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O Mistério Pascal

Comentários Litúrgicos

Alexandre Schmémann, Olivier Clément

 
 
1. Introdução
2. A Semana Santa:
  2.1 - O Sábado de Lázaro: Prelúdio da Cruz
2.1 - O Domingo de Ramos (Hosana)
2.3 - Segunda, terça e quarta-feira (o Fim)
    2.1.1 - A Segunda-Feira
2.3.2 - A Terça-Feira
2.3.3 - A Quarta-Feira
  2.5 - A Quinta-Feira Santa (a última Ceia)
2.6 - A Grande Sexta-Feira: a Cruz
2.7 - O Santo Sabbat
2.8 - A Celebração Pascal
    2.8.1 - As Vésperas do Sábado Santo (A Antiga Vigília Pascal)
2.8.2 - Ressurreição no Antigo Testamento
2.8.3 - As Grandes Obras de Deus e Sua Tipologia
2.8.4 - Profecias Messiânicas
2.8.5 - As Matinas Pascais (A Noite Santa)

1. Introdução

«Cristo ressuscitou, minha alegria!»

om estas palavras é que São Serafim de Sarov, o grande monge russo transfigurado em princípios do século XIX acolhia os incontáveis visitantes que vinham procurar nele um conselho espiritual ou um pouco de conforto. O espírito das Igrejas do Oriente exprime-se admiravelmente nesta saudação pascal, impregnada de uma alegria luminosa.

As igrejas de rito bizantino são de fato Igrejas da Ressurreição. Isto não quer dizer que a Ortodoxia minimize a importância da cruz ou não tenha dela o sentido. Muito pelo contrário, estas Igrejas, seja nos países eslavos, na Romênia, Grécia ou Oriente Próximo, são há séculos Igrejas sofredoras. Para seus fiéis, a opressão e freqüentemente o martírio foram, praticamente à cada página de sua história, realidades cotidianas; ousar-se-ia quase dizer que tornaram-se a seus olhos a condição normal do cristão.

Mais precisamente, essas Igrejas guardaram o espírito que impregnava tão profundamente os cristãos dos primeiros séculos, como nos revelam as cartas de Santo Ignácio de Antioquia ou os incontáveis atos dos mártires: o sofrimento do cristão e seu confronto sangrento com os poderes persecutórios deste mundo aparecem aí sempre transfigurados pela certeza da vitória pascal. A cruz, para aquele que possui esta fé bem viva no seu coração, não é mais somente o instrumento do suplício, mas também o meio e o emblema do triunfo sobre o mundo, o pecado e a morte.

Este selo pascal que marca tão profundamente os cristãos ortodoxos, de nacionalidades tão diversas, é muito menos o produto de uma mentalidade particular ou de um caráter étnico, do que a expressão de uma alma comum forjada, antes de tudo, pelas celebrações do rito bizantino, que dão notadamente às festas pascais uma importância e um esplendor inigualáveis. Melhor que qualquer catequese, elas estão aptas a transmitir a fé no mistério do Cristo, que elas tornam novamente presente na sua totalidade. Cada vez que delas participa, o fiel sente despertar e firmar-se sempre mais no seu coração, sob a ação do Espírito, a certeza íntima da vitória do Cristo. E essa experiência interior é infinitamente mais que uma simples emoção subjetiva: sua estrutura e suas normas são dadas pela própria Igreja que, por meio dos textos e dos ritos que ela inspirou e aprovou ao longo dos séculos, faz cada um participar, de uma maneira verdadeiramente pessoal, de sua própria visão dos mistérios de Deus.

É assim que no decorrer dos dias da Semana Santa, os fiéis seguem, quase que hora a hora, os episódios da paixão. Relatados nos textos evangélicos que, incansavelmente, eles relêem e cantam admiráveis textos, impregnados ao mesmo tempo de uma profunda ternura humana e de um frêmito sagrado diante da majestade d'Aquele que se rebaixou, por amor a nós, até suportar as ofensas, a derisão e o suplício da cruz.

Então, quando começam as matinas da santa noite de Páscoa, a ressurreição do Cristo torna-se presente para todos. A morte é absorvida pela vida, e o sentido último de todas as coisas é revelado aos fiéis na luz gloriosa que jorra do rosto do Ressuscitado. Deus criou o mundo para a Ressurreição, para que todos os seres participem de sua alegria e sejam iluminados pelo seu esplendor. Todos aqueles que contemplam, na celebração litúrgica, a santa humanidade do Cristo revestida da própria glória que o Verbo de Deus possuía junto ao Pai antes que o mundo fosse, compreendam que nele esta mesma glória já nos é misteriosamente concedida, e esta certeza funda uma esperança que nada mais conseguirá vencer.

Aos olhos dos cristãos ortodoxos, a santa humanidade do Cristo ressuscitado aparece assim, segundo uma expressão querida aos Padres da Igreja, como uma "brasa ardente" impregnada do fogo incriado da divindade. Quem quer que entre em contato com ele pela fé, que sobretudo o receba em si pela comunhão eucarística e coopere nesta graça, será inflamado, ele também, por este fogo. Mas, tal como a sarça ardente contemplada antigamente por Moisés, ele não será nem consumido, nem destruído: este fogo divino apenas o arrancará dos limites de seu "eu" muito terrestre, o purificará de todos os fermentos do egoísmo e do orgulho, o iluminará com seu esplendor, e tornará seu coração completamente ardente do amor do Senhor Jesus, de seus irmãos e de toda a Criação.

Depois que Cristo saiu resplandecente do túmulo, revestido novamente da carne que ele havia tomado da Virgem Maria, uma parcela de nosso universo alcançou o último contorno em vista do qual Deus havia criado o mundo. E no seio deste universo, este corpo ressuscitado e transfigurado pelo brilho da divindade é como uma faísca jogada na palha; o Cristo ressuscitado, o Pantokrator (Todo Poderoso) do Apocalipse de São João, exerce sobre todas as coisas uma soberania que consiste no poder de lhes comunicar, na medida em que as liberdades criadas não recusem este dom, a vida, a luz e a alegria da trindade feliz.

Tal é o fundamento inabalável de nossa fé e de nossa esperança, tal é a força da alegria divina que deve brotar em nossos corações até a vida eterna. "É justo que os Céus rejubilem, que a terra permaneça na alegria, que o mundo esteja em festa, o visível e o invisível, pois Cristo, a alegria eterna, ressuscitou" (Matinas de Páscoa).

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A Semana Santa

O Sábado de Lázaro: Prelúdio da Cruz

«Tendo completado o percurso dos 40 dias...
nós suplicamos ver a Semana Santa da tua paixão.»

É com essas palavras, cantadas nas vésperas da sexta-feira de Ramos, que termina a quaresma, e que entramos na comemoração anual dos sofrimentos de Cristo, de sua morte e de sua ressurreição. Ela começa no sábado de Lázaro. A festa da ressurreição de Lázaro, somada à da entrada do Senhor em Jerusalém, é chamada nos textos litúrgicos: "Prelúdio da Cruz." É portanto no contexto da grande semana que o significado desta festa dupla fica mais claro. O tropário comum à esses dois dias nos diz:

«Ressuscitando Lázaro,
o Cristo confirmou a verdade da Ressurreição Universal.»

Aqueles que estão familiarizados com a liturgia ortodoxa, conhecem o caráter singular e paradoxal dos ofícios desse sábado de Lázaro. Esse sábado é celebrado como um domingo, quer dizer que se celebra aí o ofício da Ressurreição quando, normalmente, o sábado é consagrado à comemoração dos defuntos. A alegria que ressoa no ofício sublinha o tema principal: a vitória próxima de Cristo sobre o Hades. Na Bíblia, o Hades significa a morte e seu poder universal, a noite inevitável e a destruição que traga toda a vida, envenenando com suas trevas devastadoras o mundo inteiro. Mas eis que, pela ressurreição de Lázaro, "a morte começa a tremer"; é o começo de um duelo decisivo entre a vida e a morte, um duelo que nos dá a chave de todo o mistério litúrgico da Páscoa. Para a Igreja primitiva, o sábado de Lázaro era, o "anúncio da Páscoa"; de fato, esse sábado proclama e já faz aparecer a maravilhosa luz e a paz do sábado seguinte: o grande e santo Sábado, o dia do túmulo vivificante que dá a vida.

Compreendemos logo que Lázaro, "o amigo de Jesus," personifica cada um de nós e toda a humanidade, e que Betânia, "a casa" do homem Lázaro, é o símbolo de todo o universo, habitat do homem. Todo homem foi criado amigo de Deus e chamado a esta amizade divina que consiste no conhecimento de Deus, na comunhão com ele, o compartilhar da mesma vida: "A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens" (João 1:4). E portanto este amigo bem amado de Deus, criado por amor, ei-lo destruído, aniquilado por um poder que Deus não criou: a morte. Deus é afrontado em sua obra por um poder que a destrói e torna nulo seu desígnio. A criação é apenas tristeza, lamentação, lágrimas e finalmente morte. Como é possível? Essas questões se encontram latentes no texto detalhado que João nos faz da vinda de Jesus à tumba de seu amigo. "Uma vez chegado à tumba de seu amigo," diz o evangelista, "Jesus chorou" (João 11:35). Por que ele chora, uma vez que ele sabe que dentro de um instante ele ressuscitará Lázaro à vida?

Os hinógrafos bizantinos não souberam compreender o sentido verdadeiro dessas lágrimas, atribuindo-as à sua natureza humana, uma vez que, de sua natureza divina ele detinha o poder de ressuscitar os mortos. Entretanto, a Igreja ortodoxa ensina claramente que todas as ações de Cristo são teândricas, isto é, ao mesmo tempo divinas e humanas, sendo as ações do único e mesmo Deus-Homem, o Filho de Deus encarnado. É o Homem-Deus que vemos chorar, é o Homem-Deus que fará sair Lázaro de seu túmulo. Ele chora. . . são lágrimas divinas; ele chora porque contempla o triunfo da morte e da destruição da criação saída das mãos de Deus. "Ele já cheira mal," dizem os judeus, como para impedir Jesus de se aproximar do corpo; terrível advertência que vale para todo o universo, para toda a Vida. Deus é Vida e Doador de Vida, ele chamou o homem para esta realidade divina da vida, e eis "que ele cheira mal." O mundo foi criado para refletir e proclamar a glória de Deus, e eis "que ele cheira mal"! No túmulo de Lázaro Deus encontra a morte, a realidade da antivida, da destruição e do desespero. Ele se encontra face à face com seu Inimigo que lhe arrebatou a criação, que era sua, para tornar-se o Príncipe. Nós que seguimos Jesus se aproximando do túmulo, entramos com ele na sua Hora, aquela que ele anunciou freqüentemente como o apogeu e o cumprimento de toda sua obra. Neste curto versículo do Evangelho: "Jesus chorou," é a Cruz que é anunciada, sua necessidade e seu significado universal. Compreendemos agora que é porque "Jesus chorou," melhor dizendo porque ele amava seu amigo Lázaro, que ele tem o poder de o chamar à vida. A ressurreição não é a simples manifestação de um poder divino, mas antes o poder de um amor, o amor tornado poder. Deus é Amor e Amor é Vida, ele é criador de vida. . . É o Amor que chora sobre o túmulo e é o Amor também que dá a vida; lá está o sentido das lágrimas divinas de Jesus. Elas nos mostram o amor de novo à obra, recriando, resgatando e restaurando a vida humana presa das trevas: "Lázaro, sai para fora!..."

Eis porque esse sábado de Lázaro inaugura ao mesmo tempo a cruz como supremo sacrifício de Amor, e a ressurreição como seu último triunfo:

«O Cristo é para todos alegria, verdade, luz e vida,
Ele é a ressurreição do mundo,
n'Ele o amor apareceu para aqueles que estão na terra,
imagem da ressurreição,
concedendo a todos o perdão divino.»

(Kondakion do Sábado de Lázaro)

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O Domingo de Ramos (Hosana)

Do ponto de vista litúrgico, o sábado de Lázaro se apresenta como a preparação do Domingo de Ramos; dia em que se celebra a entrada do Senhor em Jerusalém. Essas duas festas têm um tema em comum: o triunfo e a vitória. O sábado revelou o Inimigo que é a morte; o domingo anuncia a vitória, o triunfo do Reino de Deus e a aceitação pelo mundo de seu único Rei, Jesus Cristo. A entrada solene na cidade santa foi, na vida de Jesus, seu único triunfo visível; até aí, ele tinha recusado qualquer tentativa de ser glorificado e é apenas seis dias antes da Páscoa que ele não só aceitou de bom grado, como provocou mesmo o acontecimento. Cumprindo ao pé da letra o que dissera o profeta Zacarias )— "Eis o teu Rei que vem montado numa jumenta" (Zac. 9:9), ele mostra claramente que queria ser reconhecido e aclamado como o Messias, Rei e Salvador de Israel. O texto do Evangelho sublinha, com efeito, os traços messiânicos: os ramos, o canto de Hosanna, a aclamação de Jesus como Filho de Davi e Rei de Israel. A história de Israel chega ao seu fim: tal é o sentido deste acontecimento. O sentido desta história era o de anunciar e preparar o Reino de Deus, a vinda do Messias. Hoje é o dia em que isto se cumpre, pois eis que o Rei entra em sua cidade santa e nele todas as profecias e toda a espera de Israel encontram seu término: ele inaugura seu Reino.

