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São Cirilo de Alexandria, bispo

Antologia

 

 
 

  1. «A multidão glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens»
  2. 65ª Homilia sobre Lucas: A revelação do mistério escondido desde antes da criação do mundo
  3. Comentário ao evangelho de João: «Pai, dei o Teu Nome a conhecer aos homens»
  4. Comentário ao evangelho de Lucas: «Aquele que é bem formado será como o seu mestre»
  5. Comentário sobre o Evangelho de João: «Vede as minhas mãos e os meus pés: sou mesmo eu»
  6. Comentário sobre S. João: «Tomou a menina pela mão e disse-lhe...: 'Levanta-te!'»
  7. Comentários sobre o evangelho de João: «Escolheu doze e deu-lhes o título de Apóstolos, de enviados»
  8. Das Homilias Sobre o Evangelho de São Lucas, (Lc 9,18-24: confissão de Pedro): «Pedro faz uma exata profissão de fé em Cristo»
  9. Do Comentário ao Evangelho de São João, Livro 9, Leitura para a Solenidade da Ascensão do Senhor : «Nosso Senhor Jesus Cristo inaugurou para nós um caminho novo e vivo»
  10. Ephata: «Eis o Cordeiro de Deus»
  11. Primeiro diálogo cristológico: «Os cegos vêm, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres.»


«Pedro faz uma exata profissão de fé em Cristo»

Das Homilias Sobre o Evangelho de São Lucas,
 (Lc 9,18-24: confissão de Pedro)

Um dia Jesus rezava com os discípulos em lugar retirado. E lhes fez a seguinte pergunta: Quem sou eu, no dizer das multidões? (Lc 9,18). O Salvador e Senhor de tudo mostrava-se como modelo de santidade ao rezar a sós com os discípulos. Talvez alguma coisa os perturbasse, provocando neles pensamentos de dúvida. Viam rezar como qualquer homem aquele que na véspera realizara prodígios divinos. Não era pois infundada a sua dúvida: que coisa estranha! O que pensar a respeito dele: é Deus ou homem?

Para acalmar o tumulto de tais pensamentos e tranqüilizar uma fé quase abalada, Jesus lhes faz uma pergunta, sem ignorar o que dele se dizia entre os estrangeiros e mesmo entre os judeus. Queria desse modo, desviá-los da opinião de muitos, e neles consolidar uma fé segura. Quem sou eu no dizer das multidões? (Lc 9,18). De novo Pedro intervém em primeiro lugar, fazendo-se o porta-voz de todo o grupo, e pronunciando palavras cheias de amor a Deus, como exata e perfeita profissão de fé no Cristo: O Cristo de Deus (Lc 9,20). O discípulo é o arauto atento e sábio da verdade sagrada. Não diz simplesmente que é um Cristo de Deus, mas o Cristo de Deus. Pois muitos consagrados a Deus foram chamados cristos com significados diferentes: alguns eram reis e outros eram profetas. Outros ainda (e somos nós, que alcançamos a salvação por meio do Cristo Salvador universal, e somos ungidos do Espírito Santo) recebem o nome de Cristo. Por conseguinte, são muitos os cristãos; mas este é o nome que designa uma condição, ao passo que o outro é um só, o Cristo de Deus Pai.

Depois que o discípulo fez a profissão de fé, Jesus proibiu severamente que o dissessem a alguém, acrescentando: O Filho do homem deverá sofrer muito, ser rejeitado, e afinal ser morto, e ressuscitar no terceiro dia (Lc 9,21.22). Mas porque não convinha dizer isso a outros? Não era essa justamente a tarefa dos que foram consagrados por ele ao apostolado? Sim, mas diz a Escritura: Tudo a seu tempo será comprovado (Sir 39,34). Convinha anunciar primeiro os acontecimentos ainda não consumados: a paixão, a crucifixão, a morte na cruz e a ressurreição. Este grande e glorioso milagre confirmará que o Emanuel é verdadeiro Deus, Filho de Deus Pai por natureza.

