz não pode exceder sua presteza, Ele está antes de tudo e depois de tudo, Ele é como o mar, Como as águas envolvem os pés E como os pés estão escondidos na água, E como a água se encontra com os pés E como a água toca o peixe em cada volta que faz, Os homens não podem mover a terra, O Único Bom está unido ao corpo, Um homem não é capaz de escapar de sua alma, Nem tampouco há homem escondido do Bom, Como a água envolve o peixe e este o sente, Ele se difunde no ar, Ele está unido à luz, Ele está unido ao teu espírito, Ele habita em teu espírito, Como a mente precede o corpo em todo lugar, E como o pensamento precede em muito o ato, Comparado com sua impalpabilidade, Ele, que te criou, Ele é o Ser cuja essência Este é o Poder cuja profundidade é inexpressável. Entre as coisas visíveis e entre as coisas ocultas, Este é Aquele Deus disse: Observa: uma coisa criada. Há um Poder que os tirou do nada. Contempla, também hoje, Olha! É continuamente criado É o Ser quem ordena sua existência Quando Ele quer, o acende, Em uma grande alameda A chama consome, Se fogo e água são seres e não criaturas, Quem quiser destruir sua vida, Quem quiser odiar a si mesmo E se pensa que disse a última palavra, Ó Bar Daisan, * * * * * «Na hora em que não pensais Diatessarum Para impedir qualquer pergunta indiscreta acerca do momento da sua segunda vinda, Jesus declara: "Essa hora, ninguém a conhece, nem sequer o Filho" (Mt 24,36) e, noutro sítio: "Não vos cabe conhecer os dias e os tempos" (Act 1,7). Ocultou-nos isso para que vigiemos, para que cada um de nós possa pensar que essa manifestação se produzirá durante a nossa própria vida. Se o tempo da sua segunda vinda tivesse sido revelado, essa manifestação seria em vão: as nações e os tempos em que ela se produzisse não a teriam desejado. Ele disse que vem, mas não precisou qual o momento; desse modo, todas as gerações e todos os séculos têm sede dEle. É certo que Ele deu a conhecer os sinais da sua manifestação; mas não disse quando aconteceria. Na mudança constante em que vivemos, esses sinais já tiveram lugar e passaram e alguns ainda duram. Com efeito, a sua última manifestação é semelhante à primeira: os justos e os profetas desejavam-na; pensavam que se realizaria no seu tempo de vida. Também hoje, cada um dos fiéis de Cristo deseja acolhê-lo durante a sua própria vida, tanto mais que Jesus não disse claramente o dia em que iria aparecer. Desse modo, ninguém poderá imaginar que Cristo se submeta a uma lei do tempo ou a uma hora precisa, Ele que domina os números e o tempo. * * * * * «A multiplicação dos pães» Diatessarum No deserto, nosso Senhor multiplicou o pão e, em Caná, mudou a água em vinho. Habituou assim as boca dos seus discípulos ao seu pão e ao seu vinho, até ao tempo em que lhes daria o seu corpo e o seu sangue. Fê-los provar um pão e um vinho materiais para excitar neles o desejo do seu corpo e do seu sangue vivificantes. Deu-lhes generosamente estas pequenas coisas, para eles saberem que o seu dom supremo seria gratuito. Deu-lhes gratuitamente, ainda que eles lhos tivessem podido comprar, para eles saberem que não lhes iria pedir que pagassem uma coisa inestimável: porque, ainda que pudessem pagar o preço do pão e do vinho, nunca poderiam pagar o seu corpo e o seu sangue. Não só nos cumulou gratuitamente com os seus dons, mas ainda nos encheu de mimos. Porque nos deu aquelas pequenas coisas gratuitamente para nos atrair, a fim de virmos até ele e recebermos gratuitamente esse bem imenso que é a Eucaristia. Aqueles pequenos bocados de pão e de vinho que ele deu eram agradáveis à boca, mas o dom do seu corpo e do seu sangue é útil ao espírito. Atraiu-nos com aqueles alimentos agradáveis ao paladar a fim de nos treinar para aquilo que vivifica as almas... A obra do Senhor atinge tudo: num instante, multiplicou um pouco de pão. O que os homens fazem e transformam em dez meses de trabalho, os seus dez dedos fizeram num instante... Da pequena