A liturgia deste dia comemora este acontecimento; com os ramos nas mãos, nós nos identificamos com o povo de Jerusalém, com o qual saudamos o humilde Rei, recitando-lhe nossa Hosanna. Mas, qual é o sentido disto para nós, hoje?

Primeiramente, nós proclamamos que o Cristo é nosso Rei e nosso Senhor. Muito freqüentemente nós nos esquecemos que o Reino de Deus já foi inaugurado, que no dia do nosso Batismo nós fomos feitos cidadãos dele, e que nós prometemos colocar nossa fidelidade a esse Reino acima de qualquer outra. Não esqueçamos que, durante algumas horas, o Cristo foi verdadeiramente Rei sobre a terra, Rei neste mundo que é o nosso. Por algumas horas apenas e numa única cidade. Mas, da mesma maneira que em Lázaro nós reconhecemos a imagem de todo homem, podemos ver nesta cidade o centro místico do mundo e de toda a criação. Tal é o sentido bíblico de Jerusalém, a cidade, o ponto focal de toda a história da salvação e da redenção, a santa cidade do Advento de Deus. O Reino inaugurado em Jerusalém é, pois, um Reino universal, abraçando todos os homens, e a criação inteira. .. por algumas horas, e entretanto, essas horas são decisivas; é a hora de Jesus, a hora do cumprimento por Deus de todas as suas promessas e de todas as suas vontades. Essas horas são o término de toda a longa preparação revelada pela Bíblia e o cumprimento de tudo aquilo que Deus quis fazer pelos homens. E assim, este breve momento de triunfo terrestre do Cristo adquire uma significação eterna. Ele introduz a realidade do Reino de Deus no nosso tempo, em cada uma de nossas horas, fazendo deste Reino aquilo que dá ao tempo o seu sentido, sua finalidade última. A partir dessa hora, o Reino é revelado ao mundo e sua presença julga e transforma a história humana. E quando do momento mais solene da celebração litúrgica, nós recebemos um ramo das mãos do padre, nós renovamos nossa promessa a nosso Rei, e nós confessamos que o seu Reino é o único objetivo de nossa vida, a única coisa que dá um sentido a ela. Nós confessamos também que tudo, na nossa vida e no mundo, pertence ao Cristo, que nada pode ser subtraído ao único e exclusivo Mestre e que nenhum domínio de nossa existência escapa de seu império e de sua ação redentora. Enfim, nós proclamamos a universal e total responsabilidade da Igreja com relação à história da humanidade e nós afirmamos sua missão universal.

No entanto, nós sabemos, o Rei que os judeus aclamam hoje, e nós com eles, se encaminha para o Gólgota, para a cruz e para o túmulo. Nós sabemos que este breve triunfo é apenas o prólogo de seu sacrifício. Os ramos em nossas mãos significam, desde então, nosso ardor em segui-lo no caminho do sacrifício, nossa aceitação do sacrifício e nossa renúncia a nós mesmos, em que reconhecemos a única estrada real que conduz ao Reino.

E, finalmente, os ramos, essa celebração, proclamam nossa fé na vitória final do Cristo. Seu Reino ainda está oculto e o mundo o ignora. O mundo vive como se o acontecimento decisivo jamais tivesse ocorrido, como se Deus não tivesse morrido na cruz e como se, nele, o homem não tivesse ressuscitado dentre os mortos. Mas nós, cristãos, cremos, na chegada desse Reino onde Deus será tudo em todos, e onde o Cristo aparecerá como o único Rei.

As celebrações litúrgicas nos relembram acontecimentos passados; mas todo o sentido e toda a virtude da liturgia consistem precisamente em transformar a lembrança em realidade. Neste Domingo de Ramos, a realidade em questão é a nossa própria implicação neste Reino de Deus, é nossa responsabilidade a seu respeito. O Cristo não entra mais em Jerusalém; ele o fez de uma vez por todas. Ele não cuidou do "símbolo" e, certamente, não foi para que nós possamos perpetuamente "simbolizar" sua vida, que ele morreu na cruz. O que ele espera de nós, é um real acolhimento do Reino que ele nos trouxe. . . e se nós não estivermos prontos a sermos totalmente fiéis ao juramento que renovamos a cada ano, o Domingo de Ramos, se de fato não estivermos decididos a fazer do Reino a base de toda nossa vida, então nossa celebração é vã, vãos e sem significado são os ramos que levamos da igreja para nossas casas.

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Segunda, terça e quarta-feira (o Fim)

Esses três dias, que a Igreja chama de grandes e santos, têm, dentro do desenrolar da semana santa, uma finalidade bem definida. Eles situam as celebrações dentro da perspectiva do Fim, eles nos relembram o sentido escatológico da Páscoa. Muito freqüentemente a semana santa é considerada como uma "linda tradição," um "costume," uma data importante do calendário. É o acontecimento anual esperado e amado, a Festa "observada" desde a infância, durante a qual a gente se encanta com a beleza dos ofícios, com o fausto dos ritos, e na qual a gente se ocupa de preparar a ceia pascal, que não é de menor importância. . . Depois, uma vez que tudo isto tenha acabado, nós retomamos a vida normal. Mas, teremos mesmo consciência de que "a vida normal" não é mais possível depois que o mundo rejeitou seu Salvador, depois que "Jesus ficou triste e abatido.. .," que sua alma "ficou infinitamente triste até a morte. . ." e que ele morreu na cruz? Foram mesmo homens "normais" que gritaram: "Crucifica-o!" Homens normais que cuspiram nele e o pregaram na cruz. . . Se eles o odiaram e o mataram, é precisamente porque ele veio sacudir e desestabilizar sua vida normal. Foi mesmo um mundo perfeitamente "normal" que preferiu as trevas e a morte, em lugar da vida e da luz. . . pela morte de Jesus o mundo "normal," a vida "normal" foram irrevogavelmente condenados. Ou, mais exatamente, o mundo e a vida revelaram sua natureza verdadeira e anormal, sua incapacidade de acolher a luz, o terrível poder que o mal exerce sobre eles. "É agora o julgamento deste mundo" (João 12:31). A Páscoa de Jesus significa o fim para "este mundo" e, desde então, ele está "no seu fim." Este fim pode se estender por centenas de séculos, mas isto não altera em nada a natureza dos tempos em que vivemos, que é "o último tempo." "O rosto deste mundo passa" (ICor. 7:31).

Páscoa significa "passagem"; para os judeus a festa da Páscoa era a comemoração anual de toda sua história, enquanto salvação, e da salvação enquanto passagem da escravidão no Egito à liberdade, do exílio à Terra prometida. A Páscoa era também a prefiguração da derradeira passagem, que conduz ao Reino de Deus. Ele, o Cristo, é o cumprimento da Páscoa. Ele completou a derradeira passagem, a da morte para a vida, deste "mundo velho" ao mundo novo, ao tempo novo do Reino. Ele tornou possível para nós esta passagem. Vivendo "neste mundo," nós podemos já "não ser deste mundo"; quer dizer, estarmos livres da escravidão da morte e do pecado, participantes do "mundo que há de vir." Mas, é necessário para tanto cumprirmos nossa própria passagem, condenar o velho Adão em nós mesmos, revestir o Cristo na morte batismal e ter nossa verdadeira vida oculta em Deus com o Cristo, no "mundo que há de vir."..

A Páscoa não é, pois, mais uma comemoração, bonita e solene, de um acontecimento passado. É o próprio acontecimento manifestado, dado a nós, acontecimento sempre eficiente, que revela que o nosso mundo, nosso tempo e nossa vida estão no seu fim, e que anuncia o começo da vida nova. O papel dos três primeiros dias da semana santa é, precisamente, o de nos colocar diante do sentido último da Páscoa, de nos preparar para compreendê-la em toda sua amplidão.

Esta orientação escatológica, quer dizer, última, decisiva e final, é bem sublinhada pelo tropário comum a esses três dias:

«Eis que aparece o Esposo no meio da noite!
Feliz o cervo que Ele encontrar acordado,
infeliz o que Ele encontrar indolente.
Vigia, pois, ó minh'alma:
não te deixes vencer pelo sono!
À morte tu serias entregue,
para fora do Reino banida.
Mas, acorda e clama:
Santo, Santo, Santo és Tu, ó Deus!
pelas orações da Mãe de Deus,
tem piedade de nós!»

Meia-noite é o instante em que o dia velho termina para dar lugar a um novo dia. Esta hora é assim para o cristão o símbolo do tempo em que vive. Por um lado, a Igreja está ainda neste mundo, compartilhando de suas fraquezas e tragédias. Por outro, seu ser verdadeiro não é deste mundo, pois ela é a Esposa de Cristo e sua missão é de anunciar e revelar a chegada do Reino e do novo Dia. Sua vida é um velar perpétuo e uma espera, uma vigília orientada para a aurora desse novo Dia. . . mas nós sabemos o quanto nosso apego ao "velho dia," ao mundo, com suas paixões e pecados, permanece ainda bastante tenaz. Nós sabemos o quanto ainda pertencemos profundamente a "este mundo." Nós vimos a luz, nós conhecemos o Cristo, nós ouvimos falar da paz e da alegria da vida nova nele, e, entretanto, o mundo nos mantém ainda em escravidão. Esta fraqueza, esta constante traição ao Cristo e esta incapacidade de dedicar a totalidade do nosso amor ao único objeto de amor verdadeiro, são magnificamente expressadas no exapostilário desses três dias:

«Eu contemplo tua câmara nupcial,
ó Salvador meu!
Ela está toda enfeitada,
e eu não tenho as vestes para nela entrar.
Torna luminosa a roupagem da minha alma,
ó Tu que dás a luz,
e salva-me!»

O mesmo tema é ainda mais desenvolvido nas leituras do Evangelho destes dias. Primeiro, é o texto inteiro dos quatro evangelhos (até João 13:31), lido nas Horas (Prima, Tércia, Sexta, Nona), que mostra que a cruz é o apogeu de toda a vida de Jesus e de seu mistério, a chave para verdadeiramente o compreender. Tudo, no Evangelho, conduz a esta última "hora de Jesus" e tudo deve ser visto sob sua luz. Em seguida, cada ofício possui seu próprio pericópio de evangelho.

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A Segunda-Feira

Nas matinas: Mateus 21:18-43 — a parábola da figueira estéril, símbolo do mundo criado para dar frutos espirituais e relutante em sua resposta a Deus.

Na liturgia dos Pré-santifícados: Mateus, 24:3-35 — o grande discurso escatológico de Jesus, os sinais e o anúncio do Fim. "O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão."

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A Terça-Feira

Nas matinas: Mateus 22:15 e 23-39 — condenação do farisaísmo, quer dizer, da religião cega e hipócrita daqueles que pensam que são condutores de homens e a luz do mundo, mas que, de fato, "fecham o Reino dos céus aos homens."

Na liturgia dos Pré-santifícados: Mateus 24:36-26:2 — o Fim; as parábolas do Fim: as cinco virgens que têm óleo suficiente em suas lâmpadas, e as cinco néscias que não são admitidas no banquete de núpcias; a parábola dos dez talentos: "Estejai prontos, pois eis que o Filho do Homem virá à hora em que não o pensais." E finalmente, o Juízo Final.

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A Quarta-Feira.

Nas matinas: João 12Ю:17-50 — a rejeição do Cristo; o acirramento do conflito; o último aviso: "É agora o julgamento deste mundo. . . aquele que me rejeita e não recebe minhas palavras terá seu juiz: a palavra que anunciei, ela é que o julgará no último dia."

Na liturgia dos Pré-santifícados: Mateus 26:6-16 — a mulher que derrama o óleo precioso sobre Jesus, imagem do amor e do arrependimento que, sozinhos, nos unem ao Cristo.

Estes pericópios do evangelho são explicados e comentados na hinografia desses dias: os estiquérios (stykeroi), as triodes (cânones curtos de três odes cantados nas matinas) ao longo dos quais ecoa esta exortação: o fim e o julgamento estão próximos, preparemo-nos!

«Indo, Senhor, para Tua Paixão voluntária,
no caminho Tu dizias aos Teus apóstolos:
Eis que subimos a Jerusalém
e que o Filho do Homem será entregue,
segundo o que d'Ele está escrito.
Vamos, pois, nós também, acompanhemo-lo,
o espírito purificado;
sejamos crucificados com ele
e morramos Nele para as volúpias da vida
a fim de vivermos com ele e de escutá-lo dizer:
"Eu não subo mais a Jerusalém terrestre para sofrer,
mas subo para meu Pai e vosso Pai,
para meu Deus e vosso Deus,
e eu vos farei subir comigo para a Jerusalém do alto,
no Reino dos Céus.»

(Segunda-feira nas Matinas)

«Ó, minh'alma,
eis que o Mestre te confiou um talento.
Recebe este dom com temor;
Faze-o frutificar para aquele que to deu;
distribua-o aos pobres
e tu terás o Senhor como amigo.
Assim, quando Ele vier em Sua glória,
tu ficarás a Sua direita
e tu ouvirás a palavra bem-aventurada:
"Entra, servo meu, na alegria de teu Mestre"
"Em Tua grande misericórdia,
faz que eu seja digno, apesar do meu afastamento,
oh, Salvador!»