Na verdade, destruir a morte e a corrupção, espoliar o inferno, abater o poder do demônio, tirar o pecado do mundo e abrir para os homens as portas do paraíso unindo céu e terra, tudo isso mostra que o Emanuel é verdadeiro Deus. Por isso Jesus ordena que o mistério seja por algum tempo adorado em silêncio, até que todo o processo da economia chegue a seu término. Assim, depois da ressurreição ordenou que se revelasse o mistério por todo o mundo, oferecendo a todos a justificação pela fé e a purificação pelo batismo: Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, fazei de todos os povos discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar tudo o que vos mandei. Estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 6 28,18-20). Portanto, Cristo está conosco e em cada um de nós, pelo Espírito Santo. Por ele e com ele sejam dadas louvor e poder a Deus Pai, com o Espírito Santo, pelos séculos. Amém.

* * * * *

«Nosso Senhor Jesus Cristo inaugurou
para nós um caminho novo e vivo»

Do Comentário ao Evangelho de São João, Livro 9,
Leitura para a Solenidade da Ascensão do Senhor

«Se junto de Deus, meu Pai, não houvesse muitas moradas», dizia o Senhor, «eu teria ido muito antes preparar o lugar para os santos. Mas como sei que há muitas esperando a chegada dos que amam a Deus, não é por este motivo» - disse - «que vou ausentar-me, mas porque vosso regresso pelo caminho outrora preparado estava inacessível e precisava ser aplanado.»De fato, o céu para os homens era absolutamente inatingível e a carne nunca penetrara antes no puro e santíssimo lugar dos anjos. Cristo foi o primeiro que inaugurou para nós aquela via de acesso. E ensinou aos homens a maneira de chegar ao céu, oferecendo-se a Deus Pai como primícia dos mortos e dos que jazem na terra e manifestando-se como primeiro homem aos que vivem no céu.

Por isso os anjos, ignorando o grande e augusto mistério para aquela chegada corporal, admiravam atônitos o homem que subia, e perturbados com aquele novo e estranho espetáculo, estavam para perguntar: Quem é esse que vem de Edom? (Is 63,1), isto é, da terra? Mas o Espírito não permitiu que aquela celeste multidão ficasse a ignorar a admirável sabedoria de Deus Pai, mas ordenou que as portas celestes se abrissem ao Rei e Senhor do universo, exclamando: Levantai, ó príncipes, as vossas portas! Alçai-vos, portas eternas, e entrará o Rei da glória (Sl 23,7, Vulgata).

Inaugurou, pois, para nós, o Senhor Jesus um caminho novo e vivo, como diz São Paulo: Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas e sim no próprio céu, a fim de comparecer, agora, diante da face de Deus, em nosso favor (Hb 9,24). Pois Cristo não subiu para apresentar-se diante do Pai, já que ele estava, está e estará sempre no Pai e diante dos olhos daquele que o gerou. Ele é sempre o objeto de sua complacência. Mas o Verbo subiu, agora, como homem, deixando-se ver de uma maneira nova e insólita, já que antes não possuía condição humana. E isto por nós e para nós, a fim de ouvir, na plenitude da realidade, feito semelhante aos homens, em seu poder de Filho e como homem: Senta-te à minha direita (Sl 109,1), transmitindo a todo o gênero humano, adotado nele, a glória da filiação.

De fato é um de entre nós, enquanto apareceu como homem na presença de Deus Pai, embora esteja acima de todas as criaturas e seja consubstancial àquele que o gerou, sendo o seu esplendor, Deus de Deus e luz da verdadeira luz. Apareceu assim, por nós, diante de Deus Pai, para reapresentar-nos a nós que tínhamos sido afastados de diante de sua face, por causa do antigo pecado. Sentou-se como Filho para que também nós nos sentássemos como filhos e por ele fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso é que São Paulo, que afirma ter em si a Cristo que fala por seu intermédio, ensina: o que aconteceu a Cristo por título especial se comunica à natureza humana. E escreve: Com ele nos ressuscitou e nos fez sentar no céu, em Cristo Jesus (Ef 2,6).