quantidade de pão nasceu uma imensidade de pães; aconteceu como na primeira bênção: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra” (Gn 1,28). * * * * * «Com os pedaços que sobraram, Diatessarum, 12, 4-5, 11 Num piscar de olhos, o Senhor multiplicou um pedaço de pão. Aquilo que os homens fazem em dez meses de trabalho, fizeram-no os Seus dedos num instante. [.] Contudo, não foi com o seu poder que comparou este milagre, mas com a fome dos que tinha diante de Si. Se o milagre tivesse sido comparado com o seu poder, seria impossível de avaliar; comparado com a fome daqueles milhares de pessoas, o milagre ultrapassou os doze cestos. O poder dos artesãos é inferior aos desejos dos respectivos clientes; eles não conseguem fazer tudo aquilo que se lhes pede; pelo contrário, as realizações de Deus ultrapassam todo o desejo. [.] Saciados no deserto, como outrora o tinham sido os Israelitas pela oração de Moisés, eles exclamaram: "Este é o profeta do qual está dito que viria ao mundo." Aludiam às palavras de Moisés: "O Senhor suscitará para vós um profeta", que não será um profeta qualquer, mas "um profeta como eu" (Dt 18,15), que vos saciará de pão no deserto. Tal como eu, caminho u sobre as águas, surgiu numa nuvem luminosa (Mt 17,5), libertou o seu povo. Entregou Maria a João, como Moisés entregara o seu rebanho a Josué. [.] Mas o pão de Moisés não era perfeito; apenas foi dado aos Israelitas. Querendo significar que o seu dom é superior ao de Moisés e o chamamento às nações ainda mais perfeito, Nosso Senhor disse: "Se alguém comer o Meu pão viverá eternamente", porque "o pão vivo que desceu do céu" é dado a todo o mundo (Jn 6,51). «José, filho de David, não tenhas receio» Hino para a Natividade José abraçava o Filho do Pai celeste Grande era a sua perplexidade! O rei David nascera da minha estirpe * * * * * «Muitas pessoas... souberam o que ele fazia e vieram a ele» Diatesseron Ó misericórdias, enviadas e derramadas sobre todos os homens! É em ti que elas permanecem , Senhor, tu que, na tua piedade para com os homens, foste ao seu encontro. Pela tua morte, abriste-lhes os tesouros das tuas misericórdias... Com efeito, o teu ser profundo está escondido aos olhos dos homens, mas esboçado nos menores movimentos. As tuas obras fornecem-nos o esboço do seu Autor, tal como as criaturas nos designam o seu Criador (Sb 13,1; Rm 1,20), para que possamos tocar aquele que se oculta à investigação intelectual mas se revela nos seus dons. É difícil conseguir estar-lhe presente face a face, mas é fácil aproximarmo-nos dele. As nossas acções de graças são insuficientes, mas nós te adoramos em todas as coisas, por causa do teu amor para com todos os homens. Distingues cada um de nós pelo fundo do nosso ser invisível, a nós que estamos todos ligados nas nossas fundações pela natureza única de Adão... Nós te adoramos, a ti que colocaste cada um de nós neste mundo, que nos confiaste tudo o que nele se encontra e que nos retirarás dele numa hora que não conhecemos. Nós te adoramos, a ti que puseste a palavra na nossa boca para que pudéssemos apresentar-te os nossos pedidos. Adão te aclama, ele que repousa em paz, e nós, sua posteridade, aclamamos com ele, pois todos somos beneficiários da tua graça. Os ventos te louvam..., a terra te louva..., os mares te louvam..., as árvores te louvam..., as plantas e as flores te bendizem também... Que todas as coisas se juntem e unam as suas vozes para te louvar, ultrapasando-se umas às outras na acção de graças por todas as tuas bondades e unindo-se na paz para t e bendizerem; que todas as coisas juntas elevem para ti uma obra de louvor. A nós, cabe-nos tender para ti com toda a nossa vontade; a ti cabe derramar sobre nós um pouco da tua plenitude, para que a tua verdade nos converta e assim desapareça a nossa fraqueza que, sem a tua graça, não pode alcançar-te, ó Senhor de todos os dons. * * * * * «Pôs-lhe os dedos nas orelhas e...tocou-lhe a língua» Sermão “sobre