(Terça-feira nas Matinas)

Durante todo o tempo de quaresma, lê-se nas vésperas dois livros do Antigo Testamento: o Gênesis e os Provérbios; no começo da Semana Santa, eles são substituídos pelo Êxodo e pelo Livro de Jó. O Livro do Êxodo é a história da libertação de Israel da escravidão no Egito, e de sua Páscoa; ele nos predispõe a alcançar o sentido do êxodo do Cristo rumo a seu Pai, do cumprimento Nele de toda a história da salvação. Jó, o homem da dor, é o ícone de Cristo do Antigo Testamento. Esta leitura anuncia o grande mistério dos sofrimentos do Cristo, de sua obediência e de seu sacrifício.

A estrutura litúrgica destes três dias é ainda aquela dos ofícios de quaresma: ela compreende a oração de Santo Efrém, o Sírio, e as metanóias que o acompanham (1), a leitura mais longa do salmodiário, a Liturgia dos Pré-Santificados e o canto litúrgico da quaresma. Nós estamos ainda no tempo do arrependimento, porque só o arrependimento pode nos fazer participar da Páscoa de nosso Senhor e nos abrir as portas do festim pascal.

Na grande e santa quarta-feira, durante a última Liturgia dos Pré-santificados, depois de ter alçado os santos Dons sobre o altar, o padre lê uma última vez a oração de Santo Efrém. Neste momento, a preparação chega a termo. O Senhor nos convida agora para a sua última Ceia.

«Senhor e mestre de minha vida
Afasta de mim o espírito de preguiça,
o espírito de dissipação
de domínio e de vã loquacidade
Concede a teu servo
o espírito da temperança
de humildade
de paciência e de caridade
Sim, Senhor e Rei,
Concede-me que veja as minhas faltas
e que não julgue a meu irmão
pois tu és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.»

(l) Esta oração, atribuída a Santo Efrém, o Sírio, é lida duas vezes ao final de cada ofício de quaresma, de segunda a sexta-feira: diz-se uma primeira vez fazendo uma metanóia depois de cada súplica; depois inclina-se doze vezes dizendo: "Ó Deus, purifica-me, pecador!"; por fim, repete-se toda a oração com uma última prosternação no final.

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A Quinta-Feira Santa - (a Última Ceia).

Dois acontecimentos marcam a liturgia da grande e santa Quinta-feira: a última Ceia do Cristo com seus discípulos e a traição de Judas. Um e outro encontram seu sentido no amor. A última Ceia é a revelação última do amor redentor de Deus pelo homem, do amor enquanto a essência mesma da salvação. A traição de Judas, por sua vez, mostra que o pecado, a morte, a destruição de si mesmo, provêm também do amor, mas de um amor desfigurado, desviado daquilo que merece verdadeiramente ser amado. Tal é o mistério deste dia único cuja liturgia, impregnada ao mesmo tempo de luz e de trevas, de alegria e de dor, nos coloca diante de uma escolha decisiva da qual depende o destino eterno de cada um de nós.

"Jesus, sabendo que era chegada a hora de passar deste mundo para seu Pai, tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até o fim. . " (João 13:1). Para compreender de fato a última Ceia, é preciso ver nela o desembocar deste grande movimento de amor divino que começou com a criação do mundo e que, agora, irá atingir sua plenitude na morte e na ressurreição do Cristo.

"Deus é Amor" (João 4:8). E o primeiro dom do Amor foi a vida. Esta era essencialmente uma comunhão. Para viver, o homem devia se nutrir, comer e beber, comungar o mundo. O mundo era, pois, amor divino tornado alimento, tornado corpo do homem. Estando vivo, isto é, comungando o mundo, o homem devia estar em comunhão com Deus, fazer de Deus a finalidade e a substância de sua vida. Comungar o mundo recebido de Deus era, na verdade, comungar Deus. O homem recebia seu alimento de Deus e, transformando-o em seu corpo e sua vida, ele oferecia o mundo inteiro a Deus, ele o transformava em vida em Deus e com Deus. O amor de Deus havia dado a vida ao homem, o amor do homem por Deus transformava esta vida em comunhão com Deus. Era o Paraíso. A vida ali era de fato eucarística. Pelo homem, por seu amor por Deus, toda a criação devia ser santificada e transformada em sacramento universal da presença divina, e o homem era o padre deste sacramento.

Mas, pelo pecado, o homem perdeu esta vida eucarística. Ele a perdeu, porque deixou de olhar o mundo como um meio de comunhão com Deus e sua vida como uma eucaristia, uma adoração e um louvor... ele amou-se a si próprio e ao mundo em si mesmo; ele se fez centro e fim de sua própria vida. Ele imaginou que a fome a sede, quer dizer, o estado de dependência no qual se encontrava sua vida com relação ao mundo, poderiam ser satisfeitas pelo próprio mundo, pelo alimento como tal. Mas o mundo e o alimento, se forem despojados de seu sentido primordial de sacramentos, ou seja, meios para comunhão com Deus, se não forem acolhidos com fome e sede de Deus; em outras palavras, se Deus não está mais ali, o mundo e o alimento não podem mais dar a vida, nem satisfazer fome alguma, pois eles não têm a vida em si mesmos. Amando-os por eles mesmos, o homem desviou seu amor do único objeto de todo amor, de toda fome, de todo desejo. . . e ele morreu. Porque a morte é a inevitável "decomposição" da vida amputada de sua única fonte e daquilo que lhe dá seu sentido.

O homem encontra a morte ali onde ele esperava encontrar a vida. Sua vida tornou-se uma comunhão com a morte, porque em lugar de transformar o mundo em comunhão com Deus pela fé, pelo amor e pela adoração, ele submete-se inteiramente ao mundo; ele deixou de ser o padre para tornar-se o escravo dele. E por este pecado do homem, o mundo inteiro tornou-se um cemitério onde os povos, condenados à morte, comungam a morte, "plantados nas trevas da morte" (Mt. 4:16).

O homem traiu, mas Deus permaneceu fiel ao homem. Como nós dizemos na Liturgia de São Basílio: "Tu não rejeitaste para sempre a criatura que afeiçoaste, Ó Deus de bondade, nem esqueceste a obra de Tuas mãos; mas Tu a visitaste de várias maneiras na ternura de Teu coração." Uma nova obra divina ia começar: a da redenção e da salvação. Ela se cumpriria no Cristo, o Filho de Deus, que para dar outra vez ao homem sua beleza original e devolver à sua vida o caráter de comunhão com Deus, se fez homem, tomou sobre Si nossa natureza, com sua sede e sua fome, com seu desejo e amor pela vida. Nele, a vida foi revelada, dada, aceita, cumprida como uma perfeita eucaristia, uma total e perfeita comunhão com Deus. O Cristo rejeitou a tentação fundamental do homem, "viver somente do pão," e revelou que é Deus e seu Reino que são o verdadeiro alimento, a verdadeira vida do homem. E desta perfeita vida eucarística, repleta de Deus, portanto divina e imortal, ele faz dom a todos aqueles cuja vida encontra nele todo seu sentido e seu conteúdo. Tal é a rica significação da última Ceia. O Cristo se oferece como alimento verdadeiro do homem, pois a vida manifestada nele é a verdadeira vida. Assim, o movimento de amor que começa no Paraíso com o divino "tomai e comei. . " (porque se nutrir é a vida do homem) atinge sua plenitude com o "Tomai e comei" do Cristo (porque Deus é a vida do homem). A última Ceia recria o Paraíso de delícias, restaura a vida enquanto eucaristia e comunhão.

Esta hora de amor extremo é também a da mais extrema traição. Judas deixa a luz da câmara alta para afundar-se dentro da noite. "Era de noite" (João 13:30). Por que ele parte? "Ele ama," responde o Evangelho, e os hinos da Quinta-feira santa sublinham diversas vezes este amor fatal. Importa pouco, com efeito, que este amor consista no "dinheiro." O dinheiro aqui, simboliza todo amor pervertido e desviado que leva o homem a trair a Deus. É um amor roubado a Deus e Judas é, pois, o "ladrão." O homem, mesmo se não é mais Deus ou em Deus que ele ama, não cessa de amar e de desejar, pois ele foi criado para o amor, e o amor é a sua própria natureza; mas é então uma paixão cega e auto-destrutiva e a morte é dela o fim. A cada ano, quando nos afogamos nesta luz e nesta profundeza insondáveis da grande Quinta-feira, a mesma questão crucial nos é colocada: respondo ao amor do Cristo e aceito que ele se torne minha vida, ou serei eu o Judas na Sua noite?

Os ofícios da grande Quinta-feira compreendem: as matinas, as vésperas seguidas da Liturgia de São Basílio, o Grande. Nas igrejas catedrais, o lava-pés tem lugar após à Liturgia; enquanto o Diácono lê o Evangelho, o bispo lava os pés de doze padres, nos relembrando que é o amor do Cristo que é o fundamento da vida na Igreja e que, no seio desta, está o modelo de toda relação. É também nesta grande Quinta-feira que os santos óleos são consagrados pelos chefes das Igrejas autocéfalas; esta cerimônia significa que o amor novo do Cristo é o dom que recebemos do Espírito no dia de nossa entrada na Igreja.

Nas matinas, o tropário dá o tema do dia: a oposição entre o amor do Cristo e o desejo insaciável de Judas:

«Enquanto que os gloriosos discípulos
estavam iluminados pela lavagem dos pés,
o ímpio Judas, enegrecido pelo amor ao dinheiro,
vendeu aos juizes indignos o justo Juiz.
"Ó Tu, amante do dinheiro,
olha aquele que se enforcou por causa dele!
Afasta-te pois deste desejo insaciável,
quem ousou realizar uma tal ação contra o Mestre.
"Mas Tu, Senhor, bom para todos, glória a Ti!»

Depois da leitura do Evangelho (Luc. 12:1-40), o belo cânon de São Cosme nos introduz na contemplação do mistério da última Ceia, de seu lado místico e eterno. O hirmos da nona ode nos convida a tomar parte no banquete ao qual o Senhor nos convida:

«Vinde, vós os crentes!
Alegremo-nos da hospitalidade do Senhor
no banquete da imortalidade,
na câmara alta, elevando nossos corações...»

Nas vésperas, os stykeroi sublinham o outro pólo, trágico, desta grande Quinta-feira, a traição de Judas:

«Judas, como servidor, mostrou-se pérfido em suas obras;
como discípulo mostrou-se urdidor de conspiração;
como amigo, revelou-se demônio.
Ele acompanhava seu Mestre,
mas no seu íntimo, meditava a traição...»

Após a Entrada, faz-se três leituras do Velho Testamento:

1Êxodo 19:10-19 - A descida de Deus do monte Sinai em direção a seu povo, imagem da vinda de Deus na Eucaristia.

1 Jó 38:1-24 e 42:1-5 - Fala de Deus a Jó, e resposta deste: "Eu falei sem compreensão de maravilhas que me ultrapassam e que eu ignoro. . ." — e estas maravilhas divinas são cumpridas no dom do Corpo de Cristo e de seu Sangue.

1 Isaías 50:4-11 - Começo das profecias do Servo sofredor.

1 A Epístola é tirada de São Paulo, primeira carta aos Coríntios 11:23-32; é o relato da última Ceia, dando o sentido da comunhão.

A leitura do Evangelho (a mais longa do ano) é formada de trechos de quatro evangelistas e nos faz ouvir o relato completo da última Ceia, da traição de Judas e da prisão de Cristo no jardim.

O hino dos Querubins e a antífona da comunhão são substituídos pelas palavras da oração antes da comunhão:

«Recebe-me Senhor neste dia
Na tua mística Ceia
Eu não desvendarei os mistérios aos teus inimigos
Eu não te darei um beijo como Judas
Mas como o ladrão arrependido eu te confesso.
Lembra-te de mim Senhor no Teu Reino
Aleluia! Aleluia! Aleluia!»

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A Grande Sexta-Feira - (a Cruz)

Da luz da grande Quinta-feira passamos às trevas da Sexta-feira, o dia da Paixão do Cristo, de sua morte e de sua sepultura. A Igreja primitiva chamava a este dia "A Páscoa da Cruz," porque ele é de fato o começo desta Páscoa ou Passagem cujo sentido nos será revelado progressivamente; primeiro na paz do grande e santo Sabbat, depois na alegria do dia da Ressurreição.