Compete a Cristo propriamente e somente a ele, segundo sua natureza de Filho, a dignidade e a glória de se sentar ao lado de Deus. Mas, porque o que se senta é semelhante a nós, dado que apareceu como homem, e ao mesmo tempo é reconhecido como Deus de Deus, transmite-nos a nós de certo modo a graça dessa dignidade.

* * * * *

«Os cegos vêm, os mortos ressuscitam,
a Boa Nova é anunciada aos pobres»

Primeiro diálogo cristológico

« Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo» (Mt 3, 11) Diremos nós que poder batizar no Espírito Santo e no fogo é obra duma humanidade semelhante à nossa? Como poderia ser isso? Falando, portanto, de um homem que ainda não se tinha apresentado, João declara que ele batiza «no fogo e no Espírito Santo». Não como o faria um servidor qualquer, insuflando nos batizados um Espírito que não é o seu, mas como alguém que é Deus por natureza, que dá com um poder soberano o que vem dele e lhe pertence como propriedade. É graças a isso que se imprime em nós o selo divino.

Efetivamente, em Cristo Jesus, nós somos transformados à imagem divina; não que o nosso corpo seja modelado de novo, mas porque, ao possuirmos o próprio Cristo, recebemos o Espírito Santo, a ponto de podermos, daí em diante, exultar de alegria: « A minha alma exulta no Senhor, porque Ele me revestiu de salvação e de alegria» (1S 2,1) Com efeito, o apóstolo Paulo diz: «Todos vós que fostes batizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo » (Gl 3,27).

É então num homem que fomos batizados? Silêncio, tu que não és senão um homem queres deitar por terra a nossa esperança? Nós fomos batizados num Deus feito homem; Ele liberta das penas e das faltas todos aqueles que acreditam n'Ele. «Arrependei-vos e que cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo. Vós recebereis então o Dom do Espírito Santo» (At 2, 38). Ele liberta aqueles que a Ele se unem; Ele faz surgir em nós a Sua própria natureza. O Espírito Santo pertence por natureza ao Filho, que Se tornou homem semelhante a nós, porque Ele mesmo é a vida de tudo o que existe.

* * * * *

«Eis o Cordeiro de Deus»

Ephata

É único, o Cordeiro que morreu por todos, Ele que vela por todos os homens e os guarda para o Seu Deus e Seu Pai, único para todos, a fim de a todos submeter a Deus, único para todos, para a todos ganhar, para que «não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2 Co 5, 15). De fato, quando estávamos mergulhados em numerosos pecados e, por conseguinte, sujeitos à morte e corrupção, o Pai deu o Seu Filho como nossa redenção, o único para todos, pois tudo está n'Ele e Ele é o melhor de todos. Um só morreu por todos, para que todos vivamos n'Ele.

Efetivamente, do mesmo modo que a morte possuiu o Cordeiro imolado por todos, assim n'Ele e com Ele, perdeu a força em relação a todos nós. Porque todos estávamos em Cristo que morreu e ressuscitou por nós e para nós; em verdade, abolido o pecado, como é que pode ser que a morte, que vem do pecado, não seja abolida com ele? Morta a raiz, como seria conservado o fruto? Destruído o pecado, que razão haveria para morrermos? Assim, podemos dizer com alegria falando da morte do Cordeiro de Deus: «Onde está, ó morte, a tua vitória?» (1 Co 15, 55).

«Vede as minhas mãos e os meus pés: sou mesmo eu»

Comentário sobre o Evangelho de João

Ao entrar no Cenáculo com todas as portas fechadas, Cristo mostrou uma vez mais que é Deus por natureza e que não é diferente daquele que antes vivia com os discípulos. Ao descobrir o seu lado e ao mostrar a marca dos cravos, manifestava com evidência que reergueu o templo do seu corpo que tinha estado suspenso da cruz, destruindo a morte corporal pois, por natureza, Ele é a vida e é Deus...

