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Istambul-2007

O Ecumenismo no pontificado de Bento XVI

Um balanço de Eduardo Borges de Pinho, que destaca a «revalorização do ecumenismo anônimo quotidiano»

 

José Eduardo Borges de Pinho,
professor na UCP

 

Não constituiu surpresa o fato de o Papa Bento XVI ter colocado, logo a partir das suas primeiras intervenções, o ecumenismo, a tarefa da reconstituição da unidade plena e visível entre os cristãos, como uma das prioridades do seu pontificado. A apurada consciência que possui da importância desta tarefa radica, como é sabido, em vários fatores da sua própria história de vida: perito do Concílio, braço direito de João Paulo II nas questões doutrinais, teólogo conhecedor da problemática ecumênica e, não em último lugar, cristão alemão que aprendeu a sentir de perto o problema ecumênico: “Sendo eu mesmo proveniente deste país, conheço bem a situação dolorosa que a ruptura da unidade na profissão da fé causou a tantas pessoas e famílias” (Discurso em Colônia, 19/8/2005). Quase três anos após essa manifestação programática de intenção, é possível apontar alguns aspectos mais salientes nos esforços tendentes à sua concretização.

1. Em primeiro lugar, e como fato mais notável, está o esforço desenvolvido no sentido de aproximar de Roma os cristãos ortodoxos do Oriente (de tradições bizantina, síria e eslava). Partindo do princípio de que já estamos “em comunhão eclesial quase completa” com estas Igrejas (Angelus, 30/6/2007), Bento XVI tem vindo a concretizar, com uma determinação assinalável, pequenos passos e gestos (inúmeros encontros ao longo destes quase três anos!) que possam ir superando paulatinamente as distâncias histórico-culturais e as divergências prático-eclesiais que, apesar de toda a proximidade doutrinal, persistem desde há séculos. O fato de a Comissão Teológica Mista Católico-Ortodoxa ter retomado os seus trabalhos após anos de interrupção e ter aprovado no Outono passado, em Ravena, um documento sobre as “Consequências eclesiológicas e canônicas da natureza sacramental da Igreja” é um acontecimento muito significativo. Sobretudo porque nesse documento, pela primeira vez, os representantes ortodoxos reconheceram um nível universal da Igreja e admitiram que, também a esse nível universal, existe um Primaz, Primaz esse que, à luz da prática em vigor desde a Igreja antiga, só pode ser o Bispo de Roma.

Estamos, sem dúvida, diante de um marco importante no diálogo católico-ortodoxo, ainda que não se deva exagerar o alcance da convergência atingida neste ponto. Na realidade, o mundo ortodoxo nunca teve grandes dificuldades em aceitar um “primado de honra” do Bispo de Roma... As questões mais complexas, essas estão ainda para vir. De qualquer modo, que a Comissão Mista vá reflectir a partir de agora sobre “O papel do Bispo de Roma na comunhão da Igreja no primeiro milênio” é um dado particularmente interessante, que justificadamente pode ser encarado com expectativas animadoras, sobretudo se se tiver presente uma afirmação feita já em 1976 pelo então teólogo Joseph Ratzinger, numa conferência em Graz, na Áustria: “No que respeita à doutrina do papado, Roma não deve exigir do Oriente mais do que foi formulado e vivido no primeiro milênio”.

Ainda no contexto do diálogo católico-ortodoxo, merece também ser assinalado o fato de não só haver alguns indícios de desanuviamento nas relações com o Patriarcado Ortodoxo de Moscovo, como sobretudo a circunstância de Roma ter aparecido nos últimos meses com uma actividade de possível mediação no conflito intra-ortodoxo existente entre os Patriarcados de Moscou e de Constantinopla. De resto, o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, acaba de ser convidado de novo para uma visita a Roma por motivo das celebrações dos 90 anos do Instituto Pontifício Oriental, estando previsto um encontro com o Papa Bento XVI no dia 6 de Março.

2. No que respeita ao diálogo com as Igrejas e Comunidades Eclesiais do Ocidente, observa-se em Bento XVI a preocupação – que vinha já dos seus tempos de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (lembre-se a Instrução Dominus Jesus) - de centrar o debate católico-protestante na questão da natureza da Igreja. Pressente-se aí a vontade de acentuar a exigência de um “ecumenismo da verdade”, que explicite até ao fim o sentido e o valor da visão católica da Igreja e provoque a possibilidade de um reexame da debilidade eclesiológica existente no campo evangélico. Bento XVI conhece as fraquezas do mundo protestante e está convencido de que é pelo confronto claro e inequívoco das concepções eclesiológicas distintas existentes entre a Igreja Católica e as Comunidades Eclesiais provenientes da Reforma que passa um aspecto decisivo, senão mesmo o mais determinante, da atual situação ecumênica neste âmbito de diálogo e seu futuro próximo.