Mas antes, as trevas. Se ao menos pudéssemos realizar que as trevas da Sexta-feira Santa não são puramente simbólicas e comemorativas! É muito freqüentemente com o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria integridade que contemplamos a tristeza solene destes ofícios. Há dois mil anos, sim, homens "maus" mataram o Cristo, mas hoje nós — o bom povo cristão — levantamos suntuosos túmulos em nossas igrejas; não é esta a prova da nossa justiça? E no entanto, a Sexta-feira Santa não concerne somente ao passado. É o dia do Pecado, o dia do Mal, o dia no qual a Igreja nos ensina a aprender a terrível realidade do pecado e seu poder no mundo. Pois o pecado e o mal não desapareceram: ao contrário, permanecem a lei fundamental do mundo e de nossa vida. Nós que nos dizemos cristãos não entramos freqüentemente nesta lógica do mal que conduziu o Sinédrio e Pilatos, os soldados romanos e toda a multidão a detestar, torturar e matar o Cristo? De que lado nós teríamos ficado se tivéssemos vivido em Jerusalém no tempo de Pilatos? Esta é a pergunta que nos é feita por cada uma das palavras do ofício de Sexta-feira Santa. É de fato "o dia deste mundo," de sua condenação real e não somente simbólica, e do julgamento real e não somente ritual, de nossa vida. . . É a revelação da verdadeira natureza do mundo que preferiu então e continua a preferir as trevas à luz, o pecado ao bem, a morte à vida. E condenando o Cristo à morte "este mundo" condenou-se a si mesmo à morte, e na medida em que aceitamos seu espírito, seu pecado e sua traição a Deus, estamos também condenados. . . Este é o primeiro significado, terrivelmente realista, da Sexta-feira Santa: uma condenação à morte...

No entanto, este dia do Mal cuja manifestação e triunfo estão em seu paroxismo, é também o dia da Redenção. A morte do Cristo nos é revelada como uma morte salvífica para nós e para nossa salvação. Ela é uma morte salvífica porque é o supremo e perfeito sacrifício. O Cristo dá sua morte a seu Pai e no-la dá também. Ele a dá a seu Pai porque não há outro meio de destruí-la e libertar os homens dela; ora, é a vontade do Pai que os homens sejam salvos da morte. O Cristo nos dá sua morte porque na verdade é em nosso lugar que Ele morre. A morte é o fruto natural do pecado, um castigo iminente. O homem escolheu não mais estar em comunhão com Deus, porém como ele não tem a vida nele mesmo e por ele mesmo, morre. Em Jesus Cristo, entretanto, não há pecado, logo não há morte. É somente por amor a nós que ele aceita morrer; Ele quer assumir e compartilhar de nossa condição humana até o fim. Ele aceita o castigo de nossa natureza, exatamente como assumiu o fardo inerente à natureza humana. Ele morre porque se identifica verdadeiramente conosco, tomou sobre si a tragédia da vida do homem. Sua morte é então a revelação suprema de sua compaixão e de seu amor. E porque sua morte é amor, compaixão e co-sofrimento, nela a própria natureza da morte foi mudada. Ela não é mais um castigo, mas um esplendoroso ato de amor e de perdão, o termo de toda ausência de comunhão e de toda solidão. A condenação é transformada em perdão.

Enfim, a morte do Cristo é uma morte salvífica porque destrói a própria fonte da morte: o mal. Aceitando-a por amor, entregando-se a seus carrascos e permitindo-lhes uma vitória aparente, o Cristo manifesta que em realidade esta vitória é a derrota decisiva e total do mal. Com efeito, para ser vitorioso, o pecado deve aniquilar o bem, deve provar que ele é toda a realidade da vida, arruinar o bem e, numa palavra, mostrar sua própria superioridade; mas ao longo de sua Paixão, é o Cristo e somente ele que triunfa. O mal nada pode contra ele pois que não pode levar o Cristo a aceitar o mal como verdade. A hipocrisia se revela hipocrisia, o assassinato, assassinato, e o medo, medo. E enquanto o Cristo avança silenciosamente para a Cruz e para seu fim, quando a tragédia humana está em seu apogeu, seu triunfo, sua vitória sobre o mal e sua glorificação aparecem progressivamente em luz plena. A cada passo esta vitória é reconhecida, confessada, proclamada: pela mulher de Pilatos, por José, pelo bom ladrão, pelo centurião. Quando ele morre na cruz, tendo aceito o supremo horror da morte, a solidão absoluta (Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?)" não resta senão confessar: "Verdadeiramente este homem era o filho de Deus!" Assim esta morte, este amor e esta obediência, esta plenitude de vida destroem aquilo que faz da morte o destino universal. "E os túmulos foram abertos" (Mt 27:52). Já aparecem os primeiros clarões da Ressurreição...

Este é o duplo mistério desta grande Sexta-feira; os ofícios deste dia nô-lo mostram e nos fazem participar dele. De um lado, eles insistem constantemente sobre a Paixão do Cristo enquanto pecado de todos os pecados, crime de todos os crimes. Nas matinas, as doze leituras do relato da Paixão nos fazem seguir passo a passo o Cristo em seus sofrimentos; nas Horas (que substituem a divina Liturgia, pois a interdição de celebrar a Eucaristia neste dia significa que o sacramento da presença do Cristo não pertence "à esta criação" de pecado e de trevas, mas que ele é o sacramento do "mundo que há de vir"); na véspera, enfim, o ofício da descida da Cruz, as leituras e os hinos estão cheios de solenes acusações contra aqueles que voluntária e livremente decidiram matar o Cristo justificando seu crime em nome de sua religião, de sua lealdade política, de suas considerações práticas e de sua obediência profissional.

Por outro lado, encontramos desde o começo do ofício o segundo aspecto do mistério deste dia: o do sacrifício de amor que prepara a vitória final. Desde a primeira leitura do Evangelho, onde ressoa a advertência solene do Cristo: "Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele," até aos Stycherons do final da Véspera, a luz se faz cada vez mais viva e, ao mesmo tempo, crescem a esperança e a certeza de que a morte será vencida pela morte: "'Ó tu, Redentor de todos, quando foste colocado num túmulo novo para todos os homens, o Hades que não respeita ninguém, te viu e tremeu de medo. As trancas foram quebradas, as portas se abriram, os mortos levantaram-se. Então Adão, exultante de reconhecimento, gritou a Ti: "Glória à tua condescendência, ó tu misericordioso!"

E quando no final da Véspera, a imagem do Cristo no túmulo é colocada no centro da igreja, quando este longo dia chega a seu fim, sabemos que a longa história da salvação e da redenção chega também a seu fim. O sétimo dia, o do repouso, o Sabbat abençoado desponta e, com ele, a revelação do túmulo que dá vida...

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O Santo Sabbat

"grande e santo Sabbat" é o dia que liga a Sexta-feira santa, à comemoração da cruz, ao dia da Ressurreição. Para muitos, a verdadeira natureza e o sentido desta ligação, a necessidade real deste dia intermediário, permanece obscura. Para a grande maioria daqueles que vão à igreja, os dias "importantes" da grande semana são a Sexta-feira e o Domingo, a Cruz e a Ressurreição. Estes dois dias, entretanto, ficam de alguma forma distintos. Há um dia de tristeza e depois um dia de alegria. Nesta sucessão, a tristeza é simplesmente substituída pela alegria. Mas segundo o ensinamento da Igreja, expresso na sua tradição litúrgica, a natureza desta sucessão não é uma simples substituição. A Igreja proclama que o Cristo "venceu a morte pela morte"; isto quer dizer que, antes mesmo da ressurreição, coloca-se um acontecimento no qual a tristeza não é simplesmente substituída pela alegria, mas ela própria é transformada em alegria. O grande Sábado é precisamente este dia de transformação, o dia em que a vitória germina de dentro mesmo da derrota, uma vez que antes da ressurreição nos é dado contemplar a morte da própria morte. . . E tudo isso é expresso — mais ainda, tudo isso é realmente atualizado — a cada ano, neste maravilhoso ofício matinal, na comemoração litúrgica que se torna para nós um "presente" salvador e transformador.

Quando chegamos à igreja, na manhã do Sábado santo, a Sexta-feira acaba justamente de terminar, do ponto de vista litúrgico. É por isso que a tristeza da Sexta-feira é o tema inicial, o ponto de partida das matinas do Sábado. Este ofício começa como um ofício de funerais, uma lamentação sobre uma morte. Depois do canto dos tropários funerais e uma lenta incensação da igreja, os celebrantes se aproximam do Epitáfio (1). Nós estamos diante do túmulo do Senhor, nós contemplamos sua morte, sua derrota. O salmo 118 é cantado e a cada versículo acrescenta-se um canto especial que exprime o horror dos homens e o estupor da criação inteira diante da morte de Jesus:

«Colinas e vales,
e vós, multidão dos homens, chorai!
E vós, todo o Universo, lamentai-vos
comigo, a Mãe de vosso Deus.»

E, entretanto, desde o começo, acompanhando o tema inicial da tristeza e de lamentação, aparece um novo tema que se tornará pouco a pouco mais aparente. Nós o encontramos, aliás, no mesmo salmo 118: "Felizes aqueles que são irreprocháveis em seus caminhos, aqueles que seguem na lei do Senhor." Na nossa prática litúrgica atual, este salmo é utilizado somente nos ofícios de defuntos, donde sua referência "funerária" para os fiéis em geral. Porém, na tradição litúrgica primitiva, este salmo era uma das partes essenciais da vigília do Domingo, a comemoração semanal da ressurreição do Cristo. Seu conteúdo não é totalmente funerário: este salmo é a expressão mais plena e mais pura do amor pela lei de Deus; isto é, pelo desígnio divino sobre o homem e sobre a vida dele. A verdadeira vida, consiste em guardar, cumprindo a lei divina, esta vida com Deus, em Deus e para Deus, para a qual foi criado.

«Eu me alegrei nas veredas do teu testemunho
como se possuísse todos os tesouros.» (v/14).

«Eu meditarei as maravilhas da tua lei.» (v/16).

Uma vez que o Cristo é a imagem do cumprimento perfeito desta lei, uma vez que sua vida inteira consistiu em apenas cumprir a vontade do Pai, a Igreja interpreta estas palavras do salmo como endereçadas ao Pai pelo Cristo no túmulo:

«Vê, eu amei Teus mandamentos, Senhor,
na Tua misericórdia, vivifica-me.» (v/159)

(1) Tecido precioso, ricamente bordado, sobre o qual está representada a cena do sepultamento do Senhor.

A morte do Cristo é a prova suprema de seu amor pela vontade de Deus, de sua obediência ao Pai. Ela é um ato de pura obediência, de confiança total nesta vontade; e, para a Igreja, é precisamente esta obediência até o fim, esta perfeita humildade do Filho que é o fundamento e o começo de sua vitória. O Pai deseja esta morte, o Filho aceita-a, revelando assim uma fé incondicional na perfeição da vontade do Pai e na necessidade deste sacrifício do Filho pelo Pai. O salmo 118 é o salmo desta obediência, e, daí, ele anuncia que na obediência começou o triunfo...

Mas, por que o Pai deseja esta morte? Por que ela é necessária? A resposta a estas perguntas constitui o terceiro tema do nosso ofício e ele se encontra explícito nas instâncias intercalares entre os versículos do salmo 118. Elas descrevem a morte do Cristo como sua descida ao Hades. Na linguagem concreta da Bíblia, "o Hades" é o reino da morte, esse estado de trevas, de desespero e destruição que é a morte. E já que ele é o reino da morte, que Deus não criou e não quis, isto significa também que o Príncipe deste mundo é todo-poderoso no mundo. Satã, pecado, morte: tais são as dimensões do Hades, seu conteúdo. Pois o pecado vem de Satã e seu fruto é a morte: "O pecado entrou no mundo e pelo pecado, a morte" (Rom. 5:12). "A morte reinou de Adão a Moisés" (Rom. 5:14). O universo inteiro tornara-se um cemitério cósmico e estava condenado à destruição e ao desespero. Eis porque "o último inimigo é a morte" (l Cor. 15:26) e sua destruição constitui a meta final da Encarnação. O encontro com a morte é "a hora" do Cristo, da qual ele dizia: "É para esta hora que eu vim (João 12:27). E agora, ela chegou, e o Filho de Deus entra dentro da morte. Os Padres descreveram geralmente este momento como um duelo entre o Cristo e a morte, entre o Cristo e Satã, pois esta morte devia ser ou bem o último triunfo de Satã ou bem sua derrota decisiva.

O duelo desenrola-se em várias etapas. Primeiro, as forças do mal parecem triunfar; o Justo é crucificado, abandonado por todos; ele suporta uma morte ignominiosa; ele se torna, além disso, participante do Hades, esse lugar de trevas e desespero. . . Mas, no mesmo momento aparece o verdadeiro sentido de sua morte. Aquele que morre na cruz possui a vida em si mesmo; ou seja, ele tem a vida, não como um dom recebido do exterior, algo que se lhe pudesse retirar, mas como sua própria essência. Ela é a vida e a fonte de toda vida. "Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens." Como homem, ele pode realmente morrer; mas Nele é Deus quem entra no reino da morte, quem experimenta a morte. Tal é a dimensão única e incomparável da morte do Cristo: o homem que morre é Deus, ou, mais precisamente, o Homem-Deus. Deus é o Santo imortal; e é somente na unidade, sem confusão, sem mudança, sem divisão, nem separação de Deus e do homem no Cristo, que a morte humana é assumida por Deus e é vencida e destruída de dentro, "esmagada pela morte."

Agora nós compreendemos porque Deus deseja esta morte, porque o Pai entrega a ela seu Filho único. Ele deseja a salvação do homem, quer dizer, que a destruição da morte não seja um ato de seu poder ("Tu não sabes que eu posso rogar ao Pai que me envie na hora mais de doze legiões de anjos?"), nem uma violência, fosse ela salvadora, mas um ato desse amor, dessa liberdade e dessa livre consagração a Deus, pelas quais Ele criou o homem. Qualquer outro modo de salvação teria sido contrário à natureza do homem e não seria, pois, uma salvação real. Donde, a necessidade da Encarnação e a necessidade dessa morte divina. . . No Cristo, o homem restaura a obediência e o amor; pelo Cristo, o homem pode vencer o pecado e o mal. Era essencial que a morte fosse não só destruída por Deus, mas vencida e soterrada na natureza humana mesma, pelo homem e no homem. "É por um homem que a morte veio; é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos" (l Cor. 15:21).