Quando chegou o memento de transformar o seu corpo através de uma glória inexprimível e prodigiosa, vemo-lo que se preocupa tanto em confirmar a fé na ressurreição futura da carne que quis, de acordo com o plano divino, aparecer tal como era antes. Assim ninguém pensaria que Ele tinha então um corpo diferente do que tinha morrido na cruz.

Mesmo se Cristo tivesse querido manifestar a glória do seu corpo diante dos discípulos antes de subir para o Pai, os nossos olhos não teriam podido suportar tal visão. Compreendê-lo-eis facilmente se vos recordardes da Transfiguração que anteriormente tinha ocorrido sobre a montanha...

Por isso, a fim de cumprir exatamente o plano divino, o nosso Senhor Jesus apareceu ainda, no Cenáculo, sob o seu aspecto anterior e não segundo a glória que lhe é devida e que convém ao seu Templo transfigurado. Não queria que a fé na ressurreição se baseasse num aspecto e num corpo diferentes dos que recebeu da Santíssima Virgem e em que morreu, depois de ter sido crucificado segundo as escrituras. Com efeito, a morte só tinha poder sobre a sua carne, de onde iria ser expulsa. Porque, se não foi o seu corpo morto que ressuscitou, que espécie de morte foi então vencida?

«Aquele que é bem formado será como o seu mestre»

Comentário ao evangelho de Lucas

”O discípulo não está acima do mestre.” Porque é que estás a julgar quando o mestre ainda não julga? Porque ele não veio julgar o mundo mas derramar nele a sua graça. Entendida neste sentido, a palavra de Cristo passa a ser: “Se eu não julgo, não julgues tu também, tu que és meu discípulo. Pode acontecer que tu sejas culpado de faltas mais graves do que aquele que estás a julgar. Como será a tua vergonha quando disso tiveres consciência!

O Senhor dá-nos o mesmo ensinamento na parábola em que diz: “Porque te preocupas com a palha no olho do teu irmão?” Com argumentos irrefutáveis, ele convence-nos a não querer julgar os outros e a estarmos sobretudo atentos ao nosso íntimo. Em seguida, pede-nos que procuremos libertar-nos das paixões que aí se instalaram, pedindo a Deus essa graça. Com efeito, é ele quem cura os que têm o coração desfeito e nos liberta das nossas doenças espirituais. Porque, se os pecados que te esmagam são maiores e mais graves do que os dos outros, porque é que os criticas sem te preocupares com os teus?

Todos os que querem viver piedosamente e sobretudo os que têm o encargo de instruir os outros, tirarão necessariamente proveito deste preceito. Se forem virtuosos e moderados, dando com as suas acções o exemplo da vida evangélica, repreenderão com doçura aqueles que ainda não se tiverem decidido a fazer o mesmo.

A revelação do mistério escondido
desde antes da criação do mundo

65ª Homilia sobre Lucas

Consideremos as palavras que Jesus dirige por nós ao Pai, falando-Lhe a nosso respeito: “Escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”. De fato, Deus Pai revelou-nos o mistério escondido desde antes da criação do mundo no silêncio de Deus, o mistério do Filho Unigênito feito homem, o mistério conhecido desde antes da criação do mundo e revelado aos homens nos últimos tempos. São Paulo escreve: “A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo, e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde séculos em Deus, o criador de todas as coisas” (Ef 3, 8-9).

