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Sobre a Quarta Cruzada
Antes e Depois

Entrevista com Marco Meschini,
autor de um livro histórico sobre o tema

 

istoriadores de todo o mundo se encontraram em agosto em Istambul, lugar da sangrenta batalha da Quarta Cruzada - (1204), para participar do congresso organizado pela Society for the Study of the Cruzades and the Latin East (SSCLE), com o título «Sobre a Quarta Cruzada, antes e depois».

Durante o congresso, os estudiosos elogiaram o livro de Marco Meschini sobre esta cruzada: «1204: A incompleta. A quarta cruzada e as conquistas de Constantinopla» (1204: L'incompiuta. La quarta crociata e le conquiste di Constantinopoli» (http://www.ancoralibri.it Editora Ancora).

Há oitocentos anos, a Quarta Cruzada supôs a conquista de Constantinopla, capital do Império bizantino cristão-ortodoxo. Foi um acontecimento dramático, com freqüência evocado entre as razões que ainda hoje separam católicos e ortodoxos. Mas o que sucedeu exatamente?

Zenit perguntou a Marco Meschini, historiador da Universidade Católica de Milão e autor do livro.

A conquista de Constantinopla estava nos objetivos da cruzada?

— Meschini: Não. A cruzada era uma peregrinação armada com a finalidade de defender a cristandade: reconquistar os Santos Lugares na Terra Santa ou na luta contra os muçulmanos na Espanha. Em 1198 o Papa Inocêncio III queria que uma expedição reconquistasse Jerusalém, caída em 1187. O desvio à Constantinopla foi algo excepcional, que não estava previsto.

Por que ficou «incompleta» a Quarta Cruzada?

— Meschini: Quando o corpo da expedição principal da Cruzada chegou a Veneza no ano 1202, faltavam homens e dinheiro para ir ao Egito e dali para a Terra Santa, como estava programado. Os venezianos propuseram então a conquista de uma cidade cristã, Zara, que havia se rebelado.

Os comandantes cruzados, apesar da oposição de muitos, aceitaram a idéia com o objetivo de cobrir suas dívidas. O Papa depois excomungou os venezianos e uma parte dos cruzados.

Mas por que chegaram até Constantinopla?

— Meschini: Depois da conquista de Zara se apresentou Alexis IV, um jovem pretendente ao trono bizantino, cujo pai havia sido deposto.

Alexis fez uma proposta: se lhe ajudassem a converter-se em imperador, extinguiria as dívidas dos cruzados e ajudaria a reconquistar Jerusalém. Os venezianos e os chefes cruzados aceitaram, deixando para trás os que não podiam se opor.

E o Papa?

— Meschini: Estava contra, pois, segundo ele, a Cruzada não tinha de se intrometer nos turbulentos assuntos bizantinos. Mas foi incapaz de fazer valer sua posição e não foi escutado. Assim, pois, em 1203, os cruzados conquistaram Constantinopla a benefício de Alexis IV.

1203? Então, por que se fala de 1204?

— Meschini: Porque Alexis IV não conseguiu pagar o prometido e os bizantinos o eliminaram, elegeram um novo imperador, Alexis V. Este desafiou venezianos e cruzados, mas perdeu: em 12 de abril de 1204 estes últimos tomaram a capital e fundaram o Império Latino do Oriente.

Diz-se que a conquista acarretou um massacre horrível...

— Meschini: Lamentavelmente houve mortos por ambas partes. Mas o massacre desenfreado do qual tanto se falou não encontra confirmação nas fontes que conhecemos. Sobretudo não se pôde verificar a vontade de provocar vítimas inocentes. De todos modos, a cidade foi saqueada e devastada por um incêndio.

E Jerusalém, caiu no esquecimento?

— Meschini: Alguns cruzados, sobretudo os que se opuseram às conquistas de Zara e Constantinopla, chegaram à Terra Santa.

Mas eram poucos para obter resultados importantes. Contudo, seu comportamento mudava profundamente nosso juízo sobre os acontecimentos: não é verdade que o Ocidente Católico tivesse querido conquistar a capital da Ortodoxia: foi um erro grave por parte de alguns, mas não tinham o título como para representar todo o catolicismo.

E, contudo, parece que os ortodoxos não conseguem perdoar os católicos por aquele desastre.

— Meschini: O problema é duplo. Primeiro, os novos chefes elegeram um imperador e um patriarca latinos sem ter em conta o fato de que já existia um patriarca ortodoxo e, sobretudo, que o chefe da ortodoxia era precisamente o imperador. Com o qual não foram aceitos pelos bizantinos, ainda que se deram tentativas.

E o segundo fator?

— Meschini: O Papa foi envolvido pelos acontecimentos. Inocêncio III não havia querido aquela estranha conclusão da Cruzada, e nem Deus --segundo a mentalidade medieval-- parecia tê-la querido.

Deste modo aceitou o fato acontecido, com a esperança de que a Igreja bizantina se submetesse à romana.

Pois bem, o primado do Papa é precisamente uma das questões mais delicadas entre católicos e ortodoxos, e a Igreja bizantina se opôs. A união não pode ser imposta, deve haver um consenso e deve ser livre.

Há esperança para o futuro?

— Meschini: A completa reconciliação entre catolicismo e ortodoxia é um dos maiores desafios para a Igreja do Terceiro Milênio. Parece-me que o caminho a seguir já está traçado: Paulo VI e o Patriarca ecumênico Athenágoras revogaram em 1965 a famosa excomunhão de 1054 e João Paulo II, em maio de 2001, pediu perdão aos ortodoxos pelos excessos de 1204. Purificar a memória à luz da verdade e, sobretudo, amar o irmão na comunhão que vem de Cristo é o que nos toca hoje em dia.


Fonte:

(ZENIT.org)

 

 
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