O Cristo aceita livremente a morte, e de sua vida ele diz que "Ninguém ma tira de mim, mas eu mesmo a dou" (João 10:18). Isto não foi sem lutas: "Ele começou a ficar triste e abatido" (Mt 26:27). Assim se cumpre a medida plena de sua obediência, assim se acha destruída a raiz moral da morte, como ranço do pecado. Toda a vida de Jesus está em Deus, como toda a vida humana o deveria; e é esta plenitude de vida, esta vida rica de sentido e conteúdo, repleta de Deus, que triunfa da morte e destrói seu poder. Pois a morte é antes de tudo a ausência de vida, destruição da vida que se separou de sua única fonte. E porque a morte do Cristo é um gesto de amor a Deus, um ato de obediência e de confiança, de fé e de perfeição. Ela é um ato de vida ("Pai, em Tuas mãos encomendo meu espírito" Lc 23:46) que destrói a morte. É a morte da própria morte.

Este é o sentido da descida de Jesus ao Hades, a sua morte tornando-se sua vitória. E a luz desta vitória ilumina agora nosso velar junto ao túmulo:

«Ó Vida, como podes morrer?
Como te delongas no túmulo?
Mas é para destruir o poder da morte
e ressuscitar os mortos do inferno.

"Tu foste depositado no túmulo, ó Cristo, tu a Vida!
Pela Tua Morte, destruíste o poder da morte,
e para o mundo, Tu fizeste brotar a vida.

"Ó que alegria esta!
Ó grande êxtase pelo qual Tu
inundaste os mortos detidos no inferno,
fazendo luzir o lume
em suas profundezas sombrias!»

A vida entra no reino da morte; a luz divina inunda as trevas tenebrosas e ela brilha para todos aqueles que aí habitam, pois o Cristo é a vida de todos, única fonte de toda vida. Ele morre, pois, por todos, porque tudo que atinge sua vida, atinge a própria Vida... a descida ao Hades é o encontro da vida de todos com a morte de todos:

«Tu desceste sobre a terra para salvar Adão
e não o encontrando, ó Mestre,
tu o foste procurar até no Inferno.»

A tristeza e alegria se entregam ao combate, e, agora, a alegria está a ponto de ganhá-lo. As estâncias terminaram; o diálogo, o duelo entre a vida e a morte, está no final. E pela primeira vez ecoa o hino de triunfo e de alegria: é o tropário sobre o salmo 118 (EULOGITARIA) cantado a cada vigília do Domingo, com a aproximação do dia da ressurreição:

«A multidão dos anjos ficou estupefata
vendo-Te contado dentre os mortos, ó Salvador,
enquanto Tu aniquilavas a força da morte
e contigo Tu acordavas Adão
e libertavas todos os homens.

"Por que misturais vossas lágrimas
com a mirra, discípulos?
diziam às miróforas o anjo resplandecente
que se encontrava no túmulo.
Examinai vós mesmas o sepulcro e vede:
o Salvador ressuscitou e saiu do túmulo.»

Em seguida, vem o belo cânon do grande Sábado, no qual todos os temas deste ofício, desde a lamentação funerária até a vitória sobre a morte, são resumidos e aprofundados; o cânon termina com esta exortação:

«Que a criação esteja na alegria!
Que todos os habitantes da terra se alegrem
pois o inferno inimigo foi despojado.

"Que as mulheres venham com seus perfumes!
Eu liberto Adão, Eva e toda sua raça.
E no terceiro dia, eu ressuscitarei.»

Desde já a alegria pascal ilumina o ofício. Nós estamos ainda diante do Cristo no túmulo, mas este nos foi revelado como o túmulo que dá a vida. Nele jaz a vida. Nele, uma nova criação nasce e, uma vez ainda, o sétimo dia, o dia do repouso, o Criador descansa de todas as suas obras. 44A vida adormeceu, e o Hades treme" e nós contemplamos este Sabbat abençoado, o repouso solene daquele que nos devolve a vida: "Vinde, contemplemos nossa vida encerrada no túmulo. . ." Todo o sentido e profundidade mística deste sétimo dia, dia de perfeita realização, nos são agora revelados, pois:

«O grande Moisés prefigurou misticamente
este dia quando disse: Deus abençoou o sétimo dia.
Eis o Sabbat bendito, eis o dia do repouso
no qual o Filho único de Deus
descansou de todas suas obras.»

Faz-se, então, a volta à igreja, em procissão, com o Epitáfio, mas não é uma procissão funerária. É o Filho de Deus, o Santo imortal, que atravessa as trevas do Hades, anunciando o "Adão de toda a geração" a alegria da ressurreição que se aproxima; "tal é a luz da manhã que jorra da noite," ele proclama que "todos os mortos ressuscitarão, todos aqueles que jazem nos túmulos viverão e toda a criação rejubilará...."

Nós voltamos à igreja. Nós já conhecemos o mistério vivificante da morte do Cristo. O Hades está vencido, o Hades treme. Aparece então, o último tema, o da Ressurreição.

O Sabbat, o Sétimo dia, conclui e completa a história da salvação, sendo seu último episódio a vitória sobre a morte. Mas, após o sabbat, vem o primeiro dia de uma criação nova, a vida nova nascida do túmulo. O tema da ressurreição começa a repicar no prokímenon:

«Levanta-Te, Senhor, vem em nosso auxílio!"
liberta-nos pelo Teu amor,
ó Deus, nós ouvimos com nossos próprios ouvidos...»

Este tema se prolonga na primeira leitura, a da profecia de Ezequiel sobre os ossos descarnados (Cap. 37): "As carcaças eram muito numerosas sob o sol do vale, e estavam completamente descarnadas." É a morte triunfando no mundo, são as trevas, a implacável e universal sentença de morte. Mas Deus fala ao profeta anunciando que tal não é o destino final do homem. Os ossos ressequidos escutarão a Palavra do Senhor e os mortos reviverão: "eis que Eu abrirei vossos túmulos e Eu vos conduzirei sobre o solo de Israel."

Em seguida a esta profecia, o segundo prokímenon retoma a mesma oração, lança o mesmo apelo: "Levanta-Te, Senhor, e liberta-nos por Teu nome!"

Como isto irá acontecer? Como esta ressurreição universal é possível? É a segunda leitura que no-lo diz (l Cor. 5:6 e Gal. 3:13-14): "Um pouco de fermento faz crescer toda a massa. . ." O Cristo, nossa Páscoa, é este o fermento da ressurreição de todos. Como sua morte destrói o princípio mesmo da morte, sua ressurreição é a penhora da ressurreição de todos, pois sua vida é a fonte de toda vida. Os versículos do Aleluia, que são também os que abrirão o ofício da Páscoa, concordam com a resposta final, a certeza que o tempo da nova criação, aquele do dia sem noite, já começou:

«Aleluia!

Que Deus se levante e que seus inimigos se dispersem.
E que fujam diante de Sua Face,
aqueles que o odeiam!

Aleluia!

Como se dissipa a fumaça, eles se dissipam;
como a cera funde diante do fogo.»

A leitura das profecias terminou. Até então só escutamos profecias. Nós estamos agora no grande Sábado, diante do túmulo do Cristo. É preciso vivermos este longo dia antes de escutarmos à meia-noite: "Cristo ressuscitou!" e antes de entrar na celebração da sua Ressurreição. É por isso que a terceira leitura (Mt 27:62-66) nos fala ainda do túmulo: "eles pregaram um selo e colocaram guardas ali."

É provavelmente bem neste último momento das matinas que o sentido último deste dia intermediário se torna manifesto. O Cristo levantou-Se dentre os mortos; sua Ressurreição, nós a celebramos no dia da Páscoa. Entretanto, esta celebração comemora um evento especial do passado e ela antecipa um mistério do futuro. É já a ressurreição normal, mas não ainda, a nossa. Nós deveremos morrer, aceitar a morte, a separação, a destruição. A realidade de nossa situação neste mundo, neste "elo," é a realidade do grande Sábado; este dia é a imagem real de nossa condição humana. Nós cremos na Ressurreição porque o Cristo ressuscitou dos mortos. Nós esperamos a ressurreição. Nós sabemos que a morte do Cristo venceu o poder da morte e que esta não é mais o resultado sem esperança, o fim de tudo. . . Batizados em sua morte, nós comungamos Sua vida que surgiu do túmulo. Nós recebemos o Seu corpo e Seu sangue que são alimentos de imortalidade. Nós temos em nós a garantia, a antecipação da vida eterna. . . Toda a nossa existência cristã encontra sua dimensão nos atos de comunhão, na vida nova, no espírito novo do Reino. E entretanto, ainda estamos aqui e a morte é nosso lote inevitável.

Mas esta vida entre a Ressurreição do Cristo e o dia da ressurreição geral, não é ela precisamente a vida do grande Sábado? A espera não é a categoria fundamental e essencial da experiência cristã? Nós aguardamos no amor, na esperança e na fé. E esta espera "da ressurreição e da vida do mundo que há de vir," esta vida "escondida em Deus com o Cristo" (Cl 3:3-4), essa crença na esperança, acompanhada de amor e certeza, tudo isso constitui o nosso próprio "grande Sábado." Pouco a pouco, todas as coisas neste mundo tornam-se transparentes na luz que daí emana; "o rosto deste mundo passa," e este dia imperecível com o Cristo torna-se nosso valor supremo e último.

A cada ano, no grande Sábado, depois do ofício da manhã, nós esperamos a noite de Páscoa e a plenitude da alegria pascal. Nós sabemos que, ela está próxima e, no entanto, como é lenta esta chegada, como é longo este dia! O silêncio e a paz maravilhosa do grande Sábado não são o símbolo de nossa própria vida neste mundo? Não estamos nós sempre neste dia intermediário, nesta espera da Páscoa do Cristo, nos preparando para o dia sem noite de Seu Reino?

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A Celebração Pascal

A celebração pascal propriamente dita comporta hoje, na liturgia ortodoxa, dois ofícios principais: as vésperas do sábado santo e as matinas de Páscoa; as primeiras são seguidas da Liturgia eucarística de São Basílio; as segundas da Liturgia de São João Crisóstomo. Estes dois ofícios têm, na realidade, características bastante diferentes. As vésperas do sábado santo são, de fato, a antiga vigília pascal que, durante os três primeiros séculos, começavam na noite do sábado para terminar, depois da meia-noite, com a Liturgia eucarística. Essa vigília era, então, a única celebração de toda a semana Santa e do dia de Páscoa. Preparada por um jejum a-litúrgico (isto é, sem celebração eucarística) de um ou dois dias, ou às vezes de uma semana, de acordo com as tradições locais, a vigília tinha por objetivo não apenas festejar a Ressurreição do Cristo, mas o mistério da salvação na sua totalidade, sem dissociar de nenhuma forma a morte do Cristo de sua Ressurreição Assim, ela era a festa cristã por excelência. As vésperas bizantinas do sábado santo guardaram fielmente a estrutura daquela vigília. Nós estamos, pois, diante de um ofício-fonte, por assim dizer, que nos situa no coração do mistério pascal, resumindo todo seu conteúdo; os outros ofícios da grande semana e do dia de Páscoa só fazem explicitar e difundir a substância do mistério. Do ponto de vista da tradição da Igreja, esse ofício reveste-se de uma importância considerável.

Muito depressa, no entanto — talvez desde o século III em certos lugares configurou-se uma tendência a antecipar essa vigília para a tarde do sábado santo. E a partir do século IV, diversas celebrações foram progressivamente instauradas para comemorar, ao longo da grande semana, os diversos momentos do drama redentor. Entretanto, esse desenvolvimento se fez sem que a atenção ao detalhe histórico viesse a predominar, sem que a ligação entre a Paixão e a Ressurreição fosse jamais perdida de vista, e sem que o olhar da fé cessasse jamais de perceber o fulgor da divindade do Cristo transfigurando seu sofrimento humano e sua própria luz. O equilíbrio do mistério era assim admiravelmente salvaguardado nessa grande visão de Igreja, e o desdobramento dos ritos tinha como conseqüência um enriquecimento positivo. No Oriente, ao longo dos séculos VII e VIII, a contemplação teológica dos Padres da Igreja se traduziu, sem nada perder de sua densidade doutrinal, em ofícios eminentemente aptos a nutrir e a exprimir a devoção de todo povo cristão.

Essas reflexões se aplicam muito particularmente às matinas do dia de Páscoa. Estas foram instauradas para preencher o vazio deixado pela antecipação da antiga vigília pascal que, aliás, não podia mais permanecer como um ofício verdadeiramente popular em razão de suas longas leituras. As matinas pascais bizantinas, celebradas no seio da noite como a vigília primitiva, constituíram-se assim numa vigília pascal perfeitamente integrada no conjunto dos ofícios da semana santa e resultante da mesma evolução. Elas não têm mais por objetivo celebrar, sozinhas, a totalidade do mistério da redenção: a Ressurreição em si é aí o tema essencial; mas esta nos é apresentada como o lado glorioso do mistério da cruz e a ligação orgânica com os ofícios da grande semana aparece claramente.