Este grande e adorável mistério do nosso Salvador estava, portanto, escondido no conhecimento do Pai, desde antes da criação do mundo. Também nós somos conhecidos desde antes e predestinados a ser adotados como filhos. São Paulo no-lo ensina igualmente quando escreve: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo. Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, de sua livre vontade, para sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo” (Ef 1, 3-5). O Pai revelou-nos, pois, a nós, os pequeninos, o mistério escondido desde todos os tempos… “A vós foi dado conhecer os mistérios do reino de Deus” (Lc 8,10), a vós, que acreditastes, que conhecestes a revelação de Cristo, que entendeis a lei no seu sentido espiritual, que estais aptos a compreender as profecias, que confessais que Cristo é Deus e Filho de Deus, a vós a quem o Pai teve por bem revelar o seu Filho.

«A multidão glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens»

O paralítico, incurável, estava estendido sobre o leito. Depois de ter esgotado a ciência dos médicos, transportado pelos seus, vem ao único e verdadeiro médico, o médico que vem do céu. Mas quando foi colocado diante daquele que podia curá-lo, foi a sua fé que atraiu o olhar do Senhor. Para mostrar melhor que esta fé destruía o pecado, Jesus declara imediatamente: «Os teus pecados estão perdoados». Dir-me-ão, talvez: «Se este homem queria ser curado da sua enfermidade, por que é que Cristo lhe fala da remissão dos pecados?» Era para que tu aprendesses que Deus vê o coração do homem no silêncio, sem ruído, e contempla os caminhos de todos os viventes. Com efeito, diz a Escritura: «O Senhor olha atentamente para os caminhos do homem e observa todos os seus passos» (Pr 5, 21)…»

Portanto, quando Cristo dizia: «Os teus pecados estão perdoados», deixava campo livre à incredulidade; o perdão dos pecados não se vê com os nossos olhos de carne. Quando o paralítico se levanta e caminha, é então que manifesta com evidência que Cristo possui o poder de Deus…

Quem possui este poder? Só Ele, ou também nós? Também nós, com Ele. Ele perdoa os pecados porque é homem-Deus, o Senhor da Lei. Quanto a nós, d’Ele recebemos esta graça admirável e maravilhosa, porque quis dar a cada homem este poder. Efetivamente disse aos apóstolos: «Em verdade vos digo: tudo o que desligardes na terra será desligado no céu» (Mt 18,18). E ainda: «Todo aquele a quem retiverdes os pecados, ser-lhes-ão retidos» (Jo 20,23).

«Pai, dei o Teu Nome a conhecer aos homens»

Comentário ao evangelho de João

O Filho deu a conhecer o Nome do Pai não só quando o revelou e nos deu um ensinamento preciso sobre a Sua divindade. Porque tudo isto já tinha sido proclamado antes da vinda do Filho, através da Escritura inspirada. Fê-lo também quando nos ensinou que Ele não só é verdadeiro Deus, mas também verdadeiro Pai, tendo em Si e gerando para fora de Si o Seu Filho, que participa da Sua natureza eterna.

O nome de Pai convém a Deus de forma mais precisa do que o nome de Deus: este é um nome de dignidade, aquele significa uma propriedade substancial. Porque, quem diz Deus, diz Senhor do universo. Mas quem Lhe chama Pai define a propriedade da pessoa: mostra que é Ele quem gera. Pelo emprego que dele faz, o próprio Filho nos mostra que o nome de Pai é mais verdadeiro e mais próprio que o de Deus. Ele dizia, muitas vezes, não "Eu e Deus" mas "Eu e o Pai somos um" (Jo 10, 30). E dizia também: "Foi a Ele, o Filho, que o Pai confirmou com o seu selo" (Jo 6, 27).

E, quando prescreveu aos seus discípulos que batizassem todos os povos, ordenou-lhes expressamente que o fizessem não em nome de Deus, mas em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.

