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Catecismo Breve

«Ortopráxis - maneiras de viver a Ortodoxia»

29. A Divina Liturgia

«A Comunhão dos Apóstolos»

A palavra «Liturgia» significa trabalho do povo, ofício popular ou função. A liturgia nos revela a verdadeira relação entre a pessoa e a comunidade, entre o membro e o corpo: «Ama a teu próximo como a ti mesmo». Nos ofícios litúrgicos esta frase se torna relevante e nos ajuda a nos desprender de nós mesmos. Junto ao nosso destino estão os destinos de todos homens. As litanias, como enormes ondas, arrastam o fiel para além de si mesmo; não é só uma oração, é a nossa oração, é o canto da comunidade pela vida e pela salvação do mundo.

A Divina Liturgia, propriamente dita, representa as três passagens da economia da salvação. A primeira parte, a Proskomidia, mostra o laço messiânico entre a Pré-história e a História; a segunda parte, a Liturgia dos Catecúmenos, representa em seu conjunto a obra salvadora de Cristo; a terceira parte, a Liturgia dos Fiéis, representa a Paixão, a Morte, a Ressurreição, a Ascensão, a Parusia e o Reino de Cristo. Assim, como disse Teodoro de Andina, a «Liturgia é o resumo e a recapitulação do mistério da economia da salvação».

A Liturgia é um mistério que celebra tendo como cenário o sagrado templo (a igreja) em conjunto com os fiéis. É um drama dialogado e dirigido pelo sacerdote, assistido pelo diácono e pelo coro dos fiéis.

Neste «serviço público» ou, nesta «causa comum», o povo apresenta sua oferenda a Deus e Deus o abençoa com sua graça e sua presença. As portas do iconostasio são os marcos divisores entre o que é terreno e o que é celeste. Permanecendo entre o santuário e a nave da igreja, o diácono (anjo-mensageiro), anuncia o que acontece no interior do santuário, entoa o diálogo litúrgico, guia as orações da assembléia e orienta as posturas dos fiéis no interior da nave.

A Divina Liturgia é também, e sobre tudo, uma participação, uma comunhão de toda a assembléia que celebra a morte, a sepultura, a ressurreição ao terceiro dia, a Ascensão aos céus, o sentar-se à direita do Pai e a celebração da segunda e gloriosa vinda de Cristo. A divina Liturgia é a celebração da salvação do homens de todos os tempos. Cristo, na Eucaristia se faz presente e se dá a nós em comunhão. É durante a Liturgia que se manifesta o que Cristo fez, faz e o que fará por nós; é o momento em que nos encontramos com o próprio Deus; é na Liturgia que, ao comungarmos, nos encontramos e comungamos a mesma realidade com nossos irmãos; é donde recebemos o Corpo e o Sangue do Cristo ressuscitado.

«Berakoth»

Os israelitas tinham o costume de celebrar o «berakoth» ou as «bênçãos», onde davam graças a Deus pelos dons recebidos. A palavra «eukharistia» significa ação de graças rendidas a Deus pelos dons que Ele nos oferece. É, com efeito, por esta ação de graças «eucaristia» permanente que o homem reconhece a obra do Criador, manifestando seu agradecimento em nome da Criação inteira e re-envia a sua glória - «anapempo» = devolver, voltar a enviar). É por meio da Eucaristia, por esta ação de graças, que o homem, sendo a consciência de toda a Criação, reconhece a ligação que une Criação com o Criador e mantém, por esta celebração de ação de graças, a corrente de amor entre Deus e toda sua Criação e, ao mesmo tempo, mantém a harmonia do Universo.

Na noite de Quinta-feira Santa, nosso Senhor Jesus Cristo celebrou uma «berakoth» ou seja, «Benção», ceando com seus discípulos. Como narra o Evangelista Lucas: - «Quando chegou a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos. E disse: 'Desejei muito comer com vocês esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu lhes digo: nunca mais a comerei até que ela se realize no Reino de Deus'. Então, Jesus tomou o cálice, agradeceu a Deus e disse: 'Tomem isto, e repartam entre vocês; pois eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus'. A seguir, Jesus tomou um pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles, dizendo: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim'. Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vocês'» (Lc 22, 14-20).