É por isso que, dentro das perspectivas próprias do rito bizantino, uma restauração da vigília pascal antiga, acarretando supressão das matinas pascais, constituiria apenas um arcaísmo de um interesse meramente intelectual. Ninguém nem sonha com isto, aliás. É desejável, claro, que os fiéis que o possam, participem das vésperas do sábado santo para escutar a admirável catequese bíblica que elas nos conservaram. A permanência deste ofício na ordem atual, onde ele faz, desde já, o papel de uma etapa intermediária entre o grande sábado e a noite pascal, responde bem à preocupação que geralmente a tradição litúrgica bizantina tem de elaborar preparações e transições que, tal como uma sucessão de antecâmaras, conduzem progressivamente os fiéis a ascenderem à plenitude do mistério com a disposição requerida para participar nele com proveito. Guiados por essa iniciação vívida, que se importa pouco com a sucessão linear das idéias, com o rigor dos esquemas e das análises puramente históricas, os cristãos poderão, então, no seio da noite santa, passar com seu Senhor da morte à vida, das trevas à luz, e entrar na pura alegria da Cinqüentena pascal.

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As Vésperas do Sábado Santo (A Antiga Vigília Pascal)

A composição propriamente eclesial neste ofício é ainda pouco desenvolvida, enquanto que as leituras bíblicas são numerosas, caudalosas e significativas. Tal é o caráter dos ofícios mais antigos, enquanto que, naqueles do século VIII, a meditação propriamente eclesial, síntese da época patrística, toma o primeiro lugar.

A antiga vigília começa entretanto por uma bela composição, no estilo sírio-helênico da época justiniana, as Lamentações do inferno. Aí se exprime com toda sua força a concepção oriental da salvação. É um verdadeiro ícone poético da Anastasis como descida vitoriosa do Cristo ao reino infernal. Existem, com efeito, duas representações iconográficas, e duas somente, do mistério pascal: a Descida aos infernos e o Sepulcro vazio. A metamorfose mesma da Ressurreição escapa a qualquer representação.

«Neste dia, o inferno lamenta-se e grita:
teria valido mais para mim não acolher o filho de Maria,
pois, penetrando em meus domínios,
ele pôs fim ao meu poder,
ele quebrou minhas portas de ferro,
e aqueles a quem eu detinha desde tão longo tempo,
sendo Deus, ele os ressuscitou.»

«Glória, Senhor, a Tua cruz e a Tua Ressurreição.»

«Neste dia, o inferno lamenta-se e grita:
Meu poder está destruído.
Eu recebi um morto como um qualquer dentre os mortos,
mas não o pude deter de modo algum
e eu vou ser despojado por ele das almas de quem era o rei.
Eu que desde longo tempo possuía os mortos,
eis que ele os desperta a todos.»

«Glória, Senhor, a Tua cruz e a Tua Ressurreição.»

«Neste dia, o inferno lamenta-se e grita:
Meu poder está aniquilado,
o Pastor foi posto na cruz e Adão levantou-se;
eu estou despojado daqueles sobre quem eu reinava,
eu devo entregar todos aqueles que engoli quando era forte.
O crucificado esvaziou todos os túmulos.
O poderio da morte está sem forças.»

«Glória, Senhor, a Tua cruz e a Tua Ressurreição!»

O essencial, porém, dessa vigília primitiva, é constituído por quinze leituras bíblicas, interrompidas pelo canto das cantigas escriturais as mais antigamente empregadas na liturgia cristã. Essas leituras, freqüentemente bem longas, agrupam-se em três tipos principais, ou antes, em dois tipos fundamentais e um tipo secundário.

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Ressurreição no Antigo Testamento

O tipo secundário [ duas leituras em quinze, a oitava e a décima segunda] relembra dois casos de ressurreição no Antigo Testamento. E essas ressurreições intervém a cada vez no contexto de uma vida renovada, intensificada e salva. De um lado, é Elias multiplicando a farinha e o óleo para a viúva de Sarepta e seus filhos, no tempo da grande seca, depois ressuscitando o filho da viúva (3Reis 17:7-24). De outro, é Eliseu concedendo miraculosamente à Sunamita ter um filho, depois ressuscitando-o após a doença e a morte súbitas (4Reis 4:8-27). Esses textos "ressurrecionais" são figuras do Cristo vindo renovar a vida, dar-se a si mesmo como alimento e vencer a morte por uma ressurreição que engloba toda a humanidade. Não é só o número três [ Eliseu estende-se três vezes em cima da criança] que evoca o triduum pascal. O Deus vivo é o Deus que ressuscita.

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As Grandes Obras de Deus e Sua "Tipologia"

Dos dois tipos principais, um concerne às grandes obras de Deus que cria e liberta, representações da Páscoa do Cristo que recapitula-as e as cumpre. Seis leituras correspondem a esse tipo.

Primeira leitura: Gênesis l:1-13.

É o relato dos três primeiros dias, isto é, a criação do universo. Assim é evidenciada a implicação cósmica da Ressurreição que, segundo os Padres, foi uma verdadeira recriação. "Toda a vida do universo, toda a vida da humanidade já é diferente desde a vinda do Cristo, esta constitui uma nova criação. . . se nós não o vemos com nossos olhos terrestres, isto provém da limitação das nossas faculdades" (N. Berdiaeff, Esprit et Liberté, Paris, 1932, p. 195).

Terceira leitura: Êxodo 12:1-11. 0 episódio do cordeiro pascal.

O emprego "tipológico" do Êxodo aparece no Antigo Testamento mesmo, onde os profetas anunciam um Êxodo escatológico. Além do mais, ele constitui uma das estruturas do Novo Testamento, depois do pensamento patrístico. São Mateus multiplica as alusões ao Êxodo. Mais precisamente, o Evangelho de João, que é uma espécie de catequese pascal, quer mostrar aos batizados que os mistérios recebidos na noite de Páscoa atualizam os prodígios do Êxodo definitivo. O Cristo é o cordeiro pascal cujo sangue apaga os pecados do mundo (João l:29) e os soldados, depois da crucificação, não lhe quebraram as pernas como se cumprissem sem saber a prescrição ritual concernente ao cordeiro pascal (João 19:36). Pedro evoca nossa liberação "por um sangue precioso, aquele do cordeiro sem defeito e sem mácula, o Cristo, que foi designado desde antes da criação do mundo. . " (1 Pd 1:19-20), o que evoca "o cordeiro de Deus imolado antes da fundação do mundo" de que nos fala o Apocalipse (5:12). Pois a própria criação implica como que uma "retração" e um risco de Deus, ela está à sombra da Cruz e a Páscoa é o centro onde se recapitula e se cumpre toda a história.

Quarta leitura: o livro de Jonas por inteiro.

É a representação — explicitada também na vigília atual — da morte, da descida aos infernos e da ressurreição do Cristo: "Ó Cristo... ao terceiro dia, como Jonas da baleia, Tu te levantaste do túmulo." Para os Padres e, primeiro, para Santo Irineu, o "monstro" que engole Jonas simboliza nossa condição decaída, infernal. Além do que, o próprio Jesus, recusando-se a convencer os Fariseus com um milagre, exclamou: "Geração perversa e adúltera! Ela reclama um sinal e, como sinal, só lhe será dado aquele do profeta Jonas. Com efeito, do mesmo modo que Jonas ficou no ventre do monstro marinho durante três dias e três noites, de igual modo o Filho do Homem ficará sob a terra durante três dias e três noites. .." (Mt 12:39-40).

Quinta leitura: Josué 5:10-15.

A tipologia de Josué, enunciada pela Epístola aos Hebreus (4:8-9), se desenvolve através de todo período patrístico. A passagem lida aqui, mostra Josué celebrando pela primeira vez a Páscoa na terra prometida onde ele acaba de introduzir os hebreus. Depois é a teofania "do chefe dos exércitos do Senhor" que aparece a Josué e lhe revela: "O lugar onde tu pisas é santo." Josué é Jesus (o nome é o mesmo). A terra prometida é o Reino, ou antes, a terra transfigurada, o paraíso. A Páscoa é a eucaristia. A teofania, a figura da Ressurreição, presença secreta da Parusia. É assim que os Padres liam a Bíblia, no mistério do Nome de Javeh — que significa "Deus salva."

Sexta leitura: Êxodo 13:20--15:9

Nós encontramos aqui a tipologia do Êxodo, com a travessia do Mar Vermelho. No simbolismo patrístico, essa travessia representa a passagem vitoriosa do Deus-Homem e de seu povo através das águas da morte e a derrota das forças da servidão simbolizadas pelos Egípcios. Também por aí, como já o assinala a Primeira Epístola aos Corintios (10:1-13), a travessia do Mar Vermelho é uma representação do batismo que nos faz participar na morte e na ressurreição do Cristo. Essas duas leituras, com efeito, constituem a preparação última dos catecúmenos que, no Oriente e em todo mundo cristão, recebiam o batismo na vigília pascal.

No final dessa leitura ecoa, cantado pelo coro, o cântico entoado por Moisés e todas as crianças de Israel depois da travessia do Mar Vermelho. Esse cântico passa um tom de júbilo escatológico, captado muito bem pelo Apocalipse, que profetiza a história do novo Israel por meio de imagens e episódios emprestados à história do antigo Israel. "E eu vi também como que um mar de vidro mesclado de fogo e aqueles que triunfaram da Besta, de sua imagem e do número de seu nome, de pé junto a este mar de vidro. Acompanhando-se de harpas de Deus, eles cantam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do Cordeiro" (Apo. 15:-8).

Décima leitura: Gênesis 22:1-18.

Relato do sacrifício de Isaac, cujo sentido figurado é dado pela Epístola aos Hebreus (11:17-19): "É pela fé que Abraão, colocado à prova, ofereceu Isaac em sacrifício. Assim, aquele que recebeu as promessas e a quem foi dito: É de Isaac que nasce tua posteridade, ofereceu este filho único, considerando Deus poderoso o bastante para ressuscitar os mortos; também recobrou-o, figuradamente." O sacrifício que Abraão consuma e que abole as promessas, profetiza a Paixão do Cristo; e a criança recuperada representa a ressurreição. A Epístola aos hebreus doura a tragédia atribuindo a Abraão uma esperança que o Gênesis não menciona. A tipologia é, aí, facilitada. Mas é válido se reportar ao próprio relato, tal como o faz ressoar esta leitura. Abraão diz a Isaac que lhe interroga enquanto eles sobem ao Moriá: "Deus proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho." E quando Deus, no último instante, substitui a vítima humana por um carneiro, compreende-se que ele prepara o Cordeiro divino, o Cristo, cada vez que o homem avança na confiança e na obediência, acima de toda lógica. Como não daria Ele Seu próprio Filho, uma vez que o homem estava pronto a Lhe dar o seu? Para os Padres, o carneiro é o "tipo" do Cristo crucificado. O arbusto no qual se engancham os chifres do carneiro evoca a coroa de espinhos e, para Clemente de Alexandria, trata-se da sarça ardente. Se nós nos lembrarmos que, para São Cirilo de Jerusalém (PG 33, 796A), Jesus coroado dessa forma assume os espinhos em que se exprime a "maldição" da terra (Gn. 3:18), é todo o destino do cosmos que se encontra sugerido, transfigurado através mesmo da sua mais dolorosa exterioridade e toda a dor dos homens.

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Profecias Messiânicas.

O outro importante tipo de texto que agrupa também seis leituras, é o das profecias messiânicas. Com quase apenas uma exceção, elas constituem a segunda metade deste conjunto, seguindo o próprio ritmo da Bíblia. É o Novo Testamento em si, donde desnecessário insistir, os textos referem-se ao Cristo.

Segunda leitura: Isaías 60:1-16.

Aqui, a plenitude escatológica — secretamente realizada pela Ressurreição que desde então será na história como que o fermento do Reino — aparece como uma assunção, na nova Jerusalém, de toda a glória, de toda a criatividade das culturas e das "nações: "Tu sugarás o leite das nações. . . e tu saberás que eu sou o Senhor, o teu Salvador. . ." A leitura começa com uma exclamação jubilosa: "Resplandece, resplandece, Jerusalém, pois a tua luz fulgura e a Glória do Senhor se elevou sobre ti." Esta exclamação será retomada nas matinas pascais e durante todo o tempo pascal, até à Ascensão, para louvar ao mesmo tempo a Igreja e aquela que a representa e constitui, como o centro da comunhão dos santos, a Mãe de Deus: "Resplandece, resplandece, ó nova Jerusalém, pois a Glória do Senhor brilhou sobre ti! Dança de alegria e rejubila o Sião! E Tu, Mãe de Deus Toda Pura, sê exaltada na Ressurreição d'Aquele a quem deste a luz."

Sétima leitura: Sofonias 3:8-15.