«Escolheu doze e deu-lhes o título de Apóstolos, de enviados»

Comentários sobre o evangelho de João

Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu guias e mestres para o mundo inteiro, e “dispensadores dos mistérios divinos” (1 Co 4,1). Ordenou-lhes que brilhassem e iluminassem como archotes não só no país dos Judeus…, mas por toda a parte debaixo do sol, para os homens que habitem sobre toda a superfície da terra. É, portanto, verdadeira esta palavra de S. Paulo: “Ninguém atribui esta honra a si mesmo; recebemo-la por apelo de Deus” (He 5,4) …

Se ele achava que devia enviar os seus discípulos como o Pai o tinha enviado a ele (Jo 20,21), era necessário que estes, chamados a ser seus seguidores, descobrissem a que tarefa tinha o Pai enviado o Filho. Por isso nos explicou de diversas maneiras o carácter da sua própria missão. Disse um dia: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores, para que eles se convertam” (Lc 5,32). E também: “Eu desci do céu não para fazer a minha vontade mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6,38). E de outra vez: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para o julgar, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).

Resumia em algumas palavras a função dos apóstolos, dizendo que os tinha enviado como o Pai o tinha enviado a ele: saberiam assim que lhes competia chamar os pecadores a se converterem, cuidar dos doentes, corporal e espiritualmente; nas suas funções de dispensadores, não procurar de modo algum fazer a sua própria vontade mas a vontade daquele que os tinha enviado; a fim de salvarem o mundo na medida em que ele aceitar os ensinamentos do Senhor.

«Tomou a menina pela mão e disse-lhe...: 'Levanta-te!'»

Comentário sobre S. João

Até para ressuscitar os mortos, o Salvador não se contenta com agir através da palavra que, no entanto, é portadora das ordens divinas. Como cooperante, se assim se pode dizer, dessa obra tão fantástica, ele toma a sua própria carne, a fim de mostrar que ela tem o poder de dar a vida e para ensinar que ela lhe está intimamente ligada; ela é verdadeiramente a sua carne e não um corpo estranho. Foi o que aconteceu quando resuscitou a filha do chefe da sinagoga; ao dizer-lhe: "Menina, levanta-te", tomou-a pela mão. Como Deus que é, deu-lhe a vida através de uma ordem poderosa, mas deu-lhe a vida também através do contacto com a sua santa carne, testemunhando assim que uma mesma força divina age tanto no seu corpo como na sua palavra. De igual forma, quando chegou a uma cidade chamada Naim, em que iam enterrar o filho único de uma viuva, também tocou no caixão dizendo: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te! (Lc 7, 13-17).

Assim, não só confere à sua palavra o poder de ressuscitar os mortos mas também, para mostrar que o seu corpo dá a vida, toca nos mortos e, através da sua carne, faz a vida passar para os cadáveres. Se o simples contacto com a sua carne sagrada devolve a vida a um corpo que se decompõe, que proveito não encontraremos nós na sua vivificante Eucaristia quando fizermos dela o nosso alimento? Ela transformará totalmente no bem que lhe é próprio, quer dizer, na imortalidade, aqueles que nela tiverem participado.

Ou:

[Assim que Cristo entrou em nós pela sua própria carne, nós revivemos inteiramente; é inconcebível, ou mais ainda, impossível, que a vida não faça viver aqueles nos quais ela se introduziu. Como se cobre um tição ardente com um montão de palha para guardar intacto o germe do fogo, assim nosso Senhor Jesus Cristo esconde a vida em nós pela sua própria carne e coloca aí como uma semente de imortalidade que afasta toda a corrupção que trazemos em nós.

Não é pois apenas pela sua palavra que ele realiza a ressurreição dos mortos. Para mostrar que o seu corpo dá a vida, como tínhamos dito, ele toca os cadáveres e pelo seu corpo dá a vida a esses corpos já em vias de desintegração. Se o simples contacto da sua carne sagrada restitui a vida a esses mortos, que beneficio não encontraremos nós na sua eucaristia vivificante quando a recebemos!... Não será suficiente que apenas a nossa alma seja regenerada pelo Espírito para uma vida nova. O nosso corpo denso e terrestre também deve ser santificado pela sua participação num corpo também denso e da mesma origem que o nosso e deve ser chamado também à incorruptibilidade.]


Fonte:

Evangelho Cotidiano

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