Esta passagem faz referência ao ritual judeu de bênção de uma comida, como é descrita no Mishna: «no início da refeição, se benze um cálice de vinho, dizendo: 'Bendito és Senhor Deus nosso, Rei dos séculos, que nos dás o fruto da videira'». É por isso que Jesus tomou primeiro um cálice de vinho, antes da comida e disse: «Tomem e repartam entre vocês, pois lhes digo, que já não bebereis do fruto da videira, antes que chegue o reino de Deus».

No Ritual judeu, depois desta primeira benção, o membro mais jovem da família, ou um servo, traz um bandeja com água para lavar as mãos do chefe da família. Na Última Ceia, quem fez isto foi São João, o mais jovem dos apóstolos; Jesus não quis que lavasse suas mãos, antes, Ele mesmo lavou os pés dos seus discípulos. «Durante a ceia, o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o projeto de trair Jesus. Jesus sabia que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos. Sabia também que tinha saído de junto de Deus e que estava voltando para Deus. Então, se levantou da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e amarrou-a na cintura. Colocou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando com a toalha que tinha na cintura» (Jo 13, 2-5).

Depois, o chefe da família, tomando o pão, o partia dizendo: «Bendito sejas, Senhor Deus nosso, Rei dos séculos, que produzes o pão da terra… Damos graças a nosso Deus que nos alimenta em abundância». Jesus «tomou o pão e, havendo dado graças, o partiu e deu a seus discípulos dizendo: 'isto é o meu corpo que por vós é dado. Fazei isto em minha memória'» (Lc 22,19).

Jesus repetiu o gesto tradicional do chefe da família judia, dando, porém, um sentido completamente novo, identificando o pão com seu próprio Corpo que foi entregue à Cruz pela vida do mundo.

Depois da comida o chefe da família toma novamente o cálice com vinho e o abençoa. Jesus também assim o fez: «Do mesmo modo, depois de ter ceado, tomou o cálice e disse: 'este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que por vós se derrama'» (Lc 22,20).

Assim se explica as duas bênçãos do cálice que só São Lucas conservou em seu Evangelho. Jesus deu um sentido novo, identificando o vinho com seu Sangue que foi derramado no dia seguinte na cruz. Este Sangue foi o selo da Nova Aliança entre Deus e os homens.

São Paulo completa em sua carta: «Portanto, todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11, 26).

A bênção da ceia e a oferenda a Deus do pão e do vinho estavam associados à oferenda do Corpo e Sangue sobre a Cruz que Cristo fizera na manhã seguinte. O sacrifício de Cristo, oferecido ao Pai pelo perdão e remissão dos pecados dos homens de todos os tempos é a perpétua recordação do início da Nova Aliança entre Deus e seu povo: «Fazei isto em minha memória», «até que ‘Eu’ venha» (Lc 22, 19; 1Cor 11, 26)

Quando celebramos, no Memorial Eucarístico, o que o Senhor nos pediu, (anamnesis), saímos do tempo para comungar o «gesto eterno» do Filho de Deus que nos reconduziu ao reino do Pai. É por obra do Espírito Santo que a celebração eucarística, dada em um determinado tempo, se converte em «comunhão e participação» eternas , para toda a assembléia, na Eucaristia instituída pelo Filho de Deus.