A favor desta visão e desta estratégia emerge o fato de que a formulação dos caminhos ecumênicos a prosseguir no futuro está intimamente relacionada com os modelos de unidade da Igreja que se propõem e se desejam, e estes, por sua vez, estão estreitamente dependentes do modo como se vê a identidade essencial da Igreja no seu mistério e da importância que se atribui aos seus elementos sacramentais-estruturais. Mas, por outro lado, permanece a questão de saber se se estará a avaliar devidamente a realidade eclesial existente fora do espaço visível da Igreja Católica. Como também é legítima a dúvida se não se poderá estar a tratar algo injustamente os cristãos evangélicos e a “irritá-los” desnecessariamente. Na reflexão feita aos Cardeais na véspera do último Consistório, o Cardeal Walter Kasper, Presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, um homem sensível e lúcido nas questões ecumênicas, teve uma observação que merece ser refletida. Admitindo embora que a resposta a “Cinco Perguntas” publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em Julho do ano passado não contém nada de novo, mas apenas reafirma a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto (sobretudo, a interpretação de Lumen Gentium, nº 8), o Cardeal Walter Kasper considerou, no entanto, que “seria desejável rever a forma, a linguagem e a apresentação ao público de declarações semelhantes”. O que – creio eu - deve ser lido não apenas numa linha de questões externas de comunicação, mas como impulso também a uma autocrítica católica nesta matéria.

3. Para além de procurar recentrar o debate ecumênico em questões essenciais – concretamente, na questão do primado (Oriente) e na questão eclesiológica (Ocidente) -, um terceiro aspecto ressalta nas palavras e no tom geral das intervenções de Bento XVI sobre o ecumenismo: a afirmação de um propósito firme de trabalhar a favor da unidade vem acompanhada de um grande realismo, de uma consciência aguda quanto às enormes dificuldade que acompanham esta complexa tarefa (uma tarefa que está para além de vários pontificados e que, provavelmente, exigirá ainda séculos…). Para esse realismo contribui certamente a percepção de que, nos últimos anos, a realidade e o clima ecumênicos mudaram bastante: questões éticas importantes ameaçam criar novas e irremediáveis divisões entre católicos e ortodoxos, por um lado, e protestantes em geral, por outro; o mundo protestante-evangélico tem vindo a mudar significativamente de rosto, com a presença cada vez mais numerosa e interventiva das comunidades de teor carismático e pentecostal (cerca de 400 milhões no mundo) em detrimento do peso das confissões tradicionais (luteranos, reformados, etc.); mesmo nas Igrejas e Comunidades Eclesiais tradicionais (Igreja Católica incluída!) emergem de novo aqui e acolá tendências confessionalísticas e de autodefesa que não deixam espaço para a necessária conversão de mentalidades e de estruturas; enfim, o diálogo teológico não perdeu significado, mas - com o crescendo das dificuldades provenientes dos temas em análise, por falta de ressonâncias nas comunidades cristãs e pela parca recepção a nível das autoridades oficiais – já não tem o protagonismo que teve e corre mesmo o risco de ser menorizado no seu indispensável significado.

Na consciência de tudo isto e neste contexto de uma visão realista tem-se vindo a assistir a uma (justa) revalorização do ecumenismo anônimo quotidiano, na convicção de que o simples fato de se ir caminhando juntos é já “uma forma de unidade” (Discurso em Colônia, 19/8/2005). Sobretudo volta a dar-se maior importância à existência e à ação de pequenos grupos e das várias redes (existentes e possíveis) de convivência e partilha ecumenicas. É nos pequenos gestos, contatos e ações, realizados em todos os lugares e circunstâncias onde cristãos de diferentes confissões vivem e procuram testemunhar o Evangelho, que o ecumenismo é, simultaneamente, posto à prova, cresce em credibilidade e se sedimenta como esperança para o futuro. Uma esperança que radica na certeza de que a unidade é, antes de mais e sempre, um dom de Deus. Uma esperança que, também por isso mesmo, é capaz de aceitar com serenidade que o caminhar ecumênico “é um processo lento, um caminho lento e a subir, como o é qualquer caminho de arrependimento” (Audiência Geral, 24/1/2007).

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