nosso Senhor», 10-11 A força divina que o homem não pode tocar desceu, envolveu-se no corpo palpável, para que os pobres a toquem e, tocando a humanidade de Cristo, percebam a Sua divindade. Através dos dedos de carne, o surdo-mudo sentiu que tocavam as suas orelhas e a sua língua. Através dos dedos palpáveis, percebeu a divindade intocável, quando o freio da sua língua se rompeu e as portas fechadas das suas orelhas se abriram. É que o arquitecto e artesão do corpo veio até ele e, com uma palavra doce, sem dor, criou aberturas em orelhas surdas; E então, de igual modo, aquela boca fechada, até aí incapaz de dar à luz a palavra, deitou ao mundo o louvor daquele que assim fazia dar fruto a sua esterilidade. Da mesma forma, o Senhor fez lama com a Sua saliva e espalhou-a nos olhos do cego de nascença (Jo 9,6) para nos levar a compreender que alguma coisa lhe faltava, como ao surdo-mudo. Uma imperfeição inata da nossa massa humana foi suprimida, graças ao fermento que vem do Seu co rpo perfeito... Para preencher o que faltava àqueles corpos humanos, deu alguma coisa de Si mesmo, tal como se dá a comer [na Eucaristia]. É por este meio que Ele faz desaparecer os defeitos e ressuscita os mortos, para que possamos reconhecer que, graças ao seu corpo «onde mora a plenitude da divindade» (Col 2,9), os defeitos da nossa humanidade são colmatados e a verdadeira vida é dada aos mortais por esse corpo onde habita a verdadeira vida. * * * * * «Toda a criação geme em trabalho de parto. Hinos sobre o Paraíso A contemplação do Paraíso maravilhou-me pela sua paz e pela sua beleza. Ali mora a beleza sem mancha, ali reside a paz sem tumulto. Feliz aquele que merecer recebê-la, se não por justiça, ao menos por bondade; se não por causa das suas obras, ao menos por piedade... Quando o meu espírito regressou às margens da terra, mãe dos espinhos, apresentaram-se-me dores e males de todos os gêneros. Aprendi assim que o nosso lugar é uma prisão. E contudo os cativos que nele estão encerrados choram ao sair dele. Espantei-me também por ver o que as crianças choram ao sair do seio; choram quando passam das trevas para a luz, de um espaço estreito para o vasto universo. Da mesma forma, a morte é, para os homens, uma espécie de parto. Os que nascem choram ao deixar o universo, mãe das dores, para entrar no Paraíso de delícias. Ó Tu, Senhor do Paraíso, tem piedade de mim! Se não é possível entrar no Teu Paraíso, faz-me ao menos digno dos prados que o rodeiam. No centro do Paraíso é a mesa dos santos, mas no exterior, os frutos do seu cercado caem como migalhas para os pecadores que, mesmo aí, viverão pela Tua bondade. * * * * * «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» Diatessarum, 5, 17 Nosso Senhor escolheu Mateus, o cobrador de impostos, para encorajar os colegas deste a virem com ele também. Ele viu pecadores, chamou-os e fez que se sentassem junto de si. Um espectáculo admirável: os anjos ficam de pé, trémulos, enquanto os publicanos, sentados, se divertem. Os anjos enchem-se de temor perante a grandeza do Senhor, enquanto os pecadores comem e bebem com Ele. Os escribas sufocam de ódio e de despeito, e os publicanos exultam perante a sua misericórdia. O céu viu este espectáculo, ficando em grande admiração; o inferno também o viu e ficou louco. Satanás viu e enfureceu-se; a morte viu e enfraqueceu; os escribas viram e ficaram muito perturbados com isso. Havia alegria nos céus e júbilo entre os anjos porque os rebeldes tinham sido convencidos, os recalcitrantes tinham ganho sensatez e os pecadores tinham sido corrigidos, e porque os publicanos tinham sido justificados. Tal como Nosso Senhor não renunciou à ignomínia da cruz apesar das exortações dos seus amigos (Mt 16,22), Ele não renunciou à companhia dos publicanos apesar da zombaria dos seus inimigos. Desprezou a zombaria e desdenhou o elogio, fazendo assim o que é o melhor para os homens.
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