É o julgamento dos povos e sua condenação: "eu mudarei em cada povo a língua de sua raça a fim de que todos invoquem o nome do Senhor e O sirvam." Então, será glorificado o "resto de Israel": "Rejubila-te, ó filha de Sião. . . o rei de Israel está no meio de ti." Pela sua ressurreição o Cristo está no meio da história. Pela sua ressurreição atualizada na eucaristia, ele está no seio da Igreja e a renova ("Cristo está no meio de nós" diz o padre no momento do "beijo da paz"). É o mesmo tipo de texto escatológico comum aos judeus e aos cristãos, que os primeiros lêem na espera ativa do Messias, na infantilização do Messias pela história; os segundos, na certeza de que a plenitude escatológica potencialmente presente no Ressuscitado deve se manifestar por uma infantilização análoga [ não sem descontinuidade última e julgamento] passagem, dizia Soloiev, do Deus-Homem ao Deus-humanidade.

Nona leitura: Isaías 61:10-62:5.

Sempre a plenitude dos textos messiânicos, mas expressa aqui conforme um simbolismo nupcial: "Como o esposo se rejubila da esposa, teu Deus, (Jerusalém), rejubilar-se-á de ti." Este tema nupcial, tão fortemente relacionado por São Paulo ao amor do Cristo e da Igreja, é um dos leitmotiv, como vimos, da semana santa. A lembrança de várias parábolas evangélicas que exortam à vigilância dão ao tema uma dimensão escatológica. O Cristo, esposo da Igreja, "sai do túmulo como de uma câmara nupcial," cantarão as matinas pascais. O Cristo "se libertou" para a Igreja, ele a santificou com um batismo de sangue que lembra hoje "o banho de água que uma palavra acompanha. Pois ele queria apresentá-la a si próprio toda resplandecente, sem mácula nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada" (Ex 5:25-27).

Décima primeira leitura: Isaías 61:1-10.

É o grande texto messiânico: "O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me ungiu para trazer a boa nova aos pobres. Ele me enviou para sarar aqueles que tem o coração ferido, para anunciar aos cativos a liberdade e aos cegos o retorno à luz."

O Cristo aplicou-se esta profecia quando a leu na sinagoga de Nazaré, acrescentando: "Hoje se cumpre esta passagem das Escrituras" (Luc. 4:16-22).

A liberdade trazida aos cativos é a vitória sobre o inferno e a morte que mantinham os homens em escravidão. A volta à luz é a Páscoa definitiva, das trevas da condição decaída à luz do Espírito.

Décima Terceira leitura: Isaías 63:11-64:5.

Outro texto messiânico onde o cristão vê o céu se unir à terra e o fogo da divindade penetrar os abismos para consumir o Adversário: "Se tu abrires o céu. . . o fogo consumirá teus inimigos e teu nome será magnífico neles."

Décima quarta leitura: Jeremias 31:33-34.

Texto admirável sobre a nova aliança, quando a lei não mais aparecerá como uma coação, mas, graças à renovação do coração, como a própria exigência da liberdade, espontaneidade existencial, o que nos é necessário para existir: "Eis aqui a aliança que naqueles dias eu farei com a casa de Israel, diz o Senhor: eu colocarei a minha lei no interior deles e a escreverei sobre o coração, e eu serei o Deus deles, e eles serão meu povo." Esta adesão tornada "natural," no sentido da verdadeira natureza do homem que é um dinamismo de união com Deus, esta adesão não apenas ética mas ontológica, realiza-se no Cristo, "homem-máximo"; e naqueles que, enxertados pelo batismo com sua humanidade deificada, procuram viver a lei como adesão de todo seu ser à presença divina. O texto continua: "Um homem não ensinará mais ao seu próximo. . . pois eles todos me conhecerão," profecia da Igreja, onde não pode haver, estritamente falando, Igreja mestra e Igreja discípula, que ensina e que é ensinada, pois todos são "portadores do Espírito." E a leitura termina com o anúncio do perdão divino — "eu perdoarei sua iniqüidade e não me lembrarei mais dos pecados deles" — que a Páscoa realiza plenamente: "Que ninguém se inquiete de seus pecados pois o perdão jorrou do túmulo" (Homilia de São João Crisóstomo, lida durante a atual vigília).

A última leitura, ao mesmo tempo ressurrecional, figurativa e profética, é a história, do Livro de Daniel, dos três adolescentes lançados à fogueira por um tirano e salvos pela vinda de um anjo. Poucos textos bíblicos marcaram tanto a sensibilidade litúrgica do Oriente cristão. Na perspectiva pascal, o tirano simboliza o diabo; a fogueira o inferno. O número três evoca o mistério da Trindade. E o cântico dos adolescentes que o coro entoa com vigor, evoca a dimensão cósmica da Ressurreição, inauguração da Parusia: "Vós todos, obras do Senhor, bendizei ao Senhor! Pois Ele salvou-nos dos infernos, Ele nos arrancou das mãos da morte..."

Na Liturgia que se segue, lê-se a grande passagem batismal da Epístola aos Romanos (6:3-11): "Nós todos que fomos batizados em Cristo, é em Sua morte que fomos batizados. Nós fomos, pois, sepultados com Ele em Sua morte, pelo Batismo, a fim de que, como o Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, nós também marchemos para a vida nova. E, com efeito, se nós fomos enxertados sobre Ele pela semelhança da morte, nós o seremos também pela da Ressurreição." O batismo nos mergulha no mistério pascal; ele é, no Cristo, descida aos infernos e subida libertadora. É por isso que na Igreja antiga, os catecúmenos recebiam o batismo na noite de Páscoa. Ainda hoje, esta leitura nos lembra que não assistimos como espectadores a acontecimentos que nos são exteriores, durante este triduum pascal. Tudo transcorre por nós e em nós, pois a graça batismal nos enxertou ao (Soma pneumatikon) do Ressuscitado.

Em seguida, se lê o Salmo 81 (82):

«Até quando julgareis erradamente?
Julgai pelo fraco e pelo órfão,
ao infeliz, ao indigente, faze justiça!
Libertai o fraco e o pobre...»

Texto que é preciso primeiro se ouvir no seu sentido espiritual: é o Cristo que nos liberta [ficando bem entendido que o espiritual não se opõe ao trabalho dos homens, mas o fecunda].

Entre os versículos, intercala-se este refrão: "Ressuscita, ó Deus, julga a terra, pois Tu herdarás todas as nações," refrão em que a Páscoa, ainda uma vez, é colocada dentro de uma perspectiva escatológica.

Depois se lê o Evangelho segundo São Mateus, o último capítulo (28) inteiro: o sepulcro vazio, a mensagem do anjo, as mulheres miróforas levando a boa nova aos discípulos; as aparições do Ressuscitado, o mandamento do batismo em nome da Trindade.

Neste dia, como nos mais solenes do ano, utiliza-se a antiga fórmula capadócia, a liturgia de São Basílio, cuja anáfora tem muito mais amplidão que a de São João Crisóstomo, de uso costumeiro na Igreja ortodoxa. Para a Páscoa, essa fórmula conservou mesmo um canto muito antigo que provém da liturgia de São Joaquim, e substitui, na "grande entrada," o Cheruvikón: "Que toda carne mortal faça silêncio e permaneça imóvel no temor e no recolhimento e que nada de mundano ocupe seu pensamento, pois Ele vem, o Rei dos Reis, o Senhor dos Senhores, para ser imolado e dado como alimento aos fiéis, precedido do coro dos Arcanjos, com os Principados e os Poderes, os Querubins de olhos inumeráveis e os Serafins de seis asas que cobrem a face, cantando: "Aleluia, Aleluia, Aleluia."

E na hora da comunhão, que era a primeira dos novos batizados, o coro ao invés de cantar como de costume: "Recebei o corpo de Cristo, bebei da fonte imortal," canta, quantas vezes forem necessárias: "Como alguém que dormia, Ele acordou; o Senhor ressuscitou para nos salvar. Aleluia."

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As Matinas Pascais - (A Noite Santa)

Desde os primeiros séculos, os fiéis passam esta noite na igreja: é a vigília por excelência, a única que é realmente vivida ainda hoje. A igreja geralmente é ornamentada com flores alegres, logo ela ficará refulgente de uma multidão de velas, para significar a abolição da "noite" que simboliza a modalidade "noturna," infernal, da existência.

No início do ofício o Epitáfio é transportado para cima do altar onde ficará até a Ascensão, signo da presença na terra do Ressuscitado. Na igreja, faz-se silêncio, penumbra, espera. À meia-noite, as matinas começam com uma procissão: na frente, o clero, vestido com paramentos claros e um certo número de fiéis. Eles levam a cruz, o evangelho, os ícones e estandartes da igreja. A procissão faz a volta por fora da igreja, para diante da entrada principal, e então, o celebrante entoa o tropário da Ressurreição:

«Cristo ressuscitou dos mortos.
Pela morte ele venceu a morte
Aos que estavam no túmulo,
Cristo deu a vida»

A procissão adentra a igreja, onde, de repente, todos acendem suas velas. O padre brada os versículos do salmo:

«Que Deus se levante
e seus inimigos serão vencidos
e seus adversários fujam diante de sua face.

Tal como o fumo se dissipa
Assim eles sejam dispersos
à semelhança da cera que se derrete diante do fogo.

Esse é o dia que o Senhor fez.
Exultemos e alegremo-nos nEle.»

Após cada versículo, o coro canta o tropário da Ressurreição. Em seguida, desfia-se o célebre Cânon de São João Damasceno, uma das mais altas criações da poesia litúrgica bizantina. Neste cânon, os temas são sugeridos rapidamente, com breves notações. O estilo, como a música, têm qualquer coisa de dançante, permeados que são por um meneio de alegria, onde se reúnem a Ressurreição e a Parusia, júbilo que dá lugar apenas a expressões pinceladas, ágeis, exclamativas e que não passa nem por longos desenvolvimentos, nem pela insistência.

Todo o essencial, é dado repentinamente na primeira ode:

«Dia da Ressurreição!
Resplandecei de alegria, Povos todos /
Ó Páscoa, Páscoa do Senhor /
da morte para a Vida, da terra para os Céus /
Cristo Deus nos transportou,
a nós que cantamos este hino triunfal.

Purifiquemos nossos sentimentos,
e veremos a Cristo
resplandecente da ofuscante Luz da Ressurreição,
e ouvi-lo-emos exclamar:
Rejubilai cantando o hino do triunfo.

É justo que os Céus rejubilem,
que a terra permaneça na alegria,
que o mundo esteja em festa,
o visível e o invisível,
pois Cristo, a Alegria Eterna, ressuscitou.»

Uma variedade de imagens, de símbolos, de temas se entrecruzam e se correspondem. Eis o túmulo vazio, e a anunciação da Ressurreição pelas miróforas que vão levar a notícia aos discípulos: "As mulheres miróforas, chegadas de manhã cedo junto ao túmulo do Doador da Vida, encontraram um anjo sentado sobre a pedra o qual lhes falou nestes termos: Por que procurar dentre os mortos o Vivo? Por que chorar como se Ele devesse se corromper, o Incorruptível? Ide anunciar aos discípulos: o Cristo ressuscitou dos mortos." É a tradução verbal do ícone da Ressurreição, a única, lembremo-lo, que a Ortodoxia conhece, como aquela da descida aos infernos que caracteriza mais precisamente o grande sábado.

A unidade da Cruz e da Ressurreição, da Paixão e da Vitória, é fortemente marcada neste apogeu do triduum pascal, como o foi desde a "grande quarta-feira." Por seu rebaixamento, sua paixão, seu sofrimento e sua morte na cruz [ sofrimento e morte cuja descida aos infernos mostra toda a intensidade] o Cristo deixa entrar nele toda a angústia do mundo decaído, a tragédia da separação, o inferno da condição humana servidora da mentira e do ódio. Então a angústia, a separação, o inferno e a morte são abolidos por Aquele em quem eles não têm espaço. O abismo aberto pela liberdade humana desgarrada é consumido no abismo de amor da divindade.

«Nós adoramos, ó Cristo,
e nós cantamos e glorificamos
Tua Santa Ressurreição...

Eis que, pela Cruz, a alegria entrou no mundo.
Louvemos sem cessar o Senhor,
cantemos Sua Ressurreição,
pois tendo sofrido a Cruz por nós,
Ele destruiu a morte pela morte.

A vitória sobre o diabo,
o inferno e a morte é, pois, celebrada sem cessar.

Tu desceste ao mais profundo da terra
e quebraste os grilhões eternos que retinham os cativos...

O Cristo, descendo para lutar sozinho com o inferno,
de lá subiu trazendo numerosos despojos,
frutos de sua vitória.

Festejemos a morte da morte,
a destruição do inferno,
a inauguração da Vida Imortal.

Tu adormeceste em Tua carne como um mortal, Rei e Senhor,
e Tu Te levantaste no terceiro dia;
Tu ressuscitaste Adão da corrupção e Tu aboliste a morte,
ó Páscoa da incorruptibilidade, Salvação do mundo.

Assim, a Páscoa definitiva é a passagem da morte à vida, da "corrupção" à "incorruptibilidade" como existência no Espírito: "É da morte à vida, da terra ao Céu que o Cristo nos fez passar." Páscoa imaculada, Páscoa imensa, Páscoa da fé, Páscoa que nos ofereceu a porta do Paraíso."