A importância da Divina Liturgia está em que:

Nela se manifesta e participamos de tudo o que Cristo fez, faz e fará para a salvação da humanidade;

  • É na Divina Liturgia que realmente nos encontramos com Cristo Salvador face-a-face.
  • A Divina Liturgia é uma antecipação do Banquete do Reino onde Cristo e sua esposa, a Igreja, celebrarão suas bodas.
  • Na Divina Liturgia comungamos o Corpo e Sangue de Cristo junto com nossos irmãos, cumprindo o que o Senhor nos pediu: «Que vos ameis uns aos outros, como vos amei». (Jo 13, 34)
  • Nela, ao receber o Corpo e Sangue de Cristo, contemplamos a sua Ressurreição: «Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Cristo morreu e voltou à vida para ser o Senhor dos mortos e dos vivos». (Rm 14,8-9).
  • Historicamente a Liturgia se dá em torno da Ceia do Senhor.
  • O Apocalipse nos dá a visão do que simultaneamente se passa na terra e no Céu durante a liturgia:

«Depois disso, eu vi uma grande multidão que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam todos de pé diante do trono e diante do Cordeiro. Vestiam vestes brancas e traziam palmas na mão. Em alta voz, a multidão proclamava: 'A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro'. Nessa hora, todos os Anjos que estavam ao redor do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres vivos, ajoelharam-se diante do trono para adorar a Deus. E diziam: 'Amém! O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus, para sempre. Amém!'» (Ap 7, 9-12)

A Visão de São João - «Apocalipse»

Todo o Cosmos, os homens e os Anjos se unem na mesma eucaristia: «O Anjo mostrou para mim um rio de água viva; era brilhante como cristal; o rio saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas dão fruto doze vezes por ano; todo mês elas frutificam; suas folhas servem para curar as nações. Nunca mais haverá maldições. Nela estará sempre o trono de Deus e do Cordeiro, seus servos lhe prestarão culto.Verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite: ninguém mais vai precisar da luz da lâmpada, nem da luz do sol. Porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles, e eles reinarão para sempre. Então o Anjo me disse: 'Estas palavras são fiéis e verdadeiras, pois o Senhor, o Deus que inspira os profetas, enviou o seu Anjo para mostrar aos seus servos o que deve acontecer muito em breve. Eis que eu venho em breve. Feliz aquele que observa as palavras da profecia deste livro'. Eu, João, fui ouvinte e testemunha ocular dessas coisas. Tendo-as visto e ouvido, ajoelhei-me para adorar o Anjo, aquele que me havia mostrado essas coisas. Mas ele não deixou: 'Não! Não faça isso! Eu sou servo como você, como os seus irmãos, os profetas, e como aqueles que observam as palavras deste livro. É a Deus que você deve adorar'. O Anjo falou ainda: 'Não guarde em segredo as palavras da profecia deste livro, pois o tempo está próximo. O injusto, que continue com sua injustiça; o sujo, que continue com suas sujeiras; o justo, pratique ainda a justiça; o santo, continue a se santificar! Eis que venho em breve, e comigo trago o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho'». (Ap 22, 1-12)

Nesta visão do mundo futuro, os Padres distinguem a imagem da Eucaristia, porém já aqui na terra «quem come minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna». (Jo 6, 54)

A Eucaristia no mundo é já algo diferente do mundo: «Que chegue a graça e que passe o mundo», exclama a Oração Eucarística da Doutrina dos doze apóstolos. Ante o anúncio escatológico, o mundo se eleva: a Encarnação, a Expiação, a Ressurreição e a Parusia se anunciam do fundo do Cálice. É a essência do Cristianismo: o mistério da Vida Divina se constitui em mistério da vida humana, «para que todos sejam um, como Tu Pai, estás em mim e eu estou em ti» (Jo 17, 21)

Por ter sido a Igreja instituída no dia de Pentecostes, já se revela a essência de sua natureza: «perseveravam na comunhão fraterna, partiam o pão e oravam juntos» (At 2, 46); «Todos os que acreditavam viviam unidos, tendo tudo em comum (At 2, 44) Por meio do Pão (Corpo de Cristo), os fiéis se convertem no mesmo pão, no mesmo amor uno e trino.

Cada vez que um fiel ortodoxo se aproxima da Santa Ceia, pede: «Faze-me partícipe da tua Mística Ceia, ó Filho de Deus» O memorial litúrgico convida os fiéis à participarem do Único que permanece, como diz São João Crisóstomo: «Toda Eucaristia foi oferecida uma só vez». E o «Cordeiro de Deus é partido, mas nunca consumido ... »

 

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