O sinaxário, para resumir o sentido da festa, explica: "A palavra Páscoa significa que se passa do não-ser ao ser, do inferno ao céu, da morte e da corrupção à imortalidade." Sabe-se que em hebreu peschah significa passagem.

E esta passagem se faz em Cristo, já que nele se unem para sempre, comunicam-se, se interpenetram "energeticamente" o humano e o divino, o céu da presença divina e a terra dos homens (e, por aí mesmo, os "céus" angélicos e o universo sensível). Nossa Páscoa é o Cristo" (1Cr 5:7) Esta afirmação paulina é fortemente retomada: "O Cristo. . . como mortal é o cordeiro; sendo ele imaculado, sem pecado, ele é nossa Páscoa." "Tal como o cordeiro de um ano. . . ele se ofereceu voluntariamente em sacrifício para a salvação de todos, Páscoa purificadora." "O Cristo é a nova Páscoa, a vitória da vida, o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo." Assim, se reencontram e se cumprem, como já mostrou o Novo Testamento, as grandes "figuras" bíblicas do cordeiro pascal e do bode emissário.

O tema solar [ verdadeiro "sol da meia-noite" "Trans-luminoso"] sublinha a irresistível invasão da luz, no sentido joânico: ." . . do sepulcro elevou-se sobre nós, esplendoroso, o Sol de Justiça." "É o sol anterior ao sol" que surgiu do túmulo. "Que santa é esta noite redentora, ela que nos traz o dia esplendoroso da Ressurreição, onde a luz eterna sai corporalmente do túmulo."

Assim, o túmulo como já o notamos, se transforma em câmara nupcial; o Ressuscitado é o esposo, aquele que vem, que é esperado no temor e no tremor desde o começo da semana. Pelo "julgamento do julgamento" de que fala São Máximo, o Confessor (PG 90, 408 D), o Juiz, porque Ele aceitou, Ele o inocente, tornar-se o condenado, o danado, o Juiz se revela o Esposo para aqueles que o acolhem no arrependimento e na gratidão. É exatamente assim que ele é representado sobre as "portas reais" diante das quais recebemos a comunhão: e iconografia da "Deesis" (intercessão) mostra com efeito o Cristo-juiz, de um lado e de outro intercedem a Virgem e São João Batista; ora, ela é a esposa e ele o "amigo do esposo."

"Círios na mão, vamos diante do Cristo que sai do túmulo como diante do Esposo. . ." "Ressuscitando, tu sais do túmulo como de uma câmara nupcial. . ." Toda a história da salvação poderia ser descrita como um drama de amor, como um imenso Cântico dos cânticos: mas é menos a noiva que procura por seu noivo do que o Deus fiel que procura por seu povo adúltero, que procura a humanidade que se desviou dele, para lhes falar ao coração e devolver-lhes seu primeiro amor, como diz Oséias (2:16-17).

Na Páscoa os esponsais são consumados. No Ressuscitado é a humanidade inteira, e o cosmos, que se acham secretamente recriados, transfigurados. Em sua hipóstase divina, portanto perfeita, e pela qual nada de exterior pode existir, o Cristo, através de uma comunhão sem limites, assume todo ser criado e o arrebata em sua ressurreição. "Tu ressuscitaste o homem pela tua ressurreição, ó Cristo." "Ressuscitando do túmulo, tu ressuscitaste contigo Adão e toda sua raça." O corpo "pneumatizado" do Cristo escapa às modalidades decaídas do tempo e do espaço; nele, na Igreja que é o sacramento de sua presença, a modalidade paradisíaca e "parusíaca" do ser criado nos é oferecida. "Foi mantendo intactos os selos, ó Cristo, que tu te levantaste do túmulo, tu que não havias rasgado o seio da Virgem em teu nascimento; e tu nos abriste as portas do Paraíso." O corpo do Ressuscitado é vida pura, e não esta mistura de vida e morte, esta "vida morta" a que chamamos vida. "Por isso ele é vivificante," "carne que ressuscita Adão decaído." 'Pela sua Paixão, ele revestiu o mortal do incorruptível."

Em Cristo sempre vivo e presente no Espírito, cada um de nós morre e ressuscita: "Ontem, eu estava enterrado contigo, ó Cristo; hoje eu acordo contigo, ó Ressuscitado; Salvador, glorifica-me contigo em teu Reino." A Ressurreição tem um alcance cósmico pois o corpo engloba secretamente o cosmos inteiro. Por isso o universo é chamado a rejubilar-se após ter tremido de um horror sagrado diante da Paixão e do enterro de seu Criador. . . "Que todo o universo esteja em festa, toda a terra... pois ele ressuscitou, o Cristo, alegria eterna."

Bem mais: para o "olho do coração," o que é o da fé, da Igreja, da santidade, tudo está doravante pleno de vida e de luz: e, os dois termos-chave da teologia joânica que, para o pensamento ortodoxo constituem nomes divinos, energias divinas, modalidades de presença salvadora e deificante. Doravante a vida e a luz nos chegam mesmo pela morte e por todas as situações de morte de nossa existência se as "configuramos" na fé na cruz do Cristo sobre a qual ele venceu a morte. Por isso o mártir é o mais elevado estado místico do cristianismo. E por isso também que o povo ortodoxo, durante o tempo pascal, gosta de ficar nos cemitérios, pois no Ressuscitado, não há mais separação, a morte torna-se um sono êxtase em que se prepara a definitiva metamorfose. Coloca-se sobre as sepulturas, na alegria pascal, ovos pintados com as iniciais das duas palavras "Cristo Ressuscitado." Os ovos, como os grãos, são desde sempre, símbolos de ressurreição.

Não somente a morte está repleta de luz, como também o inferno: "Agora tudo está repleto de luz: o céu, a terra e o inferno." Deus é tudo em todos. A apokatastase (a salvação universal) é oferecida à humanidade.

Não é, pois, de se impressionar que esses textos tenham fortes ressonâncias escatológicas: a luz da Páscoa é a mesma da Parusia. A Páscoa já é o Oitavo dia em que se inaugura a luz sem declínio. É o "dia do Senhor," no sentido escatológico de que se reveste esta expressão na Bíblia: "É agora o dia insigne e santo, único nas semanas, o rei e o Senhor dos dias, a festa das festas." As profecias concernentes a Jerusalém, aquelas profecias tão largamente citadas na manhã do sábado santo, agora, se realizam: Resplandece, resplandece, ó Nova Jerusalém! Pois a glória do Senhor brilhou sobre Ti. "Dança de alegria e rejubila, ó Sião. E Tu, Mãe de Deus, Toda Pura, se exaltada na Ressurreição d'Aquele a quem deste à luz." Assim intervém — nos dois símbolos da nova Jerusalém e da Mãe de Deus — o tema da Igreja, que não é o Reino mas o sacramento do Reino, que é o mundo em vias de deificação na medida em que o assimilamos, pelo nosso próprio esforço de santidade, ao corpo do Ressuscitado. O mundo só existe através das existências pessoais: sua transfiguração escatológica, inaugurada em Cristo, deve ser decifrada, assumida, reinventada e difundida pela comunhão dos santos, até que ela tenha atingido seu "pleroma," conforme uma medida que não é a da história "objetiva," mas a de Deus. É por isso também que a alegria pascal se desdobra numa dimensão de espera e de esperança: "Ó Páscoa grande santa, Cristo, sabedoria, Verbo e poder de Deus, concede-nos comungar-Te com ainda mais verdade, no dia sem ocaso de Teu Reino."

Mesmo depois da Ascensão, o Ressuscitado ficará presente em sua Igreja: "Tu nos prometeste sem mentira de estar conosco até a consumação dos séculos, ó Cristo! E nós, fiéis, nós conservamos esta palavra como a âncora de nossa esperança."

No Espírito Santo, a luz pascal, vida do Ressuscitado, nos é comunicada pela eucaristia que constitui a Igreja, que a funda sobre o "mistério pascal": "Vinde, neste dia da Ressurreição, comungar o fruto novo da vinha, a alegria divina, a realeza do Cristo." Uma vez que a eucaristia nos incorpora ao Ressuscitado, nós podemos, pouco a pouco, por uma ascese de vigilância, nos acordarmos para nossa ressurreição no Ressuscitado, de modo que nós contemplamos conscientemente nossa reunião com ele. "Purifiquemos nossas faculdades e perceberemos o Cristo resplandecente da ofuscante luz da Ressurreição. . ." "Vigiemos até o final do dia; em lugar da mirra, ofereçamos um hino ao Senhor e nós veremos o Cristo, Sol de Justiça, fazer brotar a vida para todos."

Na Ressurreição funda-se a Igreja que comunica aos homens a vida divina, a vida lesma da Trindade, ou seja, a verdade da existência pessoal no amor. A Páscoa nos batiza a Trindade: "Pai todo-poderoso, Verbo e Espírito, natureza única em três pessoas... é em função disso que nós fomos balizados." A partir daí, uma nova forma de amor é possível, um amor de mesmo tempo pessoal e ontológico, graças à nossa "consubstancialidade" ao Ressuscitado. No final das matinas pascais, canta-se: "É a Páscoa! Na alegria, abracemo-nos uns aos outros. Chamemos irmãos mesmo àqueles que nos odeiam. Perdoemos tudo por causa da ressurreição e clamemos: Cristo ressuscitou dos mortos!" e a gente se saúda assim durante todo o tempo pascal. É o beijo da paz, que se trocava na igreja antiga durante cada liturgia eucarística, antes da confissão da Trindade. Hoje apenas o trocam — fora da noite pascal — os membros do clero dizendo: "Cristo está no meio de nós," mas o sentido do rito está ido para sempre por este diálogo entre o celebrante e o povo: "Amemo-nos uns aos outros a fim de que dentro do mesmo espírito confessemos, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Trindade consubstancial e indivisível." Os fiéis se unem no amor para tornarem-se como que o ícone da Trindade.

A noite pascal, pois, conservou gestos litúrgicos bem antigos e também uma grande espontaneidade e participação do povo na ação litúrgica. O canto das matinas pascais, ímpeto como a liturgia eucarística que se seguem são, freqüentemente, entrecortadas por trocas de exclamações entre o celebrante e o povo: "Cristo ressuscitou!" diz o primeiro e os fiéis respondem: "Em verdade, ressuscitou!"

Somente a fé, o despertar do amor podem corresponder à infinita generosidade de Deus. Pois o banquete messiânico ao qual somos convidados é o banquete oferecido ao homem pródigo, é o "banquete da fé": "O festim está pronto; que todos nele participem. O telo cevado está servido, que ninguém parta com fome. Que todos se deliciem no banquete da fé..."

E a fé é a descoberta maravilhada, balbuciante, do perdão que resplandece do mundo: "Que nenhum chore suas faltas, pois o perdão resplandeceu do túmulo." O Cristo os libera da angústia fundamental que nós cambiamos em preocupação, fugas e paixões idólatras. No fundo de nós, nessas trevas onde ele desceu e não cessa de descer, ele transforma a angústia em confiança, a "memória da morte" em memória da ressurreição, "que nenhum tema a morte, pois a morte do Senhor nos libertou" . E é, com acentos paulinos, a lembrança da vitória: "O inferno tomara um corpo, e foi um Deus que ele encontrou. Ele tomara a terra, e encontrou o Céu. Ele tomara o visível e caiu por causa do invisível. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, Inferno, a tua vitória? Cristo ressuscitado e tu foste humilhado.

A liturgia eucarística que se segue é verdadeiramente um banquete escatológico, como se o "Véu" do sacramento, aí nesta noite, se fizesse particularmente translúcido, as portas da iconostase são abertas, a igreja está repleta de flores e de luz e, sem cessar, como vagas de luz, ecoam os tropários de ressurreição. No lugar do Triságion canta-se o versículo pauliniano: "Vós todos os que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo, Aleluia!" lembrete aos neófitos da iniciação que acabam de receber e que lhes permite comungar. Lembrete a todos batizados, que somos nós, da integração deles à morte e à Ressurreição do Senhor. As leituras são, de início, o primeiro capítulo dos Atos, as aparições do Ressuscitado, o mandamento feito à primeira comunidade de esperar em Jerusalém a "promessa do Pai," quer dizer, o Espírito Santo. Aqui, sente-se a unidade da grande Cinqüentena, o grande Pentecostes que une a Páscoa, a Ascensão e Pentecostes: toda a economia do Cristo tem por finalidade que, recebamos o Espírito de Pentecostes. Quanto ao Evangelho, é o prólogo de São João (l:1-17), quer dizer, a confissão solene da divindade daquele que sofreu, da identidade entre a hipóstase do Logos e a do Crucificado. "E é de sua plenitude que todos nós recebemos." Tanto quanto possível, este evangelho é lido em diversas línguas, já um signo pentecostal. E todos comungam.

Todo o período que segue, até Pentecostes, mas sobretudo a própria semana pascal, constitui, na linha do arcaísmo litúrgico que sublinhávamos ainda agora, um tempo que nós poderíamos denominar "Agápico." A regra do jejum está suspensa. No final da liturgia pascal faz-se abençoar para o ágape toda a espécie de alimentos. Os gregos comem em família o cordeiro pascal. Depois, durante toda a semana, a mesa fica permanentemente posta em cada família, a gente se visita um ao outro, se beija "Cristo ressuscitou" compartilha a comida, a vida circula e se multiplica